Como o medo das vacinas ameaça a imunidade de grupo

“Tenho muito medo da doença, mas ainda tenho mais medo da vacina”, desabafa Maria Teresa Parreira. Aos 64 anos, já podia ter sido vacinada há meses, mas alega não se sentir preparada. É assistente técnica na Unidade de Saúde Pública de Portimão e nem os médicos com quem trabalha conseguiram convencê-la a mudar de ideias. A controvérsia em torno da vacina da AstraZeneca, que passou a ser recomendada apenas para maiores de 60 anos, contribuiu para a sua hesitação. “Sinto que estão a lidar connosco como se fôssemos cobaias”, afirma.

A infeciologista Margarida Tavares, que desde o início da pandemia coordena o internamento da Unidade de Doenças Infeciosas Emergentes do Hospital de São João, no Porto, não tem dúvidas de que o combate à pandemia só poderá ser posto em causa pela falta de vacinas ou por a população não aceitar vacinar-se. “Não se pode desbaratar a confiança nas vacinas com atitudes imponderadas como as questões à volta das vacinas da AstraZeneca e da Janssen, em que os raros efeitos adversos foram muito mal comunicados”, critica. No entanto, sublinha que a hesitação vacinal é muito reduzida em Portugal.

Falta de solidariedade Por cada pessoa que não toma a vacina, a imunidade de grupo torna-se mais difícil de alcançar

O barómetro da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa confirma-o. De acordo com os dados mais recentes, de 25 de junho, a que a VISÃO teve acesso, a percentagem de pessoas que querem tomar a vacina é superior a 85%, em todas as faixas etárias, mas é entre as pessoas em idade ativa que surgem mais dúvidas e, até, rejeição à vacina: 9,2% das pessoas entre os 46 e os 65 anos não querem ser vacinadas, a maioria são homens com escolaridade. “Não sendo estes números problemáticos”, Carla Nunes, a diretora da instituição de ensino, admite que “se houver um grupo especifico que interaja entre si e em que a vacinação não seja suficiente para criar a dita imunidade de grupo, o vírus continuará a circular livremente e isso terá impacto em toda a população”.

Diagnosticada com uma insuficiência cardíaca, Maria Teresa é assombrada pela ideia de que, se for infetada pelo vírus, terá doença mais grave por não estar vacinada. É isso mesmo que indica a evidência científica.

A eficácia perante a Delta
Na passada sexta-feira, o Public Health England, a direção-geral da saúde britânica, atualizou o seu estudo sobre a eficácia das vacinas da Pfizer/BioNTech e da AstraZeneca perante as variantes Alpha (inicialmente identificada no Reino Unido) e Delta (originária da Índia). Após a primeira dose, ambas as vacinas têm uma eficácia a rondar os 35% na prevenção de doença sintomática causada pela variante Delta, responsável por mais de 70% das infeções em Lisboa e Vale do Tejo (LVT) e à beira de se tornar predominante em todo o País. Já após as duas doses, a eficácia dispara para 88% no caso da vacina da Pfizer/BioNTech e 60% no da AstraZeneca. Já ao nível das hospitalizações, uma dose destas vacinas protege cerca de 80% das pessoas inoculadas, enquanto a vacinação completa da Pfizer/BioNTech tem uma eficácia de 96% e a da AstraZeneca de 92%.

Países debatem-se para vacinar a população

O ritmo de vacinação está a diminuir em vários pontos do mundo e não é por falta de vacinas. Há uma parte das populações que não quer ser imunizada e que pode comprometer a estratégia de combate ao vírus

Negacionistas Um protesto antivacinação e antimáscaras em Dublin, Irlanda Foto: Getty Images

Numa altura em que, com a variante Delta, a imunidade de grupo já não se consegue com 70% da população vacinada, mas talvez com 85%, como defendem agora os especialistas, a hesitação e a recusa da toma das vacinas por parte importante das populações tornou-se um problema. Não é a maioria das pessoas que está a condicionar a estratégia de combate à pandemia, mas é uma parte tão importante que ameaça a desejada imunidade de grupo. Nos Estados Unidos da América, a administração de Joe Biden estabeleceu uma meta simbólica para ser alcançada no dia 4 de julho: 70% da população adulta vacinada com a primeira dose. Não vai acontecer. A nova fasquia abrange apenas os maiores de 27 anos.

