Chelsea Hotel: O marco do século XX com histórias fascinantes para contar

Andy Warhol Figura incontornável da pop art americana, o também realizador de cinema escolheu o mítico hotel nova-iorquino para filmar as divas de Chelsea Girls (1966), sucesso inequívoco de bilheteiras

“As empresas e as pessoas chegam e partem, mas a herança do Chelsea, as suas paredes e emoções, essas, vão perdurar muito depois de eu morrer.” Foi assim que Stanley Bard (1935-2017) se referiu ao edifício que geriu durante mais de 50 anos, enquanto mirava as ruas de Nova Iorque por uma das janelas do Chelsea Hotel. Mas já lá iremos, ao presente e ao futuro deste hotel de quinhentas estrelas. Por agora, recuemos a 1884, quando o orgulhoso arquiteto Philip Hubert olhou por essa mesma janela: foi sua a ideia ambiciosa de erguer, no número 222W da Rua 23 de Nova Iorque, o maior edifício da cidade, com 12 andares. Vinte e um anos depois, e já sem esse título (perdido em 1889 para a sede de The New York Times), o sofisticado prédio, com raízes na arquitetura gótica vitoriana do século XIX, reabria como um hotel que se tornaria uma extraordinária incubadora de artistas.

Músicos e posteridade Janis Joplin (à esq.), então com 25 anos e ocupada com a gravação do segundo álbum Cheap Thrills, era a ocupante do quarto 411; Sid Vicious e Nancy Spungen (à dir.) marcaram a história do hotel pelas piores razões, quando o músico dos Sex Pistols esfaqueou a namorada; em 1976, no quarto 211, Bob Dylan escreveu o tema Sara (1976), dedicado à mulher

Calçado e bem-comportado, ao contrário do seu famoso personagem Tom Sawyer, o escritor Mark Twain foi o primeiro notável a tocar à campainha da receção do Chelsea Hotel. Nas décadas seguintes, um pelotão de famosos pisou o tapete da entrada do prédio de tijolo vermelho nova-iorquino, reinventando este lugar como um paraíso boémio, criativo e livre. As paredes do Chelsea Hotel, transformadas em autênticas galerias de arte pelos moradores – que incluíram Yves Klein, Christo, Niki de Saint Phalle, Jasper Johns ou Julian Schnabel –, foram igualmente cenários de feitos literários: a maratona de escrita de William S.Burroughs, em Naked Lunch / Alucinações de um Drogado – Refeição Nua (1959); a epifania futurista (e certeira, por sinal) de 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Arthur C.Clark; a ode de Arthur Miller dedicada ao quarto 614, onde se refugiou durante seis anos, após o divórcio com Marilyn Monroe, quando se apercebeu de que um hotel “sem aspiradores, regras ou vergonha (…) não pertence à América”, tal era o grau de liberdade aí vivido. Patti Smith também escreveu, mais tarde, sobre o lugar onde foi feliz: o livro de memórias Just Kids / Apenas Miúdos (2010), distinguido com o National Book Award, recorda a atmosfera eletrizante do Chelsea e a paixão cúmplice aí vivida com o fotógrafo Robert Mapplethorpe.

Chelsea Hall of Fame
Numa noite de primavera em 1968, Janis Joplin procurava, incansável, pelo ator e cantor Kris Kristofferson. Depois de um rápido encontro no elevador com Leonard Cohen, a vocalista de Big Brother and the Big Company acabou por convidar o compositor canadiano a acompanhá-la até ao quarto 411. O encontro amoroso seria eternizado por Cohen, três anos mais tarde, no tema Chelsea Hotel Nr. 2, a versão aperfeiçoada e sóbria (e, por isso, batizada como segunda) dos famosos versos “I remember you well in the Chelsea Hotel / You were famous, your heart was a legend” (“Eu lembro-me bem de ti no Chelsea Hotel / Eras famosa, o teu coração era uma lenda”). Um ano depois, Joni Mitchell lançou igualmente Chelsea Morning, canção inspirada no quarto onde viveu.

Hotel da liberdade O lobby, os quartos, as escadas até à claraboia do Chelsea Hotel têm sido tela para esculturas, pinturas e desenhos, muitos deles oferecidos por hóspedes e residentes como pagamento das rendas em atraso

Já na década de 1980, quem descesse até à sala do pequeno-almoço do Chelsea Hotel poderia ter a companhia da euforia opiada do trompetista Chet Baker ou da excentricidade desregrada de Madonna. Esta última regressaria ao quarto 822, em 1992, para ali serem captadas muitas das fotografias de Sex, volume em que a material girl encenou as suas fantasias sexuais para a câmara de Steven Meisel, escandalizando os puritanos.

