Porque voltaram os golfinhos ao Tejo

Caça Os golfinhos do Tejo são muitas vezes avistados em zonas onde também andam os pescadores, entre Caxias e a Trafaria

Passam sete minutos desde que zarpámos da Doca de Santo Amaro, em Lisboa, por baixo da Ponte 25 de Abril. “We got them! Há golfinhos em Caxias!”, anuncia Bernardo Queiroz, ao leme do semirrígido que leva meia dúzia de turistas alemães e portugueses a bordo. Foi o tempo de apanhar uma bola de futebol perdida no rio, e já havia notícias destes mamíferos marinhos que, desde o ano passado, se tornaram presença assídua nas águas da capital. Uma outra embarcação, que saíra minutos antes à procura deles, dera o alerta sobre a localização.

É uma manhã de sol, quase sem vento, nada de ondas. A maré está a vazar. Num instante estamos a uns 300 metros das novas estrelas do Tejo, entre a linha das praias da Costa da Caparica e de Caxias. Vêm a subir o rio, na nossa direção. Bernardo desliga o motor. São uns vinte. “Estão a entrar contra a corrente, vá-se lá perceber porquê”, atira o empresário, que dirige uma escola de vela no Tejo, há 25 anos, e agora organiza passeios de observação de golfinhos, numa parceria com o Oceanário de Lisboa. É mais habitual visitarem o rio com a maré a encher, tinha ele explicado na reunião preparatória.

Há ainda muito por desvendar sobre este fenómeno da Natureza, mas os biólogos que o têm seguido mais de perto começam a consolidar algumas convicções – todas por comprovar cientificamente, fazem questão de ressalvar.

Visitas Há cinco empresas licenciadas para os observar, entre elas a de Sidónio Paes. O DC10, em baixo, já é bem conhecido, pela sua barbatana cortada

O biólogo marinho Francisco Martinho passa os dias no rio. Estuda golfinhos há mais de uma década e está convencido de que o estuário do Tejo se transformou num “restaurante ou supermercado”, com oferta abundante de alimento para estes animais. “Aposto todo o meu dinheiro em como é a comida e mais nada”, declara, sobre o motivo das incursões. A opinião baseia-a nas suas observações, no conhecimento destes cetáceos e em informações dos pescadores: “Eles dizem que nunca viram tanta sardinha no rio.”

A par de outros peixes pelágicos que se deslocam em cardume, como o carapau e a cavala, a sardinha é das presas preferidas dos golfinhos-comuns (Delphinus delphis), de longe a espécie mais avistada no Tejo. “No ano passado, na zona da Trafaria, foram vistos atuns aos saltos, e o atum também vai atrás desse tipo de peixe”, reforça Francisco.

“Aposto todo o meu dinheiro em como é a comida e mais nada”, diz o biólogo marinho Francisco Martinho, que passa os seus dias no rio

Ele e Bernardo estão à frente de duas das cinco empresas marítimo-turísticas licenciadas para a observação de cetáceos no Tejo, a Lisbon Dolphins e a Terra Incógnita, respetivamente. Sidónio Paes, biólogo marinho já com muitos anos de experiência com golfinhos, é sócio-gerente de outra, a SeaEO. No dia em que a VISÃO os viu de perto, andava ele à procura dos populares animais para lá do Bugio, em águas oceânicas, onde já leva turistas para os observar desde 2018, com elevada taxa de sucesso (acima dos 90 por cento). Bernardo avisou-o do nosso avistamento e, pouco depois, apareceria com o seu barco. “Por ser uma zona muito exposta ao mar, é entre Algés, Caxias e a Trafaria que os temos visto mais vezes”, partilharia mais tarde, já em terra firme. Naquela manhã, eles não o desmentiram. Até voltarem ao mar, mantiveram-se sempre por ali, presumivelmente a caçar. “Os pescadores também costumam andar por lá, a competir pelos mesmos recursos.”

Sidónio não está assim tão seguro, porém, de que o alimento é a única razão das investidas quase diárias ao rio dos golfinhos-comuns, nos meses mais quentes. Este ano, diz, não os tem observado tantas vezes a comer e, por outro lado, “à medida que avança o verão, há cada vez mais crias por adulto” nos grupos que entram no Tejo. “Isso quer dizer que há nascimentos a ocorrer, seja dentro ou fora do rio”, nota, admitindo a possibilidade de existirem motivações relacionadas com a reprodução.

Entre os golfinhos que nadam e saltam à nossa volta, umas horas antes, identificam-se bebés e juvenis. Inês Matado, a bióloga a bordo, dá conta disso mesmo, chamando a atenção para as “pregas fetais” visíveis num dos exemplares, sinal de nascimento recente.

Pandemia silenciosa
Na tentativa de explicar o porquê desta “invasão”, iniciada em maio do ano passado, impera a ideia de que a redução de tráfego no Tejo, na sequência das restrições impostas pela pandemia, foi um fator decisivo. Com menos barcos a navegar – desde logo a proibição dos cruzeiros turísticos mas também a menor circulação dos barcos de transporte de passageiros, de recreio e até de pesca –, o ruído no estuário diminuiu drasticamente.

