Branson, Musk e Bezos: O lado negro dos milionários espaciais

Apesar de estar muito longe de competir por um lugar no pódio dos mais ricos do planeta, Richard Branson conseguiu ser o primeiro milionário a ir ao Espaço numa nave desenvolvida pela sua própria empresa, a Virgin Galactic. O triunfo concretizou-se no domingo, 11 de julho, e foi uma espécie de ultrapassagem cósmica pela direita do homem mais rico do mundo. Jeff Bezos já tinha agendado a sua viagem suborbital para a próxima terça-feira, 20, quando se celebram 52 anos desde a chegada dos primeiros astronautas à Lua, a bordo da Apollo 11.

O CEO da Tesla Motors, Elon Musk, ainda não anunciou quando irá ao Espaço, mas, na verdade, a SpaceX, empresa que fundou, é a mais avançada na corrida. Parceira da NASA, já realizou várias missões bem-sucedidas até à Estação Espacial Internacional. E também tem uma série de voos turísticos previstos para os próximos tempos.

O objetivo é deixar o maior número possível de milionários literalmente a ver estrelas – e, no futuro, democratizar as “férias” espaciais. Contudo, o fascínio de Bezos, Musk e Branson pelo cosmos parece ter diminuído o seu interesse por melhorar a vida no planeta Terra.
Eis o lado negro dos astronautas mais ricos do universo.  

Richard Branson

A última fronteira

O excêntrico milionário britânico envolveu-se em mil e um negócios, sempre com o selo Virgin, mas ainda lhe falta cumprir a promessa de levar turistas ao Espaço. Da fama de fintar impostos ninguém o livra, até porque já esteve preso por isso

Corria o ano de 1997 quando, numa entrevista à Forbes, lhe perguntaram qual seria o próximo desafio. Por essa altura, Richard Branson já havia desdobrado a Virgin em múltiplos negócios. Se os discos a catapultaram enquanto produto original, entretanto a marca ganhara tentáculos na aviação, na televisão, nos comboios, nos videojogos, nas férias, no cinema, nos livros, nas bebidas, na rádio, nos serviços financeiros, nos preservativos, nos balões de ar quente, nos casamentos, na cosmética… Nada era descartado à partida, porque tudo era suscetível de gerar lucro. A receita mantém-se até hoje: o nome da empresa-mãe está sempre associado a cada atividade.

O que se seguiria, então, quis saber o jornalista. “Virgin Space”, atirou o milionário britânico, para surpresa do interlocutor. “A sério?”, retorquiu-lhe, ao que Branson respondeu: “Muito a sério. Acredito que há pessoas suficientes dispostas a pagar grandes somas de dinheiro para serem passageiras destes voos e tornar isto fazível durante a minha vida. Marte não é assim tão longe. Quem sabe? É território Virgin.”

À beira dos 71 anos de idade, Branson fez história no domingo, dia 11, ao dar um saltinho ao Espaço. Descolou no Novo México e aterrou no mesmo sítio uma hora depois. Pelo meio, conseguiu ver a curvatura da Terra e experimentou a gravidade zero. Esteve a uma altitude superior a 80 quilómetros, conseguindo atingir o espaço sideral. Mas a estreia dos turistas está prevista apenas para o próximo ano. A concretizar-se, não deixa de ser uma boa notícia para os mais de 600 passageiros já com bilhete comprado.

Rivalidade O amigo Elon Musk está disposto a voar com a Virgin Galactic, mas o concorrente Jeff Bezos acusa Richard Branson (em cima) de nem sequer ultrapassar a fronteira do Espaço

Alguns dos aspirantes a “astronauta”, como o empresário português Mário Ferreira, hoje patrão da TVI, aguardam há mais de uma década pelo momento. Pagaram antecipadamente 200 mil dólares (168 mil euros), mas não podem queixar-se da longa espera, uma vez que nunca ficou definida uma data concreta para a viagem. Outros com lugar reservado, como era o caso do físico teórico Stephen Hawking, não sobreviveram à demora.

