Geração radical: Os jovens de hoje são mais radicais do que os seus pais ou avós?

“Sou radical no sentido em que cumpro fielmente os princípios de Deus”, afirma Eduardo Almeida. Aos 24 anos, apresenta-se como católico tradicionalista. Integra um movimento ultraconservador que defende os princípios mais ortodoxos da Igreja Católica, resistindo à maior abertura – ou à “heresia” – imposta pelo Concílio Vaticano II, nos anos 60 do século passado. O regresso das missas em latim é uma das faces mais visíveis desta corrente religiosa.

O jovem católico portuense admite que as suas posições possam ser vistas como radicais. Serão elas um sintoma do maior extremismo das gerações mais jovens, nas quais se incluem os millennials e a geração Z? Haverá radicalismos piores do que outros? E qual o papel das redes sociais nesta equação turbulenta?

Missas em latim

Eduardo Almeida
Católico ultraconservador
24 anos

“Pouca gente entende o que é dito numa missa em latim, mas há algo de sobrenatural que nos transporta para a majestade de Deus. A missa antiga também é um grande exorcismo contra o demónio. Já a missa nova [em português] reflete uma Igreja que deixou de acreditar no seu mandato missionário. Enquanto católico tradicional, defendo que a minha religião é a única verdadeira. E todos podem ser acolhidos por ela, desde que renunciem ao pecado. Os homossexuais, se respeitarem a castidade, podem praticar a doutrina. Temos de perceber que a felicidade está no sacrifício.”

As respostas levam-nos numa viagem por algumas das causas dos jovens do século XXI. Na bagagem, a indispensável síntese do conceito de radical: “É levar ao extremo propostas ideológicas, quaisquer que elas sejam, interpretando-as de forma dogmática e totalizante”, descreve o politólogo António Costa Pinto. “Implica uma contestação extrema do modelo atual de sociedade em que vivemos, propondo a instauração de uma alternativa diametralmente diferente”, complementa o historiador António Araújo.

Neste caso, a alternativa proposta por Eduardo Almeida é um mundo construído à imagem e semelhança dos princípios mais conservadores da Igreja. Nascido numa família de tradição católica, aos 18 anos decidiu trocar a missa nova (em português) pela tridentina (em latim), que considera “mais verdadeira”. Ter assistido a um exorcismo – “uma coisa perfeitamente normal” – também o aproximou da Igreja. Apaixonado por História, confessa sentir uma grande atração pela beleza do ritual da missa antiga que inclui, por exemplo, paramentos mais elaborados – também no seu quotidiano gosta de usar um guarda-roupa formal, que pode incluir camisas ao estilo do século XIX.  

Um traço das novas gerações parece ser a sua “adesão a modelos alternativos de contestação”

Eduardo Almeida faz questão de dizer que tem uma vida “perfeitamente normal”. “Não tenho práticas de flagelação, vou ao cinema, gosto muito de passear à beira-mar, mas não frequento a praia porque não me sinto à vontade, por questões morais”, admite. Reza o terço diariamente e faz orações de manhã e à noite em latim. Confessa-se, pelo menos, uma vez por semana. Identifica-se como monárquico. “Acredito que os reis católicos são ministros temporais de Deus na Terra”, diz. Por isso, não defende um Estado secular. “Preferia uma monarquia católica a uma democracia.”

Não tem dúvidas de que a maioria dos jovens católicos é ultraconservadora. “Quer viver a sua fé de forma mais radical, no sentido positivo do termo”, clarifica. “Isso de levar guitarras para as missas… Se os jovens quisessem ir à discoteca, iam”, critica. Vê “algum desleixo” na doutrina do Papa Francisco, que tem vindo a abrir a Igreja, por exemplo, aos divorciados e aos homossexuais. Na sua visão ultraconservadora, nem em caso de violência doméstica o divórcio deve ser permitido, apenas a separação. E, mesmo assim, o casal separado tem de viver em castidade, pelo menos até que um deles morra, “porque a sexualidade deve ser vivida no matrimónio e não existe para diversão ou prazer venéreo”, defende. “Eu sou solteiro, tento viver em castidade, e sou feliz.”