Um artista em cada quarto Ao longo de mais de 100 anos de funcionamento, o Chelsea Hotel recebeu centenas de artistas, como o dramaturgo Arthur Miller (em cima, acompanhado por Stanley Bard), o poeta beat Allen Ginsberg – fotografado na sua cama no chão, ao lado de um cinzeiro cheio de beatas e em que a parede surge forrada por um tapete persa – que passou temporadas no edifício tal como o amigo Jack Kerouac; e Patti Smith (à dir.), cantora, compositora e autora, cuja passagem pelo Chelsea foi marcada pela relação de grande cumplicidade com o fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe

Nem só de finais felizes se fazem as histórias vividas nos quartos do Chelsea Hotel. Corria o ano de 1953 quando o poeta galês Dylan Thomas demorou a rodar a chave na fechadura do 205: tinha bebido, numa só noite, 18 copos de uísque. A intoxicação por álcool provocou a sua morte prematura aos 39 anos. Décadas depois, num piso abaixo, ocorria o último tiro da banda Sex Pistols: a 18 de outubro de 1978, Nancy Spungen, namorada do baixista da banda Sid Vicious, foi esfaqueada até à morte no quarto 100. Com as impressões digitais do músico identificadas na arma do crime, as pistas deram-no como culpado, mas, a 4 de fevereiro do ano seguinte, Vicious seria encontrado sem vida no mesmo quarto, devido a uma overdose de heroína.

Stanley Bard Homem de poucas palavras, apaixonou-se pelo negócio no momento exato em que o pai o comprou, na década de 1940. Durante os 50 anos em que geriu o hotel, colecionou, numa estante do escritório, todos os livros escritos entre as quatro paredes do Chelsea

“Anita! Em breve este Chelsea Hotel / Desaparecerá diante da ganância mercantil da cidade.” É assim que começa The Hotel Chelsea, poema escrito em 1936 por Edgar Lee Masters. Quase um século depois, estas palavras não andam longe da verdade. Em 2007, a família Bard abandonou a gerência do hotel e, desde então, o edifício tem sido alvo de acesas disputas entre sucessivos investidores imobiliários, que alegam querer reavivar o espírito do hotel, e os moradores que não acreditam nas suas intenções. Encerrado desde 2011, o estado de degradação do Chelsea Hotel acentuou-se, e as obras de arte que decoravam as paredes do edifício foram realojadas num armazém. Em 2018, houve sinais de esperança: as obras de recuperação do lobby avançavam a bom ritmo, com uma parte dos residentes satisfeita com a promessa de que lhe seriam atribuídos novos e espaçosos apartamentos. Mas um novo obstáculo surgiu, parando tudo: a pandemia Covid-19. A profecia do poema de Masters cumprir-se-á? Esperemos que não, em nome de todos os livros, filmes, obras de arte, histórias à espera de serem criados.

Uma portuguesa no Chelsea

Vive há quase 40 anos no Chelsea Hotel e é neste que baseia grande parte da sua obra. A fotógrafa Rita Barros é a única portuguesa a residir permanentemente no mítico edifício de Nova Iorque, e o seu corpo de trabalho, aí criado nos últimos anos, pode ser visto no Centro Cultural de Cascais até 10 de outubro. “Room 1008: The Last Days narra a remodelação que eu própria tive de fazer ao meu apartamento desde 2011. Para salvaguardar os meus bens, perante o estado de degradação do hotel, tenho vindo a guardar muitos dos meus pertences num armazém. Só que, ao aperceber-me do quão vazias ficavam as paredes, fotografei todas as minhas coisas e coloquei os retratos nos lugares originalmente ocupados pelos objetos. E é isso que esta exposição retrata: como a minha casa é agora uma galeria dos meus próprios objetos pessoais”, explica a fotógrafa à VISÃO. Mas nem sempre foi assim. Rita recorda as festas, os jantares, a energia única que se sentia no hotel e que resultava da mistura de pessoas com experiências de vida tão díspares umas das outras. “A liberdade do hotel, criada pelo Stanley [Bard] e que unia atores, escritores, cantores e artistas plásticos, já não existe.” Assumidamente nostálgica, a artista declara: “O que existe hoje é uma zona cinzenta, constituída tanto por azares da vida como por atos que nos fazem suspeitar se são ou não premeditados. Até 2011, as inundações eram raríssimas no edifício. Hoje em dia são uma constante, acontecem três e quatro vezes ao ano…”

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