No rasto do líder do tráfico: Chefe do maior cartel de droga português vive livre e com vista para o mar

Quem hoje se cruzar com José António Palinhos está longe de imaginar a história que se esconde por detrás da aparência intelectual e grisalha deste homem de 70 anos. Palinhos vive livre e tranquilo em Portugal há mais de uma década – e é bem provável encontrá-lo a dar um passeio matinal pela Avenida Marginal, em Oeiras, a beber um café depois do almoço, na Póvoa de Santo Adrião, ou a olhar o pôr do sol à beira-mar, na Gafanha da Encarnação, mesmo continuando o seu rosto a figurar na lista dos criminosos mais procurados pela Interpol, depois de ter escapado por entre os dedos da Justiça brasileira, que o condenou a 28 anos de prisão por tráfico internacional de droga.

Durante pelo menos duas décadas, Palinhos foi a peça-chave de uma organização criminosa de portugueses, radicados no Brasil, responsável por uma rota marítima que alimentou Portugal e a Europa de cocaína sul-americana. Com o tráfico, tornar-se-ia milionário e poderoso, figura da alta-roda carioca, dono de um império que incluía alguns dos mais populares restaurantes do Rio de Janeiro – frequentados por estrelas como Madonna ou Sting –, carros de luxo, imóveis e terrenos nos pontos mais nobres da Cidade Maravilhosa.

As primeiras dores de cabeça para Palinhos só chegariam em 2005. Caçado pela Polícia Federal, na sequência da Operação Caravelas, o português ver-se-ia atirado para a cela de uma cadeia de segurança máxima. Mas, apenas 974 dias depois – e ainda sem se perceber muito bem como ou porquê –, um novo juiz deu-lhe o privilégio de cumprir o resto da pena num regime semiaberto, que logo aproveitou para se pôr a monte, fugindo para Portugal, via Paraguai e Madrid. Quando o alerta da polícia brasileira chegou a este lado do Atlântico, de pouco ou nada serviu. Em 2011, a emissão do mandado de captura internacional valeu-lhe 43 dias de prisão em Lisboa. Porém, expirados todos os prazos legais, Palinhos tornar-se-ia apenas mais um capítulo do rol de imbróglios jurídicos ditados pelas convenções de extradição assinadas entre Portugal e o Brasil.

Sem meios legais para prendê-lo, as autoridades dos dois países fizeram por ignorar este único líder vivo do principal cartel de droga português. José António Palinhos permanece em liberdade, dono de um apartamento com vista para a praia de Santo Amaro de Oeiras e com ligações a várias empresas do setor imobiliário, com sedes em Lisboa, Odivelas, Aveiro e até no Reino Unido, que partilha com um novo sócio. Os crimes que cometeu no Brasil prescrevem somente em 2031 – resta saber se algum dia pagará por eles.

Suspeitas do Brasil

Em 2011, José António Palinhos foi preso em Aveiro, quando se preparava para inaugurar ali uma pizaria (através da empresa Capricciosa Originale). A inconsequente tentativa das autoridades de fazer cumprir o mandado de captura internacional serviu para perceber que Palinhos se mantinha ativo nos negócios, com apostas na restauração e imobiliário. Atualmente, está ligado a várias empresas, sediadas em Lisboa, Odivelas, Gafanha da Encarnação e Londres – algumas delas, visitadas pela VISÃO, não passam de armazéns ao abandono.

À VISÃO, fonte da polícia brasileira admite “ter a convicção de que Palinhos não se reabilitou” e que “continua a controlar uma rede de tráfico de cocaína para Portugal e Europa”. Os movimentos do empresário reforçam as suspeitas. “Este é precisamente o modus operandi que ele sempre adotou. Essas empresas servem simplesmente para fazer lavagem de dinheiro e justificar a compra de bens com o dinheiro do tráfico. São fundamentais para a organização, mas só têm nome, não funcionam, não têm porta aberta. Ele já tem o know-how e os contactos. Por isso, com quase toda a certeza, ele continua a atuar no narcotráfico internacional”, afirma a mesma fonte, embora sem adiantar quaisquer factos. Refira-se que Portugal só extradita os seus cidadãos para responder perante a Justiça de outros países quando há acordos de reciprocidade – o que não acontece com o Brasil.

