“O planeta não pode esperar mais”

Humildade. É isto que se sente quando se mergulha no meio de 12 gigantes cachalotes, o maior predador que alguma vez existiu no planeta. Este mergulho a norte da ilha de São Miguel, a seis milhas da costa, é a mais doce memória do biólogo Emanuel Gonçalves no meio que mais preza e onde se sente “num maravilhoso mundo à parte”: o oceano. Medo não sentiu nenhum, apesar de estes animais conseguirem destroçar um ser humano só com o impacto do seu sonar no nosso corpo. “É, em certo sentido, como estar com uma entidade alienígena: sei que têm capacidades cognitivas enormes, mas não conseguimos ainda conversar.”

Emanuel sabe bem do que fala. Faz uma média de 50 a 70 mergulhos anuais e é, na verdade, um dos grandes campeões do mar português: assume as funções de administrador da Fundação Oceano Azul, detentora do Oceanário, e vice-presidente do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. Antes foi chefe-adjunto do grupo que elaborou a Estratégia Nacional para o Mar e coordenador do grupo da União Europeia que identificou as áreas marinhas ecologicamente significativas. 

Para ele, tudo começou numas férias de verão, passadas em família, no Portinho da Arrábida. Mal sabia nadar nessa altura, mas colocava óculos de mergulho para explorar o fundo do mar. “Desde então, sempre soube o que queria ser.”  Formou-se em Biologia e dedicou a vida à conservação. O impacto desastroso da ação do Homem nos oceanos, conhece-o bem. Vê-o, por exemplo, aqui, onde nasceu esta paixão. “No Parque Marinho Luiz Saldanha desapareceu tudo do que antes era uma pradaria marinha excecional.” Por isso, há uma década que trabalha com um grupo de investigadores que tenta recuperar a zona. “A boa notícia é que a Natureza responde, mas há um limite. Há danos irreparáveis, é muito difícil inverter estes processos. Por isso é tão importante preservar o que resta”, explica.

Recentemente, numa conferência, lançou à plateia uma provocação sob a forma de pergunta: “Será a Humanidade demasiado imatura para cuidar do planeta?” Quisemos saber a resposta: “Tenho alguma dificuldade em perceber como são ou não tomadas certas decisões. Já não temos a justificação das gerações anteriores, que prejudicaram o planeta por pura ignorância. Agora sabemos bem o que se passa e temos a informação necessária para agir. A responsabilidade é de todos, mas é muito superior de quem tem capacidade para fazer a diferença.” E esses são os cientistas e os políticos.

Como cientista, Emanuel Gonçalves está particularmente orgulhoso do papel da Fundação Oceano Azul: “Não nos substituímos aos governos, mas conseguimos juntar um conjunto de conhecimentos muito importantes, que nos permite apontar o caminho da mudança. Estamos a agir na educação, na conservação e a começar na área da economia.”

Entre estes projetos destacam-se a proteção daquela que foi, em tempos, a maior população mundial de cavalos-marinhos do mundo, na ria Formosa, ou a criação da Blue Azores, uma nova área de proteção marinha com 150 mil quilómetros quadrados. Mas a conservação, tal como ele a entende, não se esgota na proteção: deve ser encarada como “uma ferramenta para alavancar todo um novo capital económico”.

Acredita, por isso, que Portugal está no limiar de uma nova era, porque se levarmos em conta toda a área atlântica sob a nossa jurisdição, ganhamos recursos ao nível das grandes potências mundiais. Se o País quiser ser ambicioso, o passo seguinte seria o de criar um cluster de inovação e empreendedorismo, “um Silicon Valley da bioeconomia marinha. Temos os recursos e os centros de ciência marítima. Só falta direcionar esse conhecimento para a inovação e para o negócio”.

“O planeta não pode esperar mais”, insiste. “A pergunta que devemos fazer é a seguinte: ‘Será que esta atividade económica é compatível com o meio ambiente?’ Será com base na resposta que devemos decidir. Isto se quisermos continuar a viver aqui por mais uns tempos. Porque aqueles cenários futuristas onde vivemos em bolhas isoladas… Não vão acontecer. Muito antes disso, destruímos a sociedade humana.”

Conheça os principais factos e números sobre os oceanos que mais preocupam Emanuel Gonçalves.

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