“É quase tão difícil ir à Lua como ao fundo dos oceanos”

Retrato para Oceano de Esperança – Tiago Rebelo

Um Lander para ser colocado no fundo do mar profundo e aí permanecer durante largos períodos de tempo. Um AUV, ou veículo autónomo subaquático, com capacidade para explorar grandes extensões, e um ROV híbrido, oferecendo a precisão de um Veículo Remotamente Operado, mas também a possibilidade de funcionar autonomamente. São estes os robôs, a par de uma infraestrutura de suporte, sistemas de comunicação e tratamento de dados, que vão permitir a Portugal explorar e monitorizar o mar sem depender da tecnologia de terceiros. Fator importante quando o nosso país pretende estender o limite da sua plataforma continental para além das 200 milhas marítimas.

A candidatura tem como objetivo alargar essa área para os quatro milhões de quilómetros quadrados, o que daria a Portugal uma dimensão semelhante à da União Europeia. A candidatura ainda aguarda avaliação, mas ao abrigo da Convenção das Nações Unidas que regula o pedido, o Estado deve obrigatoriamente produzir conhecimento sobre esse território.

Estes veículos – e os respetivos sistemas – estão a ser desenvolvidos pela Oceantech, uma plataforma que junta universidades públicas e empresas privadas sob a liderança da Abyssal, uma empresa de engenharia de software com sede em Matosinhos. O projeto foi montado em 2017 pelo CEiiA, Centro de Engenharia e Desenvolvimento, o mesmo que desenvolveu uma das primeiras redes europeias de mobilidade sustentável, que se tornou num parceiro preferencial da Embraer e que assinou um acordo com a Agência Europeia de Segurança Marítima para o desenvolvimento de drones de vigilância.

Mas esta será, provavelmente, “a primeira vez que se junta um consórcio deste género para criar este tipo de produtos”, refere Tiago Rebelo, coordenador do projeto. “Não será uma surpresa se disser que, comparativamente a países como os EUA ou a Noruega, levamos 20 ou 30 anos de atraso. Mas temos grupos universitários, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e no Instituto Superior Técnico, que estão ao nível do melhor que se faz em investigação nesta área. Só nunca conseguimos – e é por isso que este projeto aparece – fazer a ligação entre ciência e mundo real. Traduzir essa investigação em valor económico, criar produtos que possam chegar ao mercado.”

“Os desafios são enormes”, explica Tiago, que entrou para o CEiiA há sete anos, depois de ter sido o primeiro português a participar num programa espacial da Erasmus Mundus e que hoje, com 30 anos, lidera toda a área de desenvolvimento de produto e serviços. “Temos perto de 50 engenheiros a trabalhar no projeto”, com um total de cerca de 140 pessoas envolvidas, no conjunto das instituições.

“Tecnicamente, é quase tão difícil ir à Lua como ao fundo dos oceanos. Conseguimos até criar representações em 3D perfeitas da superfície lunar e de Marte, mas continuamos a não ser capazes de fazer o mesmo com os nossos fundos marinhos.”

Após três anos de desenvolvimento, os robôs entraram agora na fase final de desenho e início da produção do protótipo. Seguir-se-ão testes, primeiro em águas pouco profundas e, mais perto do verão, já em mar aberto, com a ajuda dos navios do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Temos um oceano de oportunidades pela frente, mas um oceano de desafios também

Tiago Rebelo

“Numa primeira fase, faz sentido colocar estes veículos ao serviço da ciência, da monitorização e do ambiente, mas depois é natural que as empresas do consórcio tenham as suas ambições comerciais. O potencial exportador deste tipo de tecnologia é enorme, mesmo sendo um produto de nicho.”

Antes disso, ainda, é necessário gerar informação para se conseguir perceber que áreas devem ser protegidas e onde será possível gerar valor económico sustentável. “Não podemos definir a totalidade do espaço marítimo como área protegida, mas há que proteger algumas áreas. É isso que os outros países estão a fazer. Foi o que a Noruega fez nos fiordes, por exemplo, e para isso qualquer um destes veículos pode dar um grande contributo. Temos um oceano de oportunidades pela frente, mas um oceano de desafios também.”

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e a organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba mais sobre esta missão comum.