De desertor a líder do tráfico
José António Palinhos Jorge Pereira nasceu em Rendo, Sabugal, em 1950, mas foi em Lisboa que cresceu e se fez homem, depois de os seus pais escolherem a capital para afugentarem da família a realidade de um Interior frio e pobre. Talvez tenha sido o exemplo paterno a dar-lhe a coragem para, anos mais tarde, tomar a decisão de desertar do Exército português em plena Guerra Colonial – conflito que não compreendia, nem queria. Em 1972, com apenas 22 anos, despiu a farda e, sozinho e sem olhar para trás, embarcou no primeiro barco rumo ao Rio de Janeiro – abandonando, em Portugal, a mulher e um filho de colo.

Como qualquer emigrante português, no Brasil, rapidamente se fez à vida. Andava na venda da lula quando conheceu António Dâmaso (hoje falecido), na altura figura proeminente da comunidade portuguesa, com estatuto de empresário do ramo alimentar capaz de fornecer a Europa com carne bovina. Desta relação, nasceria uma organização criminosa que definiu como meta exportar para Portugal entre quatro a cinco toneladas de cocaína por ano.

Buchos de boi O cartel português dissimulava a cocaína no interior de peças de carne que vendia para Portugal e Espanha

De acordo com o acórdão, a que a VISÃO acedeu, o esquema era simples: os portugueses compravam droga colombiana, que chegava ao estado brasileiro de Mato Grosso na frota de aviões privados de Luiz Carlos da Rocha, conhecido como Cabeça Branca, ainda hoje considerado o maior narcotraficante da história do Brasil (cumpre pena de prisão de mais de 100 anos). A droga era depois transportada em fundos falsos de camiões até ao Rio de Janeiro, onde ficava depositada num armazém localizado na zona da Penha Circular, perto de um antigo porto daquele município.

Quando a carga atingia entre duas a três toneladas, passava-se à fase seguinte: através das empresas de António Dâmaso, o grupo adquiria carne; e através das empresas de José António Palinhos, era feito o transporte. A cocaína era colocada no interior de peças de bucho de boi, congeladas em contentores. Com a ajuda dos despachantes Luís Chagas e Manoel Kleiman, a carga era trazida de barco até Portugal, onde António Palinhos, o irmão mais novo de José António Palinhos, a descarregava e guardava em armazéns que o grupo detinha na zona de Cascais. O produto era então revendido para vários países, com elevada margem de lucro.

O ritmo de barcos que cruzaram o Atlântico não desacelerou durante os 20 anos seguintes. De seis em seis meses, o dinheiro da cocaína enchia os bolsos sem fundo dos portugueses, permitindo a Palinhos libertar-se das memórias cinzentas da infância e da juventude. Para se ter uma ideia: o quilo da cocaína comprada na Colômbia custava cerca de 1 700 euros; no Brasil, os portugueses compravam-no por cinco mil euros; e, na Europa, vendiam-no por 28 a 34 mil euros.

No início dos anos 2000, já nada restava da criança nascida no sopé da Serra da Estrela há mais de meio século. Palinhos construiu uma nova família, voltando a casar-se com a brasileira Sandra Tolpiakow, com quem teve mais dois filhos – foram, aliás, as raízes judias da família da sua nova mulher que permitiram que se rebatizasse, acrescentando ao seu nome o apelido Cohen, que mais tarde utilizaria para abrir empresas e fazer viagens com documentos falsos em nome de George Cohen (entre outros). Com o mundo a seus pés, ainda procurou corrigir a única ponta solta do seu passado: e chamou para junto de si o seu primogénito português, Rodrigo Marques, que passou a gerir os restaurantes de luxo que pertenciam ao pai.

José António
Palinhos é descrito
por quem o conhece
como um homem
nervoso
e arrogante com
os subordinados

Para justificar os elevados fluxos monetários, Palinhos acrescentou dois peões à organização: Estilaque Reis, advogado, e Vânia Dias, secretária, de quem mais tarde se tornaria inseparável (e que atualmente também vive em Portugal). Com a ajuda destes elementos, o português foi abrindo e fechando empresas ao longo dos anos, que lhe permitiram justificar a circulação de carga e dinheiro.

A cadeia de pizzarias Capricciosa e o restaurante Satyricon – geridos pela mulher Sandra, pelo sogro Vladimiro Leopardi e pelo filho Rodrigo – eram usados por Palinhos para “lavar” os lucros da droga. Outra opção, recorrente, era ainda transformar em dólares os montantes somados na Europa, graças aos serviços de famosos “doleiros” (no Brasil, indivíduos que fazem lavagem de dinheiro através de câmbio de moeda internacional), como Dario Messer, figura central do processo de corrupção Lava Jato.

