Saúde: Falta de médicos e listas de espera deixam hospitais em estado crítico

Ariana Meireles, 28 anos, tem uma história “kafkiana” e sofrida para contar. A jovem de Vila Real começou a sentir fortes dores nas costas em 2018, que a médica de família atribuiu ao facto de passar muito tempo sentada. “Fui ao privado e disseram-me que a cirurgia tinha de ser feita, mas que devia falar com o médico de família para tentar uma consulta de Ortopedia o mais rapidamente possível.” Pedida no verão de 2019, a consulta foi conseguida em março de 2020 no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro.

“O médico assegurou-me logo de que eu nunca na vida ia ser operada tão cedo por causa da Covid-19”, continua. Até Ariana receber o pedido de transferência de hospital, em fevereiro de 2021, seguiram-se chamadas atrás de chamadas, num desespero que ia além da dor física. “Tive de deixar o meu trabalho, engordei dez quilos, não conseguia fazer nada com as dores que tinha. Cheguei a ir às urgências do hospital e a estar com quatro medicações diferentes intravenosas e a dor não passava.”

Relatos aflitivos Médicos do SNS que nos descrevem as suas condições de trabalho e a situação dos seus serviços. Adelina Pereira, Miguel Abreu, Elsa Landim, Pedro Barreira e João Rosa

Recebeu um vale-cirurgia, foi a um dos hospitais privados indicados, mas foi recusada (“disseram que não era operável”). Recebeu outro vale-cirurgia, foi a outro hospital privado, que confirmou a urgência da operação, mas precisava de um novo relatório médico do hospital público: durante o ano e meio em que esteve à espera, a condição agravou-se e a cirurgia requeria mais procedimentos. “No público não aceitaram [mudar o pedido de cirurgia]. Voltei à estaca zero. Tinha um médico disponível, mas não podia ser operada”, lamenta.

Depois de conseguir falar com o diretor clínico da unidade de Vila Real, a situação resolveu-se em agosto, quando Ariana foi operada: “Não só precisei de tirar uma hérnia, como foi necessário fazer a fusão da coluna (pôr parafusos) porque os nervos estavam a ser estrangulados pela falta de discos entre as vértebras”, explica.

Milhares à espera

O mais recente Relatório Anual de Acesso a Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas, referente a 2020, levanta o véu sobre as listas em ano de pandemia

414 000
Consulta de especialidade hospitalar

Do total de utentes em espera, cerca de 70,2% encontravam-se na lista há menos de nove meses

212 000
Lista de espera para cirurgia

No final de 2020, eram mais 46% os pacientes à espera de operação do que em 2019. A mediana do tempo de espera foi de 3,8 meses

577 000
Entradas na Lista de Inscritos em Cirurgia (LIC)

Do total, foram operadas 514 mil pessoas no âmbito do SIGIC (-18,2% face a 2019)

100
Dias para a primeira consulta

Apesar da diminuição dos inscritos no sistema Consulta a Tempo e Horas (menos 639 790), a mediana do tempo de espera aumentou

846
Atendimento SNS 24

Tempo médio de espera, em segundos, entre abril e dezembro de 2020. Nesse período, foram feitas 3 508 712 chamadas para a Saúde 24

Quem não conhece outras histórias destas? São aos milhares e milhares por todo o País. O nosso Serviço Nacional de Saúde de excelência, que tanto nos orgulha na luta contra a Covid-19, tem problemas crónicos desesperantes. Para lá da pandemia, há listas de espera gigantes e profissionais esgotados. Se não fossem eles, aliás, o drama seria bem maior.

Dentro dos hospitais, há médicos mais velhos a fazer urgências apesar de estarem dispensados delas – mas não conseguem largar um serviço que muitas vezes se torna caótico. Há enfermeiros a trabalhar 16 horas seguidas, dia após dia após dia. E, por muitos concursos que se abram para a contratação de profissionais, o Interior fica sempre à míngua com vagas por preencher. Mas quem escolhe trabalhar no serviço público mais horas por menos dinheiro?

Começa aqui uma viagem pelas maiores dores do nosso SNS.

