Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Mia Couto

Mia Couto

Escritor

  • As cinzas

    Os reflexos da chama acendem luzes no pavimento que a mulher vai esfregando. Os joelhos de Laura apagam essas repentinas estrelas. Aos poucos, a mulher torna-se mais escura, mais funda que o próprio chão

  • As mãos, as mães

    Nasço todos os dias e, assim, trago-a de volta, disse apontando uma fotografia pendurada na parede. Espreitei a imagem. Era uma bela mulher, mestiça, olhos escurecidos pela tristeza, cabelos sobre os ombros como uma cascata de lava

  • A borboleta

    Não sei se reparou, Marlene, que tratamos de Recursos Humanos. E sempre de olhos baixos, ironizou: Humanos, está a perceber? Borboletas, não são da nossa competência. E mandou que se pulverizasse a sala com um inseticida. Desses inodoros, acrescentou. Em pânico, Marlene fingiu acatar a ordem

  • Pássaros cegos

    No caminho de regresso, o meu pai seguiu à frente, peito enfunado, passos determinados ecoando sincopadamente pelo hospital. Regressava não a casa mas ao seu passado militar. Foi oficial do Exército até ao dia em que a nossa mãe morreu. Nesse dia, deixou tombar no chão a farda, as divisas e a arma e saiu em roupa interior pela porta do quartel

  • O meu primeiro pai

    O seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor. Tinha medo de se entregar e de não regressar

  • Opinião

    Mia Couto

    A mensagem

    Nessa noite, não conseguiu adormecer. A voz do intruso, rouca e arrastada, continuava ecoando na cabeça, roubando-lhe o sono. E o intruso não falava na primeira pessoa. Dizia: precisamos de falar...