Por dentro das milícias negacionistas e antissistema

“Basta de passividade!” O apelo à união e à ação soou há três meses nos bastidores dos movimentos antissistema. No dia 25 de junho, o ex-militar Luís Freire Filipe, fundador do movimento nacionalista, identitário e negacionista da Covid-19 Defender Portugal (com quase 20 mil seguidores nas redes sociais), anunciava, num grupo privado do Facebook, a intenção de dar músculo às manifestações de rua que, desde 2017, tem vindo a organizar e nas quais participa, passando a recrutar e a utilizar mulheres e homens que, até à data, apenas demonstravam a insatisfação que sentiam sentados no sofá, por mensagens escritas ao teclado. Em meados de agosto, Luís Freire Filipe elegeu a militante Vânia Sousa, residente em Vila Nova de Gaia, para o substituir como líder do Defender Portugal, passando a dedicar-se em exclusivo ao movimento Resistência Portuguesa, um novo grupo pensado e concebido como “braço armado”, ao género de milícia, com o objetivo de “passar à ação” – e que, neste momento, já conta com cerca de duas centenas de membros, profundamente doutrinados e “preparados para a luta”.

Ao mesmo tempo, Luís Freire Filipe e os líderes de outros oito movimentos acertavam termos e concertavam esforços. Foi então criada, a 16 de agosto, a coligação negacionista Aliança Lusa: da qual também fazem parte, entre outros, o grupo Aliança pela Saúde (ex-Médicos pela Verdade), Verdade Inconveniente e Santo António de Lisboa, este último chefiado pela dupla Ana Desirat e Sónia Pritham, ambas na mira do Ministério Público (MP), na sequência das ameaças e dos insultos dirigidos a Ferro Rodrigues, no passado dia 11. O publicitário Alfredo Rodrigues, gestor da página online Quero Emigrar (com mais de 74 mil seguidores nas redes sociais), antigo responsável pelas plataformas digitais dos Médicos pela Verdade, e com conhecida simpatia pela extrema-direita portuguesa, foi o escolhido para porta-voz deste projeto, que se apresenta com apelos à ação: “O tempo é agora, o local é aqui! Este é o nosso momento!”

Vice-almirante Gouveia e Melo enfrentou pela porta da frente os protestos que o aguardavam em Odivelas

Durante os últimos meses, a VISÃO acompanhou estas movimentações por dentro. A estratégia (não escrita) que foi desenhada prevê que cada movimento continue a organizar, como até aqui, as suas manifestações de rua. Os restantes grupos passam a marcar presença nessas ações, engrossando fileiras, procurando formar, junto da opinião pública, a ideia de que a adesão e a contestação popular continuam a crescer. A Resistência Portuguesa terá estatuto de “braço armado”, fica dispensada de organizar manifestações em nome próprio, mas mantém-se omnipresente no palco das operações: os seus membros vão trajar de camisolas pretas, nas quais se poderá ler a palavra “Resistência” escrita a vermelho-forte – o grupo fica com o papel de “agitar as águas” no epicentro dos protestos, tentando, sempre que possível, promover situações de tensão e “desobediência civil” que permitam fazer disparar os níveis de adrenalina e agressividade da multidão. Os alvos principais também estão definidos: e incluem os nomes de Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues, António Costa, Eduardo Cabrita ou o vice-almirante Gouveia e Melo, entre outros.

Replicar o Capitólio?
Esta reorganização dos movimentos antissistema portugueses copia, na forma e no conteúdo, a alteração (e o extremar) da narrativa que antecedeu a invasão do Capitólio, em Washington, nos Estados Unidos da América, em janeiro deste ano, quando apoiantes de Donald Trump passaram ao ataque, numa derradeira tentativa de tomar o poder, após a derrota eleitoral do ex-Presidente republicano, que provocou cinco mortos. No caso português, o sucesso do processo de vacinação – que coloca Portugal como o país com maior taxa de população vacinada em todo o mundo –, próximo de estar concluído, fez soar os alarmes no seio dos movimentos negacionistas, levando ao precipitar do passo seguinte. Perante o cenário de extinção, os líderes reagiram, exigindo maior compromisso aos seus seguidores. A mudança de estratégia está a ser levada a sério pelas autoridades: o Serviço de Informações de Segurança e a Unidade Nacional Contraterrorismo da Polícia Judiciária já estão no terreno e, nas últimas semanas, começaram a monitorizar as atividades de pessoas e grupos que representam uma eventual ameaça.