Nascer na aflição
Na noite anterior à conversa com a VISÃO, a obstetra Elsa Landim, 37 anos, teve um turno de urgência difícil. Às tantas, tinham sido admitidas oito grávidas e estavam apenas quatro obstetras de serviço. “Já não havia tempo para transferir ninguém e, se dois bebés nascessem ao mesmo tempo, seria muito complicado”, relata. A médica tem a missão de gerir o quebra-cabeças da escala de urgência obstétrica e ginecológica do Hospital Prof. Dr. Fernando Fonseca, na Amadora. “Somos 20 obstetras, mas nem todos fazem urgência. Cada turno deve ter cinco elementos, mas normalmente são quatro, é raro o dia ou noite com cinco”, admite. 

Desde setembro do ano passado que a urgência do hospital não é totalmente encerrada, mas ainda há três semanas foi necessário entrar em contingência, ou seja, avisar o INEM para não enviar ambulâncias, apesar de continuarem a atender quem chegasse pelo seu próprio pé. Esta situação acontece quando apenas conseguem garantir três médicos de serviço. “Sempre que tomamos a decisão de fechar a urgência é para proteger as grávidas e os seus bebés”, sublinha.  

Protestos Em defesa do Serviço Nacional de Saúde, no Porto, em novembro de 2020, uma iniciativa organizada pelo PCP em vários pontos do País

O ideal seria o hospital ter 32 obstetras, estima Elsa Landim, que alimenta a esperança de, no final do primeiro trimestre do próximo ano, chegarem aos 23 especialistas. Apesar de os médicos estarem dispensados de fazer urgências a partir dos 55 anos, são muitos aqueles que continuam a fazê-las. “Na minha unidade, 80% já não teriam de entrar na escala, mas a maior parte deles entra por uma questão de solidariedade. Seria impossível funcionarmos sem eles”, garante. E é raro o dia sem um médico prestador de serviços na linha da frente, os chamados “tarefeiros”.  

A obstetra atribui a falta de especialistas, essencialmente, à pouca atratividade do SNS. “É muito mais sedutor trabalhar 30 horas no privado a ganhar mais, do que trabalhar 40 horas ou mais no público a ganhar menos”, afirma. As dificuldades de progressão na carreira são outro dos entraves: “Sou especialista desde 2016 e recebo o mesmo que um colega que terminou o internato no ano passado”, compara (o ordenado de um assistente hospitalar começa nos €2 700 brutos). Ao mesmo tempo, os hospitais com falta de recursos humanos são menos atrativos para os candidatos porque são sinónimo de mais trabalho.  

Falta de profissionais

A escassez de recursos humanos e a incapacidade de o Serviço Nacional de Saúde captar profissionais têm sido apontados como os principais desafios. O que dizem os números

30 873
Médicos

Do total de médicos a exercer no SNS, dez mil são internos

51%
Médicos no SNS

Dos inscritos na Ordem, apenas metade exerce no serviço público. Portugal tem um rácio de 5,4 médicos por 1 000 habitantes (3,5 é a média da OCDE)

1 293
Aposentações desde 2019

De janeiro a maio deste ano, aposentaram-se no SNS mais de 231 médicos, incluindo nesse número 131 especialistas em Medicina Geral e Familiar. Em 2019 aposentaram-se 409 médicos, no ano passado foram 653

49 490
Enfermeiros

Total de trabalhadores da classe de enfermagem a exercer no SNS

63%
Enfermeiros no SNS

Há 78 117 enfermeiros registados na Ordem, sendo que 113 desses estão no estrangeiro

1 532
Vagas para médicos da Área Hospitalar, Medicina Geral e Familiar e Saúde PúblicaNo concurso aberto em julho deste ano, um terço das vagas para contratar 459 médicos de Medicina Geral e Familiar ficou por preencher

7,4
Rácio de enfermeiros por 1 000 habitantes em Portugal

Em 2020, o rácio da OCDE e da União Europeia era de 8,2 enfermeiros por cada mil habitantes. Em Aveiro é de apenas 4,4/1 000

26%
Especialistas

No final de 2020, a Ordem contava com apenas 21 061 enfermeiros especialistas

“Até se pode estar a formar especialistas mais jovens, mas além de a formação em Ginecologia e Obstetrícia ser longa, a verdade é que uma pessoa quando acaba a especialidade não se sente completamente capaz de resolver todas as situações que possam surgir”, explica Nuno Clode, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina-Materno Fetal, apontando ainda a complexidade da área: “O problema que se põe é que estas especialidades são muito interdependentes. Obstetrícia não funciona sem anestesia, se não houver anestesistas não há epidurais.”