Em resposta à quebra do ritmo da vacinação, autoridades e empresas privadas têm promovido todo o tipo de incentivos. Oferta de bebidas alcoólicas, de bilhetes de lotaria ou para concertos, de cartões presente, e até de marijuana doada por produtores, não falta criatividade para convencer os mais jovens, a faixa etária mais reticente a vacinar-se.

A criatividade estende-se a muitos pontos do globo, em nome do mesmo objetivo. Em Moscovo, sorteiam-se cinco carros por semana entre os que aceitam vacinar-se; na Roménia, o prémio é uma sandes típica com carne picante; na Malásia, oferecem-se sobremesas; e na Tailândia e nas Filipinas, há cidades a rifar vacas. Neste arquipélago, o presidente Rodrigo Duterte vai mais longe, e ameaça com prisão os que rejeitarem a inoculação.

Na Europa, as preocupações não são diferentes, e há sinais que causam apreensão. Uma sondagem recente do Eurofond, organismo da União Europeia, revelou que 27% da população considera improvável ou muito improvável vacinar-se contra a Covid-19. A hesitação é maior nos países de Leste, mas em França apenas 48% das pessoas responderam ser provável ou muito provável aceitarem a vacina. Entre os profissionais de saúde dos hospitais, há mais de 30% que recusam as injeções, enquanto um rumor a circular na rede social TikTok (de que as pessoas ficam estéreis) não tem ajudado nas camadas mais jovens. Já há centros de vacinação a fechar, com falta de utentes, quando ainda nem metade da população tomou a primeira dose.

No Brasil, 71 milhões de pessoas, o equivalente a um terço da população, receberam essa primeira dose, mas quatro destes milhões ainda não compareceram para a segunda toma, apesar de a data prevista já ter passado. No último fim de semana, Marcelo Queiroga, ministro da Saúde, garantiu a segurança das vacinas e apelou à necessidade de acelerar o processo, no sentido de ter toda a população inoculada até ao final do ano. Neste momento, só 12% cumpriram esse desígnio. Rui Antunes

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) considera a variante Delta entre 40% e 60% mais transmissível do que a Alpha, o que facilita a criação de cadeias de transmissão, mesmo entre a população vacinada. No entanto, existe uma clara “dissociação entre o número de casos e os internamentos e óbitos” na população vacinada, nota o médico de saúde pública Bernardo Gomes (ver caixa Menos mortos por casos ativos). Apesar de com esta elevada contagiosidade ser difícil o vírus desaparecer, a transmissão e as situações graves são limitadas com a ajuda das pessoas inoculadas ou recuperadas. E a vacinação torna-se ainda mais urgente. “Não havendo imunidade de grupo, não podemos contar com o bloqueio dos outros para nos proteger. A transmissibilidade é tão grande que o vírus vai conseguir chegar a quem ainda não foi vacinado, o que só aumenta a necessidade de mais gente ser inoculada para aumentar o bloqueio”, explica o especialista em saúde pública. 

Além do medo de adoecer, Maria Teresa Parreira também teme infetar alguém. Reconhece que “seria gravíssimo” se muito mais pessoas pensassem como ela e não se vacinassem. “Com estas dúvidas todas que tenho, não sou capaz de avançar, mas sei que estou a errar”, penitencia-se. Porém, admite mudar de ideias.

Vacinação obrigatória?
“Estamos outra vez muito preocupados”, admite o presidente da ALI – Associação de Apoio Domiciliário, de Lares e Casas de Repouso de Idosos, João Ferreira de Almeida. Na semana passada, estavam seis surtos ativos em lares, que envolviam um total de 54 infetados. Um deles registou-se no lar Torre de Natal, em Faro, propriedade da Santa Casa da Misericórdia. Quatro funcionários haviam recusado vacinar-se nesta instituição algarvia. Contudo, não foi possível clarificar se terá sido essa a origem do surto que causou um morto (uma utente de 92 anos). Nesta segunda-feira, eram quatro os surtos em lares (envolvendo meia centena infetados). 