“Os golfinhos são muito sensíveis à poluição sonora”, enfatiza o biólogo Filipe Castro, que investiga a evolução genética destes animais no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, em Matosinhos. “Sendo animais com grande capacidade de exploração e de adaptação ao ambiente, não há qualquer razão para não usarem os estuários como locais de caça, a não ser a pressão humana. Como comunicam de forma especial debaixo de água, através do som, todo o barulho é perturbador”, argumenta o também professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Sidónio Paes diz ter “a certeza” de que as medidas associadas à pandemia contribuíram para a presença sistemática de golfinhos no Tejo e arrisca relacionar a ligeira quebra nos avistamentos, em 2021, com o aumento da atividade económica no rio. Ao lembrar que os golfinhos também passaram a ser vistos com regularidade no estreito de Bósforo, o canal entre o mar Negro e o mar de Mármara, que divide a Turquia ao meio e separa a Europa da Ásia, Francisco Martinho sugere que a diminuição do ruído dos barcos pode ter desempenhado, de facto, um papel importante.

Já a melhoria dos níveis de poluição das águas do Tejo, ao longo dos anos, não terá tido assim tanta influência. “Os golfinhos são dos animais com mais contaminantes à face da Terra. Acumulam-nos na sua gordura ao longo da vida e aguentam níveis elevadíssimos”, explica a bióloga marinha Inês Carvalho, do Instituto Gulbenkian de Ciência, envolvida em estudos genéticos sobre as várias espécies que habitam a Península Ibérica. Quando ultrapassam os seus limites de tolerância aos químicos, as consequências são a incapacidade de se reproduzirem ou a morte das crias, que recebem os seus efeitos através do leite materno, numa fase em que o sistema imunitário ainda não está suficientemente desenvolvido.

Menos poluição
A qualidade da água pode, ainda assim, beneficiar indiretamente os golfinhos, como sublinha a bióloga marinha Maria José Costa, investigadora do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) e professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “O estuário está cada vez menos poluído, e isso ajuda a criar um ecossistema mais rico, ao nível da biodiversidade e da abundância de plantas e peixes”, sustenta a autora do livro Estuário do Tejo – Onde o Rio Encontra o Mar, estudiosa do local desde os anos 70. “Há hoje mais pradarias marinhas, ervas marinhas que atraem os cavalos-marinhos, há corvina e charroco com fartura, apareceu o sargo-do-senegal… O estuário está muito melhor, e estou convencida de que há mais alimento.”

“À medida que avança o verão, há cada vez mais crias, e isso quer dizer que há nascimentos a ocorrer”, sublinha Sidónio Paes, biólogo marinho

Toda a cadeia alimentar acaba por sair a ganhar, golfinhos incluídos. “Quando existe uma espécie predadora de topo, como é o caso, é indicativo de uma certa qualidade desse habitat. É por isso provável que existam mais presas para eles se alimentarem”, reforça Ana Henriques, bióloga marinha da Associação Natureza Portugal, que se aliou à Terra Incógnita para promover o estudo e a preservação dos golfinhos do Tejo e desafiou a equipa de investigação do ISPA dedicada a estes animais a juntar-se à causa.

O seu coordenador, Manuel Eduardo dos Santos, diz-se interessado em aprofundar o conhecimento científico sobre o fenómeno, elogiando a conjugação de esforços entre ONG, universidades e operadores turísticos que oferecem “um grande manancial de dados com as suas saídas dedicadas”. Um aluno do ISPA está já a colaborar com Sidónio Paes, no sentido de analisar as informações recolhidas, mas é um processo lento, avisa o também investigador do MARE: “Não é numa época que ficamos a perceber o que se passa no Tejo. Estudar estes animais exige muito tempo e há muitas incertezas. Talvez para o ano já haja mais respostas.”

Não há ninguém a trabalhar na fotoidentificação dos golfinhos que entram no Tejo, por exemplo, como é feito com a população de roazes (Tursiops truncatus) residente no estuário do Sado – talvez “num cenário futuro”, indica o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas). Não se sabe ao certo, por isso, quantos grupos são e se repetem as visitas, mas desconfia-se de que, pelo menos alguns, já aprenderam o caminho. Francisco Martinho, que tem um catálogo de 800 roazes identificados, conhece uns 20 comuns, de tanto os fotografar no oceano. Diz já ter visto sete no Tejo, nestes últimos dois anos, sendo o DC10 o mais famoso de todos: tem a barbatana dorsal cortada e é presença regular nas águas da capital, como também atesta o empresário Bernardo Queiroz.

Residentes do Sado são caso à parte

Os golfinhos residentes do Sado fixaram-se por ali devido à “disponibilidade de alimento e proteção”, como refere o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas). Os roazes apreciam choco e tainha, e as duas presas existem em abundância no estuário do Sado. Nas águas do Tejo, não faltam relatos, nas gerações acima dos 60 anos, da presença de golfinhos. Maria José Costa, do MARE, lembra–se de os ver, no final dos anos 1950, quando atravessava o rio com o avô. Não se sabe, porém, se alguma vez existiu uma comunidade residente. Os golfinhos-comuns, os mais presentes agora, não são dados a esse tipo de hábitos. Ao contrário dos roazes, não passam sem a profundidade do oceano e é difícil imaginá-los a fixarem-se num estuário. Os roazes, por seu lado, raramente têm sido vistos na capital. A grande dúvida é mesmo saber se os comuns vão continuar a aparecer com tanta frequência, quando a circulação de barcos voltar ao normal, sendo certo que os biólogos acreditam que eles nunca chegaram a desaparecer completamente do Tejo, mesmo quando não eram avistados.

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