Longe dos partidos, não da política
Já Bruno Sousa não quer nem ouvir falar de um regime monárquico. Defende uma sociedade com “um modelo de produção mais justo”, que contrarie “o fosso das desigualdades que o capitalismo tem vindo agravar”. Define-se como marxista. Também é admirador de Friedrich Engels ou Rosa Luxemburgo. Tornou-se ativista depois de participar numa manifestação antirracista em Braga, onde estudava Engenharia Informática. Foi o primeiro protesto da sua vida. Quase três anos depois, apesar das interrupções causadas pela pandemia, já soma à volta de duas dezenas de manifestações no currículo. Atualmente, é coordenador do Grupo Antifascista Miguel Torga, de Vila Real, que integra a Rede Unitária Antifascista (RUA). Também edita o jornal propagandístico da organização, o Antifacho.

António Costa Pinto estabelece “uma fortíssima correlação entre a juventude e as dinâmicas de radicalização”. No entanto, essa atitude radical não se traduz necessariamente em violência. “Estamos a falar de uma adesão ideológica a causas que até podem passar pelo pacifismo”, esclarece. O politólogo lembra que boa parte da elite do centro-esquerda e do centro-direita, em Portugal, provém de “movimentos dessa radicalidade de juventude”. Um desses exemplos é Durão Barroso, que militou no MRPP, de inspiração maoista, antes de ingressar no PSD. Um traço das novas gerações parece ser a sua “adesão a modelos alternativos de contestação, com dinâmicas antagónicas às das juventudes partidárias”.

Revolução do povo

Bruno Sousa
Militante antifascista
24 anos

“O termo radical é muitas vezes aplicado à esquerda porque a esquerda defende uma sociedade radicalmente diferente daquela que temos hoje, que é distópica. A extrema-direita não propõe nada de muito inovador, apenas o aprofundar da exploração em que vivemos. O fascismo surge da desigualdade e do desespero, usa-os para dividir as pessoas e culpa os mais pobres pelos problemas, em vez dos mais poderosos – até porque costuma ser financiado por eles. O crescimento destas forças exige uma resposta coletiva. A revolução terá de partir do povo e de mais ninguém.”

“Como é que eu podia viver num mundo injusto e desigual e não fazer nada para tentar criar uma sociedade verdadeiramente livre?” Foi desta interrogação de Bruno Sousa que surgiu a sua “necessidade de agir coletivamente”, porque só em conjunto é possível conseguir mudar alguma coisa. “Agora”, diz, “sinto que faço parte de algo maior do que eu”.

O sentimento de pertença é uma das razões para aderir a ideias ou grupos. “Estas estruturas organizativas, muitas vezes, trazem uma autorreferência de vanguarda, ou seja, de que são melhores do que os outros”, nota António Costa Pinto. Mas existem outros incentivos para aderir. A investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL Raquel da Silva considera os laços familiares ou de amizade com pessoas radicalizadas um dos motivos mais importantes. Também fatores de exclusão social (formas de violência estrutural como a marginalização ou o racismo) podem contribuir para o extremismo, assim como ressentimentos políticos e até problemas económicos. Curiosamente, a ideologia não está no topo da lista.

56% dos millennials norte-americanos (nascidos entre 1981 e 1996) acreditam que as alterações climáticas se devem à atividade humana. Esta percentagem desce para 45% no caso dos baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964)

Os debates, as manifestações, os panfletos… Tudo serve para “elevar a consciência dos setores mais explorados da sociedade sobre a necessidade de lutar contra a opressão”, diz Bruno Sousa. O militante antifascista não se vê como radical. “Os polícias terem armas não é muito mais radical?”, atira.

É nas redes sociais que tem assistido ao crescimento da extrema-direita. Acusa-a de ser financiada “pelos mais ricos” e de usar bots (software que desempenha tarefas automáticas) para “espalhar o ódio de forma artificial de maneira a parecer que toda a gente é racista”. E teme figuras como o deputado do Chega, André Ventura, que se apresenta “como antissistema, mas é o pior que o sistema tem”.

