Geração fluida: A nova revolução sexual?

Moda, a sério?“Ninguém deixa de ser heterossexual por estar na moda”, diz Mariana Nolasco Ferreira (à dir.), em tom “dah!”. Joana Pais (à esq.) simplifica: “Não é sequer apenas uma questão de sexualidade; é uma questão de empatia, de aceitarmos o outro”

É logo nas apresentações, rápidas como as “bio” nas redes sociais, que Mariana provoca as primeiras gargalhadas no grupo de amigos. “Ah, esqueci-me de contar: o meu avô é bissexual, e tenho duas tias casadas.” O timing da futura caloira de Artes e Humanidades é tão bom que ela podia ser uma profissional de stand-up comedy. Quem disse que não nos podemos rir de coisas sérias?

Vasco fora o primeiro a quebrar o gelo com um “Maastricht” de sotaque invejável, porque dentro de dias vai regressar àquela cidade holandesa para continuar a estudar Direito Europeu, mas Mariana avançara imediatamente tema adentro, dizendo que a mãe vive com outra mulher (“Se calhar, é relevante…”). Quando Joana conta que a madrinha também se casou com uma mulher, a amiga atira a informação sobre o avô e as tias, e o seu ar “so what?” dá o tom certo à conversa.

Só Teresa não irá mencionar a família, talvez porque foi estudar sozinha para a China, aos 16 anos (tem 20), com uma bolsa do programa United World Colleges. A pandemia apanhou-a de férias nas Filipinas, regressando, então, a Portugal para um gap year que gastou como aluna convidada da Nova SBE, entre outras coisas. Prepara-se, agora, para fazer um major em Neurociências e um minor em Justiça Social, em Chicago.

Fora das caixas “Quando me apresento como fluido, ainda há quem questione. ‘Já aceitámos que és gay, mas… mais coisas?!’”, lamenta Vasco Trindade Veiga. “A nossa geração já pode tentar desconstruir esses rótulos, não queremos ser metidos em caixas”, diz Teresa Alves Louro FOTO: Marcos Borga

Será Teresa a primeira a dizer-se fluida, a falar de rótulos e a recusá-los. “Os direitos LGBT começaram com a geração dos nossos pais e, nessa altura, houve necessidade de rotular as pessoas, porque a visibilidade dava-lhes força”, lembrará mais à frente na conversa, “mas a nossa geração já pode tentar desconstruir esses rótulos, não queremos ser metidos em caixas”.

Havemos de ouvir duas pessoas mais velhas que também se reveem na ideia de fluidez sexual, mas, nesta manhã, é com Mariana Nolasco Ferreira, Vasco Trindade Veiga, Joana Pais e Teresa Alves Louro, quatro jovens amigos da Linha de Cascais, entre os 18 e os 20 anos, que debatemos o assunto. Todos acreditam na importância de abordá-lo numa perspetiva de sensibilização – e apenas por isso aceitam dar a cara.

Na verdade, esta “geração Z” (jovens nascidos depois de 1997) já não encara a sexualidade dividida entre a norma e as minorias, não mete em caixas os heterossexuais, os gays, as lésbicas… Para muitos, o foco de interesse está nas pessoas, e a definição sobre se é homem, mulher, trans ou não binário pouco importa. Qual é a razão para se excluir metade da Humanidade no que à sexualidade diz respeito?

Os mais “tolerantes”
À falta de dados em Portugal, olhamos para o que se passa lá fora. Nos Estados Unidos da América, em 2020, uma pequeníssima minoria de “baby boomers” (nascidos entre 1946 e 1964) identificava-se como LGBT (2 por cento). A percentagem vai aumentando com o avançar das gerações. Entre os “X” (1965-1979) são 3,8%; nos “Y”, os chamados “millennials”, são 9,1%; e na “geração Z”, 15,9% identificam-se como LGBT, de acordo com o Statista Research Department.

No Reino Unido, em 2018, apenas 66% dos jovens da “geração Z” se diziam exclusivamente heterossexuais, comparando essa percentagem com os 71% dos “millennials”, os 85% dos “X” e os 88% dos “baby boomers”. De acordo com o estudo da consultora Ipsos, 82% dos “Z” acham que “gays e lésbicas devem ser livres para viverem as suas vidas como quiserem”.

