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Costa a pé: A travessia do Tejo com surpresa à chegada, areal a perder de vista e um estranho dia de verão

Do Minho ao Algarve, junto ao mar

Oitava etapa da grande caminhada de Pedro Pimenta e amigos pela costa portuguesa, da Trafaria a Sesimbra, com fotos e vídeos deste cantinho à beira-mar

Pedro Pimenta delineou um plano: percorrer toda a costa portuguesa a pé, de Monção a Vila Real de Santo António. São 940 quilómetros, que dividiu em 16 etapas, para cumprir até fevereiro de 2020, um fim de semana por mês. O ponto onde terminou a etapa anterior é sempre o ponto de partida da seguinte para todos os que o querem acompanhar.

Funcionário público, Pedro Pimenta, de 52 anos, é já um veterano das caminhadas – durante mais de uma década, liderou a secção de Pedestrianismo do Clube de Lazer, Aventura e Competição (CLAC) do Entroncamento, onde reside. Num registo informal, de impressões e pensamentos soltos, partilha agora, no site da VISÃO, uma espécie de diário desta aventura pela costa, ao mesmo tempo que nos brinda com belas fotografias e vídeos dos locais por onde passa (também os pode ver no site do projeto Costa a Pé).

Este é o relato da oitava etapa, entre a Trafaria e Sesimbra, realizada nos dias 22 e 23 de junho.

Sábado, 22: Trafaria – Meco, 30 kms

Mais um fim de semana que promete. Com três horas dormidas, apanho o comboio das 4 da manhã que vem do Porto. Mais parece uma camarata, com tanta gente a dormir. No embalo, encosto-me também e fecho os olhos. Às 6 horas chego a Santa Apolónia. Mais um pouco e passava da hora do autocarro para o Restelo. Está um dia espetacular, um céu azul limpo. Na estação fluvial de Belém, espero à beira-rio pelo primeiro barco que me lavaria até à Trafaria.

Há muito tempo que não andava num cacilheiro. Que enorme prazer recordar tempos em que atravessava o rio com a família e visitava o presídio da Trafaria. Agora, felizmente, tudo está diferente, mais colorido - o cinzento deu lugar ao verde. No trajeto fluvial, aprecio o Sol a nascer, as águas calmas do Tejo e um cheiro forte a maresia. Primeiro atracamos no Porto Brandão: ninguém entra e nenhum dos três passageiros sai. Vou na ré a desfrutar da paisagem: linha de Cascais, Serra de Sintra, as colinas de Lisboa e as falésias da margem sul.

Tenho um casal de caminheiros à minha espera e estou ansioso por chegar. Quando começo a andar, os pés em terra firme, surpresa das surpresas: uma pequena multidão aguarda-me. Que sensação incrível: 18 caminheiros e amigos do Grupo Desportivo Unidos do Arco (GDUA). Comovente ver todo este interesse em acompanhar-me, nem que seja um quilómetro. Quase todos conhecem o percurso, nem tenho de me preocupar.

Depois da Cova do Vapor, deparamos com uma maré baixa muito acentuada que facilita muito a nossa caminhada. Não é uma caminhada normal, é mais um passeio à beira do mar com amigos. Vou trocando umas palavras com todos, mostrando a minha gratidão.

Ao chegarmos à Costa da Caparica, está uma banca com pastéis e um licor para brindarmos a uma longa vida, cheia de coisas boas. Ali ficam alguns dos caminheiros, os que ainda vão trabalhar. Continuamos pelo paredão da Costa e entramos praia adentro, a maré baixa a parecer uma autoestrada. Uma faixa de areia dura faz-nos progredir rapidamente, alterando assim o traçado inicialmente previsto, mais duro.

Na linha do horizonte, a sul, vê-se o Cabo Espichel, a norte, a Serra de Sintra. O areal é a perder de vista. Passamos por todas aquelas praias a que só o comboio dá um rápido acesso. O comboio das praias da Costa já tem algumas décadas. A última vez que andei nele era ainda menino de colo. Cruzamo-nos com pequenos grupos espalhados pela praia, alguns a fazer nudismo.