A internet é uma arma
Até aos 26 anos, Miguel Macedo garante que não distinguia o Presidente da República do primeiro-ministro, até que um tio lhe ofereceu um livro que satirizava o marxismo. Agora, tem 35 e descreve-se como politicamente “de direita e conservador nos costumes”. É admirador da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e considera o ex-Presidente norte-americano Donald Trump “um génio da geostratégia”. Leu quase todos os livros do filósofo britânico conservador Roger Scruton. Após despertar politicamente, sentiu vontade de começar a partilhar a sua visão do mundo na internet. Além de usar as redes sociais, tem um canal no YouTube e um podcast.

“O Facebook decide usar o multiculturalismo e a filosofia LGBT para assinalar o Dia Mundial da Criança… Porque será? Deixem os vossos filhos nas mãos desses desgraçados e daqui a uns anos venham perguntar onde foi que eu errei”, partilhou no passado dia 1 de junho. Também se insurgiu contra as seleções que se ajoelham no início dos jogos do Euro 2020 em protesto contra o racismo: “O futebol deixou de ser só um desporto, passou a ser um negócio e passou a ser política… Lembrei aqui um jogador que eu até admirava até ao dia em que decidiu envolver-se em política: Ricardo Quaresma!” Os bloqueios nas redes sociais, por partilha de conteúdos que não cumprem os critérios da comunidade, já o obrigaram a criar vários perfis diferentes. “Estou a passar as minhas ideias e a ajudar as pessoas a compreender, não estou a pregar nada”, afirma.

Combater os rótulos

Miguel Macedo
Conservador de direita
35 anos

“Já me chamaram de radical, de fascista, de nazi e, para ser sincero, até de comunista. Os rótulos têm uma função na sociedade que é, muitas vezes, acabar com o diálogo. E têm a capacidade de nos silenciar. Quando alguém escreve um comentário a dizer “tu és um fascista”, o que posso eu discutir com essa pessoa? Perante ela, eu já estou completamente rotulado, sou antidemocrático, não prezo os valores da sociedade e, aparentemente, também nem podia estar ligado ao cristianismo.”

“Às vezes, ficamos um bocadinho contagiados por aquele radicalismo [das redes sociais]”, admite. “Aos poucos, vamos trazendo isso para a nossa vida e, sem nos apercebermos, vamos mudando como pessoas.” Miguel Macedo recusa ter algo em comum com a direita radical. “Conheço muita gente dentro do Chega, defendo muitas das ideias políticas do partido, mas não todas”, esclarece. “Não creio que o partido seja extremista, acho que é mal interpretado e que, por vezes, se explica mal”, remata.

Informa-se junto da comunicação social, mas considera essa informação “pasteurizada”. Por isso, procura fontes “alternativas”, como o jornal O Diabo, “empenhado na defesa de uma cultura patriótica e firme no apego à identidade nacional”, de acordo com o seu estatuto editorial. Ou o jornal digital Notícias Viriato – que foi monitorizado pelo MediaLab ISCTE-IUL, no âmbito do projeto “Monitorização de propaganda e desinformação nas redes sociais” – para o qual já escreveu. A informação “alternativa” que recolheu também o fez tomar uma decisão de saúde: “Sinceramente, não vou tomar a vacina [contra o SARS-CoV-2], só se for obrigado por um processo político que vá contra a minha liberdade.”

Terrorismo e extrema-direita
“Ser radical não é crime”, afirma, perentória, a investigadora do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL Raquel da Silva. “Uma pessoa ser de extrema-esquerda ou de extrema-direita não é crime, o que é crime é haver a preparação ou a concretização de um ato terrorista”, esclarece. O terrorismo e o extremismo político são as suas áreas de investigação, incluindo durante a sua passagem pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido. “Atualmente, estamos num momento de transição da ameaça terrorista. O terrorismo inspirado pela extrema-direita está a tomar o lugar do terrorismo de inspiração islamista”, nota. “Temos de estar atentos porque existe um partido de extrema-direita com assento parlamentar com um discurso inflamatório”, alerta.

