Os avanços e recuos do sexo ao longo dos tempos

Contra os “bons costumes”Prostitutas e seus clientes numa taberna do século XVIII (em cima) e o icónico (e fluido) Freddie Mercury

Rússia, 1924. Numa entrada no seu diário, o escritor Mikhaíl Bulgákov escreveu: “Pessoas nuas, a usarem pulseiras onde se lia ‘Abaixo a vergonha’, surgiram recentemente em Moscovo. Um grupo foi visto a entrar num elétrico. O elétrico parou, o público estava indignado.”

Viriam elas da praia de nudismo que existia nas margens do rio Moscovo, perto da Catedral de Cristo Salvador? O autor de O Mestre e Margarita não especifica, mas com certeza faziam parte do movimento justamente chamado Abaixo a Vergonha que, por essa altura, organizava marchas e reuniões em que se advogava “Não precisamos de roupas, somos filhos do Sol e do ar”.

Os primeiros decretos soviéticos, logo em 1918, tinham abolido o casamento pela Igreja, introduzido a parceria civil e legalizado o aborto. O divórcio era facilitado. A libertação sexual transformava-se numa arma no combate à Igreja Ortodoxa, percebeu rapidamente a revolucionária Alexandra Kollontai, que mais tarde seguiria a carreira diplomática.

Deve-se a essa conhecida bolchevique o conceito de “nova mulher”, uma mulher livre da opressão do casamento, do trabalho em casa e da educação dos filhos. A par disso, Kollontai defendia que era preciso “libertar” o amor e tornar o sexo acessível a toda a gente. Os populares chamavam-lhe a “teoria do copo de água” – metaforicamente, o acesso ao amor e ao sexo deveria ser tão fácil como pedir (e obter) um copo de água.

Revolucionários Sigmund Freud e o seu discípulo Wilhelm Reich escandalizaram a sociedade com as suas teorias sobre a sexualidade

Esta “nova mulher”, no entanto, não duraria muito, assim como rapidamente seria extinto tudo aquilo que cheirasse a libertinagem. No mesmo ano de 1924, enquanto elementos do movimento a favor do nudismo desfilavam nus em Moscovo, o comissário do Povo para a Saúde Pública, Nikolai Semachko, escrevia que a nudez prestava “auxílio à imoralidade”, considerando necessário parar imediatamente com essa “desgraça”, se fosse preciso com métodos repressivos. Os decretos foram revertidos – em 1934, a homossexualidade era outra vez crime e, dois anos depois, reintroduzia-se a proibição do aborto.

À distância de quase 100 anos, estes avanços e recuos espantam – sobretudo os avanços – mas, segundo o historiador Faramerz Dabhoiwala, investigador na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos da América, e autor do livro The Origins of Sex – A History of the First Sexual Revolution, se recuarmos aos anos 1700 encontramos sinais evidentes de uma primeira revolução sexual.

No século XVIII, libertinos e prostitutas lutavam nas ruas de Londres e nos tribunais contra a polícia dos costumes. E ganharam, concluiu Dabhoiwala ao analisar as estatísticas: em 1650, apenas 1% das crianças inglesas nasciam fora do casamento; em 1800, esse número subiu para 20 por cento. “Como na época não havia contracetivos, essa é uma evidência forte de que as pessoas faziam mais sexo. E em todas as classes sociais”, refere o historiador.

Dabhoiwala lembra que a “unanimidade moral” também desaparecera por força de vários acontecimentos históricos. Desde o crescimento das cidades, onde se tornara impossível vigiar de perto a comunidade, até às guerras religiosas que levaram as pessoas a questionar a autoridade divina, passando pela noção de indivíduo, tudo terá concorrido para a mudança de costumes.

O amor livre e a pílula
Em 1905, quando Sigmund Freud publicou Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, foram várias as vozes escandalizadas com a sua teoria sobre a importância do impulso sexual sobre o comportamento humano, mas o caminho da liberdade já estava a ser trilhado. “A moral sexual parece-me muito desprezível”, afirmou, então, o psicanalista, e ninguém lhe caiu em cima.

Mais controverso seria o seu discípulo, o austríaco Wilhelm Reich, cujo livro A Função do Orgasmo, publicado em 1927, se tornou a bíblia dos intelectuais dos anos 1950 e 1960. Também psiquiatra e psicanalista, ele defendia que a principal forma de libertação de energia reprimida era através das relações sexuais. O seu método de tratamento, a que chamou “vegetoterapia”, passava por fazer massagens nos pacientes seminus até lhes provocar “ondas de prazer”.

Comprimidos mágicos Lançada em 1960, a pílula anticoncecional foi sinónimo de liberdade sexual para as mulheres, que podiam fazer sexo sem compromisso

O escândalo, à época, foi grande e Reich seria, inclusive, condenado a dois anos de prisão por promover uns supostos acumuladores de “energia orgónica” (de orgasmo), umas caixas que atuariam como bloqueadores de campos eletromagnéticos, em que as pessoas entravam nuas. Anos depois, as suas invenções continuavam a gerar tanta curiosidade que a sua propriedade, Orgonon, no Maine (EUA), se transformou num museu.

