Quem são alguns dos pensadores mais influentes do mundo e o que acham do momento em que vivemos?

Duas crises de proporções históricas, ascensão de líderes populistas nos países mais poderosos, desvio do centro geopolítico de oeste para este, fendas no consenso económico, revolução na disseminação da informação, guerras culturais. Depois de algumas décadas em piloto automático, a convulsão ideológica parece ter regressado. Ideias destinadas a não sair de pequenos nichos conseguem, agora, fazer mexer o debate, e a era das TED Talks convive com uma atenção redobrada com as histórias que contamos sobre a forma como nos organizamos enquanto sociedade, com maior vontade de intervir no desenho de políticas públicas. Quando influencers do Instagram tiram fotos na praia a ler livros sobre o futuro da Humanidade, alguma coisa está a mudar.

A Covid-19 criou uma oportunidade de ouro para os intelectuais. Numa altura em que o impossível se tem revelado possível – países inteiros com a população trancada durante meses em casa, governos a garantirem o salário de milhões, novas tecnologias e vacinas em tempo recorde –, qualquer tentativa de se explicar o presente ou de imaginar o futuro beneficia de maior latitude. Uma distopia em que o Estado controla todos os nossos movimentos e sabe até o nosso batimento cardíaco? Não é impossível. O fim da globalização? Não falta quem ache que já está a acontecer. Novos apoios sociais universais? Porque não?

Tim Marshall

A geografia é o nosso destino
No seu primeiro grande sucesso, Prisioneiros da Geografia, o jornalista explica-nos como características geográficas por vezes ignoradas (rios, montanhas, desertos) determinam a formação de países ou de grandes fraturas geopolíticas. Da obsessão da Rússia com a Crimeia às características que tornaram inevitável a ascensão dos Estados Unidos a superpotência global. Na sua obra mais recente, ele usa o mesmo argumento para projetar o futuro, olhando para dez casos de estudo. No seu coração está obviamente a tensão EUA vs. China e o risco da armadilha de Tucídides (quando uma nova potência ameaça substituir outra, a guerra é inevitável). Contudo, Marshall não se fica pela geografia terrestre e reflete sobre os desafios da corrida ao Espaço. Nota que, enquanto não houver consenso acerca de como explorar o que está para lá da nossa atmosfera, arriscamo-nos a repetir no Espaço o que está a acontecer ao nosso planeta: luta por recursos e descontrolo na sua exploração. Este desafio entrou em fast-forward, agora que empresas privadas se tornaram centrais na corrida, com Jeff Bezos e Elon Musk na liderança. Será esse o próximo faroeste?

Uma frase:
“Se pretendermos aprender alguma coisa, temos de olhar para a História de um país, para os seus líderes políticos, as suas personalidades e ideias. Mas o que também deve ser sempre observado é a geografia”

O livro:
Prisioneiros da Geografia

Quase dois anos de vidas suspensas e 4,2 milhões de mortos convivem com avanços científicos prodigiosos, o que força muitos pensadores a escolher a sua trincheira entre a tragédia e a oportunidade. Slavoj Zizek prevê, no seu último livro, “novas formas de luta de classe”, enquanto Francis Fukuyama considera que é a própria democracia liberal que está em risco. Mas Jared Diamond acha que estamos a aprender lições para lidar com as alterações climáticas e Thomas Piketty identifica um ambiente propício a uma revolução política e económica.

Talvez nenhuma voz seja hoje tão escutada como a de Yuval Noah Harari. O israelita é o póster do intelectual pop. O autor que todos os amigos gostam de citar é o pico da “literatura de aeroporto”. O seu bestseller, Sapiens, vendeu 21 milhões de cópias e está traduzido em 65 línguas. É altamente recomendado por Bill Gates e por Barack Obama, que o descreve como “a História completa da raça humana vista a 40 mil pés [de altitude]”, mencionando-o lado a lado com a sua visita às Pirâmides de Gizé.

