O superpoder do fator XX: O que diz a Ciência sobre a superioridade genética das mulheres

Tenebrio molitor. Foi esta larva-da-farinha que conduziu a cientista Nettie Stevens à descoberta do papel desempenhado por um par de cromossomas na determinação do sexo das espécies. Pela primeira vez, ao fim de séculos de especulação, a norte-americana descreveu que as fêmeas somam dois cromossomas X, enquanto os machos têm um X e um Y (a investigadora não usou logo a terminologia X e Y, essa convenção só seria adotada mais tarde). As suas conclusões revolucionárias foram publicadas em 1905. Nettie Stevens tinha 44 anos e morreu aos 50, vítima de um cancro da mama.

Esta revelação é muitas vezes atribuída a Edmund Beecher Wilson, que publicou conclusões semelhantes sobre o tema – muito menos rigorosas – praticamente ao mesmo tempo. Na época, o norte-americano era já um geneticista de renome, mas aproveitou os resultados de Nettie Stevens para corrigir a sua teoria, passando a citar a cientista como uma seguidora das suas ideias… Ao contrário da portadora de dois cromossomas XX, Wilson foi convidado a dar uma conferência sobre as suas descobertas pouco tempo depois de as anunciar.

Descobertas Os níveis de estrogénio e de progesterona existentes no corpo das mulheres protegem-nas, de alguma forma

56%
Homens sofrem mais com a pandemia
Segundo o relatório de julho do Projeto Sexo, Género e Covid-19, 64% das pessoas hospitalizadas em unidades de cuidados intensivos são do sexo masculino, assim como 56% das vítimas mortais

Afinal, ter um cromossoma X e um Y sempre trouxe historicamente mais vantagens do que possuir dois iguais, tendo em conta a milenar desigualdade de direitos e de oportunidades entre os géneros em todo o mundo – basta lembrar que, ao nível da Ciência, a britânica Universidade de Cambridge, por exemplo, só passou a atribuir às mulheres diplomas equivalentes aos dos homens em 1947.

Agora, à medida que avança a investigação em torno do cromossoma X, anedoticamente associado ao “sexo fraco”, parece ter chegado a altura de as mulheres reclamarem a sua “superioridade genética”. É isso mesmo que defende o geneticista Shäron Moalem (que não só descobriu duas doenças genéticas raras, como também um novo composto antibiótico). “Quem não tiver um cromossoma X extra, estará sempre em desvantagem”, afirma, perentório, o autor do livro A Melhor Metade – Sobre a Superioridade Genética da Mulher (Temas e Debates). O canadiano acredita que o facto de os homens terem mais força física dificulta a aceitação da ideia de que as mulheres são biologicamente mais fortes.

Elas vivem mais
Os seres humanos possuem um total de 46 cromossomas divididos em 23 pares. Eles contêm o material genético das células e, no fundo, as instruções para a construção de tudo o que existe no nosso corpo. O vigésimo terceiro par é composto pelos cromossomas sexuais: o sexo feminino tem dois X herdados de cada um dos progenitores, enquanto o masculino herda um X da mãe e um Y do pai, ou seja, é o homem quem define o sexo do bebé.

Além de estar dependente dos cromossomas, o sexo biológico também é condicionado pelo sistema reprodutor, que inclui a genitália e as gónadas, e pelas hormonas. O género é um conceito mais fluido, que depende da expressão da identidade, independentemente do sexo genético. Neste artigo, referimo-nos aos sexos masculino e feminino e a homens e mulheres no sentido biológico. 

Durante muito tempo, acreditou-se que a função dos cromossomas sexuais se limitava à reprodução, mas é cada vez mais consensual que o seu impacto irá muito além disso, sobretudo desde que se confirmou que, ao contrário do que se pensava, o segundo cromossoma X feminino não está totalmente silenciado.

