Filomena Cautela de volta e à procura das verdades, agora em horário nobre

Foto: Marcos Borga Que Filomena é esta? “O que sou publicamente é absolutamente o oposto do que sou pessoalmente”, diz a apresentadora Filomena Cautela

Desde muito nova que Filomena Cautela se interessa pelo que está a acontecer à sua volta. Na adolescência desejava falar de assuntos que a incomodavam e que não via serem discutidos para a sua geração. Hoje, com 36 anos, foge a sete pés de ser rotulada como ativista, influencer ou opinion maker. “Como pessoa tenho muito poucas coisas a dizer, já como cidadã tenho algumas e, como apresentadora de televisão, tenho a obrigação de rodear-me de pessoas que sabem mais do que eu para que aquilo que digo não seja uma opinião”, explica. E foi o que fez no último ano, depois de ter ganho “a serenidade e o tédio” necessários para parar de fazer apenas entretenimento – após quatro anos seguidos à frente do 5 Para a Meia-Noite – e avançar para um projeto próprio de infotainment, em que junta humor e informação.

Programa Cautelar, estreou-se no sábado, 5 de junho, à noite, na RTP1 e conta com uma equipa de jornalistas e guionistas, composta por Ana Ribeiro, Arlindo Costa, Maria João Cruz, Mariana Garcia, Marisa Feio, Pedro Durão, Susana Romana, Tiago Carrasco e Tiago Palma, cuja missão é descobrir a verdade sobre temas tão diversos como a desinformação online, “a maior epidemia do século XXI”, a guerra das audiências televisivas e “como isso interfere nas nossas vidas” ou o racismo, “dando voz num sábado à noite a quem nunca se fez ouvir”. “Na época em que vivemos não há profissão de maior importância do que o jornalismo; os jornalistas são os últimos arautos da verdade e da liberdade”, diz Filomena. “Não quero influenciar nada nem ninguém, quero que as pessoas se sintam interessadas e queiram descobrir mais sobre o que acabaram de ouvir”, acrescenta.

Mesmo não sendo jornalista, a atriz de formação promete que quer ser imparcial. “Neste programa fui muitíssimas vezes confrontada com factos que iam totalmente contra tudo o que acreditava e que achava ser a verdade”, conta. “Na desinformação online, por exemplo, aprendi o caminho que uma suposta notícia faz até chegar a nós e é muito surpreendente; o escrutínio a que uma informação tem de se sujeitar para chegar a uma publicação credível, em detrimento de milhares de canais online, fez-me valorizar muito publicações que conseguiram sobreviver à transição digital e a esta forma de receber informações no telemóvel. Saber o que é verdade ou o que é mentira está na génese de todas as nossas opiniões.”

Aguçar a curiosidade

Filomena Cautela tem plena consciência de que já vivemos períodos muito mais negros na História, mas considera que estamos num particularmente difícil, com “o mundo a implodir”. “Estamos numa fase em que se pode decidir o que vai ser o mundo nos próximos séculos. Vivemos, sem dúvida, o momento da História com maior acessibilidade à informação e, no entanto, estamos cada vez mais fraturados, há cada vez mais ódio, mais divisão da sociedade… Se temos tanta informação disponível, porque não conseguimos dialogar e chegar a consensos mais facilmente?”, questiona-se.

Por acreditar que a televisão ainda é o meio que chega a mais pessoas, Filomena Cautela quer que toda a gente se sinta incluída no seu novo programa. Com a atualidade a dar tantas opções de escolha, foi difícil à equipa escolher os temas a abordar, ora com humor, ora com convidados especialistas nos assuntos. “Se levantarmos tapetes e questões para que as próprias pessoas possam formar as suas opiniões e tenham vontade de saber mais sobre os temas que ali estamos a tratar, está ganho. Queremos aguçar a curiosidade e tentar fazer pontes entre raciocínios, algo que não seja só teclar sobre a atualidade. Na televisão há programas que chegam profundamente a assuntos muito interessantes, mas muitas vezes a linguagem que é utilizada, ou o próprio canal, ou o horário, ou o protagonista…, pode excluir uma série de pessoas”, elenca. Para já, a primeira temporada de Programa Cautelar terá seis episódios temáticos.