Tal como Miguel Macedo, Inês Almeida, 31 anos, recusa ser inoculada contra a Covid-19. Nas redes sociais, já comparou as filas nos centros de vacinação às dos judeus na Alemanha nazi. Quando surgiu a pandemia, chegou a ter ataques de ansiedade, mas foi-se tornando cada vez mais cética. A morte da avó, em fevereiro deste ano, foi o momento de viragem. Aos 85 anos, e com várias doenças diagnosticadas, a matriarca não resistiu a uma septicemia provocada por uma infeção urinária. Porém, a neta garante que a morgue do hospital considerou-a vítima de Covid-19. “Era o que estava escrito na guia de saída para a funerária porque ela podia ter estado em contacto com um doente infetado”, conta. A dor transformou-se em revolta. “Fiquei indignada por a minha avó ser incluída nas mortes por Covid para o Estado receber dinheiro, como também acontece no Brasil”, acredita. O falso rumor de que os governos recebem compensações financeiras por cada óbito causado pela pandemia circulou abundantemente no Brasil, mas foi desmentido pelas autoridades de saúde e por diversas investigações jornalísticas.

Foto: José Carlos Carvalho

Conspiração viral

Inês Almeida
“Negacionista” das vacinas contra a Covid-19
31 anos

“Quem questiona é imediatamente apelidado de ‘negacionista’ e acham logo que acreditamos que a Terra é plana… Eu sei que a doença existe, mas já houve outras tentativas de criar pandemias e não estou convencida de que o vírus tenha surgido de forma natural. Não sou antivacinas, mas estas não são iguais às outras. Ainda estão a ser testadas e nós somos as cobaias. Se é para jogar à roleta russa, prefiro apanhar Covid. É muito fácil chamarem-me de radical, mas não me identifico com isso. Os outros podem tomar a vacina, eu é que não a quero.”

Habituada a acusações, a produtora de conteúdos passou a identificar-se na rede social Twitter como “negacionista”. “Não nego que o vírus existe, mas as medidas para o contrariar foram exageradas. Houve muito aproveitamento político para tirar liberdade às pessoas.” Por isso, só usa máscara quando é obrigada e apenas cumpre as demais restrições quando existe o risco de ser multada. “Com o Twitter, ganhei uma perceção diferente do mundo. Agora, sou mais à direita”, revela. Já lhe aconteceu ser impedida de partilhar conteúdos por serem considerados desinformação pela rede social, o que só a fez pensar que se tratava de dados “que alguém não quer que sejam divulgados”.

Na tentativa de entrar na mente de alguém com um pensamento radicalizado, a psicóloga Raquel Raimundo recupera o conceito do viés da confirmação, a tendência de os seres humanos acreditarem em informações que correspondem às suas crenças, mesmo que sejam infundadas. Também o efeito Dunning-Kruger, conhecido como “sabedoria dos idiotas”, poderá desempenhar um papel importante. Este fenómeno significa que as pessoas com pouco conhecimento sobre um tema têm excesso de confiança nas suas competências e nas decisões que tomam. Por isso, cometem mais erros, mas não conseguem reconhecê-los, e acham-se mais inteligentes do que os outros. A pandemia também trouxe agravantes: “A incerteza provoca estados de ansiedade que, por vezes, levam as pessoas a procurarem soluções simples para os problemas, reduzindo a sua insegurança através certezas ilusórias.”

Inês Almeida também desconfia da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das “notícias oficiais”, prefere procurar “fontes alternativas”. Através da rede social Telegram, chegam-lhe histórias de casos de jovens estrangeiros que morreram depois de tomarem a vacina. Até agora, em Portugal, só se registaram cinco óbitos de pessoas infetadas com a vacinação completa. Quatro tinham 80 anos ou mais. “Não estou para arriscar a minha saúde com uma vacina experimental. Se apanhar o vírus, tomo ivermectina” – Inês Almeida refere-se a um medicamento que chegou a ser apontado como possível tratamento para a doença mas, em fevereiro, a farmacêutica que o produz veio alertar para a inexistência de provas da sua eficácia contra a Covid-19.

Os extremos tocam-se?
A desinformação online é terreno fértil para a radicalização, mas as redes sociais também funcionam como “um fator anestesiador da cidadania”, classifica o historiador António Araújo. “Os utilizadores exercem a sua cidadania através de caixas de comentários, e de outras coisas absolutamente inconsequentes, em vez de o fazerem nos canais próprios, que realmente operariam uma transformação”, critica. “Uma boa parte do radicalismo é transferido para o universo digital e muitas pessoas são ‘revolucionárias da internet’. Ao contrário do que se possa pensar, as redes sociais diminuíram muito a capacidade de contestação. De vez em quando, mobilizam uns quantos para invadirem o Capitólio, mas no quotidiano não motivam a sair do sofá porque é no sofá que acontece o mundo”, ilustra.