O grande poder Durante muito tempo, acreditou-se que a função dos cromossomas sexuais se limitava à reprodução, mas o seu impacto vai muito além disso

60%
As líderes das reações adversas

As mulheres foram responsáveis por 60,1% das notificações de efeitos secundários causados por medicamentos ao longo de meio século (1967-2018), de acordo com uma investigação que avaliou os dados de 131 países

Em 1961, foi também uma mulher, a geneticista Mary Frances Lyon, quem avançou a hipótese de um dos dois cromossomas X femininos ser aleatoriamente silenciado em cada célula, mas hoje sabe-se que não é assim. Até 15% dos genes do X silenciado podem continuar ativos. “O que faz o sexo feminino com esses genes extra?”, questiona Shäron Moalem, ansioso por dar a resposta. “Pode combater mais facilmente doenças infecciosas ou evitar cancros, por exemplo. É como se as mulheres tivessem um motor turbo que as ajuda a subir a montanha quando estão em sarilhos”, ilustra.

O canadiano especula que esta vantagem genética possa ser a razão para a maior longevidade do sexo feminino. Na lista dos mais velhos centenários desde que há registos, o primeiro homem só aparece ao fim de 20 lugares. Atualmente, a pessoa mais idosa do mundo é a japonesa Kane Tanaka, com 118 anos. É comum a esperança média de vida das mulheres ser superior à dos homens. Em Portugal, elas costumam viver mais cinco anos, chegando aos 83,7 anos, enquanto o sexo masculino se fica pelos 78,1, em média. Esta diferença é muitas vezes atribuída a comportamentos de risco tradicionalmente associados aos homens, como desempenharem profissões mais perigosas ou representarem a maioria dos fumadores, mas é cada vez mais evidente que existem características biológicas que contribuem para a maior sobrevivência das mulheres, até porque também a mortalidade infantil é superior nos meninos.

Contudo, não é de todo consensual que os responsáveis por este fenómeno sejam os dois cromossomas X femininos, já que é difícil estabelecer uma relação direta entre eles e a maior parte das doenças, como as cardiovasculares, uma das principais causas de morte no mundo. Outros aspetos genéticos, assim como hormonais, determinam igualmente a longevidade. Além disso, os hábitos (mais ou menos) saudáveis de cada um têm impacto na saúde. No entanto, existem algumas patologias em relação às quais não restam dúvidas sobre os benefícios de ter dois X em vez de apenas um.

Sistema imunitário mais agressivo
“Do ponto de vista das doenças genéticas recessivas [que só se manifestam se houver dois cromossomas X disfuncionais], há imensa vantagem em ter um par de X, porque o X saudável pode compensar o X afetado”, explica a geneticista Luísa Azevedo, investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto. No caso dos homens, se o seu único X estiver afetado, a doença torna-se dominante e manifesta-se na mesma porque não existe um segundo X capaz de colmatar a disfuncionalidade do primeiro. Esta é uma das razões para “não existirem tantas mulheres hemofílicas quanto homens”, uma vez que se trata de uma doença genética recessiva, assim como a distrofia muscular.

Outro dos exemplos prediletos de Shäron Moalem é o daltonismo. Visto dois dos três genes associados ao daltonismo se encontrarem no cromossoma X, é muito mais provável os homens serem daltónicos, já que é muito raro ambos os cromossomas X das mulheres terem essa malformação visual. E, “se um deles a tiver, o outro pode corrigir essa falha”, clarifica Luísa Azevedo.

Um estudo conduzido pela agência de investigação norte-americana National Institutes of Health, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, em 2020, colocava a possibilidade de os cromossomas sexuais também influenciarem a anatomia do cérebro, sem a necessidade de as hormonas atuarem como mediadoras. Os autores do artigo detetaram cromossomas sexuais especialmente ativos nas zonas cerebrais onde os homens têm mais matéria cinzenta do que as mulheres, mas tal não é necessariamente sinónimo de que os cromossomas sexuais sejam responsáveis por alterações na estrutura do cérebro e, muito menos, que existam diferenças anatómicas relevantes entre os sexos.