Jared Diamond

Esperança na cooperação
É um dos maiores representantes da classe dos “tudólogos”. No aclamado Armas, Germes e Aço – que lhe deu o Pulitzer – argumenta que o motivo pelo qual as civilizações euro-asiáticas se desenvolveram mais depressa do que outras regiões do mundo se explica com condições ambientais (como mais animais e plantas domesticáveis) e não com qualquer forma de superioridade genética ou moral. Este olhar transversal aos últimos 13 mil anos tornou Diamond uma superestrela (é, aliás, a grande influência de Tim Marshall e Yuval N. Harari). Quanto ao futuro, as alterações climáticas não o deixam muito otimista. Há três anos, dizia à VISÃO: “Há 51% de probabilidades de os meus filhos serem felizes.” Os outros 49%? É a probabilidade que atribui a “acabarem a viver num mundo terrível”. Lembra-nos constantemente de que outras civilizações poderosas entretanto desaparecidas também se achavam invencíveis, com a diferença de que, agora, nenhuma cai sozinha, ao contrário do que aconteceu com os maias ou os khmers. Hoje, o colapso poderia ser global. A crise pandémica parece ter dado a Diamond maior esperança num futuro de cooperação internacional. Em dezembro dizia que a Covid-19 nos mostrou que há problemas dos quais não conseguimos sair sozinhos. Uma lição para lidar com alterações climáticas e desigualdade?

Uma frase:
“Pela primeira vez na História mundial, as pessoas de todo o mundo estão a ser forçadas a reconhecer que enfrentamos uma ameaça comum e que nenhum país pode superá-la sozinho”

O livro:
Armas, Germes e Aço

Harari gosta de ver a História e o futuro “de balão”. É isso que o torna tão apelativo e fácil de consumir. Em cima de Sapiens construiu um império feito de sequelas, spin-offs e intervenções em conferências de centenas de milhares de euros, misturando o estilo de historiador-filósofo de TED Talk com o de um curso de autoajuda. A infraestrutura à volta da marca Harari™ é tão densa que até outros intelectuais têm inveja. The New Yorker conta que Steven Pinker, outro membro do clube de pensadores pop, diz não conhecer “qualquer outro académico ou intelectual que tenha tomado esta via”, referindo-se à dimensão da operação Harari, uma equipa já com 12 pessoas.

“Ele coloca o dedo do meio no queixo e responde calmamente a perguntas sobre neandertais, carros autónomos e o final da Guerra dos Tronos, escreve a revista norte-americana, depois de uma visita a Telavive. Além da já publicada novela gráfica de Sapiens, “há também planos para um Sapiens para crianças e uma série televisiva inspirada em Sapiens, que cobrirá 60 mil anos, com guião escrito pelo coargumentista de Apocalypto, [filme] de Mel Gibson”.

Foto: Getty Images

Stephanie Kelton

O comprimido vermelho da economia
É possível ser altamente influente sendo rejeitada por grande parte do meio em que se insere? É esse o caso de Stephanie Kelton, vista como a principal embaixadora de Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla original). Uma perspetiva que, dependendo do economista a quem pergunte, é o comprimido vermelho do Matrix ou uma loucura perigosa. MMT é um quadro de análise que argumenta que economias avançadas com soberania monetária e que se endividam numa moeda que controlam totalmente (EUA, Reino Unido, Japão) não têm limites “financeiros” para aquilo que podem gastar. Não estão dependentes de receitas para executar despesa. É uma visão ultraminoritária no campo económico, mas Kelton e outros têm ganhado influência política junto de alguns representantes democratas e amplo espaço mediático. Além disso, a batalha da MMT é, acima de tudo, pelo controlo da narrativa, um campo onde as coisas têm avançado na sua direção, com uns EUA cada vez menos conservadores nas suas escolhas orçamentais, como provam os primeiros meses da administração Biden. Kelton é professora na Stony Brook University, foi uma das economistas de topo dos democratas no Senado e antiga conselheira de Bernie Sanders nas suas duas candidaturas presidenciais. A sua obra The Deficit Myth tornou-se um best-seller e foi provavelmente o livro de economia mais discutido de 2020.

Uma frase:
“O Uncle Sam não é um pedinte que tem de ir de chapéu na mão à procura de financiamento para pagar a sua despesa. Ele é um emissor de moeda musculado!”

O livro:
The Deficit Myth

O seu olhar para o futuro envolve um medo tremendo de que alguns dos desenvolvimentos tecnológicos mais recentes sejam capazes de exercer um poder inédito de observação e de controlo. A vigilância deixa de ser apenas aquilo que se passa “acima da pele” para ser aquilo que se passa “debaixo da pele”. “Com esta pandemia, governos e empresas estão cada vez mais focados no que está a acontecer dentro dos nossos corpos. Isso pode mostrar-lhes se estamos doentes, ou não, mas também como nos sentimos. Sentimentos, como doenças, são fenómenos biológicos”, explicou à BBC.

