Retratos, motivações e façanhas: No horripilante mundo dos ‘serial killers’

Nesta segunda-feira, 14 de junho, foi noticiado que investigadores que têm estado a cavar sob a casa de um suspeito assassino em série, nos arredores da Cidade do México, encontraram, até àquele dia, 3 787 fragmentos de ossos, que devem pertencer a 17 vítimas diferentes. As buscas vão continuar e teme-se o pior – na casa foram ainda recolhidos numerosos pertences de pessoas que estão desaparecidas há anos. As autoridades mexicanas só identificam o suspeito como “Andrés”, que se encontra preso e acusado de ter assassinado, a 14 de maio passado, uma mulher de 34 anos, cujo corpo esquartejou com um serrote e umas facas.

Uma das surpresas do caso é a idade atual de “Andrés”: 72 anos. Também é surpreendente, à primeira vista, que na lista dos seis serial killers mais mortíferos do último meio século, que retratamos nestas páginas, estejam três colombianos, que raptaram, violaram e mataram centenas de crianças e jovens de rua, fugidos da pobreza familiar. Mas, neste escabroso mundo, tudo tem uma explicação, sempre trágica. Ainda hoje, na Colômbia, são assassinados, em média, quase dois menores por dia.

No longínquo Paquistão, o cenário é idêntico – e permitiu a Javed Iqbal, bem-sucedido empresário, assassinar e diluir em ácido os corpos de 100 crianças e jovens pobres, por vingança contra a polícia de Lahore, que o teria maltratado. Há igualmente lugar para o insólito: o pai do brasileiro Pedrinho Matador teve o azar de ir parar à cadeia onde estava o filho, após matar-lhe a mãe, que até esquartejou. A paga seria ainda pior – o filho assassinou-o com 22 facadas, esventrou-o e tirou-lhe o coração, para trincar um pedaço do órgão e comê-lo. Horrores das mentes psicopatas, que sempre espantaram o mundo.

Luis Alfredo Garavito Cubillos

“A Besta” à solta

Ao longo de cinco anos, violou e matou 172 meninos de rua

Quando, num dia de novembro de 1999, a polícia colombiana encontrou os restos mortais de 27 crianças empilhados numa ravina, em Pereira, capital da província de Risaralda, as primeiras suspeitas para a mortandade recaíram em praticantes desconhecidos de rituais satânicos. Mas, depois, as atenções dos investigadores policiais viraram-se para um homem de 42 anos, que desde abril estava em prisão preventiva, acusado de tentativa de abuso sexual de um menor.

A Colômbia estava prestes a entrar em choque. Apertado pelos investigadores, aquele homem, Luis Garavito, confessaria, com um sorriso patibular, ter violado e assassinado, ao longo de cinco anos, 140 rapazes, com idades entre 8 e 16 anos, em 54 cidades colombianas e do vizinho Equador. Em 2000, seria condenado a 40 anos de prisão (a pena máxima então em vigor na Colômbia) por muitos mais crimes: violação e assassínio de 172 menores. A maioria das suas vítimas eram crianças e adolescentes que viviam na rua, separados das famílias pela pobreza e pela violência política. Fazendo-se passar por padre, umas vezes, ou por deficiente físico ou visitante perdido, outras, Garavito atraía as suas vítimas com promessas de dinheiro ou a oferta de uma bebida. Conquistada a confiança dos menores, levava-os para locais ermos, onde os violava e matava com requintes de malvadez – estrangulava-os com fios de nylon, cortava-lhes a garganta e, em alguns casos, decapitava-os, antes de os enterrar.

O mais velho de sete filhos de uma família pobre, Garavito justificou as suas atrocidades alegando que era com frequência espancado pelo pai e violado por dois vizinhos. Os média colombianos, que o apelidaram de A Besta, perguntavam-se como pôde ele violar e assassinar tantas crianças de forma impune durante tanto tempo. As reportagens feitas à época retratavam uma polícia no mínimo indiferente face às queixas de gente pobre. As últimas notícias sobre Garavito, agora com 64 anos, davam conta de que sofre de leucemia e de que foi transferido de uma prisão para uma clínica.

