Alfredo da Silva: A vida, as polémicas e o império do patrão da CUF

Até ao último dia de vida, Alfredo da Silva andou sempre a matutar em novos negócios. Incansável, o homem que, ao longo de mais de meio, século construiu em Portugal o primeiro grande conglomerado industrial, desenvolveu nas duas margens do Tejo negócios tão diversos como sabões, velas, adubos e outros químicos, têxteis, construção naval e transportes marítimos, tabacos, banca e seguros. Perto dos 70 anos, acalentou um sonho novo, o de produzir aço. A morte viria a surpreendê-lo pouco depois, subtraindo-lhe o tempo necessário para instalar um forno elétrico no complexo da CUF no Barreiro. O País teria de esperar mais de 20 anos pela criação da Siderurgia Nacional (SN), de António Champalimaud, no Seixal.

Num registo áudio até agora desconhecido (ver caixa sobre as Comemorações), Alfredo da Silva fala com entusiasmo do novo projeto, prometendo que, “em breve, a produção de aço será uma realidade em Portugal”. Os planos para a produção de 20 mil toneladas anuais de aço no Barreiro foram anunciados pelo empresário durante o lançamento à água do navio África Ocidental, provavelmente no ano de 1939. Na presença do Presidente Óscar Carmona, e de meia dúzia de ministros do governo de Salazar – este declinou sempre os convites para assistir ao batismo dos navios da Sociedade Geral, preferindo fazer-se representar –, o patrão da CUF comprometeu-se a fazer “tudo o que é necessário” para dotar Portugal de uma indústria “de aço de alta qualidade”. Porque, como afirmou, “um País não pode desenvolver-se sem aço”.

Lançamento à água O Presidente Óscar Carmona, a sua mulher, Carmo, e o ministro Duarte Pacheco, assistem à primeira viagem do navio África Ocidental. Perto de Alfredo da Silva (ao centro), está o jornalista Fernando Pessa, a segurar o microfone, e o genro Manuel de Mello Foto: Fundação Amélia de Melo

Com o novo projeto industrial, Alfredo da Silva propunha-se dar continuidade à missão a que dedicara praticamente toda a vida: “O que o País não tem, a CUF cria.” Era isso que fazia desde que, em 1907, lançou as bases do que viria a ser o maior complexo industrial nacional – e um dos maiores da Europa – até à Revolução de Abril de 1974. A CUF cresceu em tempos particularmente difíceis, quando a jovem I República Portuguesa tentava ainda afirmar-se no meio da tempestade desencadeada pela Revolução Russa. Assumidamente monárquico, conservador e autoritário, o industrial sofreu, nesses anos, três atentados contra a sua vida. Em 1921, foi obrigado a partir de novo para o exílio, passando a gerir os negócios à distância. Mas foi durante o regime republicano, que não lhe despertava simpatia, que avançou para o Barreiro e transformou a CUF no gigante que viria a ser. É nesse período que o pequeno acionista de uma sociedade de tamanho médio se faz um grande patrão da indústria portuguesa. Como se contará a seguir.

Filho de família

A 30 de junho de 1871, precisamente há 150 anos, nascia o primeiro dos quatro filhos de Caetano Isidoro da Silva e de Emília Augusta Laymé Ferreira, no terceiro andar do número 185 da Rua Bela da Rainha, atual Rua da Prata, no coração da Baixa lisboeta. Era “uma criança robusta, de cabelos ralos e soltos, numa cabeça larga e malfeita”, a quem não faltavam “as boas roupas, a boa comida, os bons colégios e professores”, na descrição de António Dias Miguel, autor de uma biografia que retrata a infância e juventude de Alfredo da Silva. A obra, consultada para um artigo publicado em 2010 na revista VISÃO História, foi encomendada pela família Mello, mas nunca viria a ser publicada.

Na infância O pequeno Alfredo, que não gostava de ser fotografado, faz pose para um raro retrato desse período

Caetano, feito pai aos 40 anos, numa idade em que à época era normal ter netos, morreria subitamente, de doença pulmonar, quando Alfredo ainda não completara 14 anos. Ao tornar-se herdeiro da casa comercial Silva & Irmão, é convidado pelo tio a assumir a sua posição nas lojas de comércio de móveis e colchões da família, mas acaba por recusar. Os seus planos para o futuro orientam-no noutra direção, à margem da comunidade comercial oitocentista, demasiado pequena para acolher a sua vontade de ação e agitação. Será a carteira de ações do pai, parte de uma herança “sólida e bem administrada”, avaliada em 400 contos, a despertar-lhe a cobiça. Alfredo chegará à maioridade na posse de uma pequena fortuna em imóveis, terras de cultivo e títulos, estimada em 35 contos de réis.

O antigo aluno do Liceu Francês (por influência da mãe, de ascendência gaulesa) dominava a língua de Molière, exprimia-se com fluência em inglês e arranhava um pouco de alemão. Ganhou cedo o gosto pelas viagens, incutido pelos parentes, pelo amigo e sócio Martin Weinstein, e ainda pelo conde Henry Burnay, o homem mais rico do seu tempo, de quem viria a ser parceiro de negócios na criação da CUF.