À VISÃO, o presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, revela que “em quase todas as unidades houve uma ou outra pessoa que recusou vacinar-se”, mas garante que esse número tem vindo a baixar. Em parte devido à pedagogia feita junto dos recalcitrantes, mas também por eles assistirem à vacinação de outros funcionários e utentes e verificarem que “não lhes acontece nada”.

De acordo com a Segurança Social, na semana passada, 8 600 pessoas afetas aos lares não tinham a vacinação completa, num universo de 100 mil utentes e de cerca de 60 mil funcionários, segundo estimativas da ALI. Contudo, 2 500 já receberam a primeira dose, enquanto 4 500 estiveram infetadas há menos de seis meses e vão, agora, ser inoculadas mais cedo, uma vez que a Direção-Geral da Saúde (DGS) antecipou a vacinação de todos os funcionários e utentes que foram “infetados há mais de três meses”. Sendo assim, das 8 600 pessoas, sobram 1 600 sem razão aparente para não estarem vacinadas. A Confederação Nacional das Instituições da Solidariedade já veio garantir publicamente que serão menos de 10% os funcionários que recusam vacinar-se.

Manuel Lemos insta o Estado “a assumir a sua responsabilidade e a esclarecer se os funcionários dos lares devem ou não ser obrigados a vacinar-se”. Já o presidente da ALI, João Ferreira de Almeida, classifica como “da maior irresponsabilidade” a atitude daqueles que recusam vacinar-se, sem nenhuma razão médica que justifique essa decisão. Sublinha que não é jurista, mas veria com bons olhos que a vacinação dos profissionais dos lares se tornasse obrigatória.

João Massano, advogado e presidente do Conselho Regional de Lisboa da Ordem dos Advogados, explica que, não estando Portugal em estado de emergência e não havendo um enquadramento constitucional que justifique a obrigação da vacina, não é possível para já tomar esta decisão. Mesmo assim, admite também, não o “chocaria que, no caso dos lares, se fizessem alterações jurídicas para tornar a vacinação obrigatória”.

Na sequência de notícias que avançavam com a possibilidade de os lares serem alvo de processos-crime por empregarem pessoas não vacinadas, em caso de morte de utentes, a ALI emitiu um comunicado no qual recusa essa hipótese. Além disso, esclarece que nem todas as pessoas por vacinar se devem à “recusa da vacina”; algumas aguardam, simplesmente, serem chamadas, embora o grupo esteja incluído na primeira fase do plano de vacinação.

Segurança O pneumologista António Diniz garante que as reações negativas à vacina “são raríssimas”. Já os benefícios “são muitos e estão comprovados”

Quando se fala em vacinação obrigatória, está em causa a aplicação de uma sanção, que pode ser uma multa ou a perda do direito a exercer a sua profissão, no caso dos médicos ou funcionários de lares, por exemplo. Nada disto, porém, como referido atrás, é constitucional, “porque, de momento, não existe nenhuma lei que permita às autoridades impor a vacinação, ao contrário do que a diretora-geral da saúde chegou a anunciar há cerca de um ano”, esclarece o constitucionalista Jorge Reis Novais.

A ser considerada necessária esta obrigação de vacinação em alguns setores, tem de acontecer uma de duas circunstâncias: ou o País está em estado de emergência (o que não é o caso) ou é aprovada uma lei específica sobre a vacinação ou sobre situações sanitárias de exceção. Jorge Reis Novais coloca o ónus da questão no Parlamento. “A Assembleia da República já deveria ter discutido esta matéria. Não o fez. E aqui a culpa é tanto do Governo como das oposições e do Presidente da República. É lamentável que, passado mais de um ano, os deputados ainda não tenham legislado sobre a questão da vacinação.”

Mas para a generalidade do hemiciclo, a questão não é prioritária. O Governo respondeu com a criação de uma comissão técnica para rever o quadro jurídico aplicável durante a pandemia. “Houve países que adotaram regimes específicos para situações pandémicas. Em Portugal, é urgente uma lei de emergência sanitária”, defende João Massano.

