QR COde: O “velho” código que agora é indispensável para uma vida “nova”

Ao lado dos pratos, copos e talheres, as mesas dos restaurantes passaram a incorporar um novo elemento até há pouco desconhecido de uma boa parte dos portugueses. Um quadrado com pontos pretos e brancos pode ser encontrado a um canto e basta uma leitura com a câmara do telemóvel para termos acesso a todo o menu. Este quadradinho, o QR Code, passou a fazer parte do nosso dia a dia. Para podermos aceder a cinemas e hotéis ou até para viajarmos para fora do País, temos de ter connosco um certificado digital de vacinação que é lido através de um QR Code (QR vem do inglês Quick Response, ou resposta rápida).

Tal como o Zoom ou o Teams foram as grandes estrelas do confinamento no que toca às reuniões, os códigos QR são agora os heróis do desconfinamento.

“Os QR Codes são usados para fazer a ponte do físico para o digital nesta altura em que as pessoas começam a vir mais para rua. Durante o confinamento, a aceleração do digital foi gigantesca”, diz Gaspar d’Orey, CEO da Dott, a maior plataforma de vendas online de Portugal.

À medida que as pessoas começam a sair mais de casa, as empresas e os serviços aumentam as potencialidades de interagir com elas através desta solução. A Dott, por exemplo, instalou no passado fim de semana um ecrã numa das lojas dos CTT, na Baixa do Porto, que permite aos utilizadores terem acesso a esta plataforma e finalizarem a compra através do telefone enquanto aguardam para ser atendidos. “Isto permite chegarmos à população que está no canal físico e trazê-la para o digital e, num ecrã, dar-lhe acesso a mais de cinco milhões de produtos”, explica o gestor.

E a ideia é continuar a crescer neste segmento. “A abrangência deste projeto está em aberto, mas a ideia é estender a todas as lojas dos CTT e depois chegar a todos os portugueses”, salienta.

Os QR Codes Permitem uma interação sem contacto entre o mundo físico e o digital; acima, Hara Masahiro, o inventor

Aos poucos, vamos vendo cada vez mais QR Codes a serem utilizados como forma de interação com o comércio, os serviços e até a cultura ou mesmo a saúde, como acontece com os certificados digitais Covid, que nos dão acesso a determinados locais fechados, bastando para isso que seja lido o QR Code que eles contêm.

Mas, afinal, porque é que uma solução que já existia há quase três décadas, que se dizia descontextualizada da transformação digital, se tornou uma moda em 2021?

“Porque é um instrumento muito interessante de interação e de comunicação entre as pessoas, espaços e objetos sem haver necessidade de contacto. Faz todo o sentido nesta altura de desconfinamento”, garante Lúcio Trigo, CEO da PLM Plural, uma empresa de desenvolvimento de soluções tecnológicas para o retalho.

O gestor diz ainda que as suas vantagens face às outras tecnologias de não contacto são a simplicidade, os baixíssimos custos associados para quem produz os QR Codes e o fácil acesso por parte do utilizador. “Poder aceder a um código através da câmara do telemóvel torna esta interação muito mais ágil”, salienta Lúcio Trigo.

Os QR Codes são usados para fazer a ponte do físico para o digital nesta altura em que as pessoas começam a vir mais para rua

Gaspar d’Orey, CEO da Dott

E a sua presença deverá crescer ainda mais caso haja uma boa aceitação por parte da população desta nova forma de interagir entre o físico e o digital. “Nós fomos nesta direção de optar pelos QR Codes porque achamos que os portugueses estão abertos a esta tecnologia. Podíamos ter optado por outras, como o reconhecimento de imagem, algum tipo de código numérico, mas escolhemos o QR Code porque é cada vez mais mainstream. Está a ser utilizado em outdoors e até em anúncios de televisão. Acredito que é a tecnologia certa e que irá ter cada vez mais expressão”, remata Gaspar d’Orey.