Ouvido pela VISÃO, José Manuel Anes, fundador e antigo presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), alerta para o facto de “estes grupos, que aparentemente parecem algo folclóricos, serem, na verdade, um problema real para a segurança”. O criminalista e professor universitário recorda que “o que aconteceu no Capitólio, foi concretizado por movimentos deste tipo”. “O risco é este: sabemos sempre como é que estas coisas começam, mas depois nunca conseguimos saber como é que acabam. Acredito, sinceramente, que estes grupos que existem em Portugal, se tivessem oportunidade de conquistar a mesma dimensão e força que têm os dos Estados Unidos da América, também seriam capazes de realizar, no nosso país, uma ação idêntica à que ocorreu em Washington. E isso é, de facto, muito preocupante e assustador, uma coisa com que precisamos de lidar com muito cuidado”, diz.

A solução, porém, não parece fácil. “Eles lutam contra aquilo a que chamam de ‘sistema’. Portanto, qualquer argumento, por mais delirante que seja, permite-lhes desestabilizar esse ‘sistema’. No fundo, é isso precisamente que pretendem. Antigamente, estes grupos eram chamados de anarquistas, muito ligados à extrema-esquerda. Hoje, este fenómeno está muito mais ligado aos movimentos de extrema-direita”, afirma José Manuel Anes.

Ódios de estimação

Os movimentos antissistema partilham uma postura de oposição à ordem vigente. Os políticos no poder tornam-se, por isso, os principais alvos a abater. No contexto pandémico, nas redes sociais, cada negacionista é juiz e algoz – mas pode o ódio ganhar vida real?

Marcelo Rebelo de Sousa
O Presidente é considerado o principal cúmplice do Governo. E uma grande desilusão

Eduardo Cabrita
É o ministro mais citado (e detestado). Responsabilizado pela morte do trabalhador atropelado na A6

António Costa
Apontado como líder de um grande projeto genocida. As origens goesas servem a ataques racistas e xenófobos

Gouveia e Melo
Caricaturado como o diabo na Terra. Ao vice-almirante, apontam-lhe futura condenação em tribunal (normalmente em Nuremberga)

Ferro Rodrigues
Com recurso a fake news, difamam-no diariamente. Já sentiu na pele até onde pode ir o ódio

A natureza “fora da lei” da Aliança Lusa afastou da linha da frente da coligação dois dos movimentos inorgânicos que mais pessoas mobilizam no País: o Movimento Zero, constituído por polícias da PSP e GNR, e o Habeas Corpus, personificado no juiz Rui Fonseca e Castro. A ligação destes grupos à Resistência Portuguesa – e, por associação, aos seus integrantes – é, no entanto, inegável. Luís Freire Filipe foi, aliás, quem deu a cara pela manifestação do Movimento Zero, realizada no dia 21 de junho, que estava prevista para o Parlamento, mas que acabou por derivar para uma visita não autorizada ao Ministério da Administração Interna, no Terreiro do Paço, provocando o caos em várias artérias da cidade. A situação motivou a abertura de um inquérito pelo MP, ainda sem conclusões. Já o juiz Rui Fonseca e Castro também enfrenta um inquérito do MP, pelo alegado crime de difamação contra Ferro Rodrigues, depois de ter chamado “pedófilo” ao presidente da AR. Contra o magistrado corre também um processo disciplinar no Conselho Superior da Magistratura – a decisão será conhecida no dia 8 de outubro. Apesar do posicionamento nestes casos, neste momento, aconselhar a mais cautelas, a VISÃO sabe que todos os movimentos da Aliança Lusa se mantêm comprometidos em apoiar estes grupos no futuro.