Rui Abrunhosa Gonçalves, psicólogo forense

“São insensíveis e agem a frio, matando pessoas como se fossem baratas”

Os psicopatas formam-se na adolescência, explica o psicólogo e docente. “Têm alterações neurológicas no desenvolvimento do sistema nervoso central que comprometem zonas do lobo frontal”

Quais os critérios que definem um assassino em série?
É forçado estabelecer paralelismos entre o que se encontra na cena do crime e a forma de pensar de quem o praticou, mas quanto mais forem os crimes, maior a probabilidade de o homicida cometer erros e deixar pistas. A técnica do profiling baseia-se no princípio de Locard: o criminoso leva sempre consigo algo da cena do crime e deixa lá algo de si. Os critérios são estes: ter cometido pelo menos três homicídios, usando o mesmo método e tendo por base um padrão de vítimas, sem ter proximidade com elas. 

O que distingue um assassino em série?
O charme superficial e o self grandioso, a capacidade de mentir, manipular e usar os outros, descartando-os a seguir. Contrariamente ao assassino em massa, cuja ação resulta da desorganização mental ligada a perturbações psiquiátricas, como a psicose, a doença bipolar ou a esquizofrenia, o assassino em série aproxima-se do psicopata no calculismo, no planeamento meticuloso de um crime violento, sem sentir remorso, pena ou empatia, chegando a ter gozo em confundir a polícia.

A raiz da psicopatia está no cérebro?
Um a dois por cento da população sofre de psicopatia. Em Portugal, haverá dois ou três serial killers: o Cabo Costa, o Rei Ghob ou o Diogo Alves, que assassinava pessoas no Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, fazendo crer que se tinham suicidado. Sabemos que existe uma disfunção no lobo frontal, a parte do cérebro responsável pelos processos de tomada de decisão e de integração da emoção e da razão. Isso explica porque são insensíveis e agem a frio, desligados das emoções, matando pessoas como se fossem baratas.

O que tem mais influência: os fatores genéticos ou o ambiente onde se cresce?
Não há respostas simplistas. A psicopatia não surge aos 30 ou 40 anos, estrutura-se na adolescência ou antes, e tem uma dimensão biológica, ligada a alterações neurológicas no desenvolvimento do sistema nervoso central que comprometem zonas do lobo frontal. Por exemplo, crianças que nascem com síndrome fetal alcoólica ou inalam substâncias tóxicas na infância têm probabilidade de vir a ter essas alterações. Se houve traumas e rejeição por parte dos pais, que puniram de forma excessiva certos comportamentos sexuais (ou não) na adolescência, isso também pode condicionar o desenvolvimento, levando a sentimentos de ódio e vingança, geralmente face à mãe, que podem ser transferidos para as mulheres em geral.

São casos perdidos?
Se forem jovens, até aos 20 anos, é possível intervir em características muito específicas como a agressividade ou a impulsividade. Contudo, é difícil, uma vez que se trata da mais grave das perturbações da personalidade. Clara Soares

Pedrinho matador

Criminoso “pop star”

Condenado por 71 mortes, tem um canal no YouTube e na rua pedem-lhe selfies

Com apenas 14 anos, Pedro Rodrigues Filho agarrou na espingarda do pai e matou a sangue-frio o vice-prefeito de Alfenas, município brasileiro no Estado de Minas Gerais. Ouvira o pai queixar-se de que tinha sido aquele autarca o responsável pelo seu despedimento de uma escola onde trabalhava como contínuo, sob a acusação de furtar comida da cantina. Um mês depois, o rapaz voltou a agarrar na espingarda e matou o contínuo a quem o pai atribuía o roubo da comida.

Estamos em 1968. O rapaz fugiu de Alfenas e embrenhou-se nas favelas de São Paulo. Tornou-se traficante de drogas, com as inerentes consequências. Maria Aparecida Olympia, a sua noiva, seria brutalmente assassinada por um gangue rival. A vingança chegou quando o líder daquele gangue organizou um casamento: Pedrinho Matador, já assim conhecido, e membros do seu grupo assassinaram ali sete pessoas e feriram outras 16.