“É muito mais provável chegar aos 110 anos se tiver nascido mulher”

Foto: Getty Images

O geneticista canadiano Shäron Moalem, 44 anos, defende que o sexo feminino é geneticamente superior ao masculino. Os cromossomas X poderão ser os grandes responsáveis por essa vantagem

Quais os benefícios de o sexo feminino ter dois cromossomas X? 
Não estarei a exagerar se disser que ter dois cromossomas X beneficia todos os aspetos da sobrevivência. Não só torna as mulheres praticamente imunes a muitos problemas genéticos associados ao cromossoma X, como pode ajudar a combater infeções, a resistir à fome ou a combater o cancro. É muito mais provável chegar aos 110 anos se tiver nascido mulher.

Mas um sistema imunitário tão agressivo também traz desvantagens…
A grande desvantagem é ele voltar-se contra si mesmo mais facilmente. Cerca de 80% das pessoas afetadas por doenças autoimunes são mulheres. É este o preço que o sexo feminino paga pela sua superioridade genética.

As diferenças entre o sistema imunitário masculino e feminino deviam ser tidas em conta na vacinação contra a Covid-19?
Sim, não deveríamos estar a dar a mesma quantidade de vacina a ambos os sexos. Provavelmente, os homens precisam de uma dose mais elevada e as mulheres de uma dose mais baixa. Contudo, quando olhamos para os estudos que têm sido feitos, percebemos que eles não permitem comparar o efeito das vacinas segundo o sexo.

Defende que os ensaios clínicos sejam desagregados por sexo? 
Sem dúvida, só assim saberemos como os fármacos realmente funcionam; misturar os dois sexos permite mascarar resultados desagradáveis. Se um medicamento tiver uma elevada toxicidade nas mulheres, mas não nos homens, ele pode ser aprovado na mesma porque esses efeitos adversos ficam diluídos entre ambos. Outra razão para a resistência das farmacêuticas é o aumento dos custos, seria necessário praticamente duplicar o esforço económico. Por isso, a única solução é tornar os ensaios clínicos desagregados por sexo obrigatórios. 

Os cientistas interessam-se menos pelos problemas que afetam as mulheres? 
Não acredito que seja uma conspiração da Medicina para prejudicar as mulheres. A biologia e a genética femininas são tão complexas que é muito mais difícil compreendê-las. De certa forma, escolheu-se estudar os machos, em vez das fêmeas, porque eles são muito mais simples. Só o facto de os órgãos reprodutivos femininos estarem escondidos torna mais complicado investigá-los. E obriga os médicos a serem mais invasivos quando precisam de esclarecer sintomas. Não se trata apenas de as queixas das mulheres terem sido ignoradas, a verdade é que, durante muito tempo, não tínhamos as ferramentas necessárias para compreender a biologia feminina.

A neurocientista britânica Gina Rippon é uma das grandes defensoras de que os cérebros humanos são iguais, tal como os estudos mais recentes têm vindo a sustentar. No entanto, a sociedade pode interferir com a biologia. O facto de os rapazes serem particularmente estimulados a brincar com brinquedos de construção, por exemplo, contribui para que desenvolvam a sua noção espacial e a capacidade de resolverem problemas, o que fomenta o estereótipo de que são melhores nessas tarefas.

Não são apenas os genes que contribuem para a vantagem imunológica feminina. Há cerca de cinco anos, descobriu-se que as hormonas sexuais e o sistema imunitário estão interligados. Os níveis de estrogénio e de progesterona existentes no corpo das mulheres protegem-nas de alguma forma. Aliás, com o início da menopausa, quando a presença destas hormonas diminui, a imunidade feminina também decai. Shäron Moalem sublinha que, “quando estão presentes em baixas quantidades, [os estrogénios] podem estimular o sistema imunitário; mas em concentrações mais altas podem parar ou suprimir um ataque imunitário”. Já a testosterona, a hormona sexual masculina, inibe o sistema imune, e o cromossoma Y não tem qualquer função imunitária.