Profecia certeira
Ou vai preso ou torna-se milionário. Foram estes os dois destinos que o diretor da escola secundária antecipou para o jovem Richard Branson, depois de ele ter desistido dos estudos e criado a revista Student, com apenas 16 anos. A venda de periquitos e de árvores de Natal não tinha resultado, mas a revista, apesar de deficitária, apontou-lhe ambos os caminhos – o da cadeia e o da fortuna.

A venda de discos por encomenda, que Branson publicitava na Student, começou a dar frutos e depressa se tornou fonte de receitas, a ponto de motivar a abertura de uma loja física. O nome Virgin surgiu logo nesses tempos, associado precisamente à total falta de experiência nesse mercado.

Com o intuito de aumentar os lucros, Branson inventou um esquema para fugir aos impostos e acabou detido. Só foi libertado após chegar a um acordo extrajudicial com o Fisco britânico, que implicava pagar a dívida num prazo de três anos. O resto da história é sobejamente conhecido: com bandas como Sex Pistols, Genesis, Rolling Stones ou Simple Minds, a editora Virgin Records tornou-se um gigante do mundo da música e deu-lhe um lugar na famosa lista dos mais ricos da Forbes.

Alguns aspirantes a “astronauta” aguardam há mais de uma década para irem ao Espaço com a Virgin Galactic

Está agora na posição 589 dessa hierarquia mundial de milionários, com uma fortuna avaliada em seis mil milhões de dólares (cinco mil milhões de euros), mas a relação com o sistema contributivo britânico continua a não ser pacífica. No início da pandemia da Covid-19, quando pediu ao governo de Boris Johnson um empréstimo de 500 milhões de libras (582 milhões de euros) para salvar a companhia aérea Virgin Atlantic e empurrou boa parte dos seus dez mil funcionários para licenças sem vencimento, levou troco de trabalhistas e conservadores. Angela Rayner, do Labour, sugeriu-lhe a venda da ilha privada que detém nas Caraíbas “para pagar aos funcionários”, enquanto o conservador Richard Fuller o aconselhou a usar a fortuna pessoal para o mesmo efeito. A mudança da residência fiscal, em 2006, de Inglaterra para as Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal que o isenta de pagar impostos, foi outro argumento contra as pretensões de Sir Richard Branson, ordenado cavaleiro pela rainha Isabel II meia dúzia de anos antes.

“Vi muitos comentários sobre a minha fortuna, mas ela é baseada no valor dos negócios globais da Virgin e não em dinheiro disponível numa conta bancária”, contrapôs Richard Branson, numa carta aberta aos mais de 70 mil empregados do grupo, espalhados por 35 países. A solução para a Virgin Atlantic passou por uma injeção de capital privado na companhia aérea, incluindo mais de 300 milhões de euros do próprio grupo Virgin, e pelo despedimento de 3 500 trabalhadores.

A ilha paraíso (fiscal)
Adquirida em 1978, a Necker Island tornou-se não só a morada oficial da família Branson mas também do vasto universo Virgin. O proprietário justifica a sua mudança para a ilha do outro lado do Atlântico com motivos de saúde e bem-estar, mas há quem apresente razões menos saudáveis para a Virgin estar ali ancorada. No livro Branson, Behind the Mask, de 2014, o autor Tom Bower acusa a empresa e o seu dono de falta de transparência. Segundo o ex-repórter da BBC, a holding que gere o grupo Virgin é detida por um fundo cujos beneficiários são Richard Branson e a sua família, mas quem o controla, preto no branco, são administradores não identificados, o que, no entender de Bower, é uma forma de Branson se proteger de eventuais problemas com autoridades fiscais.

As alegações não parecem tirar o sono ao milionário das operações de marketing mais bizarras. Em nome da mediatização dos seus produtos, ele tanto se veste de noiva e assistente de bordo (a profissão da sua mãe; o pai era advogado) como entra na nova-iorquina Times Square dentro de um tanque de guerra. Em 1992, quando outra crise na Virgin Atlantic o obrigou a vender a Virgin Records para manter a companhia aérea, prometeu a si mesmo deixar de depender das imposições dos bancos. Começou a preferir um modelo de negócio em que a Virgin emprestava o nome e controlava as empresas, mas a maior parte do investimento era realizado por terceiros. Na operação espacial, por exemplo, detém apenas um quarto da Virgin Galactic, com um fundo estatal de Abu Dhabi a assumir-se como um dos principais financiadores conhecidos.