“Não quero ser um mau exemplo”, dirá Maria, já no final da conversa. É psicóloga do serviço ocupacional (dirigido aos funcionários) de um centro hospitalar de Lisboa. Maria não é o seu nome verdadeiro. Diz sofrer uma pressão permanente para se vacinar e prefere manter o anonimato. Aos 40 anos, considera estar protegida por ser saudável e pelo seu estilo de vida. “Pratico desporto, tenho uma boa alimentação e durmo oito horas por dia”, enumera. Porém, nenhum destes comportamentos é um escudo contra a doença. São vários os relatos de jovens saudáveis, e até praticantes de desporto, internados. “Mas eu não me sinto preparada para dar esse passo.” Admite que a sua “teimosia” possa dever-se a falta de informação e até põe a hipótese de mudar de opinião.

A eficácia das vacinas é evidente em Portugal. De acordo com os dados da DGS, entre os 2,3 milhões de pessoas com a vacinação completa há mais de 14 dias, apenas 1 571 (0,07%) foram infetadas. E só 49 delas estiveram internadas (80% tinha mais de 80 anos). Em todo o País, morreram 11 doentes totalmente imunizados (todos eles acima dos 70 anos).

Mais jovens faltam à vacinação
Ao contrário das expectativas do diretor executivo do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Lisboa Central, Guilherme Ferreira, a adesão aos SMS de agendamento da vacinação tem vindo a diminuir. “Enquanto a taxa de respostas dos maiores de 65 anos chegava os 80%, no caso da faixa etária entre os 30 e os 40 anos, ronda os 50 por cento. Não esperávamos que isso acontecesse”, confessa.

O ACES de Lisboa Central é responsável por cerca de 20% das marcações na sua zona de jurisdição. Apesar da baixa taxa de respostas das gerações mais jovens aos SMS, Guilherme Ferreira garante que, “quando as pessoas são contactadas através de chamadas telefónicas, mostram-se recetivas e querem vacinar-se”.

As faltas nos centros de vacinação também têm vindo a aumentar à medida que se desce na faixa etária. “Nos maiores de 65 anos, a assiduidade era de 95 por cento. Agora, varia entre os 80% e os 90% abaixo dos 50 anos”, contabiliza. Mais do que a desconfiança nas vacinas, Guilherme Ferreira acredita que o menor interesse dos mais jovens na imunização deve-se à crença de que não irão sofrer consequências, caso sejam infetados, mas “sendo veículos de transmissão podem provocar doença grave em quem mais gostam”, alerta.

Também a enfermeira Patrícia Medina, uma das responsáveis pelo agendamento no ACES Loures/Odivelas, sente que os jovens são mais esquivos à vacinação, sobretudo por serem mais difíceis de contactar e por terem menos disponibilidade de agenda. Contudo, são os mais velhos que mais recusam ser inoculados nos centros de vacinação. “Num dia em que estejamos a utilizar a vacina da AstraZeneca [recomendada a partir dos 60 anos], as negas podem chegar aos 15 por cento”, calcula a enfermeira, ou seja, cerca de 500 da média de 3 500 inoculações diárias deste ACES. Contudo, essas pessoas continuam a querer ser vacinadas, apenas gostavam de escolher outra vacina, o que não é possível.

Transmissão As pessoas que não tomam a vacina estão mais recetivas a ser infetadas e a infetar, contribuindo para o vírus se propagar e continuar a criar mutações

“Há sempre alguém que não quer”, corrobora a responsável pelo agendamento de um centro de saúde do distrito de Viseu, que prefere manter o anonimato. “À medida que descemos na faixa etária, sobem as recusas”, acrescenta. Até agora, é da faixa etária dos 40 anos que tem recebido mais negas. “Há quem diga que não apenas porque não lhe dá jeito, mas também há quem não queira porque desconfia da vacina”, sustenta. Observa, no entanto, um fenómeno curioso: “Há vários que recusaram a vacina, mas que entretanto mudaram de ideias porque querem ir viajar.”

