“Temos de puxar o travão de emergência. JÁ!”

Vreni Häussermann tem a sorte de trabalhar num dos últimos lugares selvagens do mundo, rodeada por montanhas cobertas de neve e pelas águas frias do Pacífico. O clima agreste e a localização remota sempre preservaram a Patagónia, mas já nem este paraíso escapa à cobiça humana. “Nos últimos 15 anos, tudo mudou, sobretudo com a criação de salmão junto à costa”, explica a bióloga marinha, que há mais de duas décadas estuda a região.

O aumento exponencial do tráfego marítimo, da pesca e da poluição é um grande problema, mas a proliferação de quintas de salmão tem consequências gravíssimas, com o depósito de nutrientes, químicos e antibióticos no meio ambiente e, com eles, a eutrofização, o boom de algas, a diminuição de oxigénio e, é claro, o declínio das populações.

Vreni a mergulhar entre anémonas do mar na Patagónia (

“Estamos a atravessar a maior crise de biodiversidade de sempre, e temos de puxar o travão de emergência. JÁ!”, diz, exaltada. “Os sacrifícios que tivermos de fazer agora são uma pequena fração do que as gerações futuras vão sofrer devido à nossa ignorância.”

Entre os muitos problemas que Vreni enfrenta está a dimensão da Patagónia chilena. É a maior região de fiordes do mundo, com cerca de 100 mil quilómetros de costa, o equivalente a dar a volta ao mundo duas vezes – e ainda sobravam uns milhares de quilómetros… “É extraordinariamente difícil, tendo em conta que somos os únicos cientistas a estudar a comunidade de invertebrados marinhos.” Esta é, aliás, a sua especialidade. Uma classificação que engloba estrelas do mar, corais e anémonas, mas também crustáceos e moluscos, seres muitas vezes esquecidos.

“Os sacrifícios que tivermos de fazer agora são uma pequena fração do que as gerações futuras vão sofrer devido à nossa ignorância”

“A biodiversidade”, explica, “não é apoiada como devia. A maioria dos fundos vai para os mamíferos e para as aves, deixando de fora 95% das espécies”. É o que acontece com os invertebrados, especialmente as anémonas, a sua grande paixão, ao ponto de ter dado o nome dos filhos a duas novas espécies: “Isoparactis fionae” e “Isoparactis fabiani”, em honra de Fiona e Fabian. “Eram especialmente bonitas e, por coincidência, espécies irmãs, o que tornou a escolha ainda mais óbvia”, responde, com um sorriso.

Häussermann até se apaixonou pelo oceano nos antípodas dos fiordes chilenos, nas águas quentes do Mediterrâneo, para onde viajava com a família. Estes surgiram no final dos anos 90, quando visitou a região com o colega Günter Försterra, ambos com uma bolsa da Universidade de Munique, onde concluíam o curso de Biologia Marinha. Foi amor à primeira vista. Pelos fiordes e um pelo outro: desde então, trabalham juntos, casaram-se, tiveram dois filhos e nunca mais abandonaram a região.

A explorar a diversidade da vida marinha nos fiordes da Patagónia

Em 2003, Vreni assumiu a liderança do Centro Científico Huinay, o único centro de investigação da região. Ao todo, já classificaram cerca de 100 novas espécies e têm perto do dobro em laboratório, por catalogar, mas, “infelizmente, os taxonomistas extinguem-se ao mesmo ritmo das espécies”. “Ninguém quer apoiar este tipo de trabalho, que é a base de todas as outras pesquisas. O meu caso é sintomático. Nem o reconhecimento internacional como cientista me garante os meios para desenvolver o trabalho. Estamos em plena crise de biodiversidade e não temos os fundos necessários para estudar… a biodiversidade! O problema não é suficientemente reconhecido.”

A regressar de um mergulho, no laboratório da estação científica de Huinay (Ambroise Tézanas/Rolex)

Isto apesar de já ter publicado mais de uma centena de trabalhos científicos e recebido distinções como o Pew Charitable Trusts Award, o Friedrich-Wilhelm Bessel Award e os Rolex Awards for Enterprise. Estes prémios são um dos seus maiores orgulhos profissionais, especialmente o último, que, “pelo seu prestígio, permitiu dar a conhecer o trabalho desenvolvido na Patagónia chilena em todo o mundo e explicar o que precisamos de proteger para as gerações futuras”. Este é o trabalho da sua vida. Por isso, “não vai desistir até que as pessoas aprendam a dar valor à vida marinha e se lembrem dos negligenciados invertebrados da Patagónia”.

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

Tempos difíceis exigem a melhor informação. A Trust in News decidiu agilizar os seus planos de assinaturas e oferecer um pack mensal de revistas digitais a um preço simbólico: €9,90 mês por 9 revistas. Está garantida a melhor leitura para todos os gostos.

ASSINE JÁ

ASSINE JÁ!