Depois de anos de prejuízos – nos últimos dois balanços, rondaram os 200 milhões de euros –, o tempo dos lucros parece agora mais próximo do que nunca. O investimento no Espaço também começa a gerar resultados no campo do lançamento de satélites, através da Virgin Orbit. Das três missões já realizadas, duas foram bem-sucedidas. Só falta começar a levar lá acima quem pagou para ver o Planeta Azul com “olhos de drone”.

Quatro minutos no Espaço

Richard Branson conseguiu ser o primeiro a ir ao Espaço numa nave construída pela sua própria empresa

Preço alto
O bilhete da viagem custou 200 mil dólares (€168 mil), mas em 2013 subiu para 250 mil (€210 mil)

Sempre a subir
O avião espacial VSS Unity está afixado à nave-mãe WhiteKnightTwo e voa até aos 50 mil pés de altitude (15 km), com a nave espacial SpaceShipTwo acoplada. O percurso demora cerca de 45 minutos

Vertiginosa
A seguir, ao separar-se, a nave espacial com capacidade para oito pessoas (dois pilotos e seis passageiros) aciona o motor de foguetão, que imprime uma velocidade três vezes superior à da velocidade do som, acima dos 4 000 km/h

Para mais tarde recordar
Ao fim de pouco mais de um minuto, o motor desliga-se e a SpaceShipTwo entra no Espaço. Durante quatro minutos, os passageiros sentem a ausência de gravidade e observam a Terra a 86 quilómetros de distância, através das 17 janelas. Dezasseis câmaras de alta definição filmam o momento

De volta à Terra
Depois, a nave de 18 metros de comprimento e com asas de oito metros inicia o regresso, que termina com uma aterragem convencional, como qualquer avião

ELON MUSK

(In)Sustentabilidade planetária

O investimento nos automóveis elétricos elevou-o a arauto da luta contra as alterações climáticas, até se tornar evidente que esta indústria tem consequências ambientais e também sociais – a Tesla está a ser acusada de compactuar com trabalho infantil

Estou a planear reformar-me em Marte”, afirmava Elon Musk, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, no verão de 2010. Na mesma altura, dizia estar “familiarizado” com as redes sociais, mas não as utilizar. A verdade é que, nos últimos anos, o empresário somou polémicas no Twitter, mas nem tudo mudou numa década. A sua obsessão pela colonização do planeta vermelho mantém-se. O fundador da empresa espacial SpaceX prevê enviar uma missão tripulada a Marte em 2026 ou, “com sorte”, já daqui a três anos.

Entretanto, também a conta bancária de Elon Musk se alterou substancialmente. Em 2010, o seu nome nem sequer constava da lista dos 100 mais ricos do mundo elaborada pela revista Forbes. Atualmente, ocupa o terceiro lugar, depois de já ter figurado temporariamente no primeiro. Apesar das suas diatribes contra a pandemia – “O pânico por causa do coronavírus é idiota”, twittou em março de 2020 – a sua riqueza multiplicou-se por seis no último ano e meio.

Elon Musk tem usado as redes sociais para desvalorizar a Covid-19 e criticar a resposta dos EUA à pandemia

Ao mesmo tempo que as ações da Tesla valorizavam, Musk impôs cortes de 10% no salário de todos os trabalhadores, entre abril e julho do ano passado, o que levou o ex-responsável pela pasta do Trabalho na administração de Bill Clinton, Robert Reich, a acusá-lo de ser “um magnata ladrão dos tempos modernos”.