Amor sem género Vasco descobriu-se diferente logo no início do 3º Ciclo. “Percebi que o amor é um sentimento tão forte; por que razão me vou limitar só aos rapazes? Também há pessoas não binárias e raparigas…” FOTO: Marcos Borga

“Uma norma social para o futuro será a neutralidade de género”, continua a Ipsos, declarando ultrapassado o marketing que coloca as bonecas de um lado, para as raparigas, e os carros do outro, para os rapazes. Na roupa, esta fórmula binária também vai sendo posta de lado, com o aparecimento de coleções unissexo. “As atitudes dos ‘Z’ perante a igualdade e a neutralidade refletem a natureza desta mudança social que, por sua vez, se reflete na cultura. As personagens de género fluido vão aparecendo na televisão, como na série para crianças Julie’s Greenroom (Netflix)”, continua a consultora.

É bom que os mais velhos ponham os olhos neles – os “Z” são a geração mais tolerante. A palavra generalizou-se mas não é a mais correta; na verdade, eles não “toleram” nada, cresceram em liberdade, e a aceitação das várias formas da sexualidade faz parte deles, assim como as preocupações com a justiça social ou com o ambiente. Entre pares, o preconceito está mais esbatido, o que abre a porta à visibilidade.

“É normal? É saudável? Será uma moda?”, já ouviu Vasco. À palavra “moda”, os amigos fazem caretas. “Ninguém deixa de ser heterossexual por estar na moda”, diz Mariana, em tom “dah”. “Simplesmente criou-se um ambiente mais confortável e seguro para nós vivermos a nossa sexualidade da forma que queremos.” Filha de jornalistas e aluna de Ciências da Comunicação, Joana ainda simplifica mais: “Não é sequer apenas uma questão de sexualidade; é uma questão de empatia, de aceitarmos o outro.”

Até parece que Joana ouviu, como nós ouvimos, a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira dizer “Respeitem a diversidade sexual e pronto”, quando lhe falámos em abrossexuais (ver glossário). “Irrito-me logo um bocadinho com esses palavrões”, confessa, “até porque estamos a falar de uma minoria, mas, se todos praticarem o respeito pela diversidade sexual, não existe a homofobia, que é gravíssima. E, se tivermos respeito pelo outro, não precisamos de encaixar as pessoas aqui ou ali”.

A verdade é que a fluidez, enquanto mudança de orientação sexual ao longo da vida, sempre existiu. “Agora, apenas há mais espaço para que exista, mais visibilidade e menos vergonha”, acredita a sexóloga Maria Joana Almeida. “Embora ela pareça uma revolução, revolucionária terá sido a pílula para controlar a contraceção na sexualidade feminina, na maneira como nos relacionamos sexualmente e no prazer da mulher – e estamos a falar da revolução sexual dos anos 1960” (ver texto O sexo ao longo do tempo), defende a mesma terapeuta, cuja tese de mestrado incidiu sobre a fluidez sexual. “Será mais uma mudança lenta, uma evolução, e é interessante ver como há microculturas paralelas – continua a haver visões tradicionais e esta visão menos preconceituosa da sexualidade.”

Perguntas e mais perguntas No espaço de um ano, Mariana foi respondendo com quatro sexualidades diferentes – bissexual, pansexual, lésbica e queer. “Tenho fases”, diz, com mais uma das suas gargalhadas. FOTO: Marcos Borga

As alterações sociais e políticas ajudaram à mudança de mentalidades – a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, e até o facto de o divórcio ter sido facilitado. O maior acesso à informação, graças à internet, também foi fundamental para os mais jovens contestarem a normatividade.

“Tive uma experiência recente numa escola secundária na Parede, em que foi interessante ver a evolução das perguntas, com um maior foco no prazer e com a normatividade a ser questionada”, conta Maria Joana Almeida. “E a maior parte dos jovens que eu sigo sente necessidade de falar no assunto e de pedir aos colegas para terem cuidado no uso dos pronomes.”

Tem de ser alguma coisa?
A existência de personagens fluidas em séries de televisão, como na espanhola Elite, é também reflexo de um interesse. “Mas ainda há um caminho a fazer, porque continua a haver muita gente revoltada com as pessoas que não querem viver na heteronormatividade e no binarismo”, nota a sexóloga. E a estranhar o à-vontade com que esta geração parece estar face à fluidez sexual.

