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Perfil

Dulce Maria Cardoso

Dulce Maria Cardoso

  • Beijos, joelhos e desconhecidos

    Dulcinha, nunca te cases com um homem que não dê beijos na boca. A Cacilda foi a Blanche DuBois que eu conheci. Uma Blanche DuBois sem final trágico. Nem o facto de a descolonização a ter transplantado do sol de Lourenço Marques para o lado sombrio dos prédios do J. Pimenta, em Cascais, a teria impedido de viver feliz para sempre

  • Última chamada

    De repente, soaria bem alto, em todos os altifalantes do aeroporto, Fly me to the moon, let me play among the stars, e os aviões, lá fora, celebrariam o nosso encontro em acrobacias aéreas que iríamos vendo através da parede de vidro, de alto a baixo, à medida que nos afastaríamos, a sapatear, por um luminoso corredor afora

  • Aquele domingo

    Quatro vezes na minha vida, escapei por um triz a esse acerto. A primeira vez foi nesse domingo e o tropa que me salvou recebeu uma medalha pelo feito. Eu tinha, então, oito anos. Na vez seguinte tinha onze, depois quinze e depois vinte e três. A partir daí, a morte pareceu desinteressar-se de mim, como se o seu único propósito fosse levar o meu corpo jovem

  • O sabor da felicidade

    Escolhi o bolo da capa da revista TeleCulinária, três rodelas de massa de amêndoa, recheio a doce de ovos e cobertura a creme de manteiga com torneados de saco de pasteleiro, flores de açúcar de várias cores e uma folha de hóstia a dizer Parabéns, seria lá eu capaz de celebrar o aniversário da minha mãe com um bolo banal

  • Diferenças

    Para além do jornal, as moedas transpiradas davam direito a um carolo na cabeça e a ouvir a piada do Sr. Moreira, Vai pela sombra, antes de o ver desaparecer atrás da tosse e da tralha que estava para lá do balcão, jornais, revistas, livros de quadradinhos, fotonovelas, berlindes, recargas de Flit para os mosquitos, cigarros AC que o meu pai fumava, pastilhas Gorila de morango que eu andava sempre a pedinchar