Existem características biológicas que contribuem para a maior sobrevivência das mulheres

O imunologista Carlos Penha Gonçalves hesita em dizer que a imunidade feminina é superior à masculina. “As mulheres têm um sistema imune mais reativo e, por isso, levam vantagem na resposta a várias doenças infecciosas. Por outro lado, o seu sistema imunitário é menos tolerante, volta-se mais facilmente contra o seu próprio corpo, gerando mais frequentemente doenças autoimunes. São duas faces da mesma moeda: maior competência a responder a infeções pode acarretar menor auto tolerância”, sintetiza o presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia (SPI).

Shäron Moalem reconhece que “o elevado preço que o sexo feminino paga por ter uma imunidade mais agressiva são as doenças autoimunes”. Elas têm uma probabilidade três vezes superior à dos homens de as contraírem, sendo que 80% das pessoas afetadas por estas patologias são mulheres. A artrite reumatoide, a lúpus e a esclerose múltipla são algumas das mais comuns. Curiosamente, ou não, as doenças autoimunes são dos problemas de saúde menos compreendidos.

A forte resposta imunitária feminina tem outro senão: “Ainda que as mulheres sejam afetadas por menos vírus durante uma infeção, elas tendem a experienciar sintomas mais severos da gripe do que os homens”, escreve a jornalista britânica Angela Saini – autora de Inferior (Desassossego), um livro sobre “como a Ciência sempre desvalorizou a mulher”. O título de um dos capítulos sintetiza a ideia: “As mulheres adoecem com mais gravidade, mas os homens morrem com mais facilidade.”

Ciência “machista”
“A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si própria, mas por relação com ele; ela não é olhada como um ser autónomo. […] Ele é o Sujeito, ele é o Absoluto – ela é o Outro”, escreveu a filósofa Simone de Beauvoir, em 1949, na sua obra O Segundo Sexo (Quetzal). A jornalista e escritora Caroline Criado Perez também a cita no seu livro Mulheres Invisíveis – Como os dados configuram um mundo feito para os homens (Relógio de Água), no qual dedica um par de capítulos à forma como a Medicina tem desconsiderado a saúde feminina. Um dos exemplos de que se socorre é o do “ataque cardíaco à Hollywood”.

Ao contrário do sexo masculino, que tem habitualmente dores no peito e no braço esquerdo, as mulheres podem nem sentir aperto no peito quando estão a sofrer um ataque cardíaco. Alguns dos seus sintomas mais comuns são dores de estômago, falta de ar, náuseas, fadiga ou dores que irradiam da cabeça até ao peito, que são muitas vezes definidas como “atípicas”. “Designação a que o British Medical Journal se opôs, num artigo de 2016, dizendo que o termo ‘pode conduzir a uma subavaliação do risco associado a esta apresentação’”, recorda, no seu livro, Caroline Criado Perez. De acordo com esta perspetiva, os sintomas masculinos são a norma e os femininos a exceção.

Ciência machista? Até 1990, era habitual o sexo feminino ser excluído dos ensaios clínicos, o que afetou as dosagens dos medicamentos, por exemplo

4%
Investigação assexuada

Um estudo que analisou 4 420 ensaios clínicos realizados no âmbito da Covid-19, concluiu que apenas 178 (4%) afirmavam, explicitamente, pretender incluir o sexo enquanto variável analítica

A sintomatologia tende a ser diferente porque a doença não afeta da mesma forma os dois sexos; os homens são mais atingidos nos grandes vasos e as mulheres nos pequenos. Os medicamentos para a tensão arterial funcionam pior nas mulheres, apesar de a hipertensão estar especialmente associada à mortalidade cardiovascular neste grupo da população.

