“Até sonho com vinhas e vinho”. A história de vida de Domingos Soares Franco

A conversa solta-se, faz-se ora de avanços ora de recuos temporais, mas começa e acaba há mais de 40 anos, nos Estados Unidos da América, quando o fermentador (como gosta de se apresentar) Domingos Soares Franco foi para lá estudar, fugido de um verão demasiado quente para a sua inquietude e posição política. A gravação da entrevista tem duas horas, está repleta das memórias deste bon vivant, recentemente eleito personalidade do ano (prémio atribuído pela Revista de Vinhos) e enólogo de vinhos generosos do ano (pela Vinho Grandes Escolhas), numa altura em que assinala a sua 40º vindima ao serviço da José Maria da Fonseca, empresa da família. Poderíamos ter feito isto à mesa, enquanto provávamos os vinhos de que ele tanto se orgulha, mas uma cicatriz da profissão impede-o agora de beber álcool, até chegar a hora do transplante de fígado. Aconselha-se, no entanto, que esta leitura se faça acompanhar de um copo de vinho da casa e do riso sentido de Domingos Soares Franco, 65 anos.

É verdade que, quando emigrou para os EUA, levou consigo uma samarra?
Sim. Aliás, quando nos reunimos para celebrar os 40 anos do final do liceu, em Nova Iorque, voltou à baila a minha alcunha da altura por causa desse casaco: “The fox”.

Não foi à primeira que entrou na licenciatura em Ciências da Fermentação, pois não?
Não, porque quando fiz a conversão das minhas notas portuguesas para o sistema norte-americano, usando a regra de três simples, fiquei com média de 8 e não me aceitaram em Davis, na Califórnia. Tive de ir para uma universidade mais pequena, a norte de Stanford, fazer as cadeiras obrigatórias. Aí, entrei no quadro de honra e só depois fui para o curso que queria.

Tornou-se finalmente um bom aluno?
Lá, eles isolavam os melhores alunos para estarem mais focados e terem boas notas. Não se podia levar álcool para dentro do campus, mas eu já tinha mais de 21 anos e conseguia comprar bebidas; uísque e cerveja, principalmente. Depois, ia a rastejar pela floresta até ao meu quarto, escoltado pelos meus colegas. Parecia que estava na guerra do Vietname. Nunca fui apanhado.

Foi à tropa? Essa poderia ter sido uma boa recruta…
Em 1975, quando saí de Portugal, deram-me uma licença militar de três meses. Como não voltei dentro desse período, fui dado como refratário. O meu pai lá conseguiu safar-me, mas acabei por ir à inspeção quando regressei a Portugal, já com 26 anos. Mas, depois, não me chamaram.

Álbum de família Em criança, ao lado do irmão António, com quem divide a presidência da empresa; na graduação, à la americana; na época da pera e do bigode, nos anos 1970 (de cima para baixo, no sentido dos ponteiros do relógio)

As recordações dos EUA são todas boas?
Nem por isso. Tive uma cadeira sobre como falar em público. No final do semestre, o professor chamou-me e disse-me: “Vais chumbar. Nunca na vida conseguirás falar em público.” Tive de chorar – chorei mesmo – para ele me dar uma nota mínima que me permitisse continuar no quadro de honra. O engraçado é que o homem errou: das coisas que eu tenho facilidade, hoje em dia, é falar em público.

Quando se nasce no seio de uma família como a sua, é possível pensar em ter alguma profissão que não esteja relacionada com o vinho?
No meu caso, trata-se de algo que me apareceu cá dentro, até sonho com vinhas e vinhos. Quando fiz os testes psicotécnicos, os resultados indicaram que eu deveria seguir arquitetura ou agronomia. Descartei logo arquitetura, porque nunca tive pachorra para estar dentro de quatro paredes, mas agronomia agradou-me, pois era campo.

Ao fim de 40 vindimas, ainda sente o mesmo entusiasmo?
Já chega. Tenho de dar a vez à nova geração, a maneiras de ver diferentes. Somos quatro enólogos e vão entrar mais dois. Atualmente, vou à sala de provas apenas quando me chamam e entro no meu gabinete uma vez por semana, para ver se ainda está no sítio. Depois, dedico-me à vinha e à quinta dos pais que ficou para mim – e penso em vinhos. Achava que, quando tivesse 65 anos, saberia tudo. Agora, só sei que nada sei. Estava mesmo errado.

Algum dos enólogos da sétima geração pertence à família?
Não. Mas também não forcei ninguém a seguir a minha carreira, nem os meus sobrinhos nem os meus cinco filhos. Só o mais novo foi para agronomia, mas mais ligado ao campo e não à vinha. No entanto, o meu sobrinho mais velho é o responsável pelas vendas, o meu filho mais velho encarrega-se da produção e a minha sobrinha da comunicação.