Mas nem tudo são rosas nesta nova tecnologia. O mundo digital é, cada vez mais, uma oportunidade para que piratas informáticos tentem aceder aos nossos dados digitais e até a contas bancárias (Ver caixa Manusear com precaução). À medida que os QR Codes começam a ganhar mais espaço na sociedade, as tentativas de crime cibernético tenderão a ser cada vez mais sofisticadas. Em resposta à VISÃO, o Portal da Queixa admitiu ter já “recebido 13 reclamações relacionadas com QR Codes”, mas nenhuma no âmbito de fraude digital. Os principais motivos para estas queixas têm sido a dificuldade de leitura ou falhas de funcionamento.

Além disso, como os QR Codes conseguem fazer mapeamento e recolha de dados, começa a levantar-se a dúvida sobre a utilização desses dados, à luz do novo Regulamento Geral de Proteção de Dados. 

Uma ideia com 27 anos
A primeira vez que um código de barras foi utilizado aconteceu num supermercado da localidade de Troy, no estado do Ohio, EUA, no dia 26 de junho de 1974. A compra foi de uma embalagem de pastilhas da marca Wrigley. A ideia surgiu de um engenheiro da IBM que primeiro criou o código com linhas circulares. Mas depressa percebeu que este formato iria provocar problemas devido à qualidade das impressoras da altura. A ideia foi criar as barras de forma horizontal. O sucesso desta solução que permitia fazer uma melhor gestão de stocks depressa ganhou o seu espaço em todo o mundo. Hoje é raro o produto que adquirimos que não tenha um código de barras.

No entanto, esta nova “tecnologia” depressa se tornou algo insuficiente para quem gere o armazenamento de grandes fábricas que produzem muitos e variados produtos.

Vinte anos depois, no Japão, uma equipa da Denso, empresa de fabrico de componentes para a indústria automóvel, começou a perceber que os tradicionais códigos de barras estavam a ficar ineficientes para a quantidade de informação que era necessário acoplar a cada uma das peças ali fabricadas. Foi nessa altura que o engenheiro Hara Masahiro começou a trabalhar numa nova tecnologia. “Necessitávamos de colocar mais de dez códigos de barras em cada uma das caixas de produtos. Os funcionários começaram a fartar-se de ter de fazer por várias vezes a leitura digital de cada uma dessas peças. E foi isso que nos levou a pensar no desenvolvimento de um novo código que incorporasse mais informação e que pudesse ser lido num único scan”, disse Hara Masahiro ao jornal Nippon.com.

Por incrível que pareça, a inspiração de Hara Masahiro para esta ideia teve origem nos jogos de computador da altura. “Eu costumava aproveitar as paragens para almoço para jogar computador. Um dia, estava num jogo em que tinha de encaixar várias peças pretas e brancas no ecrã quando me apercebi de que aquela poderia ser uma forma direta de transmitir informação. Foi o momento eureka”, revelou Hara Masahiro.

Este engenheiro ficou com os louros da descoberta, mas é o próprio que diz que apenas teve o momento de inspiração. O restante trabalho foi feito pela equipa de desenvolvimento da Denso. Criados os primeiros QR Codes, a empresa japonesa percebeu que não tinha recursos para gerir a tecnologia como um negócio e decidiu abrir as patentes na expectativa de que outras empresas utilizassem este código.

A estratégia acabou por resultar e os QR Codes começaram a ser usados em quase todas as grandes fábricas do Japão. Só mais tarde se estenderam a outras partes do globo.

Quando chegaram os telemóveis com câmaras de maior definição, a tecnologia começou a ganhar vida própria, sobretudo em 2017, quando a Apple e a Samsung decidiram incorporar câmaras que já não necessitavam que se fizesse o download das aplicações de leitura destes códigos.

Novas aplicações
No Japão, o banco Kagoshima está a testar esta tecnologia para minimizar o levantamento indevido de dinheiro em ATM. O processo passa pela emissão de um QR Code associado ao cartão de crédito que tem informações sobre as características faciais do utilizador. Desta forma, após ler o QR Code, a câmara do ATM vai ler a face da pessoa que está no ATM e só depois é que dispensa o dinheiro.