O que apreciava mesmo era aniquilar outros criminosos. “Maravilhosa e gratificante”, dizia sobre a sensação que o acometia naqueles momentos. Seria detido a 24 de maio de 1973 e a caminho da cadeia foi transportado num carro celular onde também ia um indivíduo suspeito de violação – que apareceu morto pouco depois… Quem igualmente teve o azar de ir parar à mesma cadeia foi o seu pai, que tinha assassinado e esquartejado a mãe de Pedrinho. A paga seria igual: o filho matou-o com 22 facadas, esventrou-o e tirou-lhe o coração, para trincar um pedaço do órgão e comê-lo.

Ganhou todas as guerras em que se envolveu na prisão. No total, assassinou 47 reclusos. Pedrinho Matador costuma dizer que a sua contagem de corpos ronda a centena. Mas acabaria condenado a mais de 120 anos de cadeia por 71 assassínios confirmados. Hoje, aos 67 anos, beneficia de liberdade condicional e tem um canal no YouTube, onde comenta crimes e arenga sobre moral. Quando sai à rua e é reconhecido, pedem-lhe que aceite tirar uma selfie. O “serial killer vingador”, que passou 42 anos na prisão, tornou-se uma espécie de pop star.

Pedro Alonso López

Onde está “O Monstro dos Andes”?

Confessou ter raptado, violado e estrangulado, “pelo menos”, 300 meninas no Peru, na Colômbia e no Equador

Em 1979, começaram a desaparecer meninas de famílias pobres na cidade equatoriana de Ambato. Os casos sucediam-se e a polícia nada investigava, alegando que as meninas tinham fugido de casa. Até que, em fevereiro de 1980, desapareceu Ivanova Jácome, 9 anos, filha de um abastado dono de uma rede de padarias. Os média equatorianos investigaram e concluíram, sem margem para dúvidas, que havia um serial killer à solta na região.

No mês seguinte, março, no mercado de Ambato, Maria Poveda, 10 anos, foi queixar-se à mãe, Carlina, de que um homem “com uma cara feia” estava a chamá-la. Carlina reuniu um grupo de feirantes para perseguir o homem, apanhá-lo e entregá-lo à polícia. O indivíduo chamava-se Pedro Alonso López, tinha 31 anos, era colombiano, e iria deixar em estado de choque o detetive Pastor González, que o interrogou e, sobretudo, o ouviu. Como se estivesse a falar do que tinha comido ao jantar no dia anterior, o homem disse que, nos últimos sete anos, viajara pelo Peru, pela Colômbia e pelo Equador, e que, nesse período e nos três países, raptou, violou e estrangulou, “pelo menos”, 300 meninas, que aliciava com dinheiro, para que lhe mostrassem as cidades por onde passava.

Dizia que as salvara, porque eram pobres e não tinham futuro – mimetizando a sua própria história. O pai morreu antes do seu nascimento, em Santa Isabel, Colômbia, e a mãe, para sustentar a família, já com sete filhos, tornou-se prostituta. No casebre da família, uma simples cortina separava a cama onde a mãe recebia os clientes do lado em que estavam Pedro e os irmãos. Aos 8 anos, o rapaz fugiu de casa e transformou-se num menino de rua em Bogotá, onde seria abusado sexualmente por dois homens. Com 21 anos, foi preso por ter furtado um carro e logo no segundo dia de detenção seria violado por dois reclusos. Dias depois, matá-los-ia à facada, sendo absolvido pela alegação de legítima defesa. Foi aí que decidiu que nunca mais seria uma vítima.

López, a quem os média chamaram “O Monstro dos Andes”, seria condenado a 16 anos de prisão, a pena máxima à época admitida pela lei equatoriana. Para sua segurança, esteve 14 anos em “solitária”, ao fim dos quais foi libertado, por “bom comportamento” e levado até à fronteira com a Colômbia, onde os juízes decretaram o seu internamento num hospital psiquiátrico de Bogotá e, quatro anos depois, uma junta médica o declarou “curado”. Foi libertado sob duas condições: continuar a observação psiquiátrica e apresentar-se uma vez por mês perante um juiz. Como seria de esperar, “O Monstro dos Andes” desapareceu – até hoje. Se ainda for vivo, tem 72 anos.