Pensava que, quando tivesse 65 anos, saberia tudo. Agora, só sei que nada sei

Porque ainda o chamam à sala de prova?
Quando têm dúvidas.

E ainda pode provar, apesar do seu problema de saúde?
Passei um ano sem provar nada. Depois, achei que não era por aí que o fígado ia piorar. Tenho muito cuidado, cuspo e lavo a boca depois, de maneira a não entrar nada.

É a maior cicatriz da sua profissão?
É, porque nunca mais provei os vinhos que fiz como deve ser. Estou a guardar uma caixa para quando puder voltar a beber, depois do transplante, com calma, nada dos exageros de antigamente. Além do mais, terei de reaprender, porque, apesar de o olfato estar intacto, me esqueci de algumas sensações do paladar. Mas aviso que, nessa altura, vai haver um tremor de terra em Azeitão.

É preciso gostar de beber para se ser enólogo ou dá para manter uma relação fria com a profissão?
Eu bebia ao almoço e ao jantar, para saber o que os outros andavam a fazer e para tentar inventar coisas novas. Mas tenho colegas que parecem estar a fazer um frete.

Viajar também deve ser muito importante para a profissão.
Importantíssimo. Visitei para aí cinco mil adegas em todo o mundo e fazia sempre questão de estar cara a cara com os outros enólogos. Até segredos de produção me passaram nessas circunstâncias.

Já está a pensar na reforma?
Vou seguir os passos que o meu pai me aconselhou: sair com cabecinha fresca e pela porta grande. Também me disse para nunca me esquecer das raízes, mas para olhar sempre para a frente. Curiosamente, foi um ensinamento que me ficou da educação nos EUA, onde não há raízes. É por aí que me digo novo-mundista.

Conhece muitas regiões vitivinícolas no Novo Mundo?
Além da Califórnia, claro, também conheci a Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argentina, Chile… Na verdade, só me falta um país – o Uruguai. Queria lá ir no início da pandemia. Voltei a pensar nisso outra vez agora, mas, como estou na lista para um transplante de fígado, vou ficar por cá.

Azeitão A Casa-Museu José Maria da Fonseca é visitável. Na prova de vinhos, remata-se com o Moscatel-Roxo, um dos produtos premium de Domingos Soares Franco

E fora dos EUA, o que conhece?
França, essencialmente. Quando chegava dos EUA, nas férias grandes, o meu pai nem me deixava desfazer as malas. Seguíamos logo para lá, de carro, durante cerca de 15 dias. Levávamos um mapa feito por ele, à mão, e todas as visitas a adegas marcadas, assim como os restaurantes dos almoços e dos jantares. Nunca nos perdemos. Aprendi muito com ele nessas viagens. Parávamos sempre num convento à beira da estrada, perto de Valladolid, porque as freiras faziam uns chocolates extraordinários. O carro não tinha ar condicionado, então o meu pai vinha de janela aberta com os chocolates na mão, do lado de fora, a ver se não derretiam.

Uma das suas invenções é o vinho sem álcool. Acha mesmo que isso vai pegar por cá?
Olhe o meu caso, não posso beber álcool…

Mas o vinho sem álcool sabe-lhe ao mesmo?
Apetece-me beber às refeições, mas não me sabe ao mesmo.

Como se fermenta sem álcool?
Fermentamos da mesma maneira, mas depois o vinho passa numa máquina australiana, que comprámos em 2000 para retirar os sulfitos. Como sabia que aquilo também retirava o álcool, acabámos por experimentar. Em feiras, cheguei a fazer provas cegas informais, com e sem álcool, e houve peritos que gostaram mais do vinho sem álcool.

Acompanha a tendência dos vinhos naturais?
Ainda bem que não posso beber… Não acredito nisso, não se sabe mais o que inventar. Até hoje, nunca vi um com qualidade e nem há legislação sobre isso.

Mas, por outro lado, compraram, em 1986, uma adega de vinho da talha, a José de Sousa. O processo de produção não é natural?
Na José de Sousa, tentamos preservar uma tradição do tempo dos romanos, embora não haja nada escrito ou documentação que conte a história toda. Pedi ao velho adegueiro para me explicar como se fazia – fiquei tão apaixonado pela história que nunca mais larguei aquele bebé. Sempre a experimentar, sempre a usar alguma percentagem dele noutros vinhos de inox, misturando as duas maneiras de fazer. Mas, em 2015, houve uma pessoa que disse em público que o que eu fazia em talha era uma mentira. Nunca consegui que mo dissesse na cara, mas, picado com isso, produzi um vinho só na talha, de acordo com o que ouvi dos velhos adegueiros. Na verdade, o conceito apareceu muito antes dos romanos, na Geórgia. Fui lá há cinco anos, visitar adegas deste tipo de vinho, e embrenhei-me ainda mais no tema.