Por exemplo, se usar uma pulseira biométrica, é possível saber o que está a sentir quando vê uma série de televisão ou assiste a um discurso de um governante. Estes avanços “podem criar o melhor sistema de saúde do mundo, que sabe que está doente antes de você”, mas também pode dar origem ao “pior regime totalitário que alguma vez existiu, que nos conhece melhor do que nós próprios”.

Foto: Getty Images

Thomas Piketty

O campeão contra a desigualdade
Não foi o único a estudar o fenómeno da desigualdade, mas é o grande responsável por ter colocado o tema no centro da agenda económica. A publicação de O Capital no Século XXI, em 2013, concluía que a remuneração do capital tem avançado mais depressa do que o crescimento da economia, o que sugere a existência de um ciclo de desigualdade difícil de quebrar. O livro foi o mais vendido de sempre da Harvard University Press. Um dos casos raros em que uma obra de grande densidade chega ao grande público. A Businessweek colocava-o na capa da revista com o título “Pikettymania”. Nos seus livros mais recentes, procura corrigir aquilo que considera ter sido um equívoco da sua primeira grande obra: a desigualdade não é inevitável. O seu agravamento ou alívio depende de opções políticas. “É tudo político e ideológico. Não há qualquer razão determinista para termos um aumento da desigualdade”, dizia à VISÃO, em outubro. Piketty é provavelmente a principal figura defensora de uma alternativa económica àquilo a que chama o “hipercapitalismo” das últimas quatro décadas. Crítico das experiências comunistas, aposta que a palavra “socialismo” não está morta e defende uma versão descentralizada, democrática e ecológica desse modelo económico. Piketty e os seus discípulos, como Gabriel Zucman, são das vozes mais influentes da economia atual.

Uma frase:
“É tudo político e ideológico. Não há qualquer razão determinista para termos um aumento da desigualdade”

O livro:
O Capital no Século XXI

Esta abordagem passiva de Harari aproxima-o de Jordan Peterson, o polémico psicólogo, crítico do “politicamente correto” e das “políticas identitárias”, frequentemente acusado de misoginia e de transfobia. É também um antiativista. “Isto também aconteceu nos anos 60 [década de luta pelos direitos civis nos EUA], em que ficámos com esta ideia miserável de que a forma de te comportares como um ser humano responsável era carregar cartazes em protesto para mudar a opinião de outras pessoas e, desse modo, fazer nascer uma utopia”, afirmou numa palestra em Harvard. Tal como Harari, Peterson está tanto no campo do “pensador” como no do guru de autoajuda. A sua mensagem é clara: “Não reorganizes o Estado até teres colocado em ordem a tua própria experiência.” Primeiro vai arrumar o quarto, depois podes ir para o piquete de greve.

Apesar de antecipar com facilidade desastres políticos e tecnológicos, Harari não é especialmente ativo na prescrição de soluções. Inspirado pelo budismo, parece assumir que o sofrimento humano é inevitável. Qualquer posição política é altamente calculada. Embora preocupado com tendências autoritárias, só soube que Donald Trump tinha sido eleito mais de um mês depois (estava num retiro de meditação, em Inglaterra) e, mais recentemente, aceitou retirar as críticas a Putin na tradução russa do seu livro. É o filósofo preferido de Silicon Valley e uma figura simpática para as elites políticas e empresariais.

Pensar e intervir
Esta receita de reflexão e de melhoramento pessoal contrasta com uma visão mais interventiva de outros pensadores. No jornal israelita Haaretz, Danny Gutwein, professor de História da Universidade de Haifa, notava que a racionalização e a impotência, que Harari vende em relação a forças maiores, contrastam com outros esforços para criticar o consenso económico das últimas décadas, referindo os livros No Logo e A Doutrina do Choque, de Naomi Klein, e o documentário Sicko, de Michael Moore. “A crise económica de 2008 e os protestos de 2011 transformaram os falhanços do neoliberalismo e as suas injustiças em luta política pela sua reforma”, escreve.

