O que já sabe a Ciência sobre o que pensam os cães?

Quando está deitado e sossegado, Índio lembra o corgi cuja fotografia abre este artigo – embora seja da raça jack russell, tem as mesmas cores e o mesmo ar cómico. Só não o recordo tão pensativo (ou deveria escrever apreensivo?) como o cão destas páginas. No último fim de semana, os seus olhos derretiam sob o olhar dos donos, como se mimetizasse a ternura que sentem por ele.

Há mais de três anos que Sofia, Ricardo e o filho de ambos, Manuel, de 12 anos, vivem em Bali, na Indonésia. Quanto a Índio, ficou em Portugal, numa quinta de amigos, porque o projeto da família era de apenas passar um ano fora do País. Desde então, os quatro só se juntam nas férias grandes.

O pequeno cão habituou-se a gastar os dias na companhia de outras pessoas e ao ar livre, mas chega ao verão e retoma as rotinas anteriores. Em casa dos donos, em Lisboa, cumpre as regras de sempre, nas idas à rua obedece às suas ordens. Parece feliz, pensei ao vê-lo. “É mesmo querido e inteligente”, comentei, sem hesitar.

O comentário não me saiu da boca para fora apenas por também ter um cão. Chegados a setembro de 2021, não precisamos de gostar ou de conviver com cães para já termos ouvido falar nas suas capacidades cognitivas e nas suas emoções. E para sabermos que interagem connosco como mais nenhuma outra espécie.

“Os cães têm uma grande capacidade de se envolverem com seres humanos. São capazes de perceber o que queremos deles só através da observação”, salienta Ilda Gomes Rosa, veterinária especializada em Comportamento e Bem-estar animal. A também professora na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa dá o exemplo do cão que fez chichi ou cocó fora do sítio definido para o efeito. “Ele sabe que fez asneira? Não, não sabe. Mas assim que o dono entra em casa fica a saber, porque consegue interpretar as suas reações.”

Este elo é fruto de mais de 20 mil anos de convivência próxima, e Ilda designa-o de “convergência emocional”, ou seja, a habilidade que o cão foi adquirindo ao longo dos tempos para compreender, também, as nossas emoções. Há quem lhe chame “convergência psicológica”, o conceito é o mesmo e é fascinante.

Questão de inteligência
Longe vão os tempos em que os investigadores eram olhados de lado quando se propunham a estudar os cães do ponto de vista da cognição – pior ainda se aventavam a hipótese de eles serem capazes de comunicar com os seres humanos. Mas as coisas mudaram tanto que, neste preciso momento, há uma equipa na Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA), a tentar determinar se os cães são capazes de traduzir os seus pensamentos em palavras que nós, humanos, possamos entender com o auxílio de um aparelho de linguagem. No fundo, é como se os pusessem a falar.

Foi nessa universidade que Alexandra Horowitz, autora de vários livros sobre o que se passa na cabeça dos cães, se doutorou em Ciências da Cognição. O ano era 2002 e o júri torceu o nariz ao tema apresentado. “Era gente dos primatas”, recordou recentemente a especialista em Comportamento Animal ao Washington Post. “Tentar demonstrar-lhes que podia haver algo interessante nos cães foi um desafio. Não é que nunca ninguém tivesse olhado para eles, mas não estavam a olhar para as suas mentes.”

Quase 20 anos depois, Horowitz é professora no Barnard College, em Nova Iorque, onde recentemente desenvolveu um estudo sobre a importância do treino do faro no otimismo dos cães. Como ela, hoje são muitos os investigadores que estudam os seus processos de aprendizagem, de resolução de problemas e de comunicação. E as surpresas também têm sido muitas.

Os últimos estudos demonstraram, por exemplo, que os cães conseguem seguir o nosso pensamento mesmo sem ordens verbais (ainda só não está claro se olham para a mão que aponta ou para a expressão facial) e que são inteligentes a obterem o que querem (comem com mais frequência os alimentos proibidos se os seres humanos não os conseguirem ver). Mas há mais.

Assistir a um vídeo em que aparece um cuidador que lhes é próximo ativa regiões do cérebro ligadas a emoções semelhantes àquelas que são ativadas na relação mãe-criança. E um treino com o chamado reforço negativo (puxar a trela com força, por exemplo) provoca alterações emocionais duradouras, tornando o cão menos otimista.

Através da domesticação, alterámos o seu desenvolvimento; as capacidades são, já, biológicas

Todas estas descobertas fascinam Gonçalo da Graça Pereira, veterinário e especialista em Comportamento e Bem-estar animal. Entre tantos projetos, o também fundador e diretor científico-pedagógico do Centro para o Conhecimento Animal tem estado particularmente atento aos desenvolvidos por Claudia Fugazza, em Budapeste (ver caixa). “No dia a dia, temos dezenas de exemplos da capacidade cognitiva fantástica dos cães – há animais que reconhecem 60, 70 ou 80 palavras! – mas os estudos são importantes para confirmar e explicar”, sublinha.

Tem sido sempre assim. Se os donos dos cães sabem que, quando eles metem alguma coisa na cabeça (“Quero chegar àquele pedacinho de comida que está ali em cima da mesa”), acabam por arranjar forma de o conseguirem, este seu “inside learning”, ou seja a capacidade de resolver um problema perante uma situação nova, foi durante muitas décadas controverso.

