Paola Antonini: “Se pudesse voltar atrás no tempo e ter a perna, eu não queria, a minha vida é bem melhor agora”

O Instituto fundado por Paola oferece tratamentos a pessoas amputadas de todo o Brasil, sobretudo crianças, e aposta na inclusão

Paola Antonini: “Se pudesse voltar atrás no tempo e ter a perna, eu não queria, a minha vida é bem melhor agora”

Sofreu um acidente aos 20 anos, à porta de casa, e teve de amputar a perna esquerda. Aos 28, aquilo que seria uma tragédia para a modelo, influencer e atriz brasileira Paola Antonini revelou-se uma oportunidade de superação. Otimista nata, dedica-se a inspirar outros e tem quase três milhões de seguidores no Instagram. As receitas do seu livro Perdi Uma Parte de Mim e Renasci revertem para o Instituto Paola Antonini, que a jovem fundou em 2020 para promover a reabilitação e a inclusão social das pessoas com deficiência física.

O seu mundo mudou no final do ano de 2014. Como reagiu ao choque? 
Foi um grande susto. Estava a levar as malas para o porta-bagagens do carro para ir a uma festa de Fim de Ano e fui atropelada por uma moça que perdeu o controlo do carro. Lembro-me de cair e da reação das pessoas à minha volta, incluindo o meu namorado, levando a crer que era grave. Esperei 50 minutos pela ambulância, passei por uma cirurgia de 14 horas e tiveram mesmo de amputar a minha perna. Só soube no dia seguinte, quando acordei e os meus pais me contaram. Nunca imaginei que iria passar por isso.

Teve apoio psicológico para lidar com o trauma?
Senti medo e insegurança, mas não procurei um psicólogo. Sobrevivi e pensei: estou viva, quando podia não estar, quero tirar o melhor partido de cada dia.

O que custou mais no processo de reabilitação?
Reaprender a equilibrar-me. Tive de adaptar rotinas, em casa também, porque tinha escadas. No início foi muito difícil, doía muito usar a prótese. Precisei de muita persistência e, durante seis meses, fiz fisioterapia diária. Convivo com a dor fantasma: são picadas dolorosas muito intensas e um formigueiro muito forte: tomo remédios até hoje e, sempre que faço mais exercício, sinto dor. O nosso corpo não foi feito para ser amputado.  

Aos 20, a imagem conta muito. Como foi para si?
Na altura do acidente, tinha começado a namorar há 12 dias e ele foi muito importante. Três anos depois, quando a relação acabou, questionei-me sobre a minha vida, amputada e sozinha. Queria que gostassem de mim por quem eu era por dentro e, mais tarde, tive outros namorados. Quando tiro a prótese, vejo uma perna amputada, que não é bonita, mas tenho carinho por ela e um corpo que conta muita coisa.

Chegou a falar com a pessoa que a atropelou?
O acidente deveu-se ao uso do telemóvel durante a condução e, por não sentir raiva e a ter perdoado no meu íntimo, não a contactei, até que um dia falámos e disse-lhe que não queria que sentisse culpa.

Esperava ser eleita a musa dos Jogos Paralímpicos Rio 2016?
Gosto muito de desporto e tinha começado a trabalhar com o Instagram. Fui assistir e andava de um lado para o outro com a minha prótese cinzenta e, com surpresa, vi a notícia nos jornais.

Que desportos praticava antes do acidente e o que mudou depois?
Experimentei ginástica olímpica, ginástica rítmica, corrida, natação e viajei pelo Brasil em competições de ténis porque adoro ter o corpo em movimento e novos desafios. Depois de amputada, tentei a dança, o esqui e o surf.

Vai à praia e molha a sua prótese no surf?  
Embora os acessos no Brasil sejam muito difíceis para quem tem deficiência física, eu adoro praia e levo uma prótese diferente daquela que uso no dia a dia, feita de material mais simples, para andar no areal e fazer surf e, apesar de não ser para molhar, eu molho!