Não é só a urgência que traz dores de cabeça a Elsa Landim, coordenadora das consultas de diabetes gestacional e de planeamento familiar. Por vezes, chega a agendar 25 consultas, num dia em que deveria dar apenas 15. “Se não tenho vagas até novembro, sou obrigada a marcar consultas extras, e a usar o meu tempo, para ver aquela grávida que precisa mesmo de ser vista”, afirma. É habitual sair uma ou duas horas depois do horário estipulado. Horas essas que são oferecidas ao SNS, dado que não são pagas. “Uma vez, uma grávida ficou muito zangada por esperar quatro horas pela consulta, e eu tive de lhe explicar que todos os dias tenho de decidir se vou ou não buscar a minha filha à escola, cumprindo o meu horário, mas deixando lá os doentes”, conta.

Mais dinheiro, problemas iguais
Não seria descabido dizer que o Estado vai confiado na “carolice” dos seus profissionais de saúde, mas também não seria totalmente correto. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, a percentagem do PIB dedicado aos gastos com a saúde aumentou de 9,4%, em 2018, para 10,2%, no ano passado.

Contactado pela VISÃO, o Ministério da Saúde afirma que “a 31 de agosto de 2021 registavam-se mais 11 634 trabalhadores no SNS do que em fevereiro de 2020”. Durante este período, deu-se “a integração de 1 370 trabalhadores na área de cuidados de saúde primários, de 871 nas unidades de cuidados intensivos e de 220 trabalhadores na área da saúde pública”.

A Medicina Intensiva foi das especialidades que mais beneficiaram com o investimento financeiro. Antes da crise sanitária, Portugal dispunha de 6,4 camas de medicina intensiva por cem mil habitantes. Atualmente, existem nove. “E temos a perspetiva de crescer, até ao ano que vem, para as 11 camas por cem mil habitantes”, revela um dos elementos da direção da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI), António Pais Martins. Assim, o País ficará com praticamente o dobro das camas contabilizadas há dois anos, aproximando-se da média europeia.

O tempo nas urgências

De 28 de agosto a 27 de setembro de 2021, registou-se um total de 454 494 episódios de urgência em todo o País, segundo os dados de monitorização diária do SNS e da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS)

11 minutos
Tempo entre admissão e triagem

232 minutos
Tempo médio de permanência no serviço de urgência

39 minutos
Tempo entre triagem e primeira observação médica

Fontes: Serviço Nacional de Saúde, Análise Mensal do Balanço Social do SNS, Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros

Contudo, nesta especialidade a carência de recursos humanos continua igualmente a fazer-se sentir. O também coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos Cirúrgicos do Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, estima que faltem cerca de 40 intensivistas e 150 enfermeiros especializados só na região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), que permitiriam funcionar de forma mais “tranquila”. No entanto, Pais Martins ressalva que “é preciso não esquecer que a média de idades destes especialistas é de 55 anos, o que exigirá mais renovação”. Na semana passada, foram abertas 18 vagas para especialistas em medicina intensiva em hospitais de LVT, que fazem parte de um total de 60 lugares que serão disponibilizados a nível nacional (está ainda prevista a contratação de 626 enfermeiros e de 198 assistentes operacionais).  