Os escritores americanos Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs haviam de basear-se nas teorias de Reich para lançar a revolução sexual da década de 1960, baseada no chamado “amor livre”. O mundo aprendia, então, que o amor e sexo não tinham necessariamente de andar juntos, mas seria uma invenção farmacêutica a trazer a liberdade sexual, na prática.

Em 1957, fora lançado nos Estados Unidos da América um medicamento para aliviar os sintomas desagradáveis da menstruação que tinha como efeito colateral suspender temporariamente a fertilidade. Muitas americanas usaram-no logo para esse fim, até que, a 6 de agosto de 1960, a FDA autorizou a sua comercialização como pílula anticoncecional.

Liberdade e pesar Do espantoso festival de Woodstock, em 1969, em que se expressou sem pudor o movimento do amor livre, às paradas LGBT dos anos 80, em que se recordavam as vítimas da sida

Foi uma espécie de Dia D, embora ela não tenha ficado acessível ao mesmo tempo em todo o lado. No Reino Unido, por exemplo, chegou às farmácias em dezembro de 1961, mas apenas para mulheres casadas, e só a partir de 1967 pôde ser comprada por toda a gente.

Aqueles 21 comprimidos eram sinónimo de liberdade sexual para as mulheres, que podiam fazer sexo sem compromisso e, sobretudo, sem medo de uma gravidez indesejada. A decisão passava a ser delas, que deixavam de estar dependentes de o homem querer ou não usar preservativo.

Inserido num movimento de contracultura mais vasto, o amor livre teria expressão ao longo de toda a década de 60 – tanto que as imagens do Woodstock, em 1969, se tornaram icónicas não exatamente por causa da música. O mesmo não se deve dizer sobre o Maio de 68, defende o antropólogo e sociólogo francês Michel Bozon, para quem a transformação da sexualidade em França e no resto do mundo foi um fenómeno de longo prazo.

Apesar do slogan “Jouissez sans entraves” (tenham prazer sem impedimentos), o “amor livre” não era uma preocupação central dos jovens que ocuparam as ruas de Paris. “[Maio de 68] foi um movimento estudantil e operário”, sublinhou Bozon à RFI. “Dentro das fábricas, o imperativo dos sindicatos era instaurar uma democracia.”

Os cravos e o sexo
Em Portugal, seria o 25 de Abril a trazer uma mudança de costumes mais generalizada. A transição para a democracia foi marcada por uma evolução dos discursos acerca da sexualidade, nota a socióloga Isabel Freire em Sexualidades – Media e Revolução dos Cravos. Amor livre, feminismo, homossexualidade, pornografia, educação sexual, contraceção, aborto e terapia sexual – são tudo assuntos que a também jornalista identificou ao analisar 1 500 artigos publicados entre 1968 e 1978, no Diário de Lisboa, Expresso, Crónica Feminina e Modas & Bordados.

O direito à sexualidade feminina pré-conjugal, à “livre prática homossexual” e ao “amor livre” marcaram, nesse período, “a emergência de uma cidadania da sexualidade (ou cidadania íntima), em desenvolvimento até hoje”, nota Isabel Freire. Foi grande, porém, a polémica provocada por uma carta enviada por uma adolescente de 14 anos à revista Modas & Bordados. Gisela contou ter-se iniciado sexualmente na noite de 25 de abril de 1974, “contagiada” pela celebração da liberdade nas ruas de Lisboa, e estalou a discussão entre as leitoras da revista.

Foi grande a polémica provocada por uma carta de uma adolescente de 14 anos à revista “Modas & Bordados”. Gisela contou ter-se iniciado sexualmente na noite de 25 de abril de 1974, “contagiada” pela celebração da liberdade nas ruas de Lisboa

A diferença entre a sexualidade dos homens e a das mulheres mantinha-se inalterável, percebeu-se quando a investigadora feminista Sharon Hite (desaparecida há quase um ano) espantou meio mundo ao revelar que muitas mulheres não obtinham qualquer tipo de prazer através da penetração sexual. Publicado nos Estados Unidos da América em 1976, e em 1979 em Portugal, o seu célebre Relatório Hite foi escrito com base em testemunhos de 3 500 mulheres sobre orgasmo, clítoris e masturbação. O sexo deixava de ser visto apenas de uma perspetiva masculina.

Paradoxalmente, anos mais tarde, seria uma doença a provocar uma nova revolução sexual, lembrou Michel Bozon, também à RFI. Com o aparecimento da sida, na década de 1980, surgiram movimentos para lutar contra a discriminação dos homossexuais, levando a uma maior tolerância e abrindo caminho à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O statu quo só voltou a ser tão violentamente abanado em outubro de 2017, quando várias mulheres acusaram o produtor Harvey Weinstein de abuso sexual, dando início ao movimento #MeToo. À distância de apenas quatro anos, poderemos escrever que este movimento é a parte dois da revolução sexual dos anos 60, ao dar poder à mulher por responsabilizar o assediador e não a vítima? Será que caiu, finalmente, o sistema patriarcal?

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