Aos 21 anos, pouco antes de concluir o curso comercial no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, com prémios e honras de bom aluno, é descrito como “um jovem bem-parecido, de grandes olhos e cabelo levemente ondulado”, tão dado “à galantaria e ao convívio feminino” como aos “grandes combates”. Mas também “tumultuoso nas suas cóleras” e impetuoso nas “iras cegas e incontidas”.

Anfitrião O industrial conduz o embaixador norte-americano, coronel Birch, pelas ruas do complexo químico-adubeiro, em 1918 Foto: Fundação Amélia de Melo

É por essa altura que começa a fazer-se notar nas sociedades onde a família detém interesses, como a Carris e o Banco Lusitano, proporcionando aos irmãos uma vida “independente e folgada”, tanto a Ricardo, que teve morte precoce, como a Alexandre e a Maria Emília, que nunca precisaram de trabalhar. Em finais de 1891, é já presença assídua “na roda capitalista” de Lisboa. “Dotado de temível poder de argumentação”, não hesita em impor os seus pontos de vista. “Era uma força da natureza, um carro de assalto”, garante o historiador e biógrafo Miguel Figueira de Faria (autor de Alfredo da Silva e de Alfredo da Silva e Salazar, ed. Bertrand, 2004 e 2009).

No Lusitano “à bengalada”

Antes da entrada na Aliança Fabril, e da fusão desta com a União Fabril, Alfredo da Silva tentou sanear o quase falido Banco Lusitano, do qual era um pequeno acionista por herança paterna. À frente de um grupo de 800 acionistas, chegou a ser expulso das assembleias gerais por causa da sua incontinência verbal e do seu temperamento colérico. Quando lhe tiravam a palavra, puxava da bengala de castão de prata e ameaçava quem o tentava calar. Depois de afastar uma administração corrupta, foi nomeado diretor-geral e pôs em marcha um plano de saneamento, mas a reabilitação do banco tornara-se impossível. Por essa altura, a Carris, de que também era acionista, pagou-lhe uma viagem pela Europa para estudar a eletrificação das linhas. Os ensinamentos que colheu permitiram à empresa passar dos carros de tração animal para os elétricos “amarelos”, que ainda hoje circulam em Lisboa.

É quando termina o curso e tenta salvar o Lusitano que Alfredo da Silva compra ações da Aliança Fabril, uma fábrica de velas e sabões na Avenida 24 de Julho (artéria onde o grupo José de Mello tem atualmente a sua sede). Em 1893, marca presença na assembleia da empresa “com todo o ardor da sua força combativa, a criticar os atos da direção vigente”, conta António Dias Miguel. No ano seguinte, é indicado para a administração, aliado a outro acionista que viria a ser o seu mentor, o alemão Martin Weinstein.

Obra social Na ausência do Estado, a fábrica-família cuidava dos seus operários. O complexo do Barreiro tinha centro de saúde, creche, colónia de férias, escola primária e ainda ensinava as operárias a cuidarem dos seus bebés Foto: Fundação Amélia de Melo

Três anos depois, no rescaldo de um incêndio na fábrica da Aliança, começa a negociar com Henry Burnay a fusão com a concorrente e rival União Fabril, dona de uma fábrica em Alcântara (no local onde hoje está o Consulado de Angola). Nas suas viagens, Alfredo da Silva contactara com alguns dos grandes conglomerados industriais da Europa, acalentando o sonho de criar um em Portugal. Entre 1898 e 1901 é concluída a operação e nasce a Companhia União Fabril (CUF). Ao negócio das velas, sabões e óleos, junta-se o fabrico de adubos, impulsionado pelo protecionismo à cultura do trigo. O salário de administrador da CUF, a participação nos lucros e os honorários do cargo de direção na Carris permitiam-lhe uma boa situação financeira. Alugou o palácio Colares, no Alto de Santa Catarina, para onde se mudou com a mulher, Maria Cristina, com quem se casara aos 23 anos, numa cerimónia discreta. O casal teve uma única filha, Maria Amélia.

Na CUF, as vendas cresciam a bom ritmo, mas alguns negócios, como o dos óleos, apresentavam dificuldades. Alfredo da Silva foi a Inglaterra contratar um mestre saboeiro e criou um novo departamento para publicitar os produtos junto do setor agrícola. Enviava frequentemente relatórios ao governo, queixando-se do clima de negócios. Defensor da ordem e do progresso, inicia umas breves incursões na política, como apoiante de regimes autoritários. Em 1906, foi deputado pelo Partido Regenerador-Liberal de João Franco, mais tarde ascendeu ao Senado com Sidónio Pais e, vencida uma certa desconfiança inicial, apoiou a formação do Estado Novo de Salazar, ocupando um lugar na Câmara Corporativa. Apesar de se situarem no mesmo quadrante ideológico, o industrial e o ditador mantiveram uma relação tensa e distante nos anos que se seguiram.