Em junho, uma investigação do ProPublica, um meio digital especializado em jornalismo de investigação, revelou os impostos sobre a riqueza pagos por alguns milionários nos EUA. Elon Musk, entre 2014 e 2018, apenas entregou ao Estado o equivalente a 3,27% da sua fortuna. Como os bens só são taxáveis se forem vendidos, é fácil escapar – legalmente – ao pagamento de impostos. Quando questionado, por escrito, pelos autores do artigo sobre os seus contributos fiscais, respondeu simplesmente com um ponto de interrogação. Porém, não há dúvidas de que contribuir para uma sociedade menos desigual não está entre as suas prioridades. De acordo com as contas da página noticiosa Vox, até agora, dedicou menos de 0,05% do seu dinheiro à filantropia… Contudo, ao contrário de Jeff Bezos, é um dos signatários do compromisso Giving Pledge, que incentiva os milionários a doarem, pelo menos, metade da sua fortuna a causas sociais, seja em vida ou já depois da sua morte.

Tweetaólico irrecuperável
Hiperativo na rede social Twitter, Musk tem enfrentado episódios que já lhe custaram algumas dores de cabeça, além de vários milhões de dólares. Em 2018, naquele que ficou conhecido como “o verão do 420”, publicou um tweet no qual anunciava estar a ponderar retirar a Tesla da bolsa por 420 dólares a ação. Uma “piada” que o obrigou a abandonar o cargo de chairman da construtora automóvel, durante três anos, e a pagar 20 milhões de dólares (€17 milhões) ao regulador norte-americano dos mercados, que multou a Tesla no mesmo valor. Além disso, foram-lhe impostas limitações em relação aos temas sobre os quais pode opinar nas redes, um acordo que o regulador considera já ter sido quebrado várias vezes.  

Este ano, voltou a provar-se o poder dos seus tweets, quando anunciou que a Tesla iria aceitar bitcoin como forma de pagamento, levando o valor desta criptomoeda a ultrapassar os 50 mil dólares (€42 mil) pela primeira vez. Até que mudou de ideias, três meses depois, devido às implicações ambientais do sistema, e a Bitcoin começou a afundar.

É também nas redes sociais que tem vindo a desvalorizar a Covid-19 e a criticar a resposta dos EUA à pandemia, com gritos de “free America now” (libertem a América agora) ou “Isto é fascista. Isto não é democrático. Isso não é liberdade”. O ex-Presidente Donald Trump, outro tweetaólico, chegou a manifestar apoio ao desejo do CEO da Tesla de não parar a produção de automóveis por causa do SARS-CoV-2. Uma aliança que deixou alguns fãs do empresário confusos por estar a “confraternizar com um inimigo” que nega as alterações climáticas. Em maio do ano passado, desafiou as autoridades e reabriu a fábrica da Tesla em Fremont, na Califórnia, ao fim de algumas semanas de paragem, acabando por aceitar implementar medidas adicionais de prevenção sanitária. Contudo, nem sempre a empresa está disponível para melhorar a segurança dos seus trabalhadores. Desde 2019 que resiste a autorizar uma inspeção à Gigafactory (fábrica de baterias) localizada no Nevada, que soma cerca de 7 800 funcionários. O alarme soou depois de, no mesmo dia, um operário perder um dedo e outro sofrer lacerações.

Inovação A SpaceX avança com a hipótese de a tecnologia espacial ser usada no transporte terrestre. Todos os destinos ficariam a menos de uma hora de distância

No entanto, são as condições laborais impostas pelos fornecedores da Tesla que assombram a empresa.

A fabricante de automóveis elétricos é uma das visadas num processo movido pela organização de defesa dos Direitos Humanos International Rights Advocates, que acusa várias multinacionais, como Apple, Google, Dell ou Microsoft, de serem cúmplices da exploração de trabalho infantil nas minas de cobalto da República Democrática do Congo (responsável por 60% do abastecimento mundial). O cobalto é essencial para fabricar baterias recarregáveis de lítio, como as usadas nos veículos da Tesla. Muitas das 14 pessoas que sustentam a queixa perderam filhos nas minas ou viram-nos ficar mutilados. Os queixosos defendem que é impossível estes gigantes mundiais desconhecerem as crueldades praticadas na sua cadeia de abastecimento e acusam-nos de nada fazerem para as travar. A Amnistia Internacional identificou crianças que trabalham 12 horas por dia na extração do minério, sem qualquer tipo de proteção, por 1 ou 2 dólares por dia. As denúncias sobre as más condições de trabalho nas minas levaram a indústria a criar a Fair Cobalt Alliance, uma organização que promove a segurança dos mineiros. A Tesla é uma das parceiras da iniciativa.

