Pandemia: O confinamento enfraqueceu os ossos das crianças?

Tem sido motivo de conversa no serviço de ortopedia infantil do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. “Parece que agora os miúdos andam sempre a cair” ou “por tudo e por nada tropeçam” são desabafos que se tornaram habituais, nas últimas semanas, entre a equipa médica do hospital pediátrico de referência na região sul do País. Reações espontâneas ao aumento de lesões musculoesqueléticas (e também às de menor gravidade) que chegam à urgência, diretamente ou encaminhadas por outras unidades de saúde até ao Algarve, na maioria dos casos com indicação para cirurgia. “Aos fins de semana, tem sido um inferno”, atesta o médico Delfin Tavares, responsável pela unidade de ortopedia infantil do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, ao qual pertence o Dona Esfetânia. “Quase todos os dias temos cirurgias”, complementa.

Desde que começou o desconfinamento, em meados de março, esta tem sido uma tendência crescente entre crianças e adolescentes. Já era de esperar que o ressurgimento da atividade física implicasse mais acidentes, lesões e fraturas, mas constata-se um aumento destes casos até em comparação com o período pré-pandemia. Como possível explicação, Delfin Tavares avança que, à natural falta de aptidão física de alguns (a propósito: “Não têm de ser todos atletas e, quando se é obrigado a fazer aquilo de que não se gosta, surgem acidentes”), juntam-se agora as consequências de uma prolongada escassez ou ausência de treino motor em quase todos os miúdos, devido às restrições impostas pela pandemia há mais de um ano.

“As crianças que passam muito tempo em casa, a ver televisão, ao computador e ao telemóvel começam a perder massa muscular, equilíbrio, aquilo a que chamamos ‘propriocetividade’”, sublinha o médico, referindo-se ao conceito que designa a perceção do corpo no espaço que o rodeia, fundamental para evitar certos acidentes. “Nos picos de crescimento, em três meses, pode crescer-se um centímetro. O cérebro precisa de se adaptar e, se não há movimento que promova essa adaptação, os acidentes acontecem”, explica.

As trotinetas elétricas e as hoverboards estão na origem de muitos acidentes e são duas das principais causas das idas às urgências pediátricas

Exemplos extremos para ilustrar como a falta de treino potencia lesões e fraturas graves são as trotinetas elétricas e as hoverboards, duas das principais causas das visitas às urgências pediátricas. “Já no passado criavam problemas, mas agora as crianças e adolescentes estiveram muitos meses sem praticar e, de repente, começaram a voltar à rua. Se calhar, antes, o acidente poderia ter sido evitado, porque praticavam todos os dias, mas agora estiveram muito tempo paradas e não escaparam a uma chatice”, observa o responsável clínico pela ortopedia infantil do Hospital Dona Estefânia.

Se as quedas de bicicleta, também comuns entre os mais novos, costumam resultar em fraturas da clavícula, as de trotineta elétrica e de hoverboard têm desfechos mais diversificados, por vezes com lesões ósseas bem complexas, ao nível da tíbia, do antebraço e do cotovelo. Não é à toa que, no México, estas trotinetas são conhecidas como “o patim do Diabo”. “A trotineta elétrica atinge grandes velocidades. Se não houver cuidado, cai-se, e cai-se bem”, avisa Delfin Tavares, que espera uma subida deste tipo de acidentes nos meses de verão.

Atrofia óssea e muscular
Ortopedista nos Hospitais CUF Descobertas e CUF Tejo, em Lisboa, Manuel Cassiano Neves confirma um “aumento do número de lesões atingindo o aparelho locomotor e, em particular, do número de fraturas”, associando-o ao processo de desconfinamento e ao “regresso das crianças e adolescentes às atividades escolares habituais”. Com muitos anos de experiência em ortopedia pediátrica, o médico estabelece esta relação causa-efeito, desde logo, porque “o confinamento teve forçosamente repercussão no desenvolvimento do aparelho musculoesquelético das crianças”.

Para Cassiano Neves, “o sedentarismo e a falta de exercício, não só das aulas de Educação Física, mas sobretudo da atividade decorrente da ida para a escola e desenvolvida nos recreios, poderão ter tido alguma importância no desenvolvimento de uma atrofia óssea e muscular”, sendo possivelmente agravada, no caso da atrofia óssea, por um “défice de vitamina D”, fruto da escassa exposição solar. Por outro lado, após meses de paragem forçada, “o regresso das práticas desportivas comuns” terá sido acompanhado por uma “motivação extra, levando as crianças a ultrapassar os seus limites”. Quando combinado com “uma condição física deficiente por falta de ‘treino’”, esse entusiasmo “pode ser o ponto de partida para um incremento do número de lesões traumáticas”, argumenta o ortopedista.

O desporto jovem esteve mais de um ano impedido de competir, as escolas estiveram fechadas durante meses, a mensagem “fique em casa” imperou desde o início da pandemia. “O que é que os miúdos faziam? Sofá, televisão, videojogos, almoçar e jantar à mesa, aulas no computador e cama para dormir. Isto era praticamente a vida deles”, resume a médica Anabela Marques, coordenadora da unidade de medicina física e reabilitação/fisiatria do Hospital Lusíadas Porto. “Há uma atrofia muscular visível e, depois, quando começam a correr, a virar e a fintar, sobretudo nas atividades desportivas, sem uma preparação física prévia, podem acontecer lesões e fraturas”, adverte.