Carlos Meneses Oliveira também é intensivista, mas no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, e considera que um dos principais problemas que afetam muitas unidades é a sobrecarga de casos sociais, ou seja, situações em que os doentes têm alta clínica, mas continuam no hospital. “Tem implicações porque para aceitarmos doentes, temos de dar alta a outros. E, a dado momento, não conseguimos enviar doentes para as enfermarias devido aos casos sociais”, alerta. O especialista em Medicina Intensiva explica que estas situações são mais comuns em hospitais inseridos junto de populações mais frágeis, como o Beatriz Ângelo. “Já tivemos casos de crianças em que um juiz considerou mais saudável estarem internadas do que irem para junto dos pais, que estavam em processo de divórcio”, ilustra. Chegam a estar ocupadas com casos sociais quase 10% das camas nas enfermarias, calcula.

Além de defender uma maior articulação entre os hospitais e os serviços sociais, Carlos Meneses Oliveira sente “indiretamente a falta de médicos de família”, já que a população de contextos socioeconómicos mais vulneráveis não tem alternativa ao centro de saúde, e “acaba por chegar mais doente do que deveria”.     

Trabalho duríssimo
Os problemas nas urgências não se resumem aos utentes que a elas recorrem sem extrema necessidade. “As macas nos corredores dos hospitais são um problema que se arrasta ao longo de quase todo o ano. É raro não haver doentes internados nos serviços de urgência”, descreve a presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Urgência e Emergência, Adelina Pereira, médica no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, que chega a registar 300 episódios de urgência, nos dias piores. Em 2019, a internista teve oportunidade de reunir com todas as administrações regionais de saúde para traçar o retrato das urgências do País. Sem surpresa, a escassez de recursos humanos é o principal drama. 

“Temos recebido várias queixas de vários serviços de urgência e o que acontece nessas exposições é que os colegas relatam uma sobrecarga imensa de trabalho que os leva a limites físicos, psicológicos e por vezes éticos também, pela grande afluência, mas também pelo que é uma falta crónica de enfermeiros”, diz Sérgio Branco, dirigente da Ordem dos Enfermeiros. No Hospital de Faro, um dos que têm apresentado constrangimentos nas últimas semanas, os enfermeiros do serviço de urgência “chegaram a ter cada um à sua responsabilidade cerca de 30 doentes no serviço de urgência. É humanamente impossível conseguir prestar cuidados em segurança às pessoas que nos procuram”, continua Sérgio Branco.

Sem médico de família

De acordo com os dados do Portal da Transparência, referentes a agosto deste ano, mais de um milhão de utentes não têm médico de família atribuído

42 995
ARS Alentejo

86 104
ARS Algarve

724 629
ARS Lisboa e Vale do Tejo

165 536
ARS Centro

135 983
ARS Norte

1 155 247
Total

É raro as urgências terem equipas próprias. Habitualmente, dependem inteiramente dos especialistas que fazem urgências semanalmente e de médicos sem especialidade. “O primeiro atendimento, muitas vezes, é feito por tarefeiros”, afirma Adelina Pereira. Os médicos prestadores de serviços, chamados “tarefeiros”, representam cerca de 40% da mão de obra nas urgências, segundo o Sindicato Independente dos Médicos (SIM), que estima em 140 milhões de euros o encargo com prestadores de serviços médicos no SNS, em 2019. 

“Há dificuldade de alocação de médicos à urgência porque é um trabalho duro, que pode ter uma procura enorme e imprevisível. E quem lá trabalha não tem acesso a progressão na carreira porque, em Portugal, não existe a especialidade de Urgência. Por isso, muitas pessoas acabam por ficar desmotivadas e vão-se embora”, diz Adelina Pereira. Apenas em quatro países europeus não existe a especialidade de urgência: Portugal, Espanha, Alemanha e Chipre. 

Muitos médicos foram para o privado, onde conseguem ganhar cerca de cinco mil euros de ordenado base, o equivalente ao salário de um chefe de serviço com 40 anos de profissão

Num País com 500 mil episódios de urgência por mês, sendo cerca de 40% deslocações desnecessárias, Adelina Pereira diz ser fundamental intervir ao nível dos cuidados de saúde primários, “porque muitas pessoas acabam por recorrer à urgência por não terem outra alternativa”. 