Explorar sem amarras
É conhecida a relação difícil do norte-americano (nascido na África do Sul) com as entidades reguladoras, por exemplo, no que diz respeito ao licenciamento dos automóveis sem condutor da Tesla. A SpaceX até já teve a ousadia de fazer o lançamento experimental de um foguetão sem a devida autorização da Administração Federal da Aviação. Segundo o empresário, as regras desta agência norte-americana estão ultrapassadas e, se não forem alteradas, “a Humanidade nunca chegará a Marte”.

No ano passado, Musk trocou a Califórnia pelo Texas para acompanhar de perto os ensaios da nave Starship. Na localidade de Boca Chica, onde se localiza o centro de testes, a população teme ser expropriada, revelou a revista The Atlantic. Alguns residentes aceitaram vender as suas casas à SpaceX, outros decidiram ficar, mas Musk já disse que os ensaios espaciais seriam muito mais fáceis se ninguém vivesse ali…

Aos 50 anos, além de ser a fonte de inspiração do super-herói Tony Stark, interpretado por Robert Downey Jr. no filme Iron Man (2008), Elon Musk é o CEO da construtora automóvel mais valiosa da galáxia (apesar de só representar 1% das vendas). Já no próximo mês de agosto, a SpaceX deverá somar uma nova vitória ao garantir acesso à internet nos locais mais recônditos do planeta (exceto nos polos, por enquanto), através do seu sistema de satélites Starlink. Com um investimento total entre os 20 e os 30 mil milhões de dólares (€17 e 25 mil milhões), contando com 885 milhões (€746 milhões) de financiamento público, o serviço custará 99 dólares (€84) mensais aos utilizadores, além dos 500 (€422) da instalação. “O nosso objetivo é não ficarmos na bancarrota”, gracejou Musk, quando anunciou a antecipação da entrada em funcionamento do Starlink. Uma brincadeira com pouca graça para aqueles que são obrigados a manter os pés assentes na Terra…

Mas os altos voos do milionário já lhe garantiram um lugar na História. Afinal, fundou a primeira empresa privada que realiza viagens para a Estação Espacial Internacional. E a parceria com a NASA vai continuar. Já este ano, a SpaceX, criada em 2002, foi escolhida pela agência espacial norte-americana para participar na próxima missão tripulada à Lua, prevista para 2024. Um contrato avaliado em 2,9 mil milhões de dólares (€2,4 milhões) – Bezos contestou a decisão… Também o milionário japonês Yusaku Maezawa, 45 anos, fretou uma viagem à Lua, prevista para 2023, a bordo da Starship. Várias agências de turismo espacial têm feito acordos para utilizar a tecnologia da empresa. No próximo ano, três milionários vão passar uma semana de férias na Estação Espacial Internacional à boleia da Dragon, outra das suas naves reutilizáveis. Cada um irá gastar 55 milhões de dólares (€46 milhões). Ainda em 2021, a SpaceX vai realizar um voo turístico de três dias com quatro passageiros, pago pelo milionário norte-americano de 38 anos Jared Isaacman. Curiosamente, Elon Musk deverá estrear-se no Espaço na companhia de Richard Branson, já que é uma das 600 pessoas que compraram bilhete para embarcar na SpaceShipTwo. Ainda não se sabe quando será a viagem, mas está visto que nem o céu é o seu limite.