“A dor física das mulheres é muito mais propensa a ser desvalorizada como ‘emocional’ ou ‘psicossomática’”, escreve a jornalista britânica, nascida no Brasil. E aponta uma patologia do sexo feminino como reflexo disso mesmo: a endometriose, que provoca o crescimento de tecido endometrial fora do útero, causando dores fortes e, no limite, infertilidade. Esta doença demora, em média, cerca de oito anos até ser diagnosticada, no Reino Unido. Estima-se que uma em cada dez mulheres seja atingida por ela. A sua origem poderá estar relacionada com uma disfunção do sistema imunitário das pessoas afetadas.

A ginecologista Lisa Vicente também inclui a endometriose na lista de “questões femininas” às quais a Medicina tradicionalmente presta menos atenção. A menopausa ou o vaginismo (a contração involuntária dos músculos pélvicos que dificulta ou impossibilita a relação sexual) são outros dos temas desconsiderados. “A Ciência nunca se interessou pelas mulheres em termos de grande investigação sexual. Só a partir dos anos 1970, no mundo ocidental, se começou a estudar verdadeiramente a sexualidade feminina”, afirma a também obstetra. Ainda hoje, admite, “muitas mulheres passam demasiado tempo a pensar que estão sozinhas nas suas disfunções sexuais”. Apesar de atualmente existir um maior equilíbrio na investigação sobre a sexualidade feminina e masculina, Lisa Vicente alerta para a escassez de estudos que incluam participantes com diferentes orientações sexuais e identificações de género, como as pessoas transexuais ou intersexo.

Medicamentos desajustados
O projeto Data2x, apadrinhado por Hillary Clinton e cofinanciado pela Fundação Bill & Melinda Gates, está empenhado em diminuir a escassez de dados desagregados por género, incluindo na saúde. Entre as áreas com maior défice de informação inclui a saúde das crianças, adolescentes e idosas, das pessoas LGBTQIA+, da população feminina com necessidades especiais e daquelas que se encontram em contextos de emergência humanitária.

“Historicamente, os homens foram sempre mais estudados”, afirma o investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) Luís Ferreira Moita. “Basta abrir os livros de anatomia mais antigos e procurar as imagens que representam o corpo humano, é muito mais provável encontrar uma gravura de um homem”, ilustra o especialista em imunidade.

Os cérebros humanos são iguais, sustentam os estudos. No entanto, a sociedade pode interferir com a biologia

Os ensaios clínicos são, muitas vezes, o alvo de quem acusa a Ciência de guiar-se pelo cânone masculino. Até 1990, era habitual o sexo feminino ser excluído destes testes. “Temia-se expor as mulheres em idade fértil a fármacos experimentais”, justifica Luís Ferreira Moita. Até porque ainda estava fresco na memória o trauma provocado pela talidomida, um medicamento recomendado para os enjoos matinais das grávidas na década de 60. Seria retirado do mercado ao fim de dois anos, depois de nascerem mais de dez mil crianças com deficiências provocadas por este fármaco.

As grávidas também não foram incluídas nos ensaios clínicos das vacinas contra a Covid-19.
As mulheres tendem a ser vistas como “um objeto de pesquisa inconveniente”, escreve Caroline Criado Perez, devido aos seus ciclos hormonais. Aliás, muitas vezes, tenta-se que participem nos estudos no início do ciclo menstrual, ou seja, quando os seus níveis hormonais estão mais baixos e se aproximam dos valores do sexo masculino.

“É importante compreender da fisiologia de ambos os sexos. E estudar as mulheres em concreto pode ajudar a conhecer melhor os homens”, sustenta Luís Ferreira Moita. Na União Europeia, por exemplo, é obrigatório incluir os dois sexos logo nos ensaios pré-clínicos com animais.

