“Numa semana, corais saudáveis, vibrantes e cheios de cor ficaram completamente brancos”

Em 2016, Emma Camp aterrava pela primeira vez em Sydney. Na bagagem levava um doutoramento em Biologia Marinha, uma bolsa de investigação atribuída pelo governo australiano e um plano para salvar os corais. Ainda não tinha completado 30 anos, mas “para uma bióloga de corais, não havia melhor sítio no mundo para trabalhar”, diz-nos agora, aos 32, a partir do seu laboratório na University of Technology Sydney.

Infelizmente, mal tinha chegado à Austrália quando começou “a grande descoloração”, um fenómeno provocado por um aumento na temperatura das águas do mar que afetou praticamente todas as colónias de corais do mundo. O evento repetiu-se no ano seguinte e, para se perceber a dimensão dos danos, apenas 10% a 40% dos recifes sobreviveram intactos. Da segunda vez, Camp assistiu, impotente, a um cenário devastador: “No espaço de uma semana, corais saudáveis, vibrantes e cheios de cor ficaram completamente brancos.” Já tinham sucedido eventos semelhantes, mas nunca com esta magnitude. A Grande Barreira de Coral da Austrália (GBC) perdeu um terço da sua superfície, um terço de uma área equivalente à Itália.

Muita gente pensa erradamente que os corais são plantas, quando, na verdade são animais, embora compostos também por microalgas que vivem na pele

“Muita gente pensa erradamente que os corais são plantas, quando, na verdade são animais, embora compostos também por microalgas que vivem na pele. As microalgas são responsáveis por fornecer a maioria dos nutrientes, através da fotossíntese, mas os corais também se alimentam de outras algas e de pequenos peixes”, explica. Por isso, quando os vossos filhos perguntarem qual é o maior animal da terra não lhes respondam que é a baleia-azul ou o elefante, mas a Grande Barreira de Coral. É, de facto, o maior organismo vivo, composto por dois mil e muitos recifes individuais.

Mas a GBC, tal como todos os outros corais do mundo, está perigosamente ameaçada pelas alterações climáticas. Águas mais quentes, com menos oxigénio, e mais ácidas provocam stresse aos corais que expulsam as algas coloridas do seu organismo, perdendo a cor. Como as algas são a principal fonte de energia, o coral morre em poucos dias.

Uma catástrofe de consequências inimagináveis para o planeta, e, no entanto, os cientistas sabem que as ocorrências de descoloração vão repetir-se, porventura “com maior frequência e intensidade”. Uma parte importante da comunidade científica acredita mesmo que, em 2030, todos os corais possam já ter morrido.

Mas Emma Camp quer ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Ainda durante o doutoramento, descobriu que junto dos mangais, em locais como a Nova Caledónia, existem colónias que sobrevivem e prosperam em ambientes muito mais hostis. “Porque não olhar para a natureza e tentar perceber como esses corais se adaptaram e a que custo?”, pensou. Na expectativa de descobrir como funciona essa resiliência transplantaram corais destes mangais para a Grande Barreira, e vice-versa e estão a analisar como as espécies evoluem nos novos ambientes: “A ideia é, obviamente, identificar as melhores para poder replantar os recifes caso seja necessário.”

O seu trabalho tem sido reconhecido pela comunidade científica, como aconteceu recentemente ao ser eleita Associate Laureus, nos Rolex Awards for Enterprise. A iniciativa decorreu em Washington DC, em paralelo com o festival Explorers, da National Geographic. Antes, já tinha sido eleita Jovem Líder para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, discursando perante uma plateia de líderes mundiais: “Nem toda a gente consegue perceber a importância de perder um ecossistema como um recife, e estes prémios fornecem uma plataforma para o comunicar, não só aos líderes, mas ao mundo.”

Porque ainda hoje Emma Camp se lembra bem do dia em que meteu a cabeça dentro de água e viu, pela primeira vez, “aquela cidade subaquática, cheia de cor e vida”. Sendo inglesa, “não tinha grande contacto com recifes de coral, mas tive a sorte de a minha família ter ido passar umas férias às Caraíbas quando tinha 6 anos”. Privilégio que ela se esforça por passar às próximas gerações.

Oceano de Esperança é um projeto da VISÃO em parceria com a Rolex, no âmbito da sua iniciativa Perpetual Planet, para dar voz a pessoas e organizações extraordinárias que trabalham para construir um planeta e um futuro mais sustentáveis. Saiba aqui mais sobre esta missão comum.

