Carlos Bleck: O esquecido herói da aviação portuguesa

Esta é uma história portuguesa, com certeza. Começa até com uma cunha, daquelas que roçam a maior desfaçatez. Em 1922, alguém no Ministério da Guerra foi recuperar uma lei que ganhava pó numa gaveta há quatro anos, para dar suporte legal ao desejo do filho de uma das famílias mais ricas do País de se tornar o primeiro civil a obter o brevet de piloto em Portugal. A referida lei, aprovada pelo Ministério de Manuel de Arriaga em maio de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, em que Portugal estava envolvido, criava a Escola de Aeronáutica Militar e abria a porta à formação de reservistas civis – o que nunca aconteceu. Mas serviu para aquele rapaz rico, de 19 anos, ser o primeiro e único civil a ingressar no curso de pilotos da Escola de Aeronáutica Militar, em Sintra.

O episódio está contado no livro Carlos Bleck – O herói esquecido da aviação portuguesa (ed. Lua de Papel, 248 págs., €15), do comandante José Correia Guedes, e que chega às livrarias no próximo dia 14, com prefácio de Jaime Nogueira Pinto. Também autor da obra O Aviador, que vai já na 5ª edição e que reúne dezenas de histórias divertidas que 36 anos a pilotar aviões da TAP lhe renderam, José Guedes trabalhou três anos no livro sobre Carlos Bleck, conseguindo aceder a abundante documentação privada. “Ele não se limitou a ser um menino rico”, diz à VISÃO o comandante. “Quis deixar a sua marca e fê-lo, arriscando a vida, nos anos 1920 e 1930”, acrescenta.

Juventude aventurosa Destemido, o aviador Carlos Bleck bateu, em 1928, o recorde português de distância de voo a solo

Em 1934, protagonizou a primeira ligação aérea entre Lisboa e Goa, voando sozinho. Antes, em duo com o tenente Humberto da Cruz, fez, em 1931, o voo mais extenso até então realizado pela aviação nacional, o primeiro com regresso ao ponto de partida: Lisboa-Guiné-Angola-Guiné-Lisboa. “Foi uma completa loucura, que comparo à dos marinheiros das caravelas quinhentistas: partir às cegas, sem recursos, à descoberta de um mundo novo”, sublinha José Guedes, 74 anos. “Aqueles aviões, feitos de madeira e revestidos a lona, eram muito frágeis do ponto de vista estrutural, e a fiabilidade dos motores deixava muito a desejar”, descreve. “A navegação era rudimentar e fazia-se à vista, enquanto as previsões meteorológicas eram um luxo de difícil acesso; raramente existiam”, lembra.

RECORDE NACIONAL
Em 1925, Bleck completou a formação e tornou-se o primeiro piloto civil a ser brevetado em Portugal. Os receios da família foram abafados pelo desejo de Bleck de “levar a Cruz de Cristo pelo mundo nas asas de um avião”.

Face às resistências familiares, Bleck tinha um financiador seguro e a fundo perdido num amigo do peito: D. José de Saldanha e Daun, descendente do Marquês de Pombal e dono de uma fortuna imensa. E foi assim que, às 11 da manhã de 9 de fevereiro de 1928, Bleck, então com 24 anos, descolou do campo de aviação de Alverca aos comandos de um pequeno DH60 Cirrus Moth, com um motor de 80 cavalos, fabricado pela inglesa De Havilland. Batizou o avião como Portugal e, claro, levava amarrada num dos montantes das asas uma bandeira com a Cruz de Cristo. Destino: Goa. Para lá chegar, seria necessário percorrer 10 396 quilómetros em 87 horas de voo distribuídas por 18 etapas.

Esteve quase a atingir o objetivo – mas, perto de Jerusalém, o motor parou e Bleck viu-se obrigado a fazer uma aterragem de emergência em Gaza, na Palestina, num terreno enlameado pela chuva. Ao tocar no solo, o trem de aterragem enterrou-se na lama e o avião capotou, mas Bleck saiu incólume do acidente. Apesar do objetivo falhado, o piloto foi recebido por uma enorme multidão na estação do Rossio, ao sair do Sud-Express que o trouxe de Paris a Lisboa, e seria condecorado pelo Presidente da República, Óscar Carmona: nunca nenhum português tinha percorrido sete mil quilómetros, sozinho, aos comandos de um pequeno avião de turismo. Batera um recorde.

