Na primeira pessoa: “A minha irmã deu um beijo ao pai e foi para o quarto. Fechou a porta e atirou-se do 13º andar”

Na primeira pessoa: “A minha irmã deu um beijo ao pai e foi para o quarto. Fechou a porta e atirou-se do 13º andar”

Foi a 6 de setembro de 2014. Os meus pais e a Sara tinham acabado de chegar a casa. A Sara deu um beijo ao pai e disse que ia para o quarto. Fechou a porta e atirou-se do 13º andar. Tinha 26 anos. Quando cheguei, ainda vi o corpo ser transportado para a ambulância. Durante anos, virou-nos a vida de pernas para o ar, mas não merecia acabar assim.

Ela não era mesmo minha irmã, era filha do meu padrasto. Eu era dois anos mais velho. Desde crianças que andávamos na mesma escola, íamos brincar a casa um do outro sem saber que, mais tarde, os nossos pais se iam juntar. Éramos adolescentes quando fomos viver todos juntos. A Sara teve muita dificuldade em aceitar a separação dos pais e os anos que se seguiram foram marcados por muita rebeldia da parte dela.

Gritava com o pai, ofendia a minha mãe. Fazia tudo o que conseguia para irritar quem estivesse à sua volta – ligava a música às sete da manhã todos os fins de semana, saía à noite e não aparecia em casa. O meu padrasto andou várias madrugadas à procura dela nos bairros mais próximos.

Só percebemos que ela não estava realmente bem quando, a meio de uma discussão, foi à cozinha buscar uma faca para tentar matar o pai. Consegui agarrá-la por trás e o meu padrasto tirou-lhe a faca. Cinco minutos depois, sentou-se na janela e pôs o pé de fora para saltar. Mais uma vez, corri e consegui impedi-la.

Ainda nessa noite, acordou com um surto gigantesco. Gritava que as almofadas estavam envenenadas. Fomos diretos para as Urgências do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, e voltou para casa medicada. Os meses seguintes não foram melhores. A forma como olhava para nós era de quem nos queria fazer mal.

Por diversas vezes, a minha mãe ligava-me e ao meu irmão, de inverno inclusive, a pedir para não irmos para casa porque a Sara estava a ter um surto. Ficávamos sozinhos na rua até às três ou quatro da manhã, mesmo tendo aulas no dia seguinte. Era um filme inacreditável.

“Morrer aos poucos”

Como o comportamento da Sara não melhorava, em 2006 foi internada no Centro de Reabilitação Psicopedagógica da Sagrada Família, em Telheiras. Fui visitá-la várias vezes e saía sempre a chorar. Era muito duro ver a menina com quem tinha crescido transformada numa pessoa irreconhecível, com baixíssima capacidade de conversar e um olhar perdido. Parecia que estávamos a vê-la morrer aos poucos.

Em 2010, foi diagnosticada com esquizofrenia. O que nos contou e, mais tarde, foi confirmado pelos médicos, é que, numa das suas saídas à noite, durante uma festa, lhe puseram uma “pastilha” na bebida. Ela ficou muito mal nessa noite e poderá ter sido isso que ativou o gene que já predispunha para a esquizofrenia.

Quando alguém se mata, o que fica do lado de cá é um pedaço de destruição tão grande que deixas de conseguir lembrar-te da pessoa antes daquele episódio. E, de repente, abre-se um fosso gigantesco de culpa

No início, ela não queria aceitar o que tinha. Passava horas a pesquisar a cura na internet. Também nós tínhamos esperança. Não de uma cura, mas de algo que a fizesse sofrer menos. Mesmo na clínica, as crises continuavam. Contou-nos que ouvia vozes que lhe pediam para fazer coisas: fazer mal aos pais, aos irmãos, fugir. Era habitual acordar aos gritos durante a noite. Não imagino a sensação de ter a consciência a envenenar-nos o espírito. De vez em quando vinha a casa, altamente medicada. Notávamos que estava emocionalmente dependente. Apoiava-se muito no pai.

Nesse ano de 2014 mudei de casa. Estava a encher uma carrinha alugada para as mudanças quando reparo que a Ana [a sua companheira] recebeu um telefonema. Vi a sua expressão mudar drasticamente.

O que se passou a seguir foi um daqueles momentos que nunca mais consegui apagar. A Ana desligou o telefone e disse-me: “Aconteceu uma coisa muito má. A Sara saltou da janela.” Perdi a força nas pernas, tive de me sentar no passeio. Não queria acreditar no que estava a acontecer.

“Muita coisa não desaparece”

O primeiro ano após a morte da Sara foi horroroso. Custava-me muito entrar naquela casa. Ainda hoje, há um íman que me puxa para aquela janela. O meu padrasto ficou um farrapo, começou a tomar medicação. A minha mãe tinha crises de choro. Quando alguém se mata, o que fica do lado de cá é um pedaço de destruição tão grande que deixas de conseguir lembrar-te da pessoa antes daquele episódio. E, de repente, abre-se um fosso gigantesco de culpa.

Só que o tempo vai passando e fazendo o seu papel. O poeta Robert Frost tem uma frase muito interessante que diz: “A maior lição que eu aprendi na vida resume-se a três palavras: life goes on.” E a vida continuou para todos. Fui fazendo a minha vida. Casei-me, tive uma filha. Pensei que, ao andar para a frente, as memórias iam ficando para trás, mas há muita coisa que não desaparece.

Em abril deste ano comecei a fazer terapia. Foi a melhor decisão que tomei. Se houve um erro que cometemos foi não procurar ajuda no tempo certo. Uma família que passa por uma situação destas, que vive diariamente com alguém com esquizofrenia, precisa de apoio. Pensámos sempre que sabíamos o que estávamos a fazer, mas não sabíamos.

A morte da Sara fez-me perceber que a vida é uma passagem tão curtinha que não vale a pena desperdiçarmos tempo com coisas inúteis. Por isso, deixei o jornalismo, atirei-me de cabeça para uns quantos projetos, fundei uma empresa e agora sou freelancer. Não podia estar mais feliz. Adoro viver, adoro mesmo. Adoro a sensação de acordar e pensar: “Fixe, é mais um dia que estou aqui.”

Em caso de crise ou momento de tensão, as linhas de apoio à saúde mental podem ser decisivas

SOS Voz Amiga
T. 21 354 4545, 91 280 2669, 96 352 4660
Todos os dias 15h30-00h30
Email: direccaolphm@gmail.com

Telefone da Amizade
T. 22 832 3535
Todos os dias 16h-23h
Email: jo@telefone-amizade.pt

Voz de Apoio
T. 22 550 6070 
Todos os dias 21h-24h
Email: sos@vozdeapoio.pt

Vozes Amigas de Esperança
T. 22 203 0707, WhatsApp 96 046 0446
Todos os dias 16h-22h
mail: porto@voades.org

Linha de Aconselhamento Psicológico do SNS
808 24 24 24 (opção 4)
24h/dia, sete dias por semana

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