A nave que já fez história

São vários os foguetões e as naves espaciais desenvolvidos pela SpaceX, mas a Dragon é uma das mais emblemáticas

Pioneira
A Dragon foi a primeira nave de uma empresa privada a viajar até à Estação Espacial Internacional (EEI). Estreou-se com a entrega de carga, em 2012, e, no ano passado, também transportou astronautas. Já visitou a EEI 25 vezes

Reutilizável
A cápsula que transporta os passageiros, a Crew Dragon, tem capacidade para sete pessoas e é reutilizável. Faz parte da filosofia da SpaceX desenvolver equipamento que possa voltar a ser usado, já que essa é a forma mais eficaz de reduzir os custos das viagens espaciais

Missão civil
Antes do final deste ano, o milionário norte-americano Jared Isaacman irá passar vários dias no Espaço a bordo da Crew Dragon, acompanhado de outras três pessoas. Será a primeira missão espacial exclusivamente civil

Férias espaciais
Em 2022, a Estação Espacial Internacional irá transformar-se no campo de férias de três milionários. Cada um pagará 55 milhões de dólares (€46 milhões) por uma estada de uma semana. Irão à boleia da Dragon, comandados por um ex-astronauta da NASA

No mar ou em terra
A nave está equipada com um sistema de quatro paraquedas que permite aterrar no mar ou em terra. Quatro astronautas que regressaram da Estação Espacial Internacional em maio foram resgatados do mar do Golfo do México já depois de o sol de pôr. Desde 1968 que profissionais da NASA não aterravam no mar à noite

JEFF BEZOS

O vilão difícil de odiar

O fundador da Amazon abandonou o cargo de CEO numa altura em que a empresa se encontra debaixo de fogo devido a (más) práticas laborais. Estará o milionário a fugir rumo ao Espaço para escapar dos problemas em Terra?

Quando terminou o ensino secundário, em 1982, Jeff Bezos fez um discurso sobre o futuro da Humanidade. Aos 18 anos, o seu desejo era “tirar todas as pessoas da Terra e transformá-la num parque nacional gigante”. A ideia seria a população terrestre habitar outros planetas (e, quem sabe, acabar também a destruí-los…). A audiência não deve ter feito caso dos devaneios do adolescente, mas, se há alguém que pode manter-se fiel aos seus sonhos de infância, é o homem mais rico do mundo.

Aos 57 anos, o fundador da Amazon prepara-se para inaugurar os voos com passageiros a bordo da New Shepard, a nave construída pela Blue Origin, a empresa espacial que criou no ano 2000. Na terça-feira, 20 de julho, Jeff Bezos viajará acompanhado do seu irmão, Mark Bezos, e de um passageiro mistério, que pagou 28 milhões de dólares (€24 milhões) pelo bilhete num leilão com fins solidários. Também a aviadora Wally Funk foi convidada a integrar a missão, mais de meio século depois de ter sido impedida de ir ao Espaço pelo simples facto de ser mulher. Aos 82 anos, tem agora nova oportunidade de ficar na História ao poder tornar-se a pessoa mais velha a ultrapassar a chamada Linha de Kármán (100 quilómetros acima do nível do mar). Se tudo correr como o previsto, a viagem irá aumentar a confiança na Blue Origin e atrair turistas espaciais capazes de desembolsarem alguns milhares para verem o planeta azul – ainda não foi revelado o preço dos bilhetes.

Jeff Bezos fez lobby para que o orçamento da NASA fosse reforçado no sentido de conseguir contratar mais empresas privadas

No mês passado, Bezos conseguiu uma vitória importante contra Elon Musk na competição por fundos da NASA. Apesar de a SpaceX, fundada pelo CEO da Tesla, ter sido a escolhida pela agência espacial norte-americana para a próxima missão tripulada à Lua, a Blue Origin contestou a decisão. E, mais do que isso, fez lobby junto do Senado para que o orçamento da NASA fosse reforçado no sentido de conseguir contratar mais empresas privadas. Agora, a agência poderá vir a ter dez mil milhões de dólares (€8,5 mil milhões) adicionais para distribuir. O senador democrata Bernie Sanders chama-lhe “o resgate Bezos”. Já o lobby da SpaceX acusa a Blue Origin de ter recebido financiamento público no valor de 778 milhões de dólares (€657 milhões), na última década, sem ter conseguido produzir uma nave capaz de entrar verdadeiramente em órbita. A rivalidade entre os dois milionários é antiga. Até já se envolveram numa discussão no Twitter sobre quem tem o foguetão maior…

Jeff Bezos considera a sua empresa espacial o “trabalho mais importante” e, agora que deixou o cargo de CEO da Amazon (mantendo o lugar de chairman), é a ela que vai dedicar-se. “Podemos ter triliões de humanos [a viver] no sistema solar, o que significa que teríamos milhares de Mozarts e milhares de Einsteins. Seria uma civilização incrível”, defende o milionário, esquecendo-se de todos os Mozarts e Einsteins que não conseguem explorar o seu potencial na Terra devido ao mundo desigual onde vivem.