Giovanni Allegretti, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, considera as redes sociais “espaços de eco: quando um grita, o outro grita mais alto”. O que se ouve, muitas vezes, “são gritos de dor, porque não tem havido espaço para expressar sofrimento”, sobretudo em tempos de pandemia. Por isso, duvida que todos os que parecem radicais nas redes o sejam, mas os seus gritos reforçam “perigosamente” os radicalismos ao darem-lhes eco.

62%dos norte-americanos entre os 13 e os 21 anos (geração Z) defendem que a diversidade étnica e racial é boa para a sociedade. Só 48% dos baby boomers inquiridos são da mesma opinião

Por outro lado, as redes têm a capacidade de criar uma espécie de “internacional da contestação”, como lhe chama António Araújo, com causas que rapidamente se universalizam, como o movimento #MeToo ou a luta antirracista.

Há dez anos, quando a espanhola Gema Macías estava a estudar em Itália, decidiu dar aulas de castelhano para ganhar algum dinheiro. O choque deu-se quando os potenciais alunos lhe começaram a ligar num “tom estranho”. Queriam perceber se a estudante era prostituta. Este foi apenas um dos vários episódios de assédio que contribuíram para que se apercebesse do “machismo reinante”. A sevilhana vive há cinco anos em Portugal. Trabalha na área da publicidade e, ao mesmo tempo, está a fazer um doutoramento. Foi na capital portuguesa que se envolveu no ativismo e integra a Assembleia Feminista de Lisboa (AFL) desde a sua fundação, em 2017. Não tem medo da palavra e assume-se como feminista radical. Entre as principais reivindicações deste movimento está a abolição da prostituição, da pornografia e de todas as formas de exploração reprodutiva, como as barrigas de aluguer ou a doação de óvulos. Todas elas “manifestações do patriarcado”. “Entendo que querer abolir estas coisas soe radical, mas as sufragistas também foram vistas como radicais”, compara a ativista de 32 anos. E não tem dúvidas: “Se é preciso sermos radicais para defender Direitos Humanos, então, devemos sê-lo.”

FOTO: Marcos Borga

Contra a exploração da mulher

Gema Macías
Feminista
32 anos

“O feminismo radical fala de assuntos que ninguém quer tocar precisamente por serem vistos como radicais. Defendemos a abolição da prostituição e da pornografia. A pornografia não é mais do que prostituição filmada. Também somos contra todas as formas de exploração reprodutiva, como as barrigas de aluguer ou a doação de óvulos, que funcionam como uma colonização dos corpos. Para mim, o único feminismo sensato e coerente é o feminismo radical. Se não for radical, não será um movimento coletivo, nem será capaz de promover uma verdadeira mudança no sistema.”

O feminismo radical é uma corrente teórica que surgiu nas décadas de 1960/1970 nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus (a Portugal só chegaria após o 25 de Abril). “É muito complicado combater a violência contra as mulheres se continuarmos a permitir que ela seja exercida contra as mais vulneráveis, como as prostitutas”, afirma Gema Macías. “Nós queremos colocar o foco no culpado desta situação: o homem.” E, por isso, ponderam a defesa da criminalização dos clientes da prostituição. Esta posição, diga-se, não é pacífica entre as feministas, pois também há quem defenda a legalização do trabalho sexual.

Fatores de exclusão social (marginalização, violência, racismo) podem contribuir para a radicalização, assim como ressentimentos políticos ou problemas económicos

Caso para dizer que os extremos tocam-se? As feministas radicais são aliadas da direita conservadora? “Não estou nada de acordo com a ideia de que os extremos se tocam”, defende-se. “Na questão das barrigas de aluguer, por exemplo, os partidos de direita são contra porque acham que não se deve ‘jogar’ com a vida ou fazer o papel de Deus, enquanto nós negamos uma forma de violência contra as mulheres. Em nenhum momento nos vemos como aliadas”, remata.