De acordo com o investigador do IGC, existem diferenças relevantes entre os órgãos masculinos e femininos que influenciam, sobretudo, a dosagem dos medicamentos adequada a cada um. O trânsito intestinal, por exemplo, é mais lento nas mulheres, o que faz com que os fármacos demorem mais a chegar à corrente sanguínea. Por outro lado, permanecem na circulação durante mais tempo. Também os rins e o fígado femininos eliminam as drogas mais devagar. As mulheres têm menos massa corporal do que os homens, mas mais massa gorda (30% a 40%), o que influencia igualmente a maneira como os medicamentos são metabolizados. O analgésico paracetamol, por exemplo, é eliminado pelo sexo feminino a 60% da velocidade registada no sexo masculino.

As vantagens femininas

Vivem mais tempo
As mulheres sobrevivem, em média, mais quatro a sete anos do que os homens. Em cada 100 centenários, oitenta são do sexo feminino

Escapam às doenças do X
Como somam dois cromossomas X, enquanto os homens têm um X e um Y, elas são menos suscetíveis a doenças genéticas recessivas, associadas ao X

Sofrem menos infeções
O sistema imunitário feminino é mais eficaz a combater várias doenças infecciosas, mas também se volta mais facilmente contra o seu próprio corpo, causando doenças autoimunes

Beneficiam mais das vacinas
Habitualmente, as mulheres têm uma resposta imunitária mais robusta à vacinação. No caso da vacina da gripe, por exemplo, desenvolvem o dobro dos anticorpos do sexo masculino

Suprimem mais tumores
O sexo feminino tem mais genes capazes de eliminarem tumores. Segundo a American Cancer Society, os homens têm um risco 20% superior de desenvolverem cancro e uma probabilidade 40% maior de morrerem da doença

Em 2013, a agência do medicamento norte-americana, a Food and Drug Association (FDA), tomou uma decisão histórica em relação ao Ambien, um fármaco utilizado contra as insónias, e reduziu a dose recomendada para as mulheres em metade, devido à sua metabolização mais lenta do zolpidem (o principio ativo do medicamento).

Este exemplo também é invocado por Shäron Moalem para sublinhar a relevância de os testes clínicos considerarem as diferenças entre os sexos. “Não basta incluir as mulheres nos ensaios, os medicamentos devem ser aprovados com base em análises desagregadas por sexo”, defende.

Mas não é esse o contexto atual. Por isso, a prescrição médica assume ainda maior importância, nota Luís Ferreira Moita: “Mesmo quando a dose recomendada é igual para ambos os sexos, cabe ao clínico ir ajustando a quantidade. Por vezes, as pessoas pensam que é aborrecido precisarem de uma receita, mas prescrever um fármaco é um ato médico, que exige conhecer bem o doente.” O investigador do IGC deixa um alerta: “O problema é que há cada vez mais medicamentos que não estão sujeitos a receita, e que podem ter efeitos secundários, mas se a toma for monitorizada por um médico, é muito menos provável sofrer essas consequências.”

Claro que não é apenas o sexo que condiciona os resultados dos testes clínicos, também a faixa etária, a etnia ou os fatores socioeconómicos são variáveis fundamentais.

As vítimas dos efeitos adversos
Um estudo publicado na revista científica The Lancet, que analisou as reações adversas a medicamentos registadas em 131 países ao longo de meio século (1967-2018), concluiu que as mulheres foram responsáveis por 60,1% das notificações e os homens por apenas 39,9 por cento. É durante a idade reprodutiva, entre os 18 e os 44 anos, que o sexo feminino mais reporta efeitos secundários. Contudo, a proporção de casos graves ou fatais é maior no sexo masculino.

No que diz respeito às vacinas contra a Covid-19, tem-se verificado que também são as mulheres quem mais sofre reações adversas. Em Portugal, elas são responsáveis por 67% das notificações. Shäron Moalem acredita que, provavelmente, o sexo feminino está a receber uma dose mais elevada da vacina do que necessita e os homens uma dose demasiado baixa. “Ao misturarem os resultados de ambos os sexos, sem terem um universo suficientemente representativo de cada um deles, as farmacêuticas conseguem que as vacinas pareçam ainda mais seguras, porque os homens têm menos efeitos secundários; e ainda mais eficazes, porque elas funcionam melhor nas mulheres”, acusa.