Aos 53 anos, a internista faz frequentemente 24 horas semanais de trabalho extra na urgência, mas podem ser mais, se algum colega tiver de faltar. Contudo, não considera que exista escassez de médicos em Portugal: “Eles não estão é no SNS.” E se em redor dos maiores centros urbanos do País ainda vai sendo possível encontrar profissionais para preencher vagas, nas zonas mais remotas é uma tarefa quase impossível.

Longe da capital
“Eu vi esta unidade nascer e, agora, estou a vê-la morrer. Custa-me muito pelas crianças.” O lamento do diretor do serviço de Medicina Intensiva Pediátrica e Neonatal do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) é consequência da “imensa falta de gente” de que padece o único centro hospitalar algarvio. “O que nos torna especiais é que, se fecharmos as urgências pediátricas, o hospital de referência mais próximo fica a 250 quilómetros. E transferir um prematuro para Lisboa é muito delicado, põe em risco a vida dos bebés”, alerta João Rosa.

“Na unidade de cuidados intensivos pediátricos deviam estar sempre dois médicos, mas nem sempre estão.” João Rosa reconhece que é um risco quando só está um especialista de serviço, mas é esse o preço a pagar para conseguirem continuar a responder às necessidades da população. “Abrem-se as vagas, mas os concursos ficam desertos”, diz o pediatra. “Não conseguimos competir com os privados, nem com o SNS, porque somos um hospital periférico”, nota.

Doentes em desespero Ariana Meireles (em cima, à esq.) esperou quase três anos por uma cirurgia; Maria Dulce Figueiredo, Acácio Santos e Carmen Zúnia estão entre as milhares de pessoas sem médico de família no Carregado

João Rosa já viu serem formados 50 pediatras no hospital de Faro, nos últimos 30 anos, “mas só 19 cá ficaram”, contabiliza. Muitos foram para o privado, onde conseguem ganhar cerca de cinco mil euros de ordenado base, o equivalente ao salário de um chefe de serviço com 40 anos de profissão. No SNS, os médicos com 20 anos de trabalho, ganham entre 3 200 e 3 600 euros brutos.

O infeciologista Miguel Abreu já foi aliciado pela medicina privada. Numa dessas ocasiões, ofereceram-lhe 7 500 euros brutos, por 35 horas de trabalho, com consultas extras pagas à parte. E até do estrangeiro já lhe chegaram convites. Aos 41 anos, já devia ter ascendido a assistente graduado há cerca de cinco anos, mas mantém-se como assistente hospitalar, com um ordenado a rondar os 1 700 euros limpos. “Só subo quando abrir um concurso, o que pode só acontecer daqui a vinte anos”, diz o médico do Hospital de Santo António, no Porto.  “Nunca trabalho menos de 50 ou 55 horas por semana”, garante. 

Apesar dos seus 57 anos, João Rosa continua a fazer urgências. “E também faço noites, porque se um de nós falha, o serviço fecha.” Por isso, “o trabalho dos prestadores de serviço deixou de ser excecional e tornou-se a regra em todos os hospitais”, afirma o pediatra. Nem todas as equipas veem com bons olhos os prestadores de serviços, já que a sua remuneração à hora é bastante superior à dos médicos contratados. Enquanto os trabalhadores do quadro recebem entre €15 e €20 por hora, os tarefeiros podem chegar aos €30, €40, €50 ou mesmo €60 por hora (valores brutos).

Segundo dados do Ministério da Saúde, o CHUA era o centro hospitalar com maior volume de horas de prestação de serviços médicos, em 2018, que representavam uma despesa de mais de oito milhões de euros. À VISÃO, a presidente do conselho de administração do CHUA revela que se o pagamento das horas extraordinárias dos médicos contratados aumentasse 50%, o centro hospitalar, mesmo assim, pouparia cerca de metade dos gastos com os prestadores de serviço (à volta de quatro milhões de euros, em 2018). “Se eu pagar melhor aos ‘meus’ médicos, eles fazem mais horas extraordinárias e fixam-se mais facilmente”, acredita Ana Varges Gomes. 