“Isso implicava dizermos que os outros animais eram capazes de raciocinar como nós. Começámos, por isso, por admitir essa capacidade só aos primatas”, recorda Gonçalo da Graça Pereira. “Ao ver uma banana a boiar num lago, o primata agarra no tronco de uma árvore, puxa a banana e come-a”, exemplifica. “Mas, hoje em dia, sabemos que não são apenas os primatas.”

Efeitos da domesticação
Em cima da mesa já não está sequer a questão de os animais serem ou não inteligentes – e, sobretudo, ninguém compara as capacidades cognitivas entre espécies diferentes. Faz mais sentido comparar entre eles, no caso dos cães seja entre raças ou mesmo entre indivíduos.

Se é verdade que determinadas raças estão associadas a certas tarefas (caça, pastoreio, companhia), cada cão tem as suas apetências e qualidades específicas. Esse é precisamente o foco de Brian Hare, professor e investigador no Centro de Cognição Canina da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, que fala de personalidade cognitiva quando se refere às características de cada cão, como ter uma boa memória espacial ou ser muito bom a interpretar os gestos humanos.

“No futuro, quero compreender como essas capacidades se desenvolvem em cachorros, e se as diferenças entre os cães podem prever o seu êxito neste ou naquele treino”, disse à VISÃO, via email. “Tenho esperança de que possamos usar esta informação para melhorar os treinos e ter cães mais competentes em situações de resgate, a ajudar pessoas com deficiência, a encontrar bombas, etc.”

No final da década de 1990, ainda durante a licenciatura em Antropologia Biológica, Hare estava a investigar chimpanzés quando se apercebeu de que eles não eram capazes de fazer uma coisa que os seus cães faziam: seguir um gesto a apontar para a comida. Fascinado, nunca mais parou de estudar o comportamento dos cães, ao mesmo tempo que apostava na divulgação científica – o seu primeiro livro, The Genius of Dogs: How Dogs Are Smarter Than You Think, publicado em 2013, foi logo um best-seller.

Vinte anos depois, este especialista continua a considerar fascinante como os cães evoluíram com a domesticação para cooperarem e comunicarem connosco. No seu último estudo, publicado em julho, realizou uma série de testes de cognição e de temperamento com crias de lobo e de cães, para determinar se as capacidades que os cães têm para interagir connosco são biológicas ou aprendidas. E o resultado foi aquele que esperava.

Os cachorros, com apenas 5 a 18 semanas, eram mais atraídos para os seres humanos, liam melhor os seus gestos e estabeleciam mais contacto visual com eles do que as crias de lobo. Conclusão: através da domesticação, alterámos o seu desenvolvimento; ou seja, as suas capacidades são, já, biológicas.

Se o objetivo de Brian Hare é muito prático (até por ser mais fácil obter financiamento para projetos com aplicação no terreno, admite), a sua colega Ellen Furlong, professora na Universidade de Wesleyan, no Illinois, aposta nas emoções. No início de cada ano letivo, pergunta aos alunos se os seus cães são felizes, lembrando-lhes que os animais têm necessidades diferentes das nossas. Os estudantes ficam sempre um pouco ofendidos com a pergunta, mas acabam motivados a conhecerem melhor os seus cães. Fazem bem. Já dizia Santo Agostinho que só amamos aquilo que conhecemos. *Com Rui Antunes

Entre talentos inatos e talentos aprendidos

Nem todos os cães são como a genial Chaser, mas muitos outros serão capazes de identificar palavras e de imitar comportamentos. É isso que a etologista Claudia Fugazza, da Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, na Hungria, tenta provar

‘CHASER’
Esta border collie americana foi apelidada de “a cadela mais inteligente do mundo”. Treinada por um professor universitário de psicologia reformado, Chaser identificava 1 022 brinquedos pelos nomes. Aos 5 meses, já tinha aprendido 50 palavras, aos 7 meses e meio reagia a 200, com 1 ano e meio ia nas 700 e, aos 3 anos, reconhecia mais de mil. Podemos rever a sua história no canal de YouTube John Pilley – Chaser the Border Collie

‘VICKY NINA’
Num estudo publicado em janeiro deste ano, na revista Scientific Reports, a equipa de Claudia Fugazza verificou que esta yorkshire terrier foi capaz de aprender uma nova palavra depois de a ouvir apenas quatro vezes. Uma aprendizagem rápida que parece semelhante à forma como as crianças adquirem o seu vocabulário por volta dos 2 ou 3 anos

‘OLIVA’
Como as amostras são habitualmente pequenas, Claudia e os seus colegas do Family Dog Project da universidade de Budapeste pediram aos donos de 34 cães de várias raças para lhes ensinarem os nomes de dois brinquedos separados. Entre eles, só esta cadela border collie passou o teste – prova de que o talento é algo especial

‘FAZ COMO EU FAÇO’
Do As I Do é o nome oficial do método de treino inventado por Claudia Fugazza, depois de descobrir que os cães são capazes de observar e imitar as ações dos donos. Uma capacidade que se pensava ser exclusivamente humana

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