De milionário à prisão
Com esse dinheiro, Palinhos investiu de forma ambiciosa: em apartamentos em Ipanema e na Barra da Tijuca, mansões em Búzios e automóveis de alta cilindrada. No início do século, não era raro vê-lo a acelerar, vaidoso, ao volante do seu Porsche Cayenne blindado, pela Avenida Vieira Souto, em Ipanema – cujo metro quadrado é o mais caro da América Latina.

O primeiro passo para a queda de Palinhos deu-se muitos anos antes, por puro acaso. Curiosamente, o primeiro alerta chegou de Portugal. Em 1984, um talhante português, que tinha comprado carne à empresa de António Dâmaso, estava a desossar uma peça bovina quando deparou com um saco carregado com 15 quilos de pó, esquecido pelos traficantes nas entranhas do animal. Aflito, o talhante avisou a Polícia Judiciária, que seguiu o rasto da carne e alertou prontamente as autoridades brasileiras.

No entanto, foi preciso aguardar quase duas décadas para que fossem dados passos concretos – o que só aconteceu a partir de 2003, quando os agentes federais Manoel Divino e Aldo Oliveira assumiram a investigação. Em apenas dois anos, Divino e Oliveira identificaram e desmontaram todo o esquema do grupo de portugueses. Em 2005, a Operação Caravelas culminou com a detenção de 11 pessoas – entre as quais, Dâmaso e Palinhos –, depois de a Polícia Federal ter irrompido pelo armazém da Penha Circular, onde encontrou 2,2 toneladas de droga.

Praia de Santo Amaro Um apartamento numa rua sem saída, com vista para o Atlântico. Foi em Oeiras que José António Palinhos fixou a sua morada

As sentenças não foram brandas: Palinhos foi condenado a 28 anos de prisão, Dâmaso a 26 e os testas de ferro, Estilaque Reis e Vânia Dias, a 19 e três anos, respetivamente. Os familiares Sandra, Vladimiro e Rodrigo foram, por sua vez, salvos por suposta ingenuidade, após o tribunal concluir que os arguidos tinham sido instrumentalizados pelos líderes do grupo. Os bens que pertenciam a Palinhos reverteram todos para o Estado brasileiro – as casas e os carros já começaram a ser vendidos em leilão.

A prisão não parece ter tido efeitos imediatos em Palinhos. Certo é que o português continuou a controlar a rota da cocaína a partir da cadeia, como confirmou uma rusga policial, que encontrou na sua cela um telemóvel – registado em nome do diretor da ala de segurança máxima onde estava preso –, usado para efetuar dezenas de telefonemas para vários estados brasileiros, Paraguai e Portugal.

A fuga para Portugal
Em 2009, o juiz Alessandro Manso e Silva, da Vara de Execuções Penais de Goiás, entrou em cena. Ignorando estes sinais e o perigo de fuga, autorizou sem hesitar que o português cumprisse a pena em regime semiaberto, fundamentando a decisão no bom comportamento do recluso e no facto de este ter emprego garantido no exterior. Livre, Palinhos não se fez rogado e seguiu para Assunção (Paraguai), onde apanhou um avião direto para Madrid. Em menos de 24 horas, pisava o solo de Lisboa, ficando para sempre protegido pela nacionalidade portuguesa.

Portugal deu-lhe
a liberdade.
E Palinhos cura
as saudades
do Rio na praia
de Santo Amaro
de Oeiras

O facto de este homem, condenado a 28 anos de prisão, viver hoje em liberdade em Portugal não deixa indiferente quem dedicou grande parte das suas energias a tentar travá-lo (e às suas atividades ilícitas). É o caso do ex-agente federal Manoel Divino, agora na reforma, que liderou a Operação Caravelas. À VISÃO, Divino “lamenta o desfecho”, que descreve como um exemplo da “corrupção existente no Brasil”. E até avança com uma teoria: “[A libertação de Palinhos] Foi uma coisa muito estranha, feita por um juiz que não era da causa, com o envolvimento de um advogado que era de muito longe. Para mim, foi coisa do ‘Cabeça Branca’… Foi ele quem o ajudou a sair da prisão. O português era muito importante para ele: o principal transporte de droga para a Europa, uma peça-chave.”

Manoel Divino já não acredita que Palinhos cumpra a pena à qual foi condenado, mas espera que a experiência na prisão tenha servido para que o português aprendesse a lição. E termina com um voto de fé: “A nossa esperança é sempre que se faça justiça, mas, neste caso, agora só resta esperar que ele se tenha emendado, mudado de vida, deixado esta atividade. Afinal, é esse o objetivo das prisões, não é? Reabilitar o criminoso.”

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