Giovanni Allegretti sublinha a importância de separar “os métodos dos valores”. Não é equivalente defender causas a favor ou contra os Direitos Humanos. No caso dos extremismos, eles tocam-se nos métodos. “Entre o terrorismo de esquerda e o fascismo de direita, não vejo grandes diferenças no que diz respeito ao silenciamento do indivíduo, ambos convergem no excesso da convicção de que sabem representar os outros, sem falarem com eles”, afirma. A democracia direta, por exemplo, “é um dos instrumentos que tanto os radicalismos de esquerda como os de direita utilizam porque ela banaliza”, ou seja, reduz a complexidade do mundo a um sim ou não.

O apelo da desobediência
Aos 17 anos, Beatriz Rodrigues assistiu a um dos momentos mais marcantes da sua vida de ativista climática. Viu cerca de três dezenas dos seus companheiros serem detidos por bloquearem a rotunda do Relógio, junto ao aeroporto de Lisboa. A ação policial aconteceu na sequência de uma manifestação em defesa de “mais ferrovias e menos aviões”, organizada pelo coletivo Climáximo, do qual a estudante dos Olivais faz parte. Apesar de ter acontecido no final de maio, o protesto continua fresco na sua memória. “Foi muito intenso, mas fez-me perceber que é este o caminho e que eu quero participar nele”, reflete.

A ocupação da rotunda foi uma ação de desobediência civil que, naturalmente, não estava autorizada. Após as detenções, enquanto porta-voz do protesto, Beatriz Rodrigues juntou-se ao grupo de manifestantes que se dirigiu à esquadra dos Olivais com o objetivo de apoiar os elementos que tinham sido escoltados pela polícia. “Ficámos lá até sair a última pessoa detida, às duas da manhã”, recorda, orgulhosa. Durante as oito longas horas em que permaneceram diante da esquadra, os ativistas estiveram sempre sob forte cobertura mediática. “Nunca tínhamos tido tanto impacto na comunicação social. As nossas manifestações ‘normais’, às vezes, não passam de notas de rodapé. Bastou ocuparmos uma rotunda para recebermos esta atenção toda. Isso fez-me ver que a solução talvez seja a desobediência civil”, diz. As detenções foram fundamentais para a presença dos jornalistas. A estudante sublinha que se tratou de uma ação “megapacífica” e que o coletivo defende a “não violência”.

FOTO: Marcos Borga

Desobedecer é uma obrigação

Beatriz Rodrigues
Ativista climática
17 anos

“Ação direta e desobediência civil são expressões que assustam, mas não significam mais do que provocar interrupções que alertam para o que está a acontecer de errado. Quando ocupamos pacificamente uma rotunda, mostramos que as pessoas estão a revoltar-se contra alguma coisa. Ao início, tinha medo de ser identificada e de ficar com registo criminal, mas agora sinto que vale a pena correr esse risco. Não vou parar por ter medo de ser detida. Na verdade, gostava de ser mais radical porque sinto que ainda podia fazer mais pela justiça climática.”

“Ser radical é ir à raiz do problema e o nosso problema é o sistema, que faz com que tudo continue como está”, critica. “Estamos a ficar sem tempo e temos de tentar ao máximo mudar alguma coisa”, defende. Por isso, não é o medo de vir a ser detida numa ação de desobediência civil que a irá travar. “Alguém disse que, quando a lei é injusta, o lugar dos justos é desobedecer.”

O investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa Alix Sarrouy considera que a desobediência civil continua a ser eficientemente aplicada no século XXI, apesar de ser um conceito associado ao século XIX. “É muito eficaz a gerar ações e imagens-choque que provocam reações ao vivo e nas redes sociais. Também joga com as emoções porque, de certa forma, implica correr riscos pessoais e físicos em defesa de uma causa. Em certos países até a própria vida é posta em jogo”, explica.

47% dos jovens entre os 13 e os 37 anos, nos EUA, afirmam que os casamentos entre pessoas do mesmo sexo são bons para a sociedade. Ao contrário de apenas 27% dos nascidos entre 1946 e 1964 

Apesar da atração pela desobediência civil, António Araújo é taxativo: Esta geração não é mais radical do que as anteriores. “A grande recusa, como lhe chamou Herbert Marcuse, foi nos anos 60, altura que marca o padrão de todas as contestações juvenis”, contextualiza. Foi também nessa década que a juventude se converteu num grupo social, com aspirações próprias, surgindo o que o historiador apelida de “um certo sindicalismo da juventude”. Por enquanto, nada se compara à rotura introduzida pelos jovens no Maio de 68. Além disso, no século passado, “houve atração por modelos de ação direta e luta armada que, atualmente, não se verificam”.