Foto: Getty Images

Yuval Noah Harari

O perigo da tecnologia
Explicar o que Harari pensa sobre o futuro em menos de mil caracteres é impossível. Ele tem imensas ideias sobre tudo e passa por todas elas como um comboio de alta velocidade, mas sempre com enorme convicção. Da História da Humanidade (Sapiens) a um futuro em que o Homem assume o lugar de deus, com corpos e mentes redesenhados (Homo Deus). Mas se há tema a que o historiador israelita tem dado mais atenção, principalmente desde a pandemia, é ao perigo da tecnologia e à capacidade que ela dá a governos e empresas para saberem tudo sobre as nossas vidas, mesmo aquilo que não revelamos a ninguém, seja através da elaboração de perfis de consumo online, de bolhas ideológicas nas redes sociais ou até da aceleração do ritmo cardíaco – medido por uma pulseira biométrica – quando estamos a assistir ao discurso de um político. Harari teme que estes desenvolvimentos deem origem a ditaduras supereficazes. Para nos proteger desse risco, recomenda três princípios gerais: maior vigilância de empresas e governos que têm essa informação, impedir a concentração ou um monopólio de dados e a utilização estrita dos mesmos em benefício das pessoas e não para condicionar o seu comportamento. Tendo em conta os últimos anos, parecem ser princípios utópicos. Harari é um grande crítico da atuação política durante a pandemia, contrastando-a com o sucesso científico. A diferença? Os políticos digladiaram-se, os cientistas colaboraram.

Uma frase:
“O meu grande medo é que, daqui a 40 ou 50 anos, quando as pessoas olharem para crise Covid, não se lembrem das máscaras, nem do vírus. Vão lembrar-se de que foi neste momento que a vigilância assumiu o controlo”

O livro:
Sapiens

Klein – agora mais dedicada às alterações climáticas – ou o economista Dani Rodrik intervêm no debate público desde os anos 90, mas a última década e meia trouxe mais investigadores, jornalistas e académicos para o desenho de políticas públicas e/ou ativismo. Duas crises históricas, agravamento da desigualdade e tensões na globalização serviram de gasolina para a busca por alternativas.

Talvez o caso mais famoso de um académico que saltou da torre de marfim para o centro do palco seja o de Thomas Piketty. O economista francês não chega aos números de Harari, mas o seu primeiro grande sucesso, O Capital no Século XXI, vendeu mais de 2,5 milhões de cópias. Foi o livro mais vendido de sempre da Harvard University Press. Para quase 700 páginas de análise histórica sobre acumulação de capital e desigualdade, não está mal.

Foto: Getty Images

Malcolm Gladwell

Triunfo da ciência
Gladwell construiu uma carreira de sucesso aos ombros de explicações simples para problemas complexos. Críticos dirão que são teses simplificadas ou demasiado dependentes de acontecimentos ou estatísticas isoladas, mas é inegável a capacidade de encontrar ângulos inesperados e ligações criativas. Ao longo dos anos, alimentou-se de teorias da ciência psicológica para explicar de onde vem o sucesso, como formamos rapidamente opiniões ou porque temos dificuldade em falar com estranhos. Nesta fase pandémica, revelou-se um otimista. “Hoje, estamos num mundo muito diferente. E é um lugar melhor, com mais esperança, mais forte e mais resiliente.” Considera que esta crise provou que uma organização em rede supera um sistema muito hierarquizado, dando como exemplo a campanha de vacinação, e acha que a ciência será a grande vencedora da pandemia. “Temos a oportunidade de educar uma geração inteira de americanos sobre o que a ciência pode fazer – é uma oportunidade incrível”, afirmou. 

Uma frase:
“Temos a oportunidade de educar uma geração inteira de americanos sobre o que a ciência pode fazer – é uma oportunidade incrível”

O livro:
Outliers

A conclusão central do livro era que o rendimento de capital avançava a um ritmo mais rápido do que o crescimento económico, o que favorece a concentração de riqueza. Para a contrariar, Piketty recomendava a introdução de impostos globais sobre a riqueza. A ideia era vista como radical há sete anos, mas hoje o FMI sugere a implementação de impostos desse género para pagar a despesa com a Covid-19 e, mais recentemente, 130 países chegaram a acordo para aplicar um imposto mínimo global sobre as maiores multinacionais do mundo.

Piketty apareceu como o braço académico de um movimento mais abrangente, simbolizado nas ruas pelo Occupy Wall Street e no seu slogan viral “we are the 99%”. Daí para a frente, o tema da desigualdade nunca mais saiu do centro do debate económico. Aliás, ele só se tornou mais relevante com a pandemia, que deixou ainda mais óbvias as bolsas de fragilidade social que o sistema atual não é capaz de abranger.