À descoberta do Barreiro

Continuando à procura de novos negócios, Alfredo da Silva compra uma fábrica de azeite em Alferrarede, Abrantes, criando um polo industrial a partir dessa unidade. Mas é na frente ribeirinha do Barreiro, na Margem Sul do Tejo, que vai desencantar os terrenos para a expansão da CUF. Servido por uma ligação ferroviária e por um cais marítimo que permitia, respetivamente, o transporte de produtos para o Alentejo e para o porto de Lisboa, o Barreiro revela-se a aposta certa. Entusiasmado, o industrial vai a Paris chamar o conceituado engenheiro químico A.L. Stinville para supervisionar as obras, inicialmente orçadas em 500 contos, mas que rapidamente atingem o dobro do valor.

Álbum de família Alfredo da Silva entrando em São Bento, em meados dos anos 30. Ao lado, a filha Amélia (terceira à esquerda), o noivo Manuel de Mello (de pé) e amigos em Sintra Foto: Fundação Amélia de Melo

Novos documentos mostram como Alfredo da Silva planeava cada empreitada ao pormenor. Num recente colóquio sobre património fabril e requalificação urbana, no âmbito das comemorações dos 150 anos do seu nascimento, foram divulgadas as plantas das fábricas projetadas para o Barreiro, assim como um pedido de licenciamento, assinado pelo empresário, em que este se compromete com soluções ambientais – como chaminés e sistemas de ventilação – para eliminar fumos, “vapores ou gazes” das indústrias químicas. Prevenir acidentes, causados por “derrame ou projeção” de ácidos, e tratar as descargas industriais para o rio Tejo faziam igualmente parte das preocupações do empresário.

A primeira unidade do complexo fabril do Barreiro, de extração de óleo de bagaço para o fabrico de sabões, é inaugurada a 19 de setembro de 1908. A partir daí, todos os anos nascem novas indústrias na CUF: ácidos sulfúrico e clorídrico, adubos, superfosfatos, sabões, moagem, sais de Epson, sulfato de cobre, tártaros e tecidos. Os negócios de Alfredo da Silva surgiam em cascata, de forma integrada, gerando sinergias. Fabricava-se ácido sulfúrico para produzir adubo e, quando a exportação excedeu a importação, instalou-se uma fábrica de sacaria para embalar a produção. E assim sucessivamente.

Era “uma criança
robusta, de cabelos
ralos e soltos,
numa cabeça larga
e malfeita”,
a quem não faltavam
“as boas roupas, a boa
comida, os bons
colégios e professores”
António Dias Miguel,
primeiro biógrafo

Inspirado nos exemplos estrangeiros, mas também em Henry Burnay, Alfredo da Silva desenvolve a sua política de paternalismo industrial no Barreiro. Cria diversos serviços sociais e de assistência aos empregados da CUF: uma caixa económica, despensa, centro médico, maternidade, farmácia, creche, escola, cantinas, bairro operário, e até um cinema “para prender os empregados à companhia”. Nasce o conceito da fábrica-família, em que o patrão, na ausência de um verdadeiro Estado social, toma conta dos seus empregados. 

No Barreiro, dizia-se que “entrar na CUF era o melhor que havia”. Para lá dos altos portões do complexo químico-adubeiro, os operários permanentes e especializados tinham salários melhores, viviam com as famílias em casas a estrear, abasteciam-se na despensa a preços módicos, recebiam cuidados de saúde, educavam os filhos na creche e na escola primária e ocupavam os tempos livres no cinema-ginásio e no campo de futebol (apesar de a relva não crescer e a poluição não deixar ver a bola…). Podia-se “nascer, viver e morrer” sem sair da CUF.

Em troca dessa proteção, Alfredo da Silva esperava lealdade, obediência e moralidade da parte dos operários. As regras para os habitantes dos bairros operários exigiam-lhes asseio – as casas podiam ser fiscalizadas todas as semanas – e impediam-nos de fazerem barulho, de beberem mais do que a conta e de discutirem em público. Também não podiam “praticar atos contrários à moral e aos bons costumes”. Os unidos de facto eram “incentivados” a casarem-se.

Cá fora, a realidade era muito diferente. O Barreiro dos pescadores e corticeiros vivia na pobreza extrema. Nas campanhas sazonais, homens, mulheres e crianças, vindos do Algarve, do Alentejo, das Beiras, corriam para a CUF à procura de trabalho temporário. De manhã cedo, esperavam junto aos portões para entrarem. Sem ocupação definida, suportavam longos turnos e sujeitavam-se às tarefas mais penosas, serpenteando entre as diversas unidades fabris e o cais por onde se descarregavam as matérias-primas e se faziam as “saídas dos adubos”.

Protestos e carga policial

A faceta autoritária de Alfredo da Silva não compreende as reivindicações dos trabalhadores nem aceita