“Os tubarões azuis nos Açores tinham todos marcas de ‘encontros’ com os humanos”

O mundo não precisava definitivamente de mais um advogado. Já um cameraman subaquático, capaz de nos mostrar as maravilhas das profundezas e todas as formas como estamos a destruí-las, pode fazer a diferença. Foi por isso uma boa decisão quando, há coisa de 20 anos, e com um curso de Direito na mão e um de mergulho na outra, Nuno Sá optou pelo segundo. Agora, defende uma causa muito mais importante.

Foi o que fez durante as filmagens nos Açores para a série da BBC Blue Planet II – vencedora de um BAFTA (os Oscars da Academia Britânica de Cinema) –, como conta à VISÃO: “Encontrámos um rio de lixo. Era uma coisa enorme, que seguimos ao longo de horas, e descobrimos peixes, tartarugas, tubarões… todos a viverem ali. Não sabíamos da sua existência, e não estava no plano de filmagens, mas acabou por se tornar uma das histórias da série que causaram mais impacto.”

Nuno Sá é hoje, aos 42 anos, um dos nossos mergulhadores mais respeitados, trabalhando regularmente para os canais National Geographic e Discovery. Mais recentemente, realizou para a RTP, com o apoio da Fundação Oceano Azul e do Oceanário de Lisboa, o extraordinário documentário Mar, a Última Fronteira, “para mostrar aos portugueses, e ao mundo, como o nosso mar tem uma vida marinha comparável aos melhores sítios do planeta.”

Assim passou um ano e meio, a percorrer o País de lés a lés, continente, ilhas e debaixo de água, fazendo “uma centena de mergulhos” para captar imagens inéditas. Desceu às profundezas – ele que nunca tinha passado dos 60 metros, desta vez chegou aos 1 000, “num lugar incrível ao largo da ilha do Faial chamado Banco Condor”. Para o conseguir, teve de apanhar “boleia” no Lula 1000, um dos 12 submarinos no mundo capazes de realizar mergulhos desta grandeza, e que pertence a uma fundação privada, a Rebikoff-Niggeler, sediada na Horta, precisamente para realizar expedições científicas.

Mergulhou no banco de Gorringe, “a maior montanha submersa da Europa”, a sensivelmente 200 quilómetros da costa Vicentina. É aqui que as placas continentais europeia e africana se juntam, e onde terá ocorrido o epicentro do terramoto de 1755. Os seus picos mais altos chegam a elevar-se a 5 000 metros de altitude, ficando apenas a 30 da superfície. Nuno ficou impressionado com a riqueza que encontrou: “Magnífica, porque é uma zona inexplorada, ainda prístina, e parece-se com o que seria o fundo do mar antes da pesca industrial, repleto de floresta submersa. É um pouco deprimente voltar e pensar em tudo o que estragámos…”

Um fotógrafo normal tira a foto de uma borboleta em cima de uma flor. Um fotógrafo conservacionista faz a mesma imagem, mas a ver-se o bulldozer por trás

Foi um dos motivos que o levaram a produzir esta série – que ainda pode ser vista na RTP Play. “97% do território nacional é mar, mas quando vou às escolas ou dou palestras sobre o tema, as pessoas só me perguntam se já fui atacado por tubarões ou se não tenho medo, quando é precisamente o contrário: o mar é maravilhoso, e as pessoas sabem mais sobre a Lua…” Quanto a ter medo de tubarões, revela: “É o peixe que mais gosto de filmar: temos de interpretar os seus movimentos, sentir se estão à vontade ou sob tensão, é um desafio incrível!”

Como nem tudo são algas no mar português – leiam rosas, se preferirem –, Nuno Sá gostaria agora de produzir dois ou três filmes para mostrar os vários problemas que enfrentamos. “Esta série serviu para dar a conhecer a vida, a beleza, do nosso mar. Isso está feito.” E cita uma espécie de mantra da Liga de Fotógrafos Conservacionistas (da qual faz parte): “Um fotógrafo normal tira a foto de uma borboleta em cima de uma flor. Um fotógrafo conservacionista faz a mesma imagem, mas a ver-se o bulldozer por trás.”

Nuno Sá fez essa “foto” durante as filmagens: “Estivemos a gravar com tubarões azuis nos Açores e todos eles tinham marcas de ‘encontros’ com os humanos. Alguns tinham mesmo a cara rasgada de uma ponta à outra, dos anzóis. Estas filmagens não entraram na série – porque filmámos os mesmos tubarões em Sesimbra e achámos mais interessante mostrar como existem tantos ao largo de Lisboa –, mas foi um dos momentos que mais me marcaram. Era importante mostrar isso às pessoas.”

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