Recebo mensagens de quem se sentiu mais confiante para aceitar as cicatrizes e a deficiência, sem vergonha do seu corpo

Foi intencional converter a sua “perna” num acessório de moda?
Eu achava estranha a textura da pintura original e experimentei envolvê-la com tecido cinzento que sugerisse a ideia de robô. No Carnaval usei um tecido prateado e brilhante e isso cativou as pessoas, sobretudo as crianças e passei a usar várias cores na principal [tem três]. Houve marcas que quiseram trabalhar comigo e vi que podia melhorar a autoestima de jovens amputadas. Recebo mensagens de quem se sentiu mais confiante para aceitar as cicatrizes e a deficiência, sem vergonha do seu corpo.

O que a fez não desistir?
Ter o apoio da família, dos amigos e as muitas mensagens que recebi nas redes sociais. Houve momentos em que chorei muito, mas aceitei que tal não resolvia nada e encarei o processo de forma racional. O meu pai sentia muita culpa, recriminava-se por me ter deixado viajar e, quando ouvia a palavra “acidente”, tinha um tique nervoso. Disse-lhe: “Se pudesse voltar atrás no tempo e ter a perna, eu não queria, a minha vida é bem melhor agora.” 

É uma pessoa de fé?
Sim, e acredito em Deus, mas vejo o que me aconteceu como fruto do acaso e não de um desígnio divino. Dá-me força pensar que os momentos piores passam e que consigo ajudar outros.

No Brasil, a parte económica é decisiva no acesso a tratamentos?
É crítico, passam-se anos numa fila de espera. Depois, o tempo de vida útil de uma prótese é de quatro ou cinco anos e, para ser boa, é cara, entre 30 mil reais [€5 500] e 400 mil [€73 500]. É muito triste que uns possam pagar e outros não.

Foi o que a levou a criar o Instituto Paola Antonini?
Eu já fazia voluntariado em hospitais e angariações. Após o acidente, usei dinheiro que ganhava no Instagram para ajudar a comprar próteses, mas era pouco. No ano da pandemia, escrevi um livro e fundei uma ONG. Pagamos a prótese e a reabilitação numa clínica privada, com qualidade, trazemos crianças do Brasil inteiro para Belo Horizonte ou enviamos para cidades e contratamos serviços para esse fim. Por agora, quero restringir o acesso até aos 18 ou 21 anos, para acompanhar o processo de perto com as famílias das crianças, que chegam à instituição com malformações, após acidentes ou por problemas oncológicos.

Rejeitou participar num reality show e está num projeto da Netflix. O que pode dizer sobre isso?
Fui convidada e queria ir ao Big Brother, mas, ao mesmo tempo, surgiu a possibilidade de entrar numa minissérie sobre o incêndio na discoteca Kiss, com o papel de uma terapeuta ocupacional que fica queimada e sobrevive, mas perde a perna. Estreia em janeiro, dez anos após a tragédia.

Como se vê no futuro? Talvez atleta paralímpica?
Acho que não, atleta só por hobby! [Risos.] Vejo-me a ser atriz ou a apresentar um programa desportivo. Para já, estou focada em fazer crescer o instituto e na minha vida profissional, mas também quero constituir família e ter filhos.

Ocorre-lhe pensar como seria a sua vida se não tivesse o acidente?
Talvez tivesse concluído o curso de Jornalismo e trabalhasse numa revista a escrever sobre moda, mas acredito que não seria um percurso tão especial. Não trocaria o que vivi por nada: os desafios, as dores e o sentido de propósito que ganhei, que é o mais valioso de tudo.

Para ouvir nas Conferências do Estoril

O evento vai reunir pensadores, políticos e personalidades inspiradoras para pensar o nosso futuro

Paola Antonini é uma das oradoras deste evento do qual a VISÃO é parceira de media, que resulta de uma parceria entre Nova School of Business and Economics (Nova SBE) e a Câmara Municipal de Cascais e acontece nos dias 1 e 2 de setembro, no campus da universidade. Na sétima edição, o programa está dividido em três tópicos: Pelo Planeta, Pelas Pessoas e Pela Paz e a meta é promover o debate intergeracional sobre o futuro da Humanidade, com os jovens no centro da discussão. Conheça a agenda em visao.pt

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