Javed Iqbal

Sucateiro psicopata

“Matei 100 crianças, todos meninos, e coloquei os corpos em tonéis cheios de ácido”, anunciou o paquistanês

Herdeiro de um bem-sucedido negócio de sucata, em Lahore, no Paquistão, Javed Iqbal tinha sido apanhado, em 1985 e em 1990, a sodomizar menores. Mas, através de subornos, conseguiu que os processos judiciais nem sequer começassem. Anos depois, porém, terá sido maltratado pela polícia, e resolveu vingar-se.

Em dezembro de 1999, Iqbal escreveu uma carta, que enviou à polícia e a um jornal. “Matei 100 crianças, todos meninos, e coloquei os corpos em tonéis cheios de ácido”, anunciava friamente. A carta fornecia uma lista dos mortos, com nomes e fotografias, estas arrepiantes, porque mostravam as vítimas ainda vivas e sorridentes, antes de serem estranguladas com correntes. Iqbal e os seus cúmplices aliciavam meninos e rapazes de rua, prometendo-lhes comida, bebidas e música num apartamento que o sucateiro psicopata havia alugado para o efeito. Exemplo mórbido do pormenor a que ia a carta: “A vítima 87 é Mohammad Imran, 15 anos, filho de Talib Hussain, distrito de Bahawalnagar, casa localizada próximo do hospital de animais. O pai faz camas de madeira. Cor esbranquiçada. Saúde muito boa. Rosto lindo. Bochechas cheias. Morto a 11 de novembro de 1999. 7h.”

Durante dias a fio, os agentes revistaram o apartamento indicado na carta de Iqbal e aí recolheram montes de roupas andrajosas, fileiras de sapatos velhos e fotos que estavam em exibição nas paredes. Era a única maneira de reconhecer as vítimas, com idades entre 6 e 16 anos, e assassinadas ao longo de seis meses. Os restos mortais, diluídos em ácido, tinham desaparecido nos esgotos da cidade.

Iqbal acabou por se entregar e o tribunal que depois o julgou condenou-o à morte, mas a sentença originou controvérsia: ordenava que fosse executado com a mesma corrente que usou para estrangular as suas vítimas, e que o seu corpo, cortado em 100 pedaços, acabasse dissolvido em ácido. Enquanto o debate sobre se tal sentença cabia na lei paquistanesa se arrastava, Iqbal, 45 anos, e um cúmplice apareceram enforcados com lençóis nas suas celas, a 9 de outubro de 2001.

Mikhail Popkov

Recorde misógino

Ex-polícia, assassinou 78 mulheres porque queria “limpar as ruas da imoralidade”

Polícia até 1998, em Angarsk, cidade da região de Irkutsk, na Sibéria, teve a frieza de participar em investigações de assassínios que ele próprio cometera. Anos mais tarde, saber-se-ia que Mikhail Popkov batera um trágico recorde: tornou-se o serial killer mais mortífero da história recente da Rússia, superando Andrei Chikatilo, executado em 1994 pelas mortes de 53 crianças e adolescentes, e Alexander Pichushkin, condenado em 2007 a prisão perpétua pelos assassínios de 48 pessoas.

Beneficiando, como Pichushkin, da moratória da pena de morte em vigor na Rússia desde 1996, Popkov seria condenado por duas vezes, em 2015 e em 2018, a prisão perpétua, pelos assassínios de 78 mulheres, em Angarsk, com idades entre 18 e 50 anos, crimes que cometeu ao longo de 15 anos. Aos investigadores e ao tribunal, justificou as suas atrocidades com a “missão” da qual se incumbiu de “limpar” a cidade de mulheres que, segundo ele, levavam uma “vida imoral”. Atacava sempre à noite (por isso ficou conhecido como O Lobisomem), e bastava uma mulher aceitar beber um copo com Popkov para que fosse condenada à morte. Assassinava-as com a ajuda de um machado e um martelo, e abandonava os corpos em florestas, em cemitérios ou à beira de estradas.