Este verão assine a VISÃO, EXAME, EXAME INFORMÁTICA, entre outras publicações do grupo Trust in News, por 1 ano e receba 6 meses de leitura grátis. Conheça todas as opções, incluindo as versões digitais

Leia 6 meses grátis

Assinar

Mais na Visão

Mundo

Emissora sul-coreana pede desculpa por ter passado imagens "inapropriadas" na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos 2020

Pizza para a representar a Itália, salmão para a Noruega e Chernobyl para a Ucrânia. O desfile de abertura dos Jogos Olímpicos em Tóquio foi marcado por um escândalo nas redes sociais em torno de algumas imagens e legendas inapropriadas relativas a vários países participantes, divulgadas pela Munhwa Broadcasting Corporation (Seul)

Tóquio 2020

Tóquio2020: O dia em que um barco dos media provocou uma falsa partida no triatlo masculino

Um barco dos jornalistas bloqueou metade dos concorrentes no início da prova final de triatlo masculino dos Jogos Olímpicos 2020, em Tóquio (Japão), realizada ontem, provocando uma falsa partida

Estádio da Luz Exame
Exame

Benfica encaixa (à justa) 35 milhões de euros em obrigações. Procura ressentiu-se com crise na Luz

Houve 1887 investidores a comprar obrigações da Benfica SAD e a procura ficou apenas 179 mil euros acima da oferta, bem abaixo do que era habitual nestas operações

Cultura

Qual a relação da música com sexo, drogas e álcool? Cinco conclusões de uma investigação feita no Reino Unido

Desde “Mary Jane” (1978) de Rick James a “Birthday Sex” (2009) de Jeremih, o sexo, as drogas e o álcool são transversais na história da música. Um estudo realizado por uma clínica de reabilitação no Reino Unido traz uma nova visão sobre a presença destes temas na indústria musical

Bolsa de Especialistas

Garantias de defesa dos arguidos

Não podemos esquecer que apenas se faz justiça quando existindo o cometimento de um crime é apurado o responsável pelo mesmo e este é efetivamente julgado e condenado. Tal não significa o reconhecimento de um poder autoritário ao julgador ou um atropelo às garantias de defesa do arguido

Diário de uma Avó e de um Neto

Fascículos da minha vida

A escritora Alice Vieira escreve, com Nelson Mateus, um diário sobre as suas recordações e sobre as memórias entre as diferentes gerações. O Diário de uma Avó e de um Neto, um projeto do site Retratos Contados

Visão Saúde
VISÃO Saúde

A inversão de marcha da matriz de risco num gráfico esclarecedor dos últimos 30 dias

Segunda-feira é dia de atualização dos dados do Rt e da incidência de novos casos por 100 mil habitantes a 14 dias – indicadores que compõem a matriz de risco de acompanhamento da pandemia

Igualmente desiguais

"Nha sunhu": ou o sonho feito pó

É um filme sobre um jovem que vem para Portugal trazendo na bagagem o sonho de se tornar uma estrela de futebol. Joga a pré-época e depois… bem, depois fica ao abandono, tendo que sobreviver trabalhando numa fábrica até conseguir de novo ser aceite num pequeno clube

Visão Saúde
VISÃO Saúde

"Para haver um alcoolismo é preciso que o álcool se transforme no interesse dominante da pessoa"

O especialista em dependências Domingos Neto explica quais os efeitos do consumo excessivo de álcool, os sinais de alerta para a existência de uma dependência e as estratégias de combate ao problema

LUGAR AOS NOVOS

Teclado para quem o trabalha

Esta tendência sindical, de resto bem portuguesa, de aversão à mudança laboral e de receio de perda de força (a que resta) nos meios tradicionais é um dos maiores paradoxos de quem procura representar os trabalhadores: o seu imobilismo, resultante da tentativa desesperada de conservar um modelo que outrora vingou, quando os meios de produção e a estrutura económica eram outros, tem nos próprios trabalhadores as maiores vítimas. Francisco Camacho, da Juventude Popular, na rubrica Lugar aos Novos

Tóquio 2020

Tóquio2020: Hidilyn Diaz dá primeira medalha de ouro de sempre às Filipinas

A filipina Hidilyn Diaz deu hoje a primeira medalha de ouro de sempre ao seu país em Jogos Olímpicos, ao conquistar a categoria de -55 kg de halterofilismo em Tóquio2020

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Novo aumento de internados em Portugal, mais 1.610 infeções e nove mortes

Portugal registou, nas últimas 24 horas, um novo aumento no número de pessoas internadas com covid-19, 1.610 novas infeções e nove mortes, segundo dados da Direção-Geral da Saúde