Peter Singer

Go vegan!
É difícil encontrar um momento mais adequado para reflexões éticas do que aquele que vivemos. Até onde ir para proteger grupos vulneráveis à Covid-19? Quem devemos vacinar primeiro? A imunização deve ser obrigatória? Singer tem escrito sobre o tema, da priorização de certos grupos face a outros até ao desperdício de doses de vacina. No entanto, as suas reflexões mais relevantes continuam ligadas aos direitos dos animais. No quase meio século desde que escreveu Libertação Animal (1975), o vegetarianismo e o veganismo deixaram de ser tendências de nicho e popularizaram-se, seja por motivos éticos ou de saúde. Mas pode argumentar-se que as condições dos animais só pioraram desde essa altura, com o aprofundamento da industrialização da produção de carne e outros produtos de origem animal para satisfazer uma procura crescente. Todos os anos, 70 mil milhões de animais são criados e abatidos para nos alimentar (a esmagadora maioria galinhas). Quando Singer escreveu o livro, eram 15 mil milhões. A luta contra as alterações climáticas também passa por aqui. Como outros, Singer argumenta que, se continuarmos a consumir carne a este ritmo, esse fator, sozinho, deve ser capaz de nos impedir de atingir os objetivos do Acordo de Paris. Defende, por exemplo, que a publicidade à carne de vaca deve ser tratada como os anúncios de tabaco, com todas as limitações a que têm de obedecer, e os apoios públicos à sua produção devem ser interrompidos.

Uma frase:
“Comer carne não é apenas uma preferência pessoal. A forma como os animais comidos são criados e abatidos tornou-se há muito tempo matéria de preocupação pública. Agora que podemos ver como comer carne vermelha afeta todo o planeta, é altura de os governos deixarem de a apoiar”

O livro:
Libertação Animal

À medida que o economista francês foi desbravando caminho, os companheiros e discípulos da academia foram recebendo cada vez mais atenção. Um deles é Gabriel Zucman, que faz capas de revista com o título “o detetive da riqueza”, referindo-se ao seu trabalho sobre os paraísos fiscais. Em vez de se limitar a escrever papers sobre temas obscuros, Zucman ajudou a candidata presidencial Elizabeth Warren a desenhar a sua proposta de um imposto sobre a riqueza e dirige agora o novo Observatório Fiscal da União Europeia.

“Não estamos aqui apenas para estudar a economia, porque ela existe, como as estrelas no céu”, sublinha Zucman, numa entrevista sobre a ascensão da Universidade de Berkeley e de uma abordagem mais interventiva na academia. “A motivação para muitos de nós é fazer investigação em Ciências Sociais que melhorem as políticas públicas.”

Depois há ainda aqueles que procuram moldar o debate. Stephanie Kelton é um bom exemplo. A economista é a principal embaixadora da Teoria Monetária Moderna (MMT na sigla original), um quadro de análise que argumenta que, para países com soberania monetária (EUA, Reino Unido, Japão), não existem limites financeiros para aquilo que podem pedir emprestado. MMT é ainda uma perspetiva de nicho altamente minoritária entre os economistas – muitos veem-na como uma receita para o desastre –, mas a batalha de Kelton e de outros é mais pela narrativa política do que pelo coração da academia. Nesse campo, seja pela ascendência que têm junto de alguns democratas mais à esquerda (como Alexandria Ocasio-Cortez) seja pelo espaço que ocuparam nos media, a sua influência é inegável. Repara-se que Joe Biden apresenta megaprograma atrás de megaprograma para estimular a economia e a preocupação deixou de ser com os “limites orçamentais” do Estado e mais com o impacto que pode ter na inflação.

É também nesta tradição que se insere Esther Duflo, Nobel da Economia em 2019 e uma das figuras de proa desta viragem empírica, com estudos práticos acerca das melhores soluções para diminuir a pobreza, visando melhorar a saúde e a educação das crianças. Enquanto Keynes gostava que os economistas fossem vistos como “humildes” e  “competentes” como dentistas, Duflo prefere ver-se como uma canalizadora. Em vez de refletir no seu gabinete sobre grandes teorias e modelos matemáticos, prefere analisar ao pormenor e no terreno como certas políticas funcionam e como podem ser melhoradas – seja com um ou outro aperto para estancar fugas ou com a substituição de toda a canalização.