A angústia da operação

Em julho, de acordo com os dados do Portal da Transparência, quase 200 mil pessoas ainda aguardavam por uma cirurgia, inscritas na lista do SIGIC

79 530
Região de Saúde LVT

63 693
Região de Saúde Norte

6 158
Região de Saúde do Alentejo

9 487
Região de Saúde do Algarve

39 182
Região de Saúde do Centro

198 050
Total

Mais do que as vagas carenciadas, que procuram incentivar a mobilidade geográfica através de vários benefícios, como um acréscimo salarial a rondar os 40%, durante seis anos, é a formação de médicos no hospital que mais contribui para a sua fixação, defende Ana Varges Gomes. Além disso, as vagas carenciadas são limitadas, por exemplo, das três vagas de pediatria abertas este ano no CHUA, apenas uma era ao abrigo deste regime. 

Anestesiologia, Ginecologia, Ortopedia e Pediatria são as especialidades que “tiram o sono quase todos os dias na hora de organizar escalas”. A administradora é perentória: “Se me trouxerem um especialista destas áreas, contrato-o na hora.” Atualmente, Ana Varges Gomes tem disponibilidade financeira para contratar 150 enfermeiros, mas não consegue encontrá-los. E até já propôs à Universidade do Algarve duplicar as vagas do curso de Enfermagem de 30 para 60, por acreditar que será mais fácil fixar os estudantes algarvios. 

Classe ligada às máquinas
Segundo o Sindicato dos Enfermeiros, neste momento o número de profissionais no SNS é de cerca de 49 mil, mas continua a não ser suficiente para fazer frente às necessidades atuais e futuras. A acumulação de horas extra e a necessidade de salvaguardar turnos para garantir os serviços mínimos é uma das preocupações de Pedro Costa, presidente do sindicato.

“O limite de horas extraordinárias que está definido para os profissionais de saúde, que são 150 horas, já foi há muito esgotado. Neste momento cumprem-se jornadas de trabalho de 16 horas diárias, por exemplo”, diz, mostrando-se inquieto com a capacidade dos enfermeiros de assegurar os cuidados no resto do ano e ainda a campanha de vacinação contra a gripe, que, este ano, acontece a par da vacinação contra a Covid-19, sendo que ambos os processos de vacinação serão feitos “com os mesmos recursos, as mesmas pessoas e com uma agravante: é que há pessoas que estão a reformar-se e as admissões não são nenhumas”.

O Ministério da Saúde afirma que “a 31 de agosto de 2021 registavam-se mais 11 634 trabalhadores no SNS do que em fevereiro de 2020”. Mas há concursos que ficam sem candidatos

Mauro Rosa é enfermeiro há 18 anos e está há 15 no serviço de urgência do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. Aponta a injusta remuneração como um dos sinais de desprezo face à profissão e que traz consequências não só na motivação como na própria prática profissional e na vida pessoal – todos estes fatores também agravados pela carga excessiva de trabalho durante a pandemia. “Estou no primeiro escalão de base da carreira, tal como quando comecei a trabalhar. Ou seja, quando um colega meu inicia agora a sua atividade profissional, acabado de sair da escola, vai ter as mesmas condições remuneratórias que as minhas, apesar de eu fazer a formação dele. Isto traduz o não reconhecimento, a não valorização da carreira, valorização que, na prática, é inexistente”, explica.

Quanto a contratações, segundo o Despacho nº 4794-A/2021, dos 2 474 profissionais de saúde contratados para combater a Covid-19, 1 366 são enfermeiros. No entanto, as más condições salariais, a acumulação de horas extra e o não reconhecimento dos riscos e penalidades da profissão levam muitos enfermeiros a procurar construir carreira no estrangeiro. Só em ano de pandemia, a Ordem dos Enfermeiros recebeu 1 230 pedidos de declaração para exercer no estrangeiro.

Onde há médicos de família?
Já sabemos que não basta formar mais médicos e enfermeiros se o SNS não for atrativo para estes profissionais. Em todos os aspetos. “Há sítios sem computadores, com telefones avariados e onde chove lá dentro”, descreve o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Nuno Jacinto. Poderá ser essa uma das razões para ter ficado por preencher mais de um quarto das 435 vagas abertas em Medicina Geral e Familiar, em setembro do ano passado. 