Joana tinha 16 anos quando apresentou um namorado ao pai. O namoro foi importante e durou 11 meses, o fim bastante difícil. Em março de 2020, no início da primeira quarentena, anunciou-lhe que tinha uma namorada e que ela iria ficar lá em casa nas duas semanas seguintes. “Vou ter de pagar mais uma filha, mas tudo bem”, comentou o pai. “Não fez disso um tema”, agradece Joana, “e um dia até brincou que a Catarina tinha sido uma boa aquisição, porque cozinhava”.

A quarentena prolongou-se muito mais do que aqueles 15 dias, a relação de ambas também. Entretanto, Joana ficou de novo solteira, e o muito tempo passado em casa neste último ano e meio ajudou-a à introspeção e a chegar a uma certeza: considera-se sexualmente fluida.

No Reino Unido, em 2018, apenas 66% dos jovens da “geração Z” se diziam exclusivamente heterossexuais. De acordo com o estudo da consultora Ipsos, 82% dos “Z” acham que “gays e lésbicas devem ser livres para viverem as suas vidas como quiserem”

“Dizer que só vou envolver-me com mulheres ou com homens seria limitador. Para mim”, diz, “é mais inclusivo pensar que toda a gente é pessoa e que eu posso apaixonar-me de qualquer maneira. Transexuais, não binários… é-me indiferente, sinto-me atraída na mesma. O único problema, entre aspas, são os que se identificam apenas com o sexo masculino – aí, preciso de uma conexão emocional”.

Pelos seus 13 ou 14 anos, Joana começou a falar com Mariana sobre o que andava a sentir, porque se apercebera de que a amiga sentia de forma parecida. Era uma coisa física, apetecia-lhe dar beijos a raparigas, mas o que significaria aquela atração? “Tentei encaixar-me em rótulos, pensei que talvez fosse bissexual”, recorda. Mas a amiga nem conhecia a palavra; Mariana só sabia que tanto gostava delas como deles.

Por essa idade, Teresa ainda estava mais longe: achava que todas as raparigas gostavam apenas de raparigas. “O meu coming out foi descobrir que isso não era verdade!”, ri-se. “Foi o meu maior choque, porque punha as barbies a beijarem-se, desde pequenina.”

Vasco também se descobriu diferente logo no início do 3º Ciclo, e a pressão para se encaixar no grupo de gays do colégio era tão grande que foi um alívio quando disse para si próprio: “Ah, sou gay!”. Durante uns anos, o rótulo serviu-lhe. “Mas, com tanto tempo de corona para pensar nisso, percebi que era uma questão mais profunda do que só gostar de rapazes”, conta. “Percebi que o amor é um sentimento tão forte; por que razão me vou limitar só aos rapazes? Também há pessoas não binárias e raparigas…”

Olhando para trás, Mariana vê que se sentiu pressionada pelos outros, que queriam pô-la numa caixa. “Diziam-me ‘Tens de ser alguma coisa’ e isso não foi fixe.” Logo ela a quem a família nunca tinha imposto a heteronormatividade. “Só soube que havia pessoas homofóbicas quando as minhas tias quiseram fazer inseminação artificial e tiveram de ir a Espanha”, recorda.

Sem normas Joana tinha 16 anos quando apresentou um namorado ao pai. No início da primeira quarentena, anunciou-lhe que tinha uma namorada e que ela iria ficar lá em casa nas duas semanas seguintes FOTO: Marcos Borga

Nem lésbica, como essas tias, nem bissexual, Mariana considera-se fluida. E, embora não tenha andado à procura de uma explicação, encontra algum fundamento no seu autismo. “Talvez seja relevante o facto de eu e a minha mãe sermos autistas, porque vemos as pessoas como pessoas e a ideia de género não existe, não faz grande sentido para nós”, explica. “A verdade é que me apaixono por quem quiser.” Estranho? Nem por isso, diz Teresa. “Mesmo noutras formas de neurodivergência, as pessoas são menos predispostas a compreender as regras sociais e a conseguir fazer com que elas façam sentido”, lembra.