Postura Depois de muitos meses em frente ao ecrã, a coluna ressentiu-se

Um corpo em desenvolvimento, ao contrário do que se possa pensar, é mais vulnerável a quebrar. “Nos miúdos em crescimento, o osso cresce muito mais depressa do que músculos e tendões, as articulações ficam rígidas e, quando é exercida uma força sobre essa zona do corpo, enquanto no adulto o ligamento a distende, na criança ela pode fraturar pela cartilagem de crescimento, nas extremidades dos ossos”, explica a especialista em medicina de reabilitação.

Mais do que fraturas, ainda assim, são as entorses na articulação tibiotársica (tornozelo) que dominam os tratamentos pediátricos de fisioterapia no Lusíadas Porto, no que respeita a lesões traumáticas. No entanto, é sabido que, no contexto desportivo, são mais comuns as chamadas lesões de sobrecarga. Anabela Marques dá exemplos de inflamações como tendinites, bursites ou apofisites, provocadas por um esforço excessivo e repetitivo de determinada zona do corpo, caso dos joelhos no futebol e no basquetebol, ou dos ombros no andebol e no ténis.

“Hoje em dia, uma criança ou um adolescente é incentivado à prática exaustiva do desporto. Tem de ser o melhor. Acompanhei uma menina de 12 anos que praticava ballet três vezes por semana e ténis outras três. Tinha uma tendinite, e os pais pressionavam para que ela não parasse os treinos”, descreve a médica, alertando ainda para a norma da Organização Mundial da Saúde que desaconselha a especialização precoce numa modalidade desportiva, precisamente para evitar a sobrecarga desde tenra idade. “Sei que é desde pequeno que se prepara um bom jogador de futebol, mas quando se direciona muito cedo para uma determinada prática desportiva, vai haver lesão musculoesquelética, mais cedo ou mais tarde.”

Coluna sob pressão
Desde que a Direção-Geral da Saúde “desconfinou” o desporto de formação, no início de maio, o fisioterapeuta Tiago Costa diz não ter sentido “um aumento exponencial de lesões nos jovens atletas” – até porque as épocas desportivas costumam coincidir com os anos letivos e, por isso, era suposto estarem agora a terminar e nem sequer arrancaram –, mas já começaram a aparecer-lhe as tais lesões relacionadas com o esforço, “resultantes da falta de preparação dos atletas para o início ou reinício das suas atividades desportivas”.

O coordenador do serviço de fisioterapia na Clínica Lambert, em Lisboa, especializada em ortopedia, traumatologia e medicina desportiva, e também fisioterapeuta do departamento médico da Federação Portuguesa de Basquetebol está à espera de um impacto maior no início da próxima temporada, mas nada que não tenha remédio. “Uma criança em pleno desenvolvimento necessita de vários tipos de estímulos. A atividade física, seja a natação, o brincar no parque ou no recreio da escola, faz parte da formação de faculdades motoras e cognitivas das nossas crianças. A falta desses estímulos durante um período longo de tempo poderá ter algum tipo de consequências mais no imediato, mas parece-me um processo perfeitamente reversível no futuro”, sustenta, acrescentando que a solução para superar o tempo perdido é retomar a prática dessas atividades, com o cuidado de o fazer de forma progressiva, “tanto ao nível de volume de treino como de intensidade no treino, de forma a diminuir ao máximo os níveis de risco de lesão”.

Em muitos casos, tem sido necessário “desenferrujar” os miúdos primeiro. A longa exposição à cadeira e ao sofá esteve na origem de diagnósticos de lombalgias e dorsalgias, tratadas no Hospital Lusíadas Porto com massagem e aplicação de calor quando há dor associada, seguida de exercícios de correção postural, com fortalecimento muscular e alongamentos. “Vêm todos tortinhos e corcundas, porque estiveram muito tempo presos em casa”, nota a médica Anabela Marques.

Na Expo Clínica, em Lisboa, tem sido essa a principal consequência física da pandemia detetada em crianças e adolescentes. “Passaram muito tempo sentados e aparecem com alterações ao nível da coluna”, avança a fisioterapeuta Dina Lopes, com mais de 15 anos de experiência a tratar as faixas etárias mais baixas. “Não se queixam de dores, mas a médio-longo prazo vão tê-las se nada fizerem, porque estão a deformar a coluna”, acrescenta. A maioria apresenta “a cabeça projetada para a frente, o que cria tensão ao nível cervical”, e é submetida ao método RPG (reeducação postural global), que mistura sessões de fisioterapia com exercícios para executarem em casa. Ficam também a saber que, quando sentados, devem “ajustar o ecrã do computador ou do telemóvel ao nível dos olhos”, e quer a bacia, quer a cervical devem estar “encostadas à cadeira ou sofá”. Além disso, nada de pernas cruzadas nem esticadas uma por cima da outra.

Dói-dóis enchem urgências

Durante a pandemia, as urgências de ortopedia do Hospital Dona Estefânia chegaram a ter “nenhuma, uma ou duas pessoas por dia”, sempre por motivos que se justificavam. Findo o confinamento, o cenário alterou-se por completo, com uma procura de cuidados médicos “por tudo e por nada”, lamenta Delfin Tavares, o médico que está à frente da unidade de ortopedia infantil do hospital pediátrico lisboeta.

“Em dez pessoas que chegam agora à urgência, só uma vem com fratura. O resto tem aquilo a que chamamos ‘dói-dóis’”, afirma o responsável. De crianças que se queixam de dores musculares após o exercício físico a outras que se magoaram num dia e aparecem no seguinte, já sem dores, “só para ver se está tudo bem”, Delfin Tavares diz que o serviço “está a ser sobrecarregado por doentes que poderiam ser tratados pelo médico de família”. É preciso que alguns pais compreendam, acrescenta, que “todos esfolam os joelhos alguma vez na vida” e não confundam esse tipo de mazela menor com uma infeção ou uma gastroenterite.

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