De acordo com os dados da task force, até segunda-feira, 28 de junho, apenas 2,4% dos 4,05 milhões de pessoas que receberam SMS de agendamento responderam não, enquanto 74% disseram sim. Já 23,6% ignoraram o contacto.

Passaporte A vacinação dá acesso ao Certificado Digital Covid, um documento que facilita as viagens ao estrangeiro

Bernardo Gomes, especialista em saúde pública, acredita que as pessoas que não querem vacinar-se não devem ser uma prioridade, nesta fase. “Ainda há muita gente por inocular com vontade de o fazer”, esclarece. Sublinha, no entanto, que “não é através da crítica” que se resolvem estas situações. “Tem de passar pela empatia, por perceber de onde vem a resistência e esclarecer as dúvidas das pessoas, persuadindo-as a mudar de ideias”, aconselha.

O médico está mais preocupado com o impacto das férias no processo de vacinação. “Será necessário flexibilizar o acesso à vacinação em agosto, por exemplo, com um reforço dos centros de vacinação no Algarve”, sustenta.

Menos mortos por casos ativos

Portugal está na zona vermelha em incidência e R(t). Mas há boas notícias: junho vai ser o segundo mês com menos mortes desde o início da pandemia, apesar de ser o sexto com mais casos ativos

A percentagem de óbitos por casos ativos de infeção pelo vírus SARS-CoV-2, na média dos últimos 14 dias até segunda-feira, é 18 vezes mais baixo do que o verificado no pico da pandemia, em janeiro. No dia 26 do primeiro mês do ano, morreram 291 pessoas por Covid-19 para um total de 167 381 casos ativos (0,1739% de óbitos). Agora, na média das duas últimas semanas (15 a 28 de junho), o rácio é 17,6 vezes inferior (0,0099 por cento).

A diminuição consistente, nos últimos meses, do número de mortes associadas à Covid-19 é consequência direta do programa de vacinação, que segundo o relatório oficial de 20 de junho já cobre mais de metade da população de risco: 93% dos maiores de 80 anos têm a vacinação completa, assim como 59% na faixa etária entre os 65 e os 79 anos e 43% na dos 50 aos 64. Acima dos 65 anos, 96% da população já tomou, pelo menos, a primeira dose da vacina. Não havendo uma solução infalível, vários estudos têm vindo a confirmar que as vacinas protegem contra as formas mais graves da doença e, por conseguinte, previnem os internamentos em cuidados intensivos e evitam a morte.

A evolução da relação entre casos ativos e óbitos em Portugal é mais uma evidência nesse sentido. Comparando a situação atual com os picos da primeira e da segunda vagas, as conclusões são idênticas: a 26 de março de 2020, registavam-se 3 441 casos ativos e 60 óbitos (0,4940%), uma percentagem 50 vezes superior à que agora se verifica; e, a 13 de dezembro de 2020, havia 71 863 casos ativos para um total de 98 mortes (0,1364%), 14 vezes acima do que hoje acontece.

Desde o dia 16 de maio, quando 89% dos maiores de 80 anos já tinham a vacinação completa, o número de óbitos por casos ativos não voltou a superar a fasquia dos 0,03 por cento. Depois de maio de 2021, o mês de junho é o segundo com menor número de óbitos desde o início da pandemia, apesar de ser o sexto com mais casos ativos. R.A.

O coordenador do plano de vacinação contra a Covid-19, Henrique Gouveia e Melo, tinha admitido a possibilidade de os utentes fazerem a vacinação fora da sua área de residência, por exemplo, durante o período das férias. Contudo, nesta segunda-feira, a task force veio confirmar que ambas as doses da vacina devem ser tomadas no mesmo local para facilitar a gestão do processo.

Assim, Bernardo Gomes teme que seja difícil manter o ritmo da vacinação até ao início das aulas. E sublinha a importância de vacinar os adolescentes entre os 12 e os 18 anos. “Se a imunidade de grupo não é possível, precisamos do máximo de pessoas vacinadas para controlar o vírus”, nota. Nesta segunda-feira, registavam-se 128 surtos ativos em escolas, que somavam 569 casos, entre alunos, profissionais e familiares.

