Ric O’Barry, uma vida dedicada a resgatar golfinhos em cativeiro

Ric O’Barry, uma vida dedicada a resgatar golfinhos em cativeiro

Quando tentámos falar pela primeira vez com Richard O’Barry, ele encontrava-se algures na Indonésia, montando a operação de resgate de Rocky e Rambo, dois golfinhos presos em cativeiro ilegal no Hotel Melka. O tempo era crucial, pois pouco antes um terceiro golfinho, Gombloh, morreu “sem nunca ter tido hipótese de experimentar a liberdade”, contou-nos mais tarde. Ric (todos o tratam pelo diminutivo) não ia deixar que os outros sofressem o mesmo destino.

A história deste ativista dos direitos dos animais começou há meio século, tinha então 30 anos. Nessa altura não era um “salvador”, mas um treinador, no Miami Seaquarium. Bastante bom, diga-se, tanto que foi escolhido para treinar os quatro golfinhos que interpretaram Flipper, na popular série de televisão norte-americana dos anos 1960. Desde então, Flipper é sinónimo de golfinhos, mas as memórias de Ric são menos simpáticas, e prendem-se com a morte de Cathy, um desses animais, que se terá suicidado, pois “nadou para o fundo do tanque e não voltou acima para respirar”. Ric não teve dúvidas disso, e a sua vida mudou nesse instante: “Passei os últimos 50 anos a tentar acabar com o cativeiro de golfinhos pela indústria do entretenimento. Estamos a falar de animais inteligentes, socialmente complexos, destinados a nadarem longas distâncias e a reunirem-se em grupos sociais específicos, e tudo isto é impossível num tanque. Não é justificável sujeitá-los a estas condições apenas para que os visitantes possam ter alguns minutos de entretenimento e tirar umas fotos.”

Passei os últimos 50 anos a tentar acabar com o cativeiro de golfinhos pela indústria do entretenimento. Estamos a falar de animais inteligentes, socialmente complexos, destinados a nadarem longas distâncias e a reunirem-se em grupos sociais específicos, e tudo isto é impossível num tanque

Assim, “no Dia da Terra de 1970”, fundou o Dolphin Project e lançou a campanha Empty the Tanks (esvaziem os tanques): “A nossa missão é fazer com que estes mamíferos possam reformar-se e sejam libertados no oceano, sempre que possível. Que em nenhum caso se necessite de atuar para assegurar a sua sobrevivência.” Reconhece que nem todos os parques são iguais, mas “mesmo as melhores instalações, com os melhores cuidados, não substituem o oceano aberto”. E também não acredita que possam desempenhar qualquer papel educativo: “As crianças ficam encantadas com os dinossauros sem nunca terem visto um e aprendem sobre o monte Everest sem lá terem subido. É completamente possível ensinar reverência e respeito sem sujeitar o objeto de estudo a uma vida de confinamento. Mostrar animais em cativeiro às crianças não é educativo nem inspirador. Podemos dar um exemplo melhor, ensinando-as a proteger essas espécies na Natureza e a valorizar o nosso ambiente.”

Ao longo destes 50 anos, Ric e a sua equipa já libertaram mais de duas dúzias de animais, embora ele prefira medir o sucesso por um número menos tangível: o dos golfinhos “poupados de uma captura em alto-mar em virtude dos nossos esforços ao longo destes anos”. Esforços que se materializaram, por exemplo, no documentário The Cove, vencedor de um Óscar da Academia, em 2010, realizado por Louie Psihoyos. The Cove segue Ric numa campanha para impedir a matança de golfinhos em Taiji, no Japão. Um espetáculo aterrador, pois os golfinhos são degolados, deixando o mar vermelho de sangue. A caça acontece todos os anos nesta vila piscatória, sob o beneplácito do Governo japonês, e é aqui que também são capturados muitos dos golfinhos que acabam em “supostos parques aquáticos”, a maioria deles na Ásia (não há registo de nenhum parque em Portugal nem na Europa recorrer a estes mamíferos).

O’Barry estima que ainda existam cerca de 3 mil golfinhos em cativeiro no mundo, mas pelo menos agora tem um Santuário de Golfinhos, construído no mar de Bali, em conjunto com as autoridades indonésias, para onde pode levá-los depois de serem resgatados. Foi esse o destino de Rocky e Rambo, segundo contou à VISÃO depois de os ter libertado no oceano. Após o seu regresso à Califórnia, era evidente como ainda vinha maravilhado por ter assistido ao primeiro contacto dos golfinhos com o mar. “Foi um momento de tirar o fôlego, que faz com que todos estes longos anos de determinação valham realmente a pena.”

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