Ferro Rodrigues: negacionistas cantam vitória
O ataque a Ferro Rodrigues, no passado dia 11, não teve nada de planeado, mas o momento espontâneo está agora a ser usado como um “cartão de visita” pelos negacionistas, que têm procurado retirar proveitos do incidente. Tudo aconteceu quando alguns manifestantes – reunidos às portas do Parlamento, para uma ação com o mote “Pelas nossas crianças – Rumo à Liberdade” (na qual discursou o ex-candidato presidencial Fernando Nobre), agendada para aquela tarde – se aperceberam da presença da segunda figura do Estado, num restaurante das proximidades. Ferro Rodrigues almoçava, na companhia da sua mulher, no âmbito da sua vida privada, mas tal não impediu que fosse cercado, insultado e ameaçado, acabando brindado pelos presentes com gritos de “assassino”, “bandido” e “pedófilo”, durante largos minutos, antes de abandonar o local sob escolta dos seguranças que o acompanhavam, debaixo de vaias e insultos – episódio que levou a PSP a reforçar as medidas de segurança do presidente da AR, que passou a ter mais três polícias ao seu dispor.

Os negacionistas têm aproveitado para reivindicar a autoria do ataque, descrevendo-o como “uma grande vitória”. Nos bastidores, os mais otimistas insistem em ler no ataque um ponto de viragem – com muito mais vantagens do que desvantagens –, que permitiu ver uma versão mais “determinada” destes movimentos, até então não revelada, mas que agora todos anseiam por ver repetida. E nem sequer a confirmação da instauração de um inquérito aos incidentes, pela Procuradoria-Geral da República, com origem na participação dos factos pela PSP, nas mãos do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, parece ter esmorecido o entusiasmo. Todos confiam que o processo “não vai dar em nada”.

Luís Freire Filipe, o ex-militar sedento por ação

De perfil nacionalista e identitário, o líder da Resistência Portuguesa não perde a oportunidade de falar do sangue templário que lhe corre nas veias

No dia 13 de dezembro de 1985 (uma sexta-feira 13), os fios do paraquedas de Luís Freire Filipe, de apenas 20 anos, enredaram-se nos do colega, fazendo com que caísse no solo, desamparado. Sobreviveu por pouco, mas os ferimentos graves colocaram um ponto final na sua carreira militar. “Foi o momento mais difícil da minha vida. Os meus sonhos caíram por terra, o meu futuro ficou hipotecado. Durante algum tempo, andei perdido.”

Passou pelos bombeiros e pela segurança privada, mas sem nunca encontrar um sentido para a vida. Até 2017, quando tudo se alterou. “Depois dos incêndios de Pedrógão Grande, decidi que já chegava, que estava na hora de fazer mais alguma coisa pelo meu país. E então… dei o salto.” Nascia assim o ativista Luís Freire Filipe.

Este ex-militar, de 57 anos, casado, pai de quatro filhos e avô de cinco netos, nasceu em Alvide, uma pequena povoação no concelho de Cascais, no seio de uma família humilde. Filho e neto de pastores, cresceu na tranquilidade do campo, embalado pelas histórias que o seu avô materno, de apelido Freire, lhe contava ao serão, sobre os seus antepassados templários – despertando-lhe o desejo de, um dia, também ele poder vir a cumprir a sua cruzada. Com apenas 9 anos, esbarrou com um paraquedista, que encimava orgulhosamente a sua boina verde, tornando-se obcecado pelo sonho de se tornar militar.

Órfão de ação, impedido de pôr em prática um amor patriótico exacerbado, fiel aos valores ultracatólicos herdados por antepassados templários, Luís Freire Filipe radicalizou-se. Encontrou guarida no ideário nacionalista e identitário – assumindo-se como o escolhido para o impor através da “luta” nas ruas.