Sendo certo que a vacinação plena nunca será possível, não só por causa de quem não quer ser vacinado, mas também, para já, por causa das crianças, que não se sabe ainda se serão vacinadas. Não contam para efeitos de plano de vacinação, mas “para o vírus conta toda a gente. O vírus desconhece as regras do plano”, recorda Miguel Castanho, biólogo do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes.

Imunidade com 70%?
O imunologista Henrique Veiga-Fernandes considera que, mais urgente do que vacinar crianças e adolescentes, que raramente desenvolvem doença grave, é garantir o acesso a vacinas nos países que vivem situações mais preocupantes – sem conseguirem, sequer, vacinar os grupos de risco. “Além de ser uma questão de justiça global, é uma forma de evitar um barril de pólvora que tem consequências a nível internacional”, frisa o investigador da Fundação Champalimaud. Já que, ao circular livremente numa população sem imunidade, o vírus propaga-se mais rapidamente, aumentando a probabilidade de surgirem mutações que o tornem ainda mais transmissível, “daí estarmos numa corrida contra o tempo para vacinarmos o maior número de pessoas no mundo”.

P.B., 53 anos, foi contactado para receber a vacina contra a Covid-19 três vezes. Recusou todas. Não é que não tenha medo de apanhar o vírus e não estar protegido; tem, aliás, “muito medo”. É músico e professor de Música em três escolas de Arruda dos Vinhos (distrito de Lisboa) e, todos os dias, lhe passam pela sala de aula dezenas de alunos que, assim que o veem, querem abraçá-lo. O receio cresce por estar perto de tantas crianças: não quer infetá-las e não quer ser infetado por elas. Mas a única coisa que está disposto a fazer é a manter as medidas de higiene.

A vacina não é uma hipótese, para já. Para o ano, “talvez”, depois do plano de vacinação completo e de ter assistido aos efeitos nos outros. Antes, só obrigado devido à sua profissão: “Havendo pressão da entidade patronal… isso já é outro assunto, mas não deveria existir.” P.B. desconfia das vacinas por estas terem surgido em tempo recorde.

Henrique Veiga-Fernandes não tem dúvidas sobre a segurança das vacinas. “Estamos a falar de poucos milhares de efeitos secundários em milhões de vacinas administradas”, contabiliza. Até 13 de junho, o Infarmed registou 7 500 reações adversas em mais de sete milhões de administrações. Três mil foram consideradas graves. E 51 pessoas morreram (com uma média de 78,5 anos), sem que se tenha estabelecido uma relação causal com a imunização.

35%
Eficácia de uma dose contra a Delta
Após a primeira dose, a vacina da Pfizer/BioNTech e a AstraZeneca apenas garantem uma proteção de 35% contra a doença sintomática em infeções provocadas pela variante Delta. A eficácia sobe para 88% (Pfizer) e 60% (AstraZeneca) com a vacinação completa

80%
Proteção de uma dose nas hospitalizações
Ao nível das hospitalizações, apenas uma dose destas vacinas protege cerca de 80% das pessoas inoculadas, enquanto a vacinação completa da Pfizer/BioNTech tem uma eficácia de 96% e a da AstraZeneca de 92 por cento

0,04%
Reações adversas graves
O Infarmed registou 7 500 reações adversas em mais de sete milhões de administrações. Três mil foram consideradas graves

11
Mortos vacinados
Entre os 2,3 milhões de pessoas com a vacinação completa há mais de 14 dias, morreram 11 doentes infetados totalmente imunizados (dez tinham mais de 80 anos e um tinha entre 70 e 79 anos)

Ser vacinado não é sinónimo de estar 100% protegido contra o SARS-CoV-2. Ou seja, uma pessoa vacinada pode ser infetada e infetar os outros. Mesmo assim, o pneumologista e membro do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos António Diniz não hesita em dizer que “quando uma pessoa está vacinada está muito mais protegida em relação à doença do que uma pessoa que não está vacinada”. E nos casos de reinfeção, “o risco de as pessoas desenvolverem doença grave ou necessitarem de internamento é muitíssimo menor, tal como o risco de transmissão”.