Na Fonte da Telha, param mais alguns caminheiros. Seguimos pela praia, não há muita gente - possivelmente devido à instabilidade do tempo. Mais uns grupos de nudistas, algumas pessoas a caminharem, grandes bandos de gaivotas e pouco mais. A praia é toda nossa. Ainda restamos uns 10, uns mais à frente dos outros, mas todos bem-dispostos, como é apanágio deste grupo de amigos do GDUA.

Chegamos à Lagoa de Albufeira. Imaginem ir da Caparica à Lagoa sempre à larga pela areia molhada. Paramos para descansar um pouco e comer, aliviar peso de alguma maneira. Mais um par de caminheiros fica por ali. Trago comigo uns fabulosos pastéis de bacalhau. É só pedir umas cervejas no restaurante e está o almoço feito.

Falta pouco até ao Meco. Entramos num pinhal com areia mole. O trilho aproxima-se das falésias. Já tinha feito este caminho há cerca de dois anos, na Marcha do Atlântico. Comento com o Franclim que há zonas no percurso que estão complementamente desfiguradas, devido às moto 4 e não só. Passamos pela praia do Meco, sem grande movimento. Mais uma subida e uns caminhos mais técnicos, sempre em areia solta. Obstáculos em sobe e desce, com pontes “pré-fabricadas” para o efeito.

Finalmente, com 30 kms percorridos, chegamos à praia das Bicas. Tenho um quarto duplo reservado no Campimeco e sou surpreendido, mais uma vez, por pessoal amigo de Corroios, que me fazem uma receção numa esplanada do parque. Mais umas bebidas, camaradagem, amizade, tudo à mistura. Uma festa num dia cheio de areia, mar e Sol. Obrigado ao Franclim e a todos os amigos, a todo o grupo do GDUA, uma companhia espetacular. Já depois do banho e de um descanso merecido, um jantar buffet espetacular. A noite é tranquila, mas já não estava habituado a atravessar o parque para ir à casa de banho.

Despesas: Transporte – €1,25 (barco); Refeição - €10 (jantar); Dormida: €36 (Parque)

VEJA A GALERIA DE IMAGENS E O VÍDEO DESTE DIA:

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Domingo, 23: Meco – Sesimbra

Combinara no dia anterior encontrar-me com dois amigos, o Messias e a Graça, ela vinda de Leiria. Tinha tudo para ser uma etapa lindíssima, não fosse o tempo pregar-nos uma grande partida. Manhã nublada, com um pouco de vento, fico cético enquanto os espero. O Messias deixara o carro em Sesimbra e vêm os dois no da Graça. Bebemos um café no parque e iniciamos o percurso. Está desagradável para um dia de verão – possivelmente, o pior dia de toda a viagem.

A visibilidade é de aproximadamente um quilómetro, o que põe em causa o plano de vermos a orla costeira e as belas praias. Sinto que deve ser uma desilusão para os meus companheiros que vieram de longe para ver algo diferente. O trilho é muito bonito, sempre à beira das falésias, às vezes até demais… falta o azul do céu e a luz do Sol.

Procuramos sempre a referência do cabo Espichel, mas o nevoeiro torna-se cada vez mais cerrado. Muitos trilhos cruzados, a exigir mais orientação e cuidado para evitar o excesso de fadiga. Mesmo assim, é subir e descer sempre com muito cuidado. Por vezes lá se vê uma autocaravana ou alguém a caminhar. Com o passar das horas, o tempo vai-se agravando. Além do nevoeiro, começa uma chuva miudinha tocada a vento, muito incomodativa.

Sempre cheia de energia, para a Graça é tudo a direito. Quando eu chego ao topo, já ela esté no outro. Sentimento de liberdade. O Messias, com as calças a pesarem devido a chuva, acompanha-me. Não está nada fácil. Sinto a água da chuva a entrar no corpo. Efeito da humidade e da chuva, o telemóvel também se apaga. Um desespero.

