O que move a Geração Z: menos conversa e mais ação

Hábitos Um quarto dos jovens inquiridos pelo estudo da Deloitte disse querer ir menos vezes ao escritório

Comprometidos com o ambiente, a viver com elevados níveis de stresse, defensores do rendimento mínimo universal e pouco crentes no impacto positivo que as empresas têm na sociedade. Em linhas gerais, são estas as principais características dos trabalhadores da geração Z – nascidos entre 1997 e 2012 –, algumas das quais partilhadas com os millennials, que nasceram entre 1981 e 1996. Os resultados foram publicados no Deloitte Global Millennial Survey Report 2021, que agrega os dados de mais de 22 mil inquiridos (14,6 mil millennials e 8,2 mil jovens da geração Z) em 45 países, e ao qual a VISÃO teve acesso.

Olhando de uma forma profundamente diferente das gerações anteriores para o mercado de trabalho e para a sociedade, são eles que vão obrigar as empresas a alterar a forma como pensam o seu papel no mundo e como retêm os melhores. “Acho que vai haver uma pressão adicional do mercado, que é o facto de estarmos a falar de partilha do talento à escala global. Creio que vai haver uma reflexão interessante por parte desta geração: qual o nível de flexibilidade e qual o nível de desafio que uma empresa me pode dar? Às vezes, uma proposta pode ser muito interessante do ponto de vista financeiro, mas menos a nível intelectual e isso vai pesar na decisão. É claro que vai depender do estilo de vida que pretendem e da fase em que estão, mas isto vai fazer mexer as organizações”, vaticina Nuno Fernando Carvalho, partner da Deloitte e especialista em tecnologia e capital humano. Por exemplo, nota, “as políticas sociais e ambientais das empresas têm de ser claras. As novas gerações estão muito mais atentas e se tiverem de compactuar com algo que não concordam, se calhar não aceitam trabalhar com elas”, nota.

Novas gerações, novas preocupações

Saúde e emprego A saúde e a perspetiva de emprego saltaram para o topo da preocupações das gerações de millennials e Z. Alterações climáticas e o ambiente continuam a angustiar;

Saúde mental Cerca de um terço dos inquiridos revelou ter tirado diasdevido a stress e a ansiedade. Menos de metade reportou as verdadeiras causas ao empregador;

Stress O stress voltou a níveis pré-pandemia com quase metade dos inquiridos a dizer que se sente stressado durante a maior parte do tempo

Riqueza e rendimento Estas gerações são particularmente sensíveis à questão das desiguladades sociais e de rendimentos

Racismo sistémico Mais de metade dos inquiridos (10 em cada 6 da geração Z e 56% dos millennials) considera que o racismo sistémico está a alastrar-se na sociedade

Impacto social Menos de metade dos inquiridos acredita nas boas intenções das empresas e no seu papel positivo na sociedade

No mesmo sentido, lembra o especialista, esta é a geração que tem um mercado absolutamente global à sua disposição – e essa perceção tornou-se ainda mais flagrante graças à pandemia e aos confinamentos, que provaram que é possível, em setores específicos, trabalhar para e desde onde se quiser. Isso vai pressionar ainda mais as empresas, que passam a ter uma concorrência mais alargada e precisam de repensar urgentemente a forma de reter o talento. E apesar de a flexibilidade ser um dos temas – 25% dos inquiridos referiram que querem ir menos ao escritório –, não é o único nem será o mais difícil de agilizar. O desafio está em dar segurança a gerações que não encontram resposta para as suas preocupações no sistema atual, e que acreditam viver num mundo profundamente desigual.

Empresas chamadas a agir
“As decisões que as organizações têm tomado, têm acontecido muito pelos contextos que temos estado a viver. De uma forma geral há uma clara noção de que terá de haver esta flexibilidade, mas o seu grau ainda está para ser definido”, continua o responsável, que conta com mais de 20 anos de experiência na área da gestão de talentos e que confessa que tem olhado com especial interesse para o momento atual do mercado de trabalho. “Há organizações a fazerem um mapeamento daquilo que podem ser os modelos, e que podem andar na casa dos 50% de trabalho presencial. Nas camadas mais jovens é expectável que haja essa flexibilidade, mais difícil à medida que se vai subindo na hierarquia. Claro que terá sempre de haver deslocações pontuais para conhecer a equipa. E repare-se que são os próprios a manifestarem interesse nisso.” Daí que o inquérito refira que querem ir menos vezes ao escritório, mas não que o querem abandonar. No entanto, salienta Nuno Carvalho, é preciso não esquecer que, em Portugal, apenas 30% da população ativa tem profissões que permitem o trabalho remoto. E que as angústias destas gerações, sobretudo dos millennials, que estão a preparar-se para ocupar cargos de liderança, prendem-se com mudanças muito mais transversais como ambientes mais saudáveis, maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, agendas claras de combate à discriminação e às desigualdades, e um compromisso sério com a sustentabilidade, uma vez que são eles quem estão já a sofrer os efeitos das alterações climáticas. A percentagem de millennials que acredita que as empresas têm um impacto positivo na sociedade é de apenas 47% – é a primeira vez em dez anos que este indicador fica abaixo dos 50 por cento. No mesmo sentido, 62% dos inquiridos desta geração consideram que as empresas não têm outro objetivo além de fazer dinheiro, o que está pouco alinhado com a responsabilidade social que procuram. A maioria dos inquiridos acredita ainda que as organizações se preocupam apenas com a sua própria agenda e que se esquecem que estão inseridas na sociedade e têm nela um papel a desempenhar.

O desafio está em dar segurança a gerações que não encontram resposta às suas preocupações no sistema atual

Saúde mental é o tema
Segundo o inquérito realizado pela Deloitte, 41% dos millennials e 46% dos inquiridos da geração Z dizem sentir-se stressados durante a maior parte do tempo. Preocupações financeiras, com o bem-estar familiar e as perspetivas, ou falta delas, de emprego ocupam o topo das suas angústias. Estas são gerações que criticam também ativamente o facto de os fossos salariais dentro das empresas continuarem a adensar-se, e o facto de estarem no lado mais baixo da balança fá-los sentir-se mais inseguros e preocupados. No mesmo sentido, cerca de 60% dos inquiridos defendem que a existência de legislação ajudaria significativamente a limitar a discrepância dos salários entre executivos seniores e funcionários médios. E a mesma percentagem acredita que se houvesse apoios públicos para que os jovens provenientes de famílias de baixos rendimentos pudessem desenvolver as suas capacidades, estaríamos no bom caminho para reduzir as desigualdades sociais, que são outra das principais preocupações destas gerações.

Nuno Carvalho salienta que a pandemia veio reforçar muito estes sentimentos de incerteza e de frustração com o sistema, sobretudo entre a geração Z. “Era uma geração que não estava preparada para ceder. Essa percentagem [dos níveis de stresse, sobretudo] espelha o que estamos a viver”, considera.

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