Relacionados

Oceano de Esperança

“É quase tão difícil ir à Lua como ao fundo dos oceanos”

Tiago Rebelo lidera, no CEiiA, um projeto de robôs submarinos que vão estudar o mar português, produzir conhecimento científico até agora impossível de alcançar e ajudar a confirmar Portugal como um país do tamanho da União Europeia – com 97% de mar

Oceano de Esperança

Menos de 10% dos milhões de toneladas de plásticos produzidos todos os anos são reciclados. Mas Miranda quer mudar isso

Miranda Wang é uma jovem cientista canadiana que descobriu uma solução para minorar o problema do plástico no mundo. Como? Conseguindo reciclar o que até agora ainda era desperdiçado

Oceano de Esperança

“É uma atrocidade contra o planeta e contra a espécie humana”

Descobriu uma nova espécie invasora nos mares à qual deu um nome científico inspirado: Plasticus Maritimus. Desde então que a bióloga Ana Pêgo se dedica a combater este flagelo

Oceano de Esperança

“Numa semana, corais saudáveis, vibrantes e cheios de cor ficaram completamente brancos”

A jovem bióloga inglesa Emma Camp está numa corrida para salvar a Grande Barreira de Coral na Austrália. Será que vai a tempo?

Oceano de Esperança

“Os tubarões azuis nos Açores tinham todos marcas de ‘encontros’ com os humanos”

Nuno Sá é o nosso mais prestigiado cameramen subaquático e já viu de tudo: paisagens virgens, profundezas misteriosas, espécies fascinantes, mas também animais feridos por humanos e rios de lixo

Mais na Visão

Sociedade

Uma manhã no bairro onde quase só não se pode cortar o cabelo

Alvalade. Confinamento take II. Manhã do dia 1. A vida corre com aparente normalidade, se não nos importarmos com o comprimento do cabelo nem com a renovação do guarda-roupa

Cultura

Eunice Muñoz, 80 anos de carreira com peça nova no horizonte

A grande Eunice Muñoz celebra oito décadas nos palcos, um caso raro de longevidade. E as comemorações incluem o seu regresso ao teatro, ao lado da neta, a também atriz Lídia Muñoz

Presidenciais 2021

Mayan: Holanda deu sinal de que ser liberal é assumir responsabilidades

O candidato presidencial Tiago Mayan Gonçalves reagiu hoje à demissão do Governo holandês referindo que "é mais um sinal de que ser liberal é assumir responsabilidades" e afirmou que em Portugal "não há estes exemplos"

Presidenciais 2021

Marcelo: É importante que PGR e parlamento queiram apurar vigilância a jornalistas

O Presidente da República e recandidato ao cargo, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou hoje importante que a Procuradoria-Geral da República e o parlamento queiram apurar a vigilância policial a dois jornalistas que investigavam o caso e-toupeira

Presidenciais 2021

#vermelhoemBelem: Onda de apoio a Marisa contra comentários de Ventura invade as redes de batons vermelhos

Marisa Matias assumiu estar "feliz" com a #vermelhoemBelem, a ação que está a viralizar há 24 horas nas redes sociais de apoio à candidata, que foi alvo de chacota do líder do Chega. Menos diplomático esteve um cidadão cigano que, esta manhã, enquanto a bloquista reagia, não esteve para meias palavras: "O Ventura é um racistaaaaa"

Política

Covid-19: Marcelo espera que confinamento não ultrapasse um mês

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou hoje esperar que o atual confinamento, com dever geral de recolhimento e encerramento de um conjunto de atividades, não ultrapasse um mês

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Portugal com mais 159 mortes em 24 horas, novo máximo. Veja como estão os gráficos da pandemia no País

Portugal contabilizou hoje 159 mortes, um novo máximo de óbitos relacionados com a covid-19 em 24 horas, e 10.663 novos casos de infeção com o novo coronavírus, segundo a DGS

Mundo

Primeiro-ministro holandês Mark Rutte confirma demissão

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, confirmou hoje a sua demissão e a de todos os ministros do executivo, na sequência de um escândalo relacionado com abonos de família e a acusação indevida de milhares de pessoas de fraude

Mundo

Covid-19: Farmacêutica Sanofi estuda possibilidade de fabricar vacinas de concorrentes

A farmacêutica Sanofi e o governo francês estão a estudar a possibilidade de o grupo francês usar as suas cadeias de produção para fabricar vacinas contra a covid-19 dos laboratórios Pfizer-BioNTech e Janssen, disse hoje a ministra da Economia

Visão Saúde
VISÃO Saúde

“Não se pode cair no absurdo de ser preciso inscrever num lar uma pessoa de 85 ou 90 anos para poder ser vacinada neste inverno!”

“Não sei como um poder político pode assumir a responsabilidade de vacinar os mais vulneráveis no fim da primavera, enquanto os outros países os vacinam no inverno”, diz, em entrevista à VISÃO, o ex-diretor-geral da Saúde, referindo-se à colocação das pessoas idosas que não estão em lares no segundo (e último) grupo de inoculação

Bolsa de Especialistas

Procura-se parceiro: Solteiros com a vida amorosa em atraso

A sensação de perda de tempo e de oportunidade, bem como a perceção de ter a vida parada, mostra como o amor e o bem-estar relacional são essenciais na nossa vida. Estes tempos de privação do abraço e da interação física, da paixão e do sexo, vêm confirmar inequivocamente o que sempre soubemos: que o amor e a sexualidade são bens de primeira necessidade. Somos seres feitos para o contacto físico e amoroso com outros seres humanos e a privação disto traz sofrimento

Sociedade

Está em isolamento? Alimentos a ter em casa para a quarentena

A nutricionista Ana Rita Lopes, coordenadora da unidade de nutrição clínica do Hospital Lusíadas Lisboa, explica a estratégia a montar para o caso de se ficar isolado