António Diniz gostaria que todas as pessoas repensassem a sua não adesão a este processo de vacinação. “Por si e pelos outros. Nesta altura, aparentemente, 39% da população já estará vacinada com a primeira dose. É suficiente? Não. É um primeiro passo, mas não chega para nos protegermos quanto à nova variante Delta. Por cada pessoa que não é vacinada, estamos mais longe de atingirmos a tal imunidade de grupo.”

Se especialistas (como o médico intensivista José Artur Paiva, por exemplo) admitem que, com a variante Delta, a imunidade de grupo só deverá atingir-se aos 85% de imunização, então a ideia dos 70% está completamente ultrapassada. Também porque a vacina não protege totalmente contra a infeção e a transmissão do vírus. Assim, qualquer pessoa, mesmo vacinada, pode ficar infetada e contagiar outros.

Ainda assim, “a solução é vacinar”, defende, perentório, o médico de saúde pública Bernardo Gomes. Apesar de ter havido algum escape imunitário ao nível da eficácia dos imunizantes, devido ao aparecimento de novas variantes do vírus, “não foi nada de extraordinário”. Existe a possibilidade de ser necessário um reforço da vacinação junto dos mais frágeis, mas um estudo publicado esta semana na revista Nature avança a hipótese de os vacinados com a Pfizer/BioNTech e com a Moderna (ambas à base de mRNA) continuarem protegidos ao longo de anos, desde que não surjam variantes muito diferentes das atuais. Também as pessoas inoculadas depois de terem estado infetadas podem não precisar de qualquer reforço, mesmo que o vírus sofra transformações substanciais.

Henrique Veiga-Fernandes acredita que a percentagem de pessoas que não quer vacinar-se é tão marginal que não terá impacto no combate à pandemia. Otimista, acredita que “no final deste ano ou no início do próximo, teremos regressado a uma normalidade aceitável”. A infeciologista Margarida Tavares chama-lhe a fase da “tranquilidade de grupo”.

“A vacinação é um processo controlado e com pouco risco associado”

O coordenador da task force do plano de vacinação contra a Covid-19, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, revela que o único indicador que permite avaliar as recusas à vacina são as respostas às SMS de agendamento

Apesar de ser a região do País com maior incidência, Lisboa e Vale do Tejo (LVT) continua a ter a menor percentagem de população com a vacinação completa. Porquê?
No início do processo, as vacinas foram distribuídas pelas diversas Administrações Regionais de Saúde [ARS] de acordo com a densidade demográfica de cada faixa etária. Tendo em conta que a ARS de LVT possui uma das populações mais jovens, a taxa de vacinação é inferior a outras regiões [mais envelhecidas]. Neste momento, a prioridade passa por equilibrar as percentagens de vacinação.

Quais são os principais motivos para um centro de vacinação funcionar mal?
Os centros de vacinação poderão deixar de funcionar com fluidez devido a uma organização do espaço menos eficiente, a utentes que chegam muito antes da sua hora de agendamento ou à não abertura à hora prevista.

Quando chegará a altura de começar a vacinar crianças e adolescentes?
No presente momento, não há uma data estimada para a abertura da faixa etária abaixo dos 18 anos e, de acordo com as normas da DGS, apenas a vacina da Pfizer está aprovada para ser administrada a idades iguais ou superiores a 16 anos.

Qual a sua perceção sobre a quantidade de pessoas que recusa vacinar-se?
O único indicador que possuímos é o número de utentes que dizem “não” ao SMS de agendamento, que são, atualmente, cerca de 2,4 por cento. Mas este facto não significa que o utente não queira ser vacinado, pode ter respondido “não” por motivos de indisponibilidade.

O que diria a alguém que não quer tomar a vacina?
Mais tarde ou mais cedo, acaba por ser vacinado! Se não for imunizado com uma das vacinas disponíveis, irá, muito provavelmente, ser imunizado com a “vacina natural”, ou seja, será infetado pelo vírus. A vacinação é um processo controlado e com pouco risco associado, enquanto a “vacinação natural” é um processo não controlado, com um risco associado muito superior. 