É muito mais provável os homens serem daltónicos, hemofílicos ou sofrerem de distrofia muscular

O geneticista acredita, até, que muitos medicamentos falham nos ensaios clínicos porque só funcionam num dos sexos e, assim, não são considerados suficientemente eficazes, prejudicando aqueles que poderiam beneficiar deles. O investigador Luís Ferreira Moita contrapõe que “o número de efeitos secundários é maior nas mulheres, mesmo quando apenas se tem em conta os medicamentos usados por elas”. E esclarece que a quantidade de vacina administrada contra a Covid-19, em princípio, não está diretamente relacionada com as reações adversas que o fármaco pode causar, sublinhando que “o sistema imunitário não reage de forma linear a um estímulo”.

O imunologista Carlos Penha Gonçalves confirma que, habitualmente, as mulheres têm uma resposta imunitária mais robusta à vacinação, o que não está necessariamente relacionado com a dose administrada. No caso da vacina da gripe, por exemplo, o sexo feminino desenvolve o dobro dos anticorpos do sexo masculino.

“Na vacina da Pfizer [contra a Covid-19] estamos a ver que, apesar da queda das hormonas femininas com a idade, as mulheres têm maior robustez na resposta vacinal, enquanto os homens exibem um maior decaimento de anticorpos, sobretudo partir dos 70 anos”, analisa o investigador do IGC. Porém, tal não permite concluir que uns estão mais protegidos do que outros, já que, além dos anticorpos, também concorre para a defesa do organismo a imunidade celular (mediada por linfócitos T). 

Carlos Penha Gonçalves admite que pudesse fazer sentido personalizar a vacina contra o SARS-CoV-2 de acordo com o sexo: “As mulheres talvez não precisem de uma dose tão elevada quanto os homens, o que até daria para poupar vacina, mas os estudos atuais não permitem esta diferenciação”, constata.

Desenvolvimento Com os seus genes extra, as mulheres combatem mais facilmente certas doenças infecciosas e evitam cancros. “É como se as mulheres tivessem um motor turbo que as ajuda a subir a montanha quando estão em sarilhos”, ilustra o cientista Shäron Moalem

“As diferenças imunológicas entre sexos variam ao longo da vida, mas a maior robustez das respostas das mulheres, que também se observam após a menopausa, no caso de várias vacinas, sugere que esta característica depende essencialmente da genética, e não apenas das hormonas”, frisa o imunologista.  

É habitual dizer-se que, em Medicina, não existe “sempre” nem “nunca”. Este caso não é exceção: “Também há algumas vacinas a que os homens respondem melhor. Por isso, a solução não é simplesmente reduzir a dose de uns e aumentar a de outros.”

Segundo Angela Saini, autora de Inferior, a mudança de perspetiva da Ciência tem de ser exigida por toda a sociedade. “Quando nos apoiamos nos cientistas para obter respostas, assumimos que eles vão ser imparciais. Assumimos que o método científico tem de ser imparcial e não pode desfavorecer as mulheres. Mas estamos errados”, escreveu.

Shäron Moalem considera a pandemia uma oportunidade de reflexão sobre a pertinência de estudar individualmente os sexos, até porque se tornou evidente que a Covid-19 tem um impacto desigual em homens e mulheres (ver caixa Elas resistem melhor à Covid-19). “É fundamental compreendermos o que nos distingue, para tirarmos partido dessas diferenças. Ao estudarmos o que nos diferencia, também vamos conhecer melhor as nossas semelhanças”, remata.