Para chegar até ele (seria detido em 2012), os investigadores tiveram de chamar milhares de habitantes da região para realizarem testes de ADN (fora encontrado esperma numa das vítimas), porque possuíam carros que combinavam com os traços dos pneus deixados nos locais dos crimes. E, depois de tudo isto, Popkov, hoje com 57 anos, ousou mandatar o seu advogado para que, nos recursos que interpôs, exigisse a manutenção do pagamento da pensão de reforma policial. Em vão, claro.

Daniel Barbosa

Assassino intelectual

Quando foi apanhado, levava um saco com roupas ensanguentadas e um livro – Crime e Castigo, de Dostoievski

Nasceu numa família de classe média confortável, em Anolaima, na Colômbia. Mas a mãe morreu quando ele tinha 2 anos e o pai, um empresário bem-sucedido, voltou a casar-se num ápice, desta vez com uma adolescente. Enquanto o progenitor tratava o filho com indiferença e desdém, a madrasta punia-o severamente pela mais pequena infração – a ponto de o forçar a vestir roupas femininas e chamar colegas de escola para o verem naqueles preparos. Daniel Barbosa diria mais tarde que, por isso, passou a odiar as mulheres. Mas, adolescente, ainda seria um bom aluno na escola privada católica onde o pai o matriculou como interno. Até que, em 1948, o negócio do pai desmoronou-se.

Entregue a si próprio, há notícia de que em 1958, aos 28 anos, assaltou uma loja, em Bogotá, sendo detido horas depois. Seria condenado por roubo, mas a prisão onde estava era de segurança mínima e fugiu com facilidade. Juntou-se a seguir a uma mulher, Esperanza, que o escandalizou por não ser virgem. Convenceria Esperanza de que só poderia redimir-se se arranjasse raparigas virgens para ele as possuir. Talvez com receio de o perder, a mulher concordou. Ela passou a aliciar jovens raparigas na rua, com promessas falsas. Levava-as para um apartamento e drogava-as com soporíferos, para que Daniel as violasse. O esquema durou dois anos, até que a quinta vítima abusada os denunciou à polícia. Ele foi condenado a oito anos de prisão e, nessa altura, decidiu que as próximas vítimas não sairiam vivas das violações.

Em maio de 1974, perseguiu uma menina de 9 anos que tinha saído da escola e, num local ermo, atacou-a, violou-a e estrangulou-a. Deixou o corpo à superfície, para que animais o comessem, mas, quando voltava ao local do crime para ver como estavam os restos mortais da menina, um polícia achou-o com comportamento suspeito e seguiu-o. Deteve-o junto ao corpo da vítima. Condenado a 30 anos de prisão, seria levado para a cadeia da ilha de Gorgona, tida como “a Alcatraz da Colômbia”. Ele, porém, conseguiu fugir ao fim de dez anos.

As autoridades não se preocuparam: disseram que tivesse Daniel encontrado um barco ou feito uma jangada, não resistiria àquele mar do Pacífico e por certo já havia sido comido por tubarões. Não lhes passava pela cabeça que o assassino estudara a fundo as correntes marítimas. E que conseguira chegar ao Equador, onde começou de imediato a raptar, violar e a assassinar meninas e jovens raparigas. Entre 1984 e 1986, fez 71 vítimas. E com requintes de extremo sadismo: decapitou e atirou para longe a cabeça de uma jovem que lhe resistiu enquanto a violava. Outra seria esventrada, com os pulmões, rins e coração extraídos. Até que, em fevereiro de 1986, quando saía de uma zona de mato, em Quito, deparou com um grupo de polícias, que consideraram o seu comportamento suspeito. A revista que lhe fizeram foi curta. Daniel tinha consigo um saco, onde estavam roupas ensanguentadas da sua última vítima e um livro – Crime e Castigo, de Dostoievski.

