Miguel Araújo

Miguel Araújo

MÚSICO
Crónicas
Exclusivo

Coca-Cola e Brigitte Bardot

A poesia, a arte, a sublimação das inquietações de cada um através destes preciosos e misteriosos nacos de melodia e palavras de três minutos e meio, não se procura. Talvez se encontre, mas não se procura

Crónicas
Exclusivo

As mulheres e os homens

Será que os nossos filhos vão seguir as pisadas dos pais? Ou vão ser uns meninos da mamã, a fumar à mesa enquanto auscultam nos telemóveis a cotação das bitcoins (...)?

Crónicas
Exclusivo

Sapato de fivela em Porches

Esta história foi-me contada na primeira pessoa pelo sapato, por esse sapato. Tinha sido transportado até ali na boca dum cão abandonado. Um cão de muitas raças e portanto de nenhuma

Crónicas

Velho eremitão

Nunca me deu para brincar, dava-me sim para ficar a olhar para as coisas e hoje em dia é igual, não entendo sequer o porquê de as pessoas se aborrecerem de estar sozinhas

Crónicas

4 anos

Eu não sou contra nada. Sou a favor, em determinados momentos. Mas não me comprometo com grandes opiniões, opiniões grandes. Concordo com todos os pontos de vista, que é como dizer que não me comprometo com nenhum

Crónicas

Emília

Emília vai entornando para dentro do seu caderno de folhas com cheiro aquilo que só se vê dali, só se pode ver dali, do alto de um terceiro andar; as ideias vão ficando por ali como que num longo processo de digest

Crónicas

O meu 2020

Lambuzei-me nas coisas que gosto de fazer, nas quais me sinto útil, fértil. Gravei, escrevi, regravei, apaguei, reescrevi. Passei todo o tempo com a minha família e para passar tempo com as coisas (...) de que se gosta é preciso tempo

Crónicas

A manhã de Sónia

A Sónia, de dez em dez segundos, a avivar o telemóvel com um golpe rápido e automático de polegar oponível, e nada, nenhuma mensagem, chamada, nada, que é do Gusto?

Crónicas

Achei terrível andar na escola

A minha vida começava no fim de cada ano letivo. A minha vida começou no fim de todos os anos letivos

Crónicas

O guarda-chuva do banco da Igreja Matriz de Ermesinde

Conheço bem essas casas, conheço bem essas jarras onde repousam os guarda-chuvas. Nasci numa dessas casas

Crónicas

Dixie Flyer

Vejo maior interesse nas conversas, nos noticiários, nos debates, nos murais, nas morais, nas eleições americanas do que noutras. Porque nós brincávamos aos índios e aos caubóis, não brincávamos aos descobrimentos

Crónicas

Retratos da paisagem

Passa a senhora de cabelo cor de orangotango, e ali está um cidadão bastante impenetrável, anda de uniforme antissonda, a minha antena não penetra

Crónicas

Os braços engessados do Sérgio Mendes

O Jobim padecia de nostalgia. Se a natureza chegou ao ponto de permitir que o macaco nu, na sua marcha inexorável de progresso, lhe meta as patas peludas nas moléculas mais ínfimas, ela lá saberá

Crónicas

Rosa Irene 2 (fim)

A camioneta despejou os indesejados viajantes em Champigny-sur--Marne, uma aldeia em lata. Compensava. No apeadeiro estava a tia Olga Irene, num automóvel que serviria como portal mágico de acesso à Paris dos livros do tio Ernesto

Crónicas

Rosa Irene 1

Aos 17 anos, anunciou que iria para Paris. Ai que desonra para a família, pensas que Paris é já aqui, Paris fica mais longe daqui do que este fim do mundo fica do mundo

Crónicas

Novelo

Os dias foram-se comendo a eles próprios e agora o tempo é o mesmo só que mais gordo, como eu

Crónicas

Elogio da Natureza

Muito aprecio a Lua cheia por entre os ramos do jacarandá, mais a mais sabendo que já por lá alguém andou, quase que se vê a bandeirinha da América e as pegadas das botas do nosso companheiro de espécie

Crónicas

Alice

Todas as nossas melhores fotografias vão acabar numa mesinha de cabeceira, junto a um copo de água com uma dentadura a boiar lá dentro, antes de serem embrulhadas na mortalha de algum jornal velho

Crónicas

Crónica do prédio em frente

Na janela ao lado, um jovem empresário, jovem empreendedor, jovem adulto de colarinho azul, ou branco, não sei, para yuppie é um jovem, se tivesse sido apanhado pelo telejornal a roubar galinhas ao vizinho em noite de Lua cheia era logo homem

Crónicas

A Casa da Barragem

Por artes que eu não posso, não devo, não quero, não ouso nem vou compreender, as nossas vidas prosseguem facilitadas sem que sequer tomemos cinco minutos para dar valor a quem tomou a vida toda para as pôr a funcionar

Crónicas

A minha avó

Julgo que nunca ninguém chegou propriamente a ser açoitado pelo chicote de couro pendurado desde sempre e para sempre na porta da despensa, mas ninguém queria ser o primeiro