Segundo os mais recentes dados do Portal da Transparência, referentes a agosto, há mais de um milhão de portugueses sem médico de família atribuído.  A APMGF estima que sejam necessários, pelo menos, mais 700 médicos de família no SNS para resolver este problema, sendo que a especialidade atravessa um pico de reformas que deverá estender-se até 2023. 

Apenas em quatro países europeus não existe a especialidade de urgência: Portugal, Espanha, Alemanha e Chipre. Sem ela não há progressão na carreira

O médico de família Pedro Barreira atingiu o seu limite em julho deste ano, quando deixou para trás o SNS. “A minha saída não se prendeu apenas com razões financeiras”, começa por dizer. “Os centros de saúde estão sobrecarregados de tarefas, são eles que dão apoio aos centros de vacinação, às áreas de doença respiratória Covid ou que fazem a vigilância telefónica dos doentes infetados”, ilustra. “Somos clínicos, mas também somos obrigados a ser burocratas.”

O especialista de 32 anos trabalhava no Centro de Saúde da Alameda, em Lisboa, e tinha a seu cargo 1 816 doentes, sem contar com os utentes sem médico de família – 18 mil nesta unidade de saúde. Costumava trabalhar 55 horas por semana, oferecendo 15 horas ao SNS. Agora, dá consultas no SAMS e diz ter tempo para ser médico, investigar e, até, discutir casos clínicos. Além de ter passado a trabalhar 35 horas por semana, confirma que ganha “substancialmente melhor”. 

Nuno Jacinto identifica um desfasamento entre as vagas e os locais onde os especialistas são precisos: “Há mais vagas no Norte e no Centro, mas é no Sul que elas fazem mais falta.” Também é no Norte que existem mais Unidades de Saúde Familiar de modelo B, mais autónomas e exigentes, mas mais bem remuneradas, podendo chegar aos seis ou sete mil euros ilíquidos mensais.

Mês quente da Covid Janeiro de 2021. As filas de ambulâncias à porta do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, abriram os telejornais

O Centro de Saúde do Carregado é um dos exemplos da escassez de clínicos e tem sido palco de reivindicações. Dos cerca de 13 mil moradores, pouco mais de mil têm médico atribuído. Na semana passada, a Comissão de Moradores do Carregado juntou cerca de 50 pessoas em frente ao centro de saúde numa vigília, algumas prontas a lá pernoitarem para conseguirem marcar lugar para uma das quatro consultas disponíveis no dia seguinte, como foi o caso de Carmen Zúnia, 29 anos. “Grande parte das pessoas que conheço e que precisam de médico tem de dormir aqui. Estou de baixa porque vou ser operada à coluna e quando vim renovar a minha baixa saí da consulta e não tinha como marcar a próxima, só tinha vaga para o final de novembro”, conta à VISÃO.

Seriam necessários 700 médicos de família para cobrir as necessidades de mais de um milhão de portugueses

Segundo João Silva, da comissão de moradores, o centro de saúde está “só com um médico de família há uns dois ou três anos” e o acesso a consultas é cada vez mais complicado. “As pessoas ou vão para as urgências ou têm de pagar ao particular”, tal como já aconteceu com Acácio Santos. “Tomo medicamentos para a diabetes e o colesterol, fiz análises para a diabetes mas não sei como estão, só tenho consulta para novembro. Tenho de ir pagar 55 euros a uma clínica particular. Já tive de o fazer e isto é uma vergonha.”

Os utentes do Carregado têm também dificuldade em conseguir em tempo útil baixas médicas e receitas de medicamentos. A última receita que Maria Dulce Figueiredo, 79 anos, pediu ali levou 20 dias a ficar pronta, garante. “A minha sorte é ir à farmácia e, como eles já sabem que tomo aqueles medicamentos, dão-mos e eu levo a receita quando a tiver”, relata.

À falta de médicos de família, valham-nos os farmacêuticos amigos da família! Mas quem nos pode valer quando as dores são já incomportáveis?

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