Relacionados

Oceano de Esperança

“Os tubarões azuis nos Açores tinham todos marcas de ‘encontros’ com os humanos”

Nuno Sá é o nosso mais prestigiado cameramen subaquático e já viu de tudo: paisagens virgens, profundezas misteriosas, espécies fascinantes, mas também animais feridos por humanos e rios de lixo

Oceano de Esperança

Ric O'Barry, uma vida dedicada a resgatar golfinhos em cativeiro

A vida de Richard O'Barry mudou para sempre quando viu um golfinho a suicidar-se num tanque. Fundou o Dolphin Project e passou de treinador em aquários a ativista pelos direitos dos animais

Oceano de Esperança

“O planeta não pode esperar mais”

A Natureza responde até certo ponto – há danos irreparáveis. E por isso é tão importante preservar o que resta, explica o administrador da Fundação Oceano Azul, Emanuel Gonçalves. Este é o primeiro artigo de um projeto em parceria com a Rolex sobre pessoas e organizações excepcionais que trabalham para construir um planeta mais sustentável

Oceano de Esperança

Menos de 12% dos oceanos estão intactos

Os números e os factos que mais preocupam Emanuel Gonçalves, um dos maiores especialistas mundiais nos oceanos

Mais na Visão

Ambiente

Estudo confirma ligação entre incêndios e ondas de calor

Em Portugal, 97% dos grandes incêndios estiveram ativos durante uma onda de calor, mostra estudo da Universidade de Trás os Montes, apresentado durante o Encontro Nacional sobre Investigação em Alterações Climáticas

Opinião

Eutanásia: somos todos utilitaristas?

Compelir todos os cidadãos a viver e a morrer segundo os ditames da ética inspirada em S. Tomás de Aquilo não é algo que, numa sociedade livre, se afigure tolerável. Dada esta perceção, hoje felizmente generalizada, resta aos que mais se opõem à eutanásia alegar que a sua legalização teria consequências sociais muito más

Bolsa de Especialistas

O estado da Educação

O professor tornou-se o saco de boxe de uma sociedade adormecida, um mero instrumento de trabalho, um funcionário da administração pública como qualquer outro que se limita a continuar a fazer a máquina funcionar. A análise da professora Carmo Machado

Desporto

Há 15 anos, Zoro saiu do relvado por causa de insultos racistas - mas pouco mudou no futebol desde então

Tal como Marega, vários jogadores têm sentido em campo o ódio gritado das bancadas. Recordamos 7 casos paradigmáticos

Exame
Exame

Uma questão de ADN

A ourivesaria Arneiro celebra 50 anos e, nas mãos da terceira geração, já fatura quase um milhão de euros

Mundo

Diretor de campanha de Trump partilha foto de multidão impressionante à chegada do Air Force One... mas com Bush a bordo

A foto já tinha mais de 23 mil gostos no Twitter quando Brad Parscale a apagou, depois de alguns utilizadores alertarem que a imagem era de 2004

Opinião

O direito à eutanásia

Dia 20 votarei a favor da alteração legal sobre a morte assistida, porque a vida e a morte, o sofrimento e o desespero, são circunstâncias que a cada pessoa dizem respeito

Sociedade

Coronavírus: centenas de rolos de papel higiénico roubados em Hong Kong

A quantidade roubada foi avaliada em apenas 120 dólares

Imobiliário

Oferta de habitação nova: Portugal é o pior da Europa

Entre 19 países da Europa, Portugal é aquele com a oferta mais baixa de habitação nova - menos de duas casas por cada mil habitantes

Os cinco livros que Bill Gates gostou mesmo de ler em 2017 Exame Informática
Ciência

Bill Gates acredita que IA e terapia genética podem salvar vidas

O criador do Windows e filantropo defende que a tecnologia pode e vai ser usada para salvar vidas, curar doenças e perceber melhor a nossa biologia

Exame Informática
Insólitos

Tribunal ordena a Google que identifique comentador anónimo que publicou crítica negativa

Um dentista da Austrália viu uma crítica negativa ao seu serviço ser publicada anonimamente online e exige saber a identidade do utilizador. Um tribunal deu-lhe razão e obriga a Google a fornecer dados que permitam identificar quem escreveu o comentário

Exame Informática
Repórter EI

Conheça a pulseira inteligente Braille 112 desenvolvida em Portugal

A Braille 112 lança alertas e localiza o utilizador, tendo sido criada em Portugal para ajudar quem tem dificuldades de comunicação em qualquer situação de emergência. Há três botões de alerta para chamar a polícia, ambulâncias ou bombeiros e o sistema assenta numa plataforma na Internet. O dispositivo está pronto para entrar no mercado, embrora faltem apoios e financiamento. O próximo passo é a criação de uma versão mais estilizada e mais pequena