Ao princípio da manhã de 30 de dezembro de 1930, Bleck estava aos comandos de um Havilland Moth, com um motor Gipsy Mark II, de 120 cavalos. Em duo de pilotagem com o tenente Humberto da Cruz, dono de larga experiência de voo, iam começar, no campo de aviação da Amadora, a viagem de ida e volta às colónias portuguesas da Guiné e Angola. Cumpriram a impensável missão em 22 dias, superando muitíssimas adversidades. Só um exemplo: quando voavam sobre o Sara Ocidental a baixa altitude, uma caravana de mouros deu-lhes as boas-vindas, alvejando o avião com as suas espingardas. Houve que ganhar altura, e depressa.

Baixo, franzino e insistente, Bleck fez uma segunda tentativa de ligação aérea entre Lisboa e Goa – esta bem-sucedida. Quinze dias e quase 11 mil quilómetros depois de ter descolado, a 19 de fevereiro de 1934, da Granja do Marquês, em Sintra, num pequeno De Havilland DH60 GIII Moth Major, o grande sonho do pioneiro, então com 30 anos, estava prestes a cumprir-se. Aterrou às 15 e 57, e os festejos e as cerimónias em honra do herói sucederam-se. Mas, do Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, nem um bilhete de felicitações. E se Bleck era salazarista: em 1937, alistou-se na Legião Portuguesa e serviu no Serviço de Segurança e Vigilância do Comando Geral, destinado ao “controlo e monitorização de atividades subversivas”.

SALAZAR FURIOSO
Convencido por Bleck, António Ferro enviou, a 13 de dezembro de 1934, um memorando ao ditador, em que elogiava o projeto que lhe fora apresentado. “Um raid Lisboa-Rio de Janeiro, mesmo em três etapas mas apenas com 40 horas de voo, seria hoje ainda um feito glorioso (…). Constituiria um novo recorde entre os grandes recordes mundiais e tornar-se-ia (…) um fator da mais eficaz e elevada propaganda”, escreveu Ferro a Salazar. Os aviões para tais recordes já eram fabricados, com uma estrutura aerodinâmica levíssima, para atingirem velocidades superiores a 300 km/h. “Estes verdadeiros Fórmula 1 da aviação dos anos 1930 custavam caro”, nota José Guedes. Mas o somítico Salazar, para espanto geral, autorizou a compra de um desses aparelhos e a execução do projeto.

Quando voava sobre o Sara Ocidental a baixa altitude, uma caravana de mouros deu-lhe as boas-vindas, alvejando o avião com as suas espingardas

Como é óbvio, o avião recebeu o nome de Salazar e a partida ficou marcada para 14 de março de 1935. Juntou-se desde cedo uma enorme multidão, e às 8 e 37 iniciou-se a descolagem na Granja do Marquês, em Sintra, manobra entregue a Costa Macedo. Os 450 cavalos dos motores começaram a dar velocidade ao muito carregado avião na “pista”, esburacada e pedregosa, e Costa Macedo notou que o Salazar se estava a desviar para a direita. “Para o evitar, acelerou mais o motor do lado direito e menos o do lado esquerdo para compensar o desvio”, diz José Guedes. “O avião ficou equilibrado e ele, então, meteu potência máxima para descolar e, aí, o Salazar virou por completo à direita e apontou à multidão que estava a assistir à descolagem. Partiu uma perna do trem e afocinhou, com os motores a trabalhar”, relata o comandante. Ainda hoje ninguém consegue explicar como o avião não explodiu, carregado com tanto combustível.

“Foi uma tragédia política. Salazar ficou furioso”, diz José Guedes. E, para Bleck, foi o fim da carreira como piloto. Mas continuou a ser fervoroso salazarista, a ponto de não ter sobrevivido ao golpe militar do 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo. “Nunca se adaptou – foi o desmoronar de tudo em que acreditava, sobretudo com o fim do Império e as independências das colónias, a que ainda assistiu”, resume o comandante. Pouco mais de um ano depois, em dezembro de 1975, morreu de ataque cardíaco, na sua quinta de Sintra. Tinha 72 anos.

Cronologia de um pioneiro

1925 Torna-se o primeiro civil português a obter o brevet de piloto.

1928 Em janeiro, compra em Inglaterra o primeiro avião civil a ser matriculado em Portugal. Em fevereiro, faz a primeira tentativa de ligação aérea Lisboa-Goa. Sofre um acidente na Palestina, mas bate o recorde português de distância em voo a solo.

1931 Realiza a viagem aérea Lisboa-Guiné-Angola-Guiné-Lisboa, com Humberto da Cruz, no avião batizado como Jorge de Castilho.

1934 Concretiza o primeiro voo a solo entre Lisboa e Goa.

1935 Falha a tentativa de estabelecer o recorde da viagem entre Lisboa e o Rio de Janeiro, tendo Costa Macedo por companhia, e num avião chamado Salazar.

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