Durante muitos anos, Teresa sentiu-se invalidada pela própria comunidade LGBT. Diziam-lhe sempre “És lésbica”, e ela esforçou-se por se pôr numa caixa. A quarentena, também no seu caso, deu-lhe tempo para pensar e decidir que não queria rotular-se só para o conforto de quem a rodeia. “Ainda me perguntam o que sou, e o mais fácil, para os outros, seria responder ‘bissexual’, mas hoje digo sempre queer, porque é um termo-chapéu, mais abrangente.”

A verdade de cada um
Maria Joana Almeida parte sempre do princípio de que já está desatualizada e de que aprende com os jovens expressões que nunca tinha ouvido. “Dizerem-se abrossexuais (ou fluidos) mostra a liberdade de as pessoas não terem de se encaixar em formatos, mas não sei se o caminho é através de novos rótulos”, hesita. “Na prática, acaba por parecer um rótulo quando não o quer ser. Há sempre esse risco, essa rasteira que nos pregamos a nós próprios.”

O assunto não é fácil nem é a preto-e-branco, como já se percebeu. As pessoas precisam, muitas vezes, de encontrar as suas fronteiras, porque a incerteza é sempre mais desconfortável do que a certeza. “Mesmo dentro da comunidade LGBT, há essa pressão”, sublinha a sexóloga. “Dizem ‘Ok, és fluido, mas em quem pensas quando te masturbas?’. E isso causa sofrimento.”

Os caminhos também não são direitos. Lembre-se de que a palavra queer (“estranho”, em inglês) é a apropriação do insulto, usado com orgulho.

Foi com algum alívio que Joana, Mariana e Vasco passaram a usar queer (nunca se autointitularam abrossexuais). No caso de Vasco, no início o rótulo de gay nem sequer fazia sentido, porque não tinha tido nenhuma experiência sexual. Agora, embora manifeste uma preferência principal por rapazes (“no sentido de atração física”, especifica), não consegue afirmar que vai apaixonar-se apenas por rapazes.

“Tive experiências com raparigas, só sexuais, não de ligação emocional, mas sou fluido, mudo consoante com quem estou e onde estou”, diz. “E, na verdade, não tenho de ser nada, uma pessoa não tem de fazer nada, só de pagar os impostos”, ri-se. “Eu gosto de pessoas e vou vendo como cada um clica comigo e eu com os outros. Mas, há uns tempos, disse aos meus pais que estava com uma rapariga e eles: ‘Como assim?!’. Estranharam, porque para eles eu sou gay.”

A fluidez, enquanto mudança de orientação sexual ao longo da vida, sempre existiu. “Agora, apenas há mais espaço para que exista, mais visibilidade e menos vergonha”, acredita a sexóloga Maria Joana Almeida

Há uns anos, os pais de Teresa puseram a hipótese de a então assumida e anunciada bissexualidade da filha ser apenas um sinal de rebeldia – “como se fosse uma escolha!”. Por estes dias, ela ouve com frequência o velho comentário de que a fluidez é só uma fase ou, “pior”, necessidade de atenção. Tudo isso Teresa escolhe ignorar. A fluidez sexual permite-lhe mais liberdade, argumenta, e, sobretudo, é a sua verdade. “Ninguém acorda numa terça-feira de manhã a dizer ‘Hoje, vou deixar de ser hetero (ou isto ou aquilo)’.”

Para quem precisa de lhe colocar um rótulo, escreva-se que não ajuda o facto de ela ser tão feminina, até na maneira de se vestir. “Fujo à norma, ao queer coding”, ri-se. Gosta de maquilhagem e usa quase sempre decotes e brincos grandes.

Os rótulos foram importantes, como se escreveu atrás, mas, hoje, estes quatro amigos sentem que eles seriam uma obrigatoriedade. “Foram de elemento libertador de uma comunidade a elemento de opressão – e isso vem da própria comunidade”, nota Mariana. “Mas, para nós, como já crescemos numa época mais à vontade, eles não têm o mesmo uso. São só uma maneira prática de dizer ‘Gosto deste tipo de pessoas’, apesar de criarem uma exclusão”, acredita Vasco. “E, já agora, no dia a dia gostava que não fosse uma das primeiras perguntas que me fazem, a não ser que tenham interesse em mim”, ri-se Joana.