Dar pouco e receber muito
Também na Amazon a filosofia não parece ser a de proporcionar oportunidades aos seus trabalhadores. Em junho, uma investigação do The New York Times (NYT) revelou que são poucos os que aguentam muito tempo na empresa. A rotatividade dos funcionários chega aos 150% num ano, ou seja, bastam oito meses para toda a força de trabalho ser renovada. A produtividade dentro dos armazéns é controlada ao minuto, levando muitos a saltar as pausas a que têm direito, a evitar ir à casa de banho ou a tomar ibuprofeno antes dos turnos. O jornal denuncia o caso de uma trabalhadora exemplar, ao longo de meses, que foi despedida no primeiro dia em que chegou atrasada (entretanto, a empresa anunciou que alterou as suas políticas, e já não será possível despedir um trabalhador apenas por “um dia mau”).

O NYT também aponta o dedo à falta de transparência em relação aos surtos de Covid-19 registados nos armazéns, que nem sempre garantem as melhores condições de segurança. Segundo dados do Center for Investigative Reporting, nas instalações localizadas em Eastvale, na Califórnia, houve quatro vezes mais acidentes de trabalho do que a média nacional entre 2018 e 2019.

Conforto A Blue Origin, fundada por Jeff Bezos, faz questão de sublinhar o tamanho das janelas da sua nave e o facto de esta ultrapassar a Linha de Kármán, reconhecida como a fronteira do Espaço

Ao mesmo tempo, têm vindo a ser esmagadas todas as tentativas de criação de sindicatos. Cartazes, panfletos, SMS ou mesmo reuniões obrigatórias sobre os perigos do sindicalismo são algumas das estratégias de pressão utilizadas. O próprio Bezos não costuma ser meigo quando se irrita. “És preguiçoso ou apenas incompetente?” ou “Por que razão estás a arruinar a minha vida?” são alguns dos seus dichotes. No entanto, em abril, num memorando dirigido aos acionistas, garantiu que a companhia irá tornar-se o “melhor patrão da Terra”.

A Amazon é o segundo maior empregador privado dos EUA, mas prevê-se que se torne o primeiro daqui a um par de anos. Atualmente, dá trabalho a perto de um milhão de pessoas no país. E a pandemia não lhe deu descanso. No último trimestre do ano passado, as vendas líquidas da empresa ascenderam aos 125 mil milhões de dólares (€106 mil milhões), um recorde absoluto. 

Também a riqueza pessoal de Bezos explodiu em 2020. Atualmente, ronda os 212 mil milhões de dólares (€180 mil milhões), de acordo com a revista Forbes, o que torna mais chocante o facto de o empresário, entre 2014 e 2018, só ter pago em impostos o equivalente a menos de 1% do seu rendimento durante esse período, revelou uma investigação jornalística do ProPublica.

Bezos não está empenhado na solidariedade. Foi preciso a ex-mulher tornar-se filantropa para o empresário lhe seguir o exemplo

Não se pode dizer que Bezos compense a aversão aos impostos com o seu empenho na solidariedade… Foi preciso a ex-mulher tornar-se filantropa para o empresário lhe seguir o exemplo. Após o badalado divórcio, oficializado em 2019, na sequência de um caso extraconjugal do marido, MacKenzie Scott tornou-se signatária da iniciativa Giving Pledge, comprometendo-se a doar, pelo menos, metade da sua fortuna a causas sociais. Jeff Bezos é o único dos cinco mais ricos dos EUA que não assumiu o mesmo compromisso. Em 2020, MacKenzie Scott, que detém 4% da Amazon, tornou-se uma das maiores beneméritas do mundo ao entregar quase seis mil milhões de dólares (€5,07 mil milhões) a instituições de solidariedade social. O ex-marido também procurou fazer história ao criar o Bezos Earth Fund, com a missão de lutar contra as alterações climáticas, ao qual vai oferecer dez mil milhões de dólares (€8,4 mil milhões). Contudo, as acusações de hipocrisia não se fizeram esperar, seja pela poluição causada pelas entregas da Amazon – que deverá atingir a neutralidade carbónica em 2040 – ou pelo impacto ambiental dos foguetões da Blue Origin.