O medo da precariedade

Há um ano sem pisar os palcos, a atriz que ainda cursou Direito enquanto fazia o curso de Teatro da Apoiarte, na Casa do Artista, está convicta de que “a melhor forma de tocar as pessoas e de pô-las a pensar é através da arte e da cultura”. Espectadora interessada nos vários géneros de representação, atualmente interessa-lhe, sobretudo, “teatro e arte que façam refletir sobre o que se passa. Uma forma artística mais urgente”.

Admiradora do teatro amador e experimental, depois de ter começado muito pequena a assistir a espetáculos para crianças e a musicais acompanhada pelo pai, Filomena lembra-se do que sentia nas primeiras vezes que se sentou na plateia. “Ficava sempre a pensar que queria dizer aquelas palavras, queria ler sobre aquele autor e ia para casa procurar os textos. Sem internet, procurava em livros e decorava textos.”

Apesar de ter gostado de muitas das disciplinas do curso de Direito, acredita que teria dado uma péssima advogada. O apelo da representação e a oportunidade de fazer televisão – estreou-se há 18 anos na primeira temporada de Morangos Com Açúcar – falaram mais alto e foi ficando no pequeno ecrã. Mas não esconde que também foi à procura de uma segurança financeira. “Tinha muito medo da precariedade do trabalho de ator; fui uma absoluta cobarde nesse sentido”, admite. “Vivia muito mal com o não saber se ia ter trabalho no mês a seguir, isso faz muito mal à cabeça. Há muitas pessoas do meio artístico que vivem uma precariedade vitalícia e isso é assustador. Também sei que há muitos atores que não são cobardes e não cedem um milímetro na sua arte e no seu ofício, é assim que se criam génios”, sublinha.

“Saber o que é verdade ou o que é mentira está na génese de todas as nossas opiniões”, diz Filomena Cautela. No seu novo programa, um dos objetivos é combater a desinformação

Ao longo dos anos, a apresentadora desenvolveu uma espécie de persona televisiva: faladora, histriónica, crítica e muito expressiva, bastante diferente da Filomena na intimidade. “A minha formação como atriz tem tudo a ver com esse lado, com essa persona. O que sou publicamente é absolutamente o oposto do que sou pessoalmente. Mas, para mim, é terapêutico, é uma personagem que criei, que faz sentido naquele registo e assumo isso. Se faz bem à cabeça? Provavelmente, não. Mas encaro mesmo como algo oficial, de trabalho. Construí uma personagem, que é aquela em que me sinto mais confortável durante mais tempo. Depois, desligo e vou brincar com o meu cão, plantar couves…”

Questionada sobre a forma como as políticas culturais dos últimos 30 anos no nosso país interferiram e mudaram a profissão de ator, Filomena Cautela é perentória. “O que acontece com o teatro é o que acontece com qualquer outra arte. Se não temos uma política educativa cultural pensada para um futuro cidadão, é muito difícil depois, quando já são adultos, tentar promover estímulos, a vontade de ir ao teatro, de ler, de ver filmes diferentes. Os subsídios existem exatamente para sustentarem uma forma de criar cultura e arte que, por termos tido uma política cultural tão pobre durante tantos anos, não é sustentável. Os apoios a uma cultura que pode não ter o consumo de massas é muito importante para que um dia também essa cultura seja de massas.”

Quando a pandemia terminar, Filomena prevê que as salas de espetáculos se voltarão a encher. “A cultura é sedutora e o que falta é as pessoas terem contacto com ela”, acredita. “Se foi preciso esta pandemia para esse contacto, acredito piamente que as pessoas não vão voltar atrás. O amor pelos livros, pelo teatro é contagiante.”

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