Finalmente, o Cabo Espichel, mais especificamente a zona do convento onde existe um bar. Entramos todos ensopados para comer qualquer coisa e beber algo mais quente. Dia de inverno. Ponderamos se vale a pena continuar. Chove 3 horas. A lama torna os passos mais pesados e faz-nos escorregar com muita facilidade. Para agravar, não tenho o telemóvel para me orientar. A visibilidade é muito reduzida, poucas centenas de metros, e não dá para fazer uma progressão à vista.

Não é impossível, mas é muito arriscado irmos mais junto à costa, até porque as pedras estão muito escorregadias. Fazemos três quilómetros, para termos uma noção melhor, mas confirma-se que está impossível. Quem diria, depois do dia de ontem? A decisão, unâmine, é sairmos da zona de terra e seguirmos pela estrada até à Azóia. Aí veríamos se o estado do tempo tinha melhorado.

É sempre um perigo circular nas estradas sem passeios e com as bermas todas irregulares. Qequer o dobro da atenção. Vamos em fila indiana. A chuva não abranda e torna a caminhada penosa. O Manuel Messias vai tentando ver no telemóvel dele uma variante que nos aproxime da pedreira.

A Graça está cheia de frio nas mãos, por causa da aragem fresca. Molhados, o melhor é nem pararmos mesmo. O nevoeiro levanta um pouco, mas a chuva cai miudinha. Vê-se bem a estrada e começamos a orientar-nos em direção ao mar. Descemos até à pedreira por um estradão de terra e avistamos por onde ali chegaríamos se tivessemos ido pela Praia da Ribeira do Cavalo. Fica para uma próxima, temos de respeitar o nosso “bip de segurança”.

Descemos molhados e cheios de lama nos pés e nas pernas. Para a Graça, acredito que acabou por ficar àquem das expetativas. Mas foi uma aventura. Pessoalmente, não quero ficar com aquele sentimento de que “há dias que não devíamos sair de casa”. Prefiro pensar que foi mais uma etapa com dois companheiros que estiveram ao meu lado, num dia atípico e molhado. O Messias foi uma mais-valia ao encurtar o caminho para Sesimbra.

De Sesimbra, seguimos no carro dele para o Campimeco, onde estava o da Graça. Cheguei a casa molhado, mas feliz, num dia de verão triste e cinzento. Obrigado aos dois pela disponibilidade e companhia em condições adversas.

Despesas: Transporte - €20; Refeições: €7

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As 16 etapas do projeto Costa a Pé

1) 26 e 27 de janeiro: Monção – Caminha – Viana do Castelo, 47 + 27 kms

2) 23 e 24 de fevereiro: Viana do Castelo – Póvoa de Varzim – Porto, 53 + 42 kms

3) 23 e 24 de março: Porto – Ovar – Aveiro, 44 + 38 kms

4) 25, 26, 27 e 28 de abril: Aveiro – Tocha – Figueira da Foz – Pedrógão – Nazaré, 47 + 38 + 38 + 45 kms

5) 25 e 26 de maio: Nazaré – Peniche – Ribamar, 51 + 36 kms

6) 8, 9 e 10 de junho: Ribamar – Ericeira – Almoçageme - Cascais, 36 + 27 + 27 kms

7) 13 de junho: Cascais – Lisboa, 33 kms

8) 22 e 23 de junho: Trafaria – Meco – Sesimbra, 30 + 25 kms

9) 20 e 21 de julho: Sesimbra – Setúbal – Comporta, 30 + 28 kms

10) 24 e 25 de agosto: Comporta – Santo André – Porto Covo, 36 + 34 kms

11) 21 e 22 de setembro: Porto Covo – Almograve – Odeceixe, 35 + 37 kms

12) 26 e 27 de outubro: Odeceixe – Chabouco – Vila do Bispo, 35 + 31 kms

13) 23 e 24 de novembro: Vila do Bispo – Sagres – Lagos, 33 + 37 kms

14) 28 e 29 de dezembro: Lagos – Portimão – Armação de Pêra, 28 + 27 kms

15) 25 e 26 de janeiro de 2020: Armação de Pêra – Quarteira - Olhão 31 + 35 kms

16) 23 e 24 de fevereiro de 2020: Olhão – Cabanas – Vila Real de Santo António 35 + 25 kms