Um jornalista e escritor equatoriano, Febres-Cordero, que depois o entrevistou na cadeia, ficaria espantado com a erudição do assassino: “Citou Hesse, Vargas Llosa, García Márquez, Nietzsche, Stendhal e Freud”, revelou. Em 1989, seria condenado a 16 anos de prisão, a pena máxima então em vigor no Equador. E, a 13 de novembro de 1994, o seu companheiro de cela obrigou-o a ajoelhar-se e disse: “É a hora da vingança.” Esfaqueou-o oito vezes e matou-o, aos 64 anos. O recluso era sobrinho de uma das vítimas de Daniel. Também lhe cortou uma orelha, que guardou como troféu.

Assassinos “made in Portugal”

As atrocidades do ex-cabo da GNR António Costa e de Francisco Leitão, dito Rei Ghob, estão à altura dos piores serial killers

Para ter conseguido uma saída precária de três dias da cadeia de Évora, como aconteceu em 31 de maio passado, António Luís Costa só pode ser um recluso exemplar. Em Cabecinha de Rei (Santa Comba Dão), e como cabo da GNR, também era visto como cidadão exemplar. Casado, religioso, pai de dois filhos adultos, o cabo Costa seria o último dos suspeitos, quando três jovens raparigas da freguesia apareceram assassinadas, entre maio de 2005 e o mesmo mês de 2006. Mas, atrás da fachada de pai de família insuspeito, escondia-se um predador capaz de atacar e de matar raparigas que conhecia desde pequenas. A primeira vítima do cabo foi Isabel Cristina Isidoro, 17 anos. António Costa ia a passar de carro e ofereceu-lhe boleia. No caminho, perguntou à rapariga quando é que lhe pagava os 25 euros que ele lhe tinha emprestado. Na conversa, foi sugerido que a dívida podia ser saldada com sexo. Os dois terão tido mesmo relações sexuais, mas, no final, a jovem ameaçou fazer queixa à GNR. Foi o suficiente para Costa a estrangular e a atirar ao mar na Figueira da Foz – ainda viva, como mais tarde a autópsia revelou. O mesmo padrão sucederá com as duas vítimas seguintes. Mariana Lourenço, 18 anos, e depois Joana Oliveira, 17 anos, serão convidadas pelo confiável cabo Costa a irem ver “uma coisa” a um barracão. Aí, os avanços sexuais do homem foram repelidos pelas raparigas, que acabaram estranguladas e atiradas à barragem do Paiva. Seria detido pela PJ a 24 de junho de 2006, e confessaria os crimes aos investigadores. Foi condenado à pena máxima – 25 anos de cadeia.

Pior, se tal coisa se pode dizer, fez Francisco Leitão, dito Rei Ghob. Nunca revelou à PJ onde enterrou Joana Correia, 16 anos, Ivo Delgado, 22 anos, e Tânia Ramos, 27 anos, homicídios pelos quais foi condenado, em março de 2012, à pena máxima. E os corpos continuam por encontrar, o que impede as famílias de fazerem o luto completo. Na sua ridícula casa-castelo em Carqueja (Lourinhã), Leitão hipnotizava menores com a possibilidade da existência de entidades sobrenaturais ameaçadoras, que só podiam ser apaziguadas com “injeções de energia”, via sexo. Manipulados e com frequência drogados, os menores envolviam-se nos rituais impostos por Ghob, fazendo sexo com ele e entre si, com várias câmaras de vídeo a captarem tudo. Quanto aos homicídios, resultaram de uma loucura passional. Obcecado por Ivo, Leitão terá matado Tânia, a 5 de junho de 2008, por ciúmes. Depois, assassinou Ivo, a 26 de junho de 2008, por este não se conformar com a morte de Tânia. E por fim matou Joana, a 3 de março de 2010, por ser a namorada de Luís, o qual se tornara a sua nova paixão, em lugar de Ivo. Leitão, hoje com 52 anos, teria uma segunda condenação, em setembro de 2017, a 17 anos de prisão, por oito crimes de violação e quatro de pornografia de menores.

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