Foto: Getty Images

Naomi Klein

Terapia de choque
Quem melhor para ouvirmos sobre um sismo como a Covid-19 do que alguém que ficou conhecido por estudar momentos de choque económico e social profundo e as suas consequências? Naomi Klein, jornalista e ativista, tem sido uma das principais vozes críticas do poder ascendente dos grandes grupos económicos, da globalização e do capitalismo. Na era Covid, Klein tem estado especialmente preocupada com a influência crescente dos gigantes tecnológicos, como a Google. “Chamem-lhe o Screen New Deal”, escreveu no The Intercept. Um futuro em que as nossas casas deixam de ser totalmente privadas, transformando-se em escritório, ginásio, escola e consultório. Se antes já havia uma discussão sobre o poder excessivo destas multinacionais, ela apenas se intensificou agora que elas se assumiram como um dos poucos vencedores económicos da pandemia, aproveitando também o desespero de governos e poderes locais por recursos financeiros e tecnológicos. Nos últimos anos, Klein tem-se concentrado nas alterações climáticas, tema dos seus últimos dois livros, On Fire e How to Change Everything (o primeiro para jovens). “Não devemos ficar surpreendidos com [os miúdos] estarem a radicalizar-se”, disse ao Guardian.

Uma frase:
“Em momentos de mudança cataclísmica, aquilo que era impensável torna-se, de repente, realidade. Nas últimas décadas, essa mudança tem sido, em grande parte, para pior – mas não foi sempre assim. E não tem de continuar a ser assim no futuro”

O livro:
A Doutrina do Choque

Esta luta pelo controlo da narrativa e a vontade de intervir na definição de políticas públicas têm em Mariana Mazzucato outro exemplo. Os seus livros procuram desmistificar o conceito de que o Estado é uma entidade cinzenta e inútil, combatendo a ideia de “privado = inovador” e de “público = obstáculo” que ganhou raízes nos últimos anos. “O Estado é útil, produtivo e estratégico, e conseguiu algumas das maiores proezas dos nossos tempos. Todas as coisas que tornam o iPhone inteligente foram financiadas pelo setor público. Internet, GPS, touchscreen… Isso aconteceu devido à organização específica do Estado, e não porque se tenha atirado dinheiro para cima dos problemas”, explicava em entrevista à VISÃO.

Além da publicação de livros, Mazzucato desenvolveu com a Comissão Europeia – e Carlos Moedas, em particular – uma série de recomendações para uma estrutura de missões, que procura mudar a relação entre governos e empresas, com mais experimentação e assunção de risco pelo Estado mas também com capacidade de ficar com parte da recompensa.

Mais apetite
O intelectual paquistanês Adil Najam passou meio ano a entrevistar 99 dos mais influentes pensadores do mundo sobre como será a nossa vida pós-Covid. Académicos, líderes de organizações internacionais, políticos e empresários. As conclusões centrais não são propriamente surpreendentes, mas revelam-se muito diversas. De um aumento dramático de depressões clínicas à explosão das tensões entre China e EUA, de uma revolução no ensino a uma invasão de robots nas nossas vidas.

Malcolm Gladwell antecipa que a pandemia motivará uma renovada confiança na Ciência, Jared Diamond acha que a Covid-19 está a ensinar-nos o caminho a seguir para lidarmos com as alterações climáticas. E até o geralmente cético Noam Chomsky, um dos mais influentes intelectuais das últimas décadas, se mostra cautelosamente otimista com a possibilidade de “um sistema internacional desenhado para os interesses das pessoas e não do poder privado”. “Não é fácil de se alcançar, mas é possível”, afirmou.

Mariana Mazzucato

O regresso do Estado
Mariana Mazzucato tem dedicado a sua vida a reabilitar a reputação do setor público. Depois de décadas de desvalorização da atuação do Estado e de exaltação dos méritos das empresas, a economista considera que o pêndulo balançou demasiado nesse sentido. Nos seus livros – principalmente em O Estado Empreendedor –, Mazzucato desmistifica a ideia de que os Estados são entidades lentas, burocráticas e inúteis e defende a necessidade de uma renovada articulação entre público e privado, com maior protagonismo para o primeiro, que deve assumir a liderança de processos de inovação. Das alterações climáticas aos desafios demográficos, há obstáculos que apenas se ultrapassam com ação comum concertada. A pandemia tornou a mensagem de Mazzucato mais pertinente, com a necessidade de uma atuação musculada dos Estados, seja através de despesa em saúde pública ou de reforço e expansão de apoios sociais. Parte desta mudança pode revelar-se estrutural: seremos mais exigentes em relação àquilo que esperamos dos governos? Alguns elementos podem esfumar-se quando as máscaras e as zaragatoas desaparecerem, mas nalgumas áreas será complicado o setor público recuar. Mazzucato terá um papel importante neste debate.