Apesar de avessos a rótulos e caixas, todos concordam que existem certos pormenores que, no fundo, funcionam como códigos. Um saco das cores do arco-íris, por exemplo, será sinal de que a pessoa que escolheu usá-lo é gay-friendly. “Pelo menos, espero que sim!”, ri-se Vasco, “porque o meu pai tem um guarda-chuva com o arco-íris, que comprou sem saber que era a bandeira gay, e usa-o”.

Escreva-se que a fluidez é mais difícil para Vasco, porque sente que a invalidação é maior para os homens. “As mulheres têm mais liberdade para viverem a sexualidade como quiserem, sem ela ser questionada. Partilham tudo umas com as outras, até as idas à casa de banho. Os rapazes, na puberdade, não têm essa proximidade. E, se tiverem, alguém comenta logo: ‘Ah, são gays!’”, nota.

A sua verdade A fluidez sexual permite-lhe mais liberdade, argumenta Teresa. “Ninguém acorda numa terça-feira de manhã a dizer ‘Hoje, vou deixar de ser hetero (ou isto ou aquilo)’” FOTO: Marcos Borga

“A orientação sexual é mais fluida nas mulheres porque os homens ainda tendem a esconder e a reprimir o desejo homossexual, por medo da reação da sociedade”, lembra Ana Alexandra Carvalheira. “As mulheres são mais livres nesta expressão porque a sociedade olha para elas de maneira diferente. Se duas mulheres forem viver juntas”, exemplifica, “são apenas amigas”.

Para Vasco, esta dicotomia não faz sentido no momento em que se está a destruir as barreiras entre géneros. Mas sabe na pele que ela existe, sim. “Quando me apresento como fluido, ainda há quem questione”, lamenta Vasco “É aquela: ‘Já aceitámos que és gay, mas… mais coisas?!’.”

Tempos de mais liberdade
Sempre que a aparência não dissipa as dúvidas, chovem as perguntas. Sem pudor, como se a estranheza e a curiosidade dos outros fossem intermináveis. “Há uma obsessão pelos genitais”, observa Teresa. E coloca-se todo o tipo de cenários, conta Joana. “Perguntam: ‘E um travesti, interessa-te?’ ou ‘Tu gostas 30% de raparigas e 70% de rapazes, ou é ao contrário?’.”

Qualquer um dos quatro já concluiu que dizer “Sou bi” ajudaria a acabar com a conversa. Durante algum tempo, Joana optou por afirmar-se pansexual, até concluir que era má ideia porque as pessoas associavam a estar com demasiada gente. “Aposto que o body count é alto” gozavam. No espaço de um ano, Mariana foi respondendo com quatro sexualidades diferentes – bissexual, pansexual, lésbica e queer. “Tenho fases”, diz, com mais uma das suas gargalhadas.

Rimo-nos com ela e havemos de nos lembrar disso quando entrevistarmos Paula, 43 anos, professora em Lisboa, e a ouvirmos falar em fases – “até ver, todas boas”.

Glossário

Os fluidos são abrossexuais. Os omnissexuais não são pansexuais. E os sapiossexuais só ligam à inteligência. Perdido? Então, este léxico é para si

ABROSSEXUAL
Pessoa de sexualidade fluida, ou seja: pode sentir-se atraída por todos os géneros, mudando de orientação sexual ao fim de semanas, meses ou anos.

ASSEXUAL
Nunca sente atração sexual. Pode relacionar-se afetivamente com outras pessoas, mas serão sempre relações sem qualquer índole sexual.

DEMISSEXUAL
Apenas sente atração sexual se existir uma relação emocional (não obrigatoriamente romântica ou amorosa), ou seja, precisa de vinculação.

GRAYSSEXUAL
Está numa “zona cinzenta”, entre a sexualidade e a assexualidade (“gray” significa cinzento em inglês). Só sente atração sexual de forma esporádica.

OMNISSEXUAL
Pessoa que se sente atraída por todos os géneros, não apenas pelo masculino ou o feminino. Reconhece a existência de diferenças entre eles.

PANSEXUAL
Sente atração sexual por todas as pessoas, independentemente do seu sexo ou da sua identidade de género. Não “vê” géneros.

SAPIOSSEXUAL
Quem sente atração sexual com base na inteligência da outra pessoa, independentemente do seu sexo ou da sua identidade de género.

SKOLIOSSEXUAL
Pessoa que se sente atraída por outras que não se identificam binariamente (como homens ou mulheres).