Ainda no Japão, o metro de Tóquio desenvolveu um sistema para abrir de forma sincronizada as portas das carruagens e do gradeamento (o metro de Tóquio tem uma proteção em acrílico entre a plataforma e os carris) que apenas permite que as portas das carruagens e da proteção abram em sincronia. No passado, o sistema utilizava sensores que não só eram mais caros como exigiam uma maior manutenção.

É um instrumento muito interessante de interação e de comunicação entre as pessoas, espaços ou objetos sem haver necessidade de contacto

Lúcio Trigo, CEO da PLM Plural

Esta tecnologia está presente em alguns dos gigantes das vendas online, como é o caso da Amazon. Nos grandes centros de logística desta empresa, os robôs que distribuem as caixas de um lado para o outro circulam de forma autónoma e são orientados por QR Codes que estão desenhados no piso do armazém.

Ao longo dos próximos anos, poderemos ver novas aplicações a surgirem utilizando esta tecnologia. Em 2019, Hara Masahiro dizia que gostaria de ver os QR Codes contendo informação médica das pessoas, o que “facilitaria a ajuda dos paramédicos em casos de desastres naturais porque poderiam ler o código e efetuar os serviços médicos mais apropriados para aquela determinada pessoa”.

Passados três anos, a realidade já anda muito perto do desejo do homem que idealizou o QR Code. A Mercedes-Benz, por exemplo, desenvolveu um código QR que, em caso de acidente, pode ser lido pelas equipas de salvamento para estas saberem a melhor forma de retirar as vítimas de dentro de cada modelo, bem como obterem vistas tridimensionais da estrutura do veículo.

Ainda recentemente, os bombeiros de São Paulo conseguiram salvar a vida de uma mulher que sofreu um acidente grave caindo de mais de 30 metros num percurso pedestre da Serra do Mar. Foi através de um QR Code gravado nesse percurso que a equipa de salvamento conseguiu localizar a vítima para a resgatar.

O sonho de Hara Masahiro começa a tornar-se realidade.

Manejar com precaução

Os QR Codes ganharam protagonismo com a pandemia e hoje são uma das formas de maior interação digital. Mas a sua utilização está a gerar muitas dúvidas quanto à questão da segurança. Saiba o que são, quais os riscos que pode enfrentar e como se precaver.

O que é um QR Code? Trata-se de um código de barras bidimensional que pode ser lido pela câmara do smartphone. A imagem do código pode conter até 4 000 caracteres num formato ultracondensado.

São seguros? Supostamente sim, mas, como em quase todos os métodos de transferência de dados, existem riscos. E à medida que vão sendo mais utilizados, começam também a atrair mais piratas informáticos. Estes podem gerar QR Codes maliciosos que poderão não só roubar dados do utilizador como interferir na utilização do smartphone (envio de mensagens, emails, chamadas, etc.).

Isso só acontece com os smartphones? Não, mas os dispositivos móveis tendem a estar menos protegidos do que os PC ou os laptops, o que aumenta os riscos potenciais.

Como é que são feitos os ataques? Um dos métodos mais comuns é a colocação de URL maliciosos num QR Code. Ao fazer o scan do código, o utilizador pode ser direcionado para uma página web muito parecida com aquela a que pretende aceder e que irá pedir-lhe os respetivos dados pessoais, credenciais ou informação bancária.

Como podemos saber se o QR Code é ou não malicioso? É praticamente impossível, pois estes códigos são todos idênticos para o olho humano.

E como podemos proteger-nos? Existe, cada vez mais, software de proteção, mas o melhor método é tomar medidas preventivas, nomeadamente apenas fazer o scan de QR Codes de fontes fidedignas. Quando vai digitalizar um código de uma brochura, um panfleto ou um painel informativo, verifique se esses não são cópias falsificadas dos originais ou se não existe um QR Code sobreposto ao original. E, por último, tenha muita atenção à página web para onde o QR Code vai direcioná-lo, verificando se esse é ou não um domínio legítimo.

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