Luís Ferreira Moita contesta: “A representatividade é uma preocupação crescente na área da Ciência. E tem havido um progresso notável”, garante. Todavia, não esconde a preocupação por, “muitas vezes”, os dados científicos não serem analisados por sexo. “Se não estivermos despertos para as diferenças, será muito mais difícil encontrá-las.” Mesmo que não duvidemos de que será sempre mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

Elas resistem melhor à Covid-19

Os homens têm uma probabilidade quase três vezes superior à das mulheres de serem internados nos cuidados intensivos, mas, habitualmente, elas demoram mais tempo a recuperar da doença

Apesar de o número de infeções causadas pelo SARS-CoV-2 ser bastante paritário (51%, no sexo masculino, e 49%, no feminino), os homens destacam-se ao nível das complicações. O relatório de julho do Projeto Sexo, Género e Covid-19 revela que 64% das pessoas hospitalizadas em unidades de cuidados intensivos (UCI) são do sexo masculino, assim como 56% das vítimas mortais, a nível global. Também em Portugal, onde a maioria dos casos se regista em mulheres (54%), os homens morrem mais, representando 52% dos óbitos – um desfecho ao qual não é alheio o facto de eles terem uma probabilidade quase três vezes superior à do sexo feminino de serem internados em UCI, como avança um estudo publicado na Nature Communications.

Inicialmente, acreditava-se que comportamentos de risco associados aos homens explicavam a desproporção de situações graves. Hoje, é consensual que existem fatores biológicos por detrás do impacto mais severo da doença no sexo masculino. 

Um deles parece ser a localização no cromossoma X do gene TLR7, que desempenha um papel essencial na deteção de material genético dos vírus de RNA (como o SARS-CoV-2), alertando o sistema imunitário para a sua presença. Como os homens têm um cromossoma X e um Y, enquanto as mulheres somam dois X, eles são mais vulneráveis a qualquer mutação de um gene importante que esteja localizado no cromossoma X.

Uma investigação publicada na revista Science Immunology, que analisou os dados de 1 200 doentes do sexo masculino com pneumonia causada pela Covid-19, encontrou mutações no gene TLR7 numa frequência muitíssimo mais elevada neste universo de pessoas do que na população geral, o que pode explicar, em parte, as formas mais graves da doença nos homens. Também as hormonas sexuais femininas, como o estrogénio e a progesterona, têm um papel protetor contra o vírus. O estradiol (um tipo de estrogénio), por exemplo, diminui a expressão da proteína ACE2, limitando as portas de entrada do SARS-CoV-2 no corpo humano.

Investigadores da Universidade de Yale, nos EUA, apuraram que as mulheres hospitalizadas com Covid-19 tinham um maior número de células T ativadas do que os homens, reforçando a ideia de que elas estarão mais protegidas. Por outro lado, níveis elevados de citoquinas no organismo estão associados a uma progressão negativa da infeção nas mulheres, mas não nos homens. Estas diferenças sinalizam a importância de adaptar o tratamento a cada doente. O sexo masculino poderá beneficiar de terapias que estimulem as células T, enquanto o feminino retirará mais vantagens de procedimentos que diminuam a resposta imunitária inata à base de citoquinas. No entanto, as mulheres podem ser mais suscetíveis aos sintomas prolongados, a chamada Covid longa, uma vez que têm maior propensão para sofrerem de doenças autoimunes. 

A microbiologista Sabra Klein, numa análise publicada este ano na Annual Review of Virology, nota que as mulheres desenvolvem, geralmente, respostas imunitárias mais fortes às vacinas, ao mesmo tempo que reportam mais efeitos secundários. E acrescenta que, apesar de elas conseguirem eliminar os vírus respiratórios mais rapidamente, sofrem um processo inflamatório agravado, que pode retardar a recuperação. Contudo, os cientistas continuam pouco atentos às diferenças entre os sexos. Depois de verificar mais de quatro mil ensaios clínicos realizados no âmbito da Covid-19, outro artigo publicado na Nature Communications concluiu que apenas 4% afirmavam, explicitamente, pretender incluir o sexo enquanto variável. 

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