Aventura mediática
Apesar das críticas ao ambiente ultracompetitivo da empresa e às suas práticas monopolistas, por exemplo, junto das editoras (alguém ainda se lembra de que tudo começou com a venda de livros?), nada parece afetar o sucesso da Amazon. E o seu universo não para de crescer. Fã da saga de ficção-científica Star Trek, Bezos não esconde o entusiasmo pelo seu envolvimento no cinema, seja através da Amazon Studios ou da eventual compra da MGM, ainda sob escrutínio.

Um dos seus negócios mais lucrativos é a Amazon Web Services (AWS), uma das maiores plataformas informáticas de gestão da nuvem. Aloja serviços de gigantes como Apple, Netflix, Twitter ou mesmo a CIA. Este mês, Bezos conseguiu que o Pentágono recuasse na decisão de entregar à Microsoft a gestão dos seus dados, argumentando que a AWS tinha sido prejudicada por Bezos ser também proprietário do The Washington Post, muito criticado pelo então Presidente Donald Trump. Ter “salvado” o jornal contribuiu, e muito, para melhorar a sua imagem pública.

Será também o ego o grande responsável pela sua atração espacial? Na era do capitalismo tecnológico, os milionários parecem livres para “privatizar” o Espaço a seu bel-prazer, com a promessa de o democratizarem e de desenvolverem inovações úteis em Terra. Mas merecerão essa confiança?     

Para lá da Linha de Kármán

A Blue Origin, fundada por Jeff Bezos, faz questão de sublinhar as vantagens da sua missão espacial, comparativamente com a de Richard Branson

Astronautas verdadeiros
A nave New Shepard está preparada para ultrapassar a chamada Linha de Kármán (100 quilómetros acima do nível do mar), reconhecida internacionalmente como a fronteira do Espaço. Já a SpaceShipTwo, de Richard Branson, ficou-se pelos 88 quilómetros de altitude, o que já é validado como Espaço pelas autoridades norte-americanas

Inspiração histórica
O nome da nave que vai transportar Jeff Bezos, New Shepard, é uma homenagem ao primeiro astronauta norte-americano a viajar para o Espaço, em 1961, Alan Shepard. A data da sua primeira viagem com passageiros, 20 de julho, coincide com o 52º aniversário da chegada dos astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin à superfície da Lua

Competição feroz
Dois dias antes da partida de Richard Branson, a Blue Origin partilhou um quadro no qual compara a experiência de viajar na Virgin Galactic ou na empresa fundada por Jeff Bezos. Além de sublinhar que os seus concorrentes não ultrapassam a Linha de Kármán, também destaca o tamanho das janelas da New Shepard, a suavidade do transporte ou o maior número de voos experimentais realizados (15)

Minutos milionários
A nave vai partir de uma base localizada no Texas. Quando atingir os 75 quilómetros de altitude, a cápsula que transporta os passageiros separar-se-á do foguetão. Apesar de ter capacidade para seis pessoas, apenas quatro participarão na primeira viagem. Os astronautas vão poder desapertar o cinto de segurança e sentir a ausência de gravidade durante três minutos até começarem a regressar para a Terra. No total, a experiência deverá durar 11 minutos

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Epic vs. Apple: Elon Musk apoia criadora de Fortnite

A batalha legal entre Epic e Apple continua a desenrolar-se nos tribunais. O fundador da Tesla acaba de demonstrar de que lado está, ao escrever no Twitter que a Epic tem razão

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Tóquio2020: Seleção de andebol de Portugal afastada ao perder com o Japão

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