Miguel Araújo

Miguel Araújo

MÚSICO
Crónicas

4 anos

Eu não sou contra nada. Sou a favor, em determinados momentos. Mas não me comprometo com grandes opiniões, opiniões grandes. Concordo com todos os pontos de vista, que é como dizer que não me comprometo com nenhum

Crónicas

Emília

Emília vai entornando para dentro do seu caderno de folhas com cheiro aquilo que só se vê dali, só se pode ver dali, do alto de um terceiro andar; as ideias vão ficando por ali como que num longo processo de digest

Crónicas

O meu 2020

Lambuzei-me nas coisas que gosto de fazer, nas quais me sinto útil, fértil. Gravei, escrevi, regravei, apaguei, reescrevi. Passei todo o tempo com a minha família e para passar tempo com as coisas (...) de que se gosta é preciso tempo

Crónicas

A manhã de Sónia

A Sónia, de dez em dez segundos, a avivar o telemóvel com um golpe rápido e automático de polegar oponível, e nada, nenhuma mensagem, chamada, nada, que é do Gusto?

Crónicas

Achei terrível andar na escola

A minha vida começava no fim de cada ano letivo. A minha vida começou no fim de todos os anos letivos

Crónicas

O guarda-chuva do banco da Igreja Matriz de Ermesinde

Conheço bem essas casas, conheço bem essas jarras onde repousam os guarda-chuvas. Nasci numa dessas casas

Crónicas

Dixie Flyer

Vejo maior interesse nas conversas, nos noticiários, nos debates, nos murais, nas morais, nas eleições americanas do que noutras. Porque nós brincávamos aos índios e aos caubóis, não brincávamos aos descobrimentos

Crónicas

Retratos da paisagem

Passa a senhora de cabelo cor de orangotango, e ali está um cidadão bastante impenetrável, anda de uniforme antissonda, a minha antena não penetra

Crónicas

Os braços engessados do Sérgio Mendes

O Jobim padecia de nostalgia. Se a natureza chegou ao ponto de permitir que o macaco nu, na sua marcha inexorável de progresso, lhe meta as patas peludas nas moléculas mais ínfimas, ela lá saberá

Crónicas

Rosa Irene 2 (fim)

A camioneta despejou os indesejados viajantes em Champigny-sur--Marne, uma aldeia em lata. Compensava. No apeadeiro estava a tia Olga Irene, num automóvel que serviria como portal mágico de acesso à Paris dos livros do tio Ernesto

Crónicas

Rosa Irene 1

Aos 17 anos, anunciou que iria para Paris. Ai que desonra para a família, pensas que Paris é já aqui, Paris fica mais longe daqui do que este fim do mundo fica do mundo

Crónicas

Novelo

Os dias foram-se comendo a eles próprios e agora o tempo é o mesmo só que mais gordo, como eu

Crónicas

Elogio da Natureza

Muito aprecio a Lua cheia por entre os ramos do jacarandá, mais a mais sabendo que já por lá alguém andou, quase que se vê a bandeirinha da América e as pegadas das botas do nosso companheiro de espécie

Crónicas

Alice

Todas as nossas melhores fotografias vão acabar numa mesinha de cabeceira, junto a um copo de água com uma dentadura a boiar lá dentro, antes de serem embrulhadas na mortalha de algum jornal velho

Crónicas

Crónica do prédio em frente

Na janela ao lado, um jovem empresário, jovem empreendedor, jovem adulto de colarinho azul, ou branco, não sei, para yuppie é um jovem, se tivesse sido apanhado pelo telejornal a roubar galinhas ao vizinho em noite de Lua cheia era logo homem

Crónicas

A Casa da Barragem

Por artes que eu não posso, não devo, não quero, não ouso nem vou compreender, as nossas vidas prosseguem facilitadas sem que sequer tomemos cinco minutos para dar valor a quem tomou a vida toda para as pôr a funcionar

Crónicas

A minha avó

Julgo que nunca ninguém chegou propriamente a ser açoitado pelo chicote de couro pendurado desde sempre e para sempre na porta da despensa, mas ninguém queria ser o primeiro

Crónicas

Idílio

A vida, aí sim, até que enfim seria bela, sépia, tela e carvão, com o passar do tempo bem mais leve e amarela, bem melhor, Shibuya ou Tui, isso não sei, nunca lá fui

Crónicas

No alto da serra d’Arga

E eis um pormenor inquietante: um capacete debaixo do braço. Na cova do braço, um capacete moderno, de bom aspeto, em nada condizente com tão pitoresco e torguiano cidadão

Crónicas

53 Dias

Do dia 12 em diante, fiquei em casa. Faz hoje 53 dias; 53 dias preso a uma existência rotineira que em quase nada foge àquela que já era a minha, nos dias sem compromissos com concertos e afins

Crónicas

Praia, poemas, etc.

As praias selvagens com vegetação virgem por trás oprimem-me a alma. Gosto mais de praias com pombas do que praias com gaivotas. Prefiro praia de cidade e a Praia de Gondarém é a melhor praia do mundo