Uma frase:
“O Estado é útil, produtivo e estratégico e conseguiu algumas das maiores proezas dos nossos tempos. Todas as coisas que tornam o iPhone inteligente foram financiadas pelo setor público”

O livro:
O Estado Empreendedor

Na sua generalidade, as visões são pessimistas, mas há quem veja na pandemia um momento para a redefinição de prioridades que, ao forçar transições dramáticas – como a digitalização e o teletrabalho –, pode servir de catalisador para uma década de crescimento. Uns “novos loucos anos 20”, como escrevia a VISÃO há alguns meses.

A Covid-19 assegurou que não faltariam reflexões de intelectuais sobre o futuro coletivo. As mudanças na Imprensa e a centralidade das redes sociais garantem que muitas delas são feitas praticamente em direto. Se uma retalhista de videojogos disparar em Bolsa devido à atuação de um grupo ultra-agressivo de pequenos investidores num fórum online – como aconteceu com a GameStop –, nos dias seguintes não faltarão análises ao “significado” do acontecimento. E, poucas semanas depois, teremos Zizek a explicar-nos o que isso nos diz sobre o estado do capitalismo.

Embora seja fácil de gozar com algumas das opiniões e inconsistências de Peterson, o seu sucesso talvez mereça reflexão. Num mundo em convulsão, há grande apetite por histórias que explicam o que nos está a acontecer, de onde viemos e para onde nos dirigimos. Isso pode tomar a forma de uma versão simplificada de 100 mil anos de História, de defesa de reformas por um sistema económico mais justo ou simplesmente uma ordem a dizer-nos para irmos fazer a cama.

O sucesso de figuras como Jordan Peterson pode ser explicado por mais motivos do que aqueles que cabem neste texto, mas estará a ser ajudado por este mundo cada vez mais rápido e confuso e pela falta de comparência de intelectuais mais consistentes. Num longo texto de análise à figura na Current Affairs, Nathan Robinson diz que Peterson tem argumentos para reclamar o título de pensador mais influente do Ocidente. “Pode não ser o intelectual que nós queremos, mas é provavelmente o intelectual que merecemos.” “Ele é a pessoa inteligente do homem desesperado, alimentando-se de angústia e confusão. Quem mais tem uma alternativa séria? Onde estão os outros professores com canais de YouTube acessíveis e convincentes, com livros cheios de conselhos úteis e longas sessões de perguntas com o público? Não admira que Peterson seja tão popular: ele chega e oferece regras e rumo num mundo, bom, de caos.”

Dani Rodrik

Fim da hiperglobalização
No final dos anos 90, Dani Rodrik era um académico de topo relativamente isolado nas críticas à globalização. Mesmo aqueles que concordavam com ele e achavam que tínhamos ido longe demais não queriam dar armas aos populistas que defendem o isolamento nacionalista. Hoje, principalmente depois da disrupção provocada pela pandemia, muitas das ideias do economista turco tornaram-se mais consensuais. Os anos pós-crise de 2008 já tinham trazido um crescimento mais lento do comércio internacional, que acabaria por se conjugar com o agravamento de tensões geopolíticas (EUA vs. China). Noutra dimensão, a recente criação de uma taxa mínima de imposto para as multinacionais é mais um sinal de que podemos estar a assistir ao princípio do fim daquilo a que Rodrik chama uma era de “hiperglobalização”, em que grandes multinacionais e movimentos de capital têm vantagem clara face aos cidadãos. A globalização continuará, mas talvez não nos mesmos moldes. Para o futuro, a principal preocupação do economista é a ameaça tecnológica no mercado de trabalho que, antecipa, terá um impacto semelhante ao da globalização. “Bons empregos” deve ser a prioridade política central para qualquer governo, defende, pedindo uma política industrial mais ativa e lembrando que nem tudo pode ser solucionado com mais formação e educação para os trabalhadores.

Uma frase:
“Vivemos num mundo onde o problema é que para um conjunto de tendências – relacionadas com mudanças tecnológicas e com quão globalizado o mercado mundial é – estamos num estado crónico de escassez de bons empregos”

O livro:
Has Globalization Gone Too Far?

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