SOLOSSEXUAL
Alguém que não sente atração por outros, independentemente do seu sexo ou do seu género. Só sente atração por si próprio.

Paula foi casada, tem um filho adolescente e, há uns meses, namorava com outra mulher. De momento, está sozinha e diz não fazer ideia o que o seu coração vai escolher a seguir. “Nunca perdi muito tempo a pensar se era hetero ou lésbica, talvez por defesa”, admite.

Na adolescência, deu uns beijinhos a umas amigas; no tempo da faculdade, namorou só com homens; no primeiro trabalho, apaixonou-se por uma mulher e não correu muito bem. “Ela queria que eu assumisse a relação perante as nossas famílias, e insistia tanto comigo que me fartei”, confessa. Quando estava a chegar aos 30 anos e reencontrou um antigo namorado, tomou a decisão de ser mãe. Casou-se e diz ter sido feliz a três durante uns anos, até se apaixonar por outra pessoa. “Por acaso, por uma mulher”, ri-se.

Paula não faz contas ao tempo que foi isto ou aquilo e diz que também não quer ter nada a ver com rótulos. “A nossa geração nunca gostou de ser emprateleirada”, garante. “Percebo que os mais novos precisem de validação, mas eu já nem sequer sinto necessidade de me afirmar fluida. Ninguém tem nada a ver com a minha vida, não é? Já sou crescidinha. Não me questiono e não me posiciono, mas claro que me parece positivo haver mais liberdade e mais à-vontade.”

A sexóloga Maria Joana Almeida é da geração de Paula (tem 41 anos) e, quando olha para trás, também vê menos liberdade de alguém se afirmar não heterossexual. “Na nossa geração, há pessoas que nunca contaram aos pais”, frisa. “Hoje, os jovens têm necessidade de fazer o coming out e conseguem, porque é cada vez mais fácil – embora a fluidez ainda faça com que a experiência de vida seja diferente e minoritária.”

Quem disse que não nos podemos rir de coisas sérias?, lembramo-nos novamente quando estamos com Diogo, 28 anos, médico na zona Oeste. “Isto é um bocado como perguntar a uma criança ‘Gostas mais do pai ou da mãe?’”, começa por comparar.

Diogo ama a ideia da fluidez. Não consegue dizer se é uma opção geracional, mas diz observar uma tendência crescente. “Há uma maior aceitação de pessoas como eu, logo vamos ser sempre cada vez mais”, arrisca, avançando um episódio por que passou pouco antes da pandemia.

“Uma noite, estava a dançar muito entusiasmado com uma pessoa que eu achava que era um homem e ela disse-me ao ouvido: ‘Não sou o que tu achas que sou.’ Eu ouvi aquilo e percebi que era uma pessoa transgénero, porque tinha alguns traços físicos femininos. Mas a verdade é que, pelo menos naquele momento, eu não quis saber. Não era importante. E não é. Se me puser a pensar numa relação com alguém transgénero, é uma hipótese, porque não?”

Diogo sente que tem tudo em aberto, por ser jovem e por gostar de experimentar coisas novas. Não adora homens muito masculinos nem mulheres muito femininas. Sente-se atraído por gente andrógina (“Talvez seja por aí?”) e já se ouviu a dizer simplesmente: “Gosto de pessoas.” Aos pais, contou há uns tempos que a única certeza que tem é a de que um dia vai querer ter filhos. A bem da renovação das gerações.

Conhece esta sigla?

Há quem ainda esteja preso à designação genérica de “homossexuais” ou “gays”, mas desde o final dos anos 80 que a sigla LGBT é amplamente usada

Lésbica
Mulher que sente atração afetiva/sexual por mulheres.

Gay
Homem que sente atração afetiva/sexual por homens.

Bissexual
Mulher e homem que sentem atração afetiva/sexual pelos dois géneros.

Transexual/ transgénero
Pessoa que se identifica com outro género que não aquele que lhe foi atribuído no nascimento.

Queer
Pessoa que transita entre o género feminino e o masculino ou outros géneros em que não se aplica o binarismo.

Intersexo
Pessoa cujo desenvolvimento sexual corporal não se encaixa na norma binária.

Assexual
Pessoa que não têm atração sexual por outras pessoas.

+
Abriga todas as orientações sexuais e possibilidades de identificação de género.

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