Se hoje convidasse alguém para a sua casa, que vinho lhe serviria para o impressionar?
O último que produzi. Trata-se de um vinho especial, que só vai sair em 2022, numa edição limitada de seis mil unidades. Já decidi o nome, Quadraginta, que significa 40 em latim. Vou escolher quem vai desenhar o rótulo, vou assinar cada garrafa e estipular o preço, que será alto, na casa dos 100 euros. As suas características serão as do futuro: elegância, suavidade, fruta, e madeira q.b., lá muito no fundo.

Passei um ano sem provar nada. Depois, achei que não era por aí que o fígado ia piorar. Neste momento, provo com muito cuidado

Disse que 2020 foi um ano mau, a todos os níveis. Não estamos só a falar da pandemia, pois não?
Pessoalmente, foi para esquecer: comecei com um acidente de esqui, na Suíça, em que me partiram todo. Já estava quase bom do fígado, mas, com o que me injetaram cá para dentro, para tirar as dores, deram cabo dele. Quanto aos vinhos, nunca acreditei no 2020, dão produtos muito desequilibrados, por causa das condições climatéricas. Ter toda a gente a trabalhar de máscaras, a tentar cumprir o distanciamento, também não ajudou.

Os prémios envaidecem-no?
Gosto de recebê-los, mas não me envaidecem. Tive pena de não ter havido a típica cerimónia de entrega, com mil pessoas, nestes dois prémios que me atribuíram recentemente – aí teria sido uma saída pela porta grande, grande… No entanto, a empresa deve tirar partido disto, até ao nível internacional. É que não há ninguém que tenha recebido estes dois prémios no mesmo ano, nem sei se houve alguém que os recebesse em separado. Na altura, pensei muito na influência do meu pai.

Mas também tem muitas referências do seu tio António. O que fazia ele?
Era o irmão mais velho do meu pai, formado em Enologia, em Montpellier, em França. Por acaso, até o conheci mal, porque morreu quando eu tinha 12 anos, mas tenho muitas boas recordações. Curiosamente, quando recebi os dois prémios, parecia que o via à minha frente. Era um homem grande, gordo, andava constantemente de camisa, laço, suspensórios e casaco, e fumava cigarrilha. Estava sempre impecável, limpinho, mesmo em pleno verão, nas vinhas, a suar, com um lenço amarrado na cabeça. Era um homem bem-disposto, bon vivant, solteiro, muito conceituado aqui na vila, sempre em almoçaradas e jantaradas. Sem querer imitá-lo, vejo-o como um modelo. Também gosto muito de almoçaradas e de jantaradas, por exemplo. No primeiro confinamento, fartei-me de fazê-las, às escondidas, em minha casa.

Também tem essa relação de proximidade com a Vila Nogueira de Azeitão?
Gosto de manter viva essa tradição, de passear a pé pela vila. Fui educado assim, já a minha a mãe o fazia.

Sempre viveu aqui?
Tirando a altura dos EUA e os seis anos que fui para Lisboa, com os meus pais e o meu irmão por causa do liceu. Bem, foi mais ele que fez o liceu. Eu andei a saltitar…

Demorou mais tempo a terminar?
Convidaram-me a sair do São João de Brito e de outros colégios. Depois, vim para Setúbal estudar, na altura do 25 de Abril – acho que fiquei irreverente nessa época. O meu pai foi ver as minhas notas e disse-me: “Pedi-te para tirares umas notas razoáveis, não era o número de telefone cá de casa.” O nosso número era 200064 – apanhei três zeros. Disse-lhe que politicamente o ambiente não estava fácil, que eles não gostavam de mim.

Estava a começar um verão demasiado quente?
Sim, era melhor ir embora daqui, até porque estava barrado – o meu pai tinha esta empresa e era considerado um capitalista. Aceitei a proposta de uns amigos dos meus pais para ir para os EUA, mas, como era agosto, as inscrições para a universidade já tinham fechado e, por isso, tive de fazer o último ano do liceu em Nova Iorque. Três meses e um dia depois de chegar, tinha a polícia de emigração à porta, a avisarem-me de que o visto tinha caducado. Pedi-lhes para não me mandarem embora, pois seria preso em Portugal. No dia seguinte, fui à 5ª Avenida e renovei o visto. Durante os seis anos em que lá vivi, nunca mais tive um problema com a polícia.

€25 milhões
Faturação do grupo José Maria da Fonseca em 2020

650 hectares
Área da vinha, espalhada por cinco regiões, dando origem a mais de 30 marcas de vinhos de mesa, generosos e licorosos

60%
Percentagem da produção que é exportada

1834
Ano da fundação da empresa, por José Maria da Fonseca, que se mantém na família há sete gerações

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