Na primeira pessoa: “Passei um ano no quarto, como se atravessar a porta fosse declarar guerra a um carrasco”

Na primeira pessoa: “Passei um ano no quarto, como se atravessar a porta fosse declarar guerra a um carrasco”

Tinha pouco mais de 7 anos e amontoava livros de banda desenhada ao lado da cama. Eram os meus soldados face a medos infundados e noites passadas em branco. Na adolescência, o frenesim e os pensamentos desnorteados eram coisas da idade. “As análises estão bem, está tudo bem.” Está quase sempre tudo bem quando se olha só para o corpo e se esquece que a mente, mais do que fazer parte dele, o comanda em todos os sentidos.

Com o correr dos anos, a ansiedade passou de colega de quarto a senhorio. Mandava em todos os aspetos da minha vida. Aonde ia, o que fazia, se comia ou dormia. O ar era sempre pouco. A vontade ficava perdida entre um ataque de pânico, que me roubava forças, e o desespero de quem se sente refém da própria cabeça. A depressão que vinha depois era inevitável, e a ideia de que morrer resolveria tudo ficava, assustadoramente, clara na minha cabeça.

Perguntam-me muitas vezes: “Mas o que sentes?” E é tão difícil sentir como explicar. No meu caso, faço sempre a analogia de um quarto em chamas, com gritos vindos de toda a parte. Não há portas, nem janelas. Só a resiliência de aguentar algo que nos queima o corpo e nos transtorna a mente. São assim a minha ansiedade e os meus ataques de pânico. Mas sou eu que ardo e é a minha cabeça que grita.

Seja como for, em nenhum dos casos existe saída de emergência. Nunca ninguém consegue fugir de si.

“O jogo só acaba se quisermos”

A psicologia salvou-me a vida muitas vezes. Horas incontáveis de terapia devolveram-me alguma independência, mas a ansiedade continuava lá, altiva e inabalável. Sugeriram-me psiquiatria, e tive medo. Percebo, hoje, que o estigma vivia em mim, plantado por uma sociedade que não aceita dores que não se veem e que põe rótulos como quem carrega armas.

Continuei a achar que conseguia sozinha. Que um comprimido não poderia ser a resposta para os meus problemas. Que mudar a maneira como o meu cérebro funcionava não competia a fármacos, competia-me a mim. Então, fui andando. Arrastando uma dor crónica que não se mede em escala nenhuma. Nunca ninguém nos pergunta quanto nos dói a mente.

Foi quando dei por mim a cravar as unhas na carne que me cobria o corpo, na esperança de que a dor física fosse maior do que a mental, que percebi que aquele era o limite. O momento que definia se continuava a jogar para vencer ou mandava a toalha ao chão

Recusar ajuda psiquiátrica com medo do que os outros poderiam pensar resultou apenas num agravamento da minha situação. A psicologia ajuda até certo ponto, mas, como todas as áreas, tem as suas limitações. Deixei de conseguir trabalhar e, mais tarde, de sair de casa. Passei um ano inteiro no quarto, como se atravessar uma porta fosse declarar guerra a um carrasco, e só abri uma excepção ao medo quando perdi o meu avô.

Um dia, numa discussão trivial, uma vizinha chamou-me parasita. Sabia de todos os meus problemas, de todas as batalhas que enfrentava com a minha saúde mental, tendo sido testemunha de algumas. Ainda assim, para ela, eu era apenas inútil e danosa aos outros. Aos meus. Pela primeira vez, alguém validava, verbalmente, o que a minha cabeça me dizia, e agarrar-me à vida foi mais difícil do que alguma vez confidenciei a alguém.

Foi quando dei por mim a cravar as unhas na carne que me cobria o corpo, na esperança de que a dor física fosse maior do que a mental, que percebi que aquele era o limite. O momento que definia se continuava a jogar para vencer ou mandava a toalha ao chão. Lembrei-me do Mestre Miranda e de como, uma vez, num combate mais do que perdido, acreditou sempre em mim e nunca largou a toalha. Se os outros não desistiam de mim, eu também não podia desistir.

Pedi ajuda. Fui diagnosticada com ansiedade, depressão grave e esgotamento nervoso, provavelmente consequência de uma PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) nunca detetada, e, completamente derrotada, aceitei a medicação. Tomei comprimidos como quem perde o campeonato no fim do tempo de compensação e joguei as regras sem acreditar nelas. Parece impossível ganhar quando já nos perdemos. Mas não é. Porque o jogo só acaba se quisermos. E eu nunca quis.

Seguiram-se meses duros de descrença no processo. De efeitos secundários que, na altura, não pareciam compensar a cura. Quis parar todos os dias, mas continuei. “Demora”, diziam-me. E demora mesmo.

Não posso dizer que estou bem, mas estou melhor. A medicação, que alguns me mandaram trocar por meditação, vai-me devolvendo a vida aos poucos. Sorrir é mais fácil e olhar para o futuro também. Sei que tenho pela frente um longo caminho, mas trilhar caminhos complicados não é novidade para mim.

Quando olho para trás e me apercebo de todos os momentos em que o estigma quase me custou a vida, penso na minha avó e nos sapatos que lhe magoavam os pés. Lembro–me de lhe dizer que era um desperdício não calçar uns sapatos que lhe assentavam tão bem. Julgar alguém sem lhe conhecer as dores é perpetuar um sofrimento que não conhecemos. Porque nos sapatos dos outros, só eles sabem o quanto custa andar.

A cura de uma doença mental não se faz sem a participação ativa da pessoa doente. Temos de querer, quando já não queremos nada. E esta é uma verdade que dói aceitar, para quem já dói tanto em todo o lado. Pedir ajuda e confiar no processo é fundamental. Encontrar essa ajuda, sem sermos julgados, também.

O estigma pode matar.

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