Ao mesmo tempo, sublinha que o eventual extremismo dos jovens “acompanha o radicalismo do nosso tempo” e não é muito diferente do dos adultos. O radicalismo também pode estar no olhar de quem observa e ser alimentado pelo conflito de gerações. “É natural que ao contestarem a ordem estabelecida, à qual pertencem os pais e os avós, os mais velhos os vejam como radicais e se coloquem à defesa”, constata.

A investigação de Raquel da Silva foca a prevenção da radicalização. As escolas poderão desempenhar um papel importante, enquanto espaços de debate num ambiente seguro. “O populismo apela a sentimentos e a emoções, se os jovens não estiverem preparados para responder a esse tipo de narrativas, podem tornar-se terreno fértil para elas”, alerta. Também no processo de desradicalização os laços familiares e de amizade são fundamentais.

As redes sociais propiciam a universalização de causas como o movimento #MeToo ou a luta antirracista

Já Raquel Raimundo destaca a importância de “expor os radicais a pontos de vista diferentes, sem que se sintam agredidos ou postos em causa” e, ainda, a eficácia do contacto presencial com pessoas de opiniões diferentes, contrariando a frieza das redes. A psicóloga recorda a importância de criar novas narrativas para a história de vida de quem perde parte da sua identidade ao desfazer-se de ideias radicais que, a dado momento, deram sentido à sua existência. Além disso, acredita que a impulsividade e a indiferença ao risco dos jovens, ao mesmo tempo que os pode tornar mais suscetíveis de serem radicalizados, também facilitará o seu “resgate” do extremismo.

Tal como Beatriz Rodrigues, também Joana e João praticam a desobediência civil. Ambos pertencem à Stop Despejos, uma organização que defende o direito à habitação, por vezes com recurso à ocupação de casas. Preferem ser identificados pelo primeiro nome e não aceitaram ser fotografados.

“Gosto de acreditar que somos o pior pesadelo dos senhorios”, afirma Joana, 32 anos. “É preciso haver retribuição e o direito à propriedade privada, por vezes, sobrepõe-se ao direito à habitação”, critica João, 27 anos. “É importante pôr em causa o sentimento de impunidade dos senhorios com uma certa violência”, acrescenta. A maior parte das pessoas que apoiam ocupa habitações camarárias que estavam vazias antes de se mudarem para lá. “Ainda hoje associamos as ocupações à anarquia, a bêbedos e a drogados, mas não é bem assim. Há muitas famílias, muitas mães solteiras, que não têm outra solução além de ocupar casas. Algumas estão há anos à espera de uma solução da autarquia”, diz João. Já entraram pelo Ministério das Infraestruturas e Habitação adentro com famílias com problemas habitacionais e até o gabinete da vereadora da Habitação de Lisboa tentaram ocupar, mas sem sucesso. “É a única opção para sermos ouvidos”, justifica Joana. “E é uma forma completamente legítima de luta”, acrescenta João. Curiosamente, o ativista nunca foi detido no âmbito de uma ação da Stop Despejos, mas foi um dos manifestantes levados para a esquadra dos Olivais na sequência da ocupação da rotunda do Relógio.

Segundo Joana, enquanto o statu quo dá uma conotação negativa à palavra radical, ela prefere vê-la como fonte de força. Até porque, como escreveu Jean-Paul Sartre, se o inferno são os outros, os radicais também.

Cronologia geracional 

Os grupos demográficos são divididos de acordo com os anos de nascimento 

Geração Alpha 
Nascidos depois de 2013

Geração Z
entre 1997 e 2012

Millennials
entre 1981 e 1996 

Geração X 
entre 1965 e 1980

Baby Boomers 
entre 1946 e 1964 

Geração Silenciosa 
entre 1928 e 1945 

Palavras-chave:

Mais na Visão

LD Linhas Direitas
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