Que impacto tem, na imunidade de grupo, o atraso na chegada de mais doses das vacinas, numa altura em que a variante Delta se torna dominante? 
O atraso na chegada de doses de vacina pode comprometer a data estimada de 8 de agosto para ter 70% da população portuguesa vacinada com, pelo menos, uma dose.

Palavras-chave:

Mais na Visão

VISÃO DO DIA
Exclusivo

Digam Xis, por favor!

Opinião

Ao menos, bom senso...

Parece que a única forma de o atual governo do PS se manter teria sido os partidos à sua direita apresentarem… uma “moção de censura”

Política
Exclusivo

PS e PCP: A longa história de um conflito

A dura negociação entre Governo e PCP, o último parceiro da Geringonça, tendo, por fundo, o Orçamento do Estado para 2022, é o epílogo de um conflito de 47 anos, entre os dois maiores partidos da esquerda. O acordo formado em 2015 – e agora posto em causa – foi o último de quatro raros “encontros tácitos”. O filme de uma relação tensa

Canon Powershot PX Exame Informática
Exame Informática

Canon Powershot PX: mexe-se e tira fotos sem intervenção humana

Novo modelo da marca japonesa recorre a reconhecimento facial para fazer enquadramentos e captar fotografias, sem necessidade de qualquer interação humana

Exame Informática
Exame Informática

Campanha coordenada no Twitter contra príncipe Harry e Meghan Markle

Empresa Bot Sentinel revela que há um conjunto restrito de contas do Twitter, mantidas por utilizadores humanos, responsável por grande parte dos ataques e publicações contra o casal real britânico Harry e Meghan

Economia

OE/Crise: Duodécimos limitam execução mensal até à entrada em vigor de novo orçamento

O regime de duodécimos, que entrará em vigor em 2022 devido à prorrogação da vigência do Orçamento do Estado de 2021, limita a execução mensal ao dividir por 12 o orçamentado para este ano, até haver um novo orçamento

Política

OE/Crise: Eleições antecipadas têm de se realizar nos 60 dias seguintes à dissolução

As eleições legislativas antecipadas têm de se realizar nos 60 dias seguintes à dissolução do parlamento e de ser marcadas nesse mesmo momento, de acordo com o artigo 113.º da Constituição da República Portuguesa

Sexto Sentido

Requiem pela geringonça

No final da história, nem Jorge Palma, nem José Mário Branco, nem Luís Cília terão sido os compositores mais indicados para compor o requiem da geringonça. No dia em que António Costa perdeu os seus “dois amores”, essa tarefa devia ter ficado reservada para Marco Paulo

LD Linhas Direitas
Linhas Direitas

Um Governo que se foi!

O Governo morreu porque quis. Acreditou que tinha imunidade grupal a uma crise, achou que ninguém se atreveria a abandoná-lo, e está sem perceber, ainda hoje, o que lhe aconteceu.

Economia

OE/Crise: Segundo orçamento chumbado desde o 25 de Abril, mas o primeiro a originar eleições

Foi a segunda vez que um Orçamento de Estado chumbou no parlamento em 47 anos de democracia, mas a primeira em que a rejeição dará, como já antecipou o Presidente da República, origem à dissolução da Assembleia da República

Política

Orçamento chumbado e eleições a caminho: O calendário político para os próximos meses

O Orçamento do Estado para 2022 chumbou pela primeira vez na história democrática. E agora? Marcelo Rebelo de Sousa prometeu que será rápido a cumprir os prazos que a lei eleitoral lhe impõe, na resolução da crise política que estalou esta quarta-feira. Com a ida às urnas, para umas legislativas antecipadas, existe um calendário a cumprir – onde o despacho presidencial de dissolução do Parlamento assume um papel vital

Política

É oficial: OE 2022 chumba no Parlamento. País deve avançar para eleições antecipadas

Está confirmado: Bloco de Esquerda, PCP e Verdes votaram contra a proposta de OE2022 do Governo. Geringonça chega ao fim com estrondo