Este inesperado trunfo começou a ser jogado por via da atenção que o incidente mereceu pela comunicação social – holofotes sempre desejados pelos negacionistas, embora nunca assumidamente. As imagens do momento, de uma violência incomum, tornar-se-iam virais, ultrapassando as fronteiras das redes sociais – campo de doutrinação e recrutamento por eleição destes grupos –, chegando a um conjunto muito mais vasto da população. A curiosidade fez aumentar o número de visitantes nas páginas dos grupos negacionistas nas redes sociais, levando os gestores a reforçarem a atividade, naquilo que foi um esforço para credibilizar a coleção de teorias da conspiração em que se baseia a sua atividade. Como? Credibilizando os conteúdos através da voz de personalidades reconhecidas pelo grande público, e que, por regra, têm opiniões que vão ao encontro do pensamento contracorrente – é o caso de Fernando Nobre, médico e fundador da AMI – Assistência Médica Internacional, que garante ter-se curado da Covid-19, a si e à sua família, com recurso a azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina, medicamentos que Donald Trump e Jair Bolsonaro também defendem, mas que não têm eficácia comprovada para o tratamento da doença. Ou ainda das comentadoras Joana Amaral Dias e Raquel Varela, que têm adotado posições críticas em relação às medidas para a contenção da pandemia definidas pelo Governo. Verdadeiros influencers que mobilizam milhares de pessoas através do ecrã.

Resultado imediato deste plano foi o aumento do número de candidatos interessados em participar nesta “luta”. Na sequência, o responsável pela Resistência Portuguesa decidiu agendar, à pressa, na passada quinta-feira, dia 16, uma ação de formação extra, marcada para Coimbra (no próximo sábado, dia 25). Adivinha-se um novo grupo de “resistentes”. Em surdina, o próprio Luís Freire Filipe tem confessado, junto dos colaboradores mais próximos, que tem a expectativa de que o episódio com Ferro Rodrigues “tenha mesmo sido o início” de algo diferente. A prioridade, para já, é acelerar o treino do seu “braço armado”, para, em breve, voltar ao campo de batalha.

Resistência Portuguesa: o “modus operandi”
“Encontro: Coimbra. Ponto de encontro: Estação Coimbra-B. 25 de setembro. 09h00.” O procedimento é sempre igual. Os interessados candidatam-se às ações de formação no grupo privado da Resistência Portuguesa no Facebook (já com perto de dois mil membros), mas só depois de “analisados e validados” pelo próprio Luís Freire Filipe é que passam à próxima fase. O candidato aprovado é contactado, por mensagem privada, altura em que lhe são pedidos os dados pessoais e o contacto. Resta, depois, aguardar pelos desenvolvimentos. A informação indicando data, hora e ponto de encontro é publicada no grupo. “Neste grupo, pouco ou nada vamos falar e escrever. Será somente o ponto de encontro para marcar ações, quer sejam online ou presenciais (…) só entra no grupo quem eu conhecer muito bem. Como já perceberam, vamos fazer a coisa com mais assertividade, como tal, somente podemos contar com poucos. Assim sendo, mesmo os poucos que sejam devem ser de confiança e teremos que contar com todos na hora da verdade. Até lá cuidem-se e procurem pelo menos um [elemento] que entendam convidar para este lugar”, lê-se numa mensagem de 26 de junho. Em nota de rodapé, deixam-se os restantes conselhos: “Tragam roupa prática e ténis, água e alimentação e evitem usar anéis, brincos ou relógios.”

O ponto de encontro escolhido é, normalmente, uma zona central e de fácil acesso. Chegados ao local, os participantes recebem, pontualmente, uma SMS que vai, finalmente, indicar o local exato onde vai decorrer a ação. Só nessa morada os participantes sabem o que vão encontrar – nos últimos três meses, já houve encontros em salas de condomínio, anfiteatros, pavilhões e até num armazém abandonado. Tudo depende do que os colaboradores locais conseguem arranjar. Para lá da porta, pouco ou nada se sabe. Quem entra no grupo faz um pacto de silêncio sobre o que aconteceu (ou o que vai acontecer) – o secretismo faz parte de todo o processo e é respeitado religiosamente. Foi assim que a Resistência Portuguesa foi crescendo. Neste momento, conta com cerca de 200 membros. O grupo, fundado a 25 de junho, organizou, seis dias depois, uma primeira reunião online. Seguiram-se ações de formação presenciais que cobriram todo o território nacional, de norte a sul, e passaram por Póvoa de Varzim, Gondomar, Cucujães (Aveiro), Viseu, Seia, Fátima, Lisboa e Loulé. A próxima reunião, marcada para Coimbra, surge de surpresa, e é a última antes do anunciado encontro nacional, agendado para o fim de semana de 2 e 3 de outubro, em Oeiras.

Após semanas de insistência, que incluíram contactos com várias pessoas, Luís Freire Filipe aceitou conversar com a VISÃO sobre o movimento. Cauteloso, começou por explicar que “os encontros são reuniões presenciais, que incluem ações formativas, desenvolvidas por mim, direcionadas para a sociedade civil, com uma vertente teórica e prática”. “Durante oito horas, através de uma carga intensiva, física e psicológica, é possível capacitar qualquer pessoa para a luta”, garantiu. Mas, afinal, que luta é essa? “Existe muita energia acumulada. A pressão que tem surgido nas ruas já é sinal do nosso trabalho. No fundo, isto é o culminar de um ciclo, onde passamos a ações mais concretas, mais assertivas, que vão caracterizar-se, sobretudo, pela desobediência civil. Estamos a preparar as pessoas para isso. O que vamos fazer… isso é o segredo”, diz, de sorriso no rosto.

Desobediência O ataque a Ferro Rodrigues é descrito nos bastidores negacionistas como “uma grande vitória”

O ex-militar, de 57 anos, não esconde a raiva que o domina pelo rumo que o País tem tomado nas últimas décadas. E atira a vários alvos, num discurso que enfia no mesmo saco Presidente da República, Governo e responsáveis pelo combate à pandemia: “Eu sou isento, não acredito em partidos e políticos. Mas o que hoje está a acontecer é que não pode ser… Não sou negacionista, mas cedo percebi que alguma coisa não estava a soar bem… Os atuais governantes estão a destruir o País, a colocar em causa o futuro da nação, das famílias, das crianças… E, neste momento, acredito que é preciso um regime diferente, porque não acredito na democracia tal como ela existe. Para mim, isto não é uma democracia. A revolução do 25 de Abril foi uma grande manobra militar, mas, depois, os militares falharam quando decidiram entregar a nação a inimigos. É por isso que estamos aqui. Tentamos chamar a atenção para o que se está a passar no País, acreditamos ter a solução, e vamos lutar por isso. Estamos dispostos a ir até ao fim, mas tudo depende do Governo. Se nos ouvirem, muito bem; mas se não quiserem fazê-lo, teremos de nos fazer ouvir. E essa parte, como tudo vai acontecer, para já, só sabe quem faz parte do nosso grupo. Este é o último aviso, não queremos violência… Mas existe um limite. E, se for preciso, fazemos mesmo uma revolução. Por mim, estou disposto a ir até ao fim. E, para mim, ir até ao fim é ir até à morte.”

O fundamentalismo torna-se cada vez mais palpável, à medida que a conversa prossegue. Perante o alerta, tentamos compreender melhor as posições políticas de um homem que se diz admirador de Francisco Sá Carneiro, mas que identifica a trilogia Deus, Pátria e Família – utilizada pela ditadura do Estado Novo – como solução para o presente. “Acredito que permitiria mitigar muitos dos problemas que vivemos”, completa.

Desfiamos o novelo, questionando se, atualmente, existe algum político português em que se revê ou que apoiaria. “É difícil. Precisamos de um líder que nos comande, isento, que não esteja lá só para agradar. Um líder que, em primeira instância, deve ser nomeado, e não eleito. Quem? Neste momento, há pessoas com potencial, margem de crescimento, para se tornarem bons líderes. Pedro Passos Coelho esteve perto, mas faltou-lhe fibra, vacilou em algumas ocasiões, perdeu assertividade. O André Ventura tem potencial. Tem uma chama de querer mudar, mas precisa de alinhar-se, de sair do sistema, de se descolar do sistema político e apresentar-se para liderar um projeto de forma pura, com os princípios e valores que tem. É preciso ousar, focar, fazer! Dar tudo! Demora-se mais tempo para chegar à liderança, mas é preciso dar esse passo”, conclui.

Glossário de nacionalistas e negacionistas

Os movimentos antissistema utilizam a mesma cartilha. Os termos mais utilizados são partilhados em grupos do Facebook e do Telegram por nacionalistas, identitários e negacionistas

Elites
Defendem que a pandemia nasceu para exercer poder e controlo, com motivações económicas e políticas, por uma elite mundial. O grupo de Bilderberg, Bill Gates e George Soros são normalmente citados.

Corrupção
Encontram na corrupção a causa para todos os problemas do Estado. Os partidos da direita radical usam o mesmo expediente para atacar o poder e captar a atenção dos mais revoltados.

Ditadura sanitária
É o termo utilizado para descrever o conjunto de medidas levadas a cabo pelos governos para o controlo da pandemia.

Pedofilia
O caráter ignominioso da pedofilia serve para despertar reações viscerais. Nos Estados Unidos da América, o grupo QAnon alega que Donald Trump está a travar uma guerra secreta contra uma rede global de pedófilos, liderada pelos democratas.

Sá Carneiro
O nome de Sá Carneiro é requisitado pelos grupos portugueses. Falecido em 1980, o fundador do PSD e antigo primeiro-ministro conquistou aura de D. Sebastião e de contraditório ao atual Governo.

Vacinas
As vacinas são classificadas como veneno ou apenas experimentais. A sua distribuição massiva é vista como um meio para as farmacêuticas enriquecerem com o beneplácito dos governos.

Luís Freire Filipe está convicto de que deu precisamente “esse passo”. A sua aposta teve, de facto, consequências – um ponto sem retorno que varreu, de cima a baixo, a sua vida pessoal: “Já não tenho nada. Perdi tudo o que tinha pela causa. O carro, a casa… e agora até a família”, confessa.

Acampando à porta da AR, acompanhado pelo grupo Santo António de Lisboa, de Ana Desirat e Sónia Pritham – pelo menos até ao próximo domingo, dia das eleições autárquicas, para quando está prevista nova manifestação que vai apelar à abstenção –, o líder da Resistência Portuguesa relata que “alguns seguidores têm contribuído com donativos para o grupo”, mas que os mesmos são, para já, “insuficientes”. O grupo adquiriu um gerador, rádios de comunicação e até um pequeno palco. Comprar uma carrinha é a próxima meta – ao volante estará este homem. O destino final ainda ninguém o conhece.

Redes sociais: campo minado
O advento dos movimentos antissistema teve origem nas redes sociais, que, ainda hoje, são terreno fértil para recrutar novos militantes. O problema parece não ter solução à vista. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), referente a 2020, publicado em março deste ano, já alertava para o fenómeno, e para um aproveitamento da situação pela extrema-direita (em ascensão): “Em relação aos movimentos que atuam na órbita do extremismo político (…) o confinamento social imposto pela crise pandémica aumentou o tempo da exposição da sociedade em geral, e dos jovens em particular, ao meio online e abriu um leque de oportunidades para que os movimentos tradicionais de extrema-direita disseminassem conteúdos de propaganda e de desinformação digital, com vista a aumentar as suas bases sociais de apoio, a galvanizar os sentimentos antissistema e a reforçar a radicalização de base xenófoba, recorrendo a um discurso apelativo da violência e do ódio, num momento em que a sociedade portuguesa é, também, confrontada com fenómenos de polarização ideológica (…) também se aproximaram de movimentos sociais inorgânicos, nomeadamente dos grupos negacionistas da pandemia.”

Treinos As ações de formação têm vertente teórica e prática, realizam-se à porta fechada e duram oito horas. O pacto de silêncio é cumprido à risca

À VISÃO, Gustavo Cardoso, professor catedrático no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), diretor do Observatório da Comunicação (OberCom) e coordenador do MediaLab do ISCTE, recorda que “as redes sociais sempre tiveram uma dupla função de comunicação e organização, que permite conciliar a nossa vida pessoal e profissional, enquanto nos aproximamos de pessoas mais parecidas connosco – sejam elas familiares, amigos ou colegas de trabalho”. “É um espaço que assegura condições para a criação de grupos com interesses comuns, constituídos por pessoas que não se conhecem pessoalmente, mas que pensam da mesma maneira. E isso pode ter utilizações positivas e negativas. É este o ponto de partida do problema de que estamos a falar”, afirma.

SIS e PJ atentos às movimentações

O apelo à ação nos bastidores dos movimentos antissistema mereceu resposta imediata

Lei e ordem
A mudança de estratégia dos movimentos antissistema está a ser levada muito a sério pelas forças de polícia e segurança: a Unidade Nacional Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária e o Serviço de Informações de Segurança (SIS) já estão no terreno. Nas últimas duas semanas, as autoridades tiveram a oportunidade de monitorizar e classificar as atividades de pessoas e grupos identificados como uma eventual ameaça à ordem pública, sinalizando os principais líderes. O ataque contra Ferro Rodrigues fez soar os alarmes. As próximas manifestações vão servir para sentir o pulso aos reais níveis de agressividade – a gerar maior preocupação, até pelo histórico recente, está a possibilidade de o Conselho Superior da Magistratura poder decidir pela expulsão da magistratura do juiz Rui Fonseca e Castro, na primeira semana de outubro, situação com potencial para gerar forte perturbação da ordem pública.

Mas quem são, afinal, estas pessoas que usam a internet para defenderem, com unhas e dentes, as mais extraordinárias teorias da conspiração, rejeitando as evidências científicas? “Há uma regra não escrita, aplicada à comunicação na internet, que nos indica que, no universo da desinformação e das notícias falsas, 1% das pessoas são responsáveis pela criação dos movimentos, 9% pela transmissão de conteúdos e 90% por os divulgarem através de partilhas”, afirma Gustavo Cardoso. Embora cada pensamento contracorrente tenha as suas próprias motivações, o académico conclui que “estas pessoas não aceitam a existência da pandemia ou a sua gravidade, porque aceitar a realidade, tal como ela é, colocaria em causa alguma coisa que lhes é importante, da vida pessoal ou profissional de cada um”. “Isso significa coisas diferentes, para pessoas diferentes. O negacionismo, no fundo, pode ser visto como uma defesa face à pandemia. Importante é compreender isto: os negacionistas não são o mal encarnado, mas pessoas como as outras, que, sobre esta questão, têm uma posição diferente da maioria. Se violarem a lei, têm de ser tratadas como todas as outras pessoas que violem a lei, mas, para ‘combatê-las’, basta tentar que elas vejam a realidade de uma forma mais saudável, para elas e para o todo da sociedade”, acrescenta.

Alvos Os negacionistas já escolheram os “inimigos”. Secretas e polícias estão atentos às últimas movimentações

Um relatório publicado no início deste ano, pela revista médica britânica The Lancet, concluía que, atualmente, 31 milhões de pessoas em todo o mundo seguem grupos antivacina no Facebook e que há 17 milhões de pessoas que subscrevem canais no YouTube com a mesma temática. O artigo acrescentava ainda que os conteúdos das pessoas e dos grupos de notícias falsas valiam algo, à época, como mil milhões de dólares de receita anual para as empresas que detêm as principais redes sociais. Face aos lucros, Facebook e outras plataformas têm sido brandas – o que também constitui um problema de difícil resolução.

Gustavo Cardoso admite que “não há uma solução única para este problema”, mas que nos resta “enfrentar os desafios que se nos colocam, procurando, a seu tempo resolver cada um deles”. “Estas coisas não se vão resolver pelo exercício da proibição ou da violência pelo Estado. Não podemos desesperar e, sobretudo, não podemos ser ingénuos. Os problemas nas redes sociais não se esgotam no negacionismo. Já houve outros e, certamente, quando este passar, outro novo vai surgir”, conclui.

Obscurantismo pela Europa

Os movimentos antissistema na Europa continuam a usar a pandemia para mobilizarem ações que visam criar perturbação social e política. A extrema-direita na Alemanha e em França aproveita para recrutar e crescer

À boleia da pandemia, os movimentos antissistema têm conquistado terreno em países como Alemanha, França ou Países Baixos. Os protestos e apelos à ação têm aumentado de volume nos canais dedicados à produção e à divulgação de teorias da conspiração, que ganharam vida – e braços longos – em redes sociais como Facebook, Instagram ou Telegram. A crescente adesão a estes grupos tem-se feito sentir nas mais recentes manifestações. Convocadas por movimentos antissistema, com ligações à extrema-direita, as ações que contestam as medidas de contenção da pandemia e os processos de vacinação têm conseguido encher, com dezenas de milhares de pessoas, as ruas das principais cidades destes países.

Na Alemanha, os níveis de alerta estão no máximo. Em vésperas das eleições legislativas, marcadas para o próximo domingo, o Facebook decidiu remover quase 150 contas e páginas ligadas a ativistas negacionistas, ao abrigo de uma nova política que visa prevenir a “perturbação social coordenada”. Sob a mira das autoridades está o movimento radical Querdenken 711, nascido em Estugarda (711 é o prefixo telefónico da região), mas que, ao longo dos últimos meses, conseguiu espalhar a sua mensagem por todo o país. O grupo inorgânico começou por reunir ativistas anticonfinamento, antimáscaras, antivacinas e adeptos das teorias da conspiração, mas radicalizou-se, e através de um discurso de ódio e incitamento à violência passou a atrair militantes de extrema-direita. O episódio mais tenso (e grave) ocorreu num protesto realizado a 30 de agosto, quando uma turba de radicais, alguns com bandeiras do Terceiro Reich – nome dado à Alemanha nazi – tentou invadir o Bundestag, o parlamento alemão, tendo sido repelidos com violência pelas forças policiais.

Em França, o cenário não é muito diferente. Num país em que os protestos de rua fazem escola, as manifestações dos movimentos antissistema têm apontado ao certificado de vacinação exigido pelo governo. No passado dia 16, o executivo de Emmanuel Macron enfrentou o embaraço de, pela voz do seu ministro da Saúde, Olivier Véran, anunciar a suspensão, sem vencimento, de cerca de três mil profissionais de saúde que continuam a recusar tomar a vacina contra a Covid-19. Numa altura em que as forças da extrema-direita francesa, liderada por Marine Le Pen, procuram reencontrar o seu espaço político, depois dos últimos desaires eleitorais nas regionais de junho passado, apontando agora às presidenciais de 2022, o discurso contracorrente torna-se, neste momento, o principal aliado do extremismo, representando um verdadeiro teste às estruturas democráticas europeias.

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Fact Check: André Ventura foi nomeado para prémio que distingue personalidades que lutam contra a corrupção?

O jornal I-Inevitável noticiou que André Ventura tinha sido nomeado para prémio anticorrupção. O líder do Chega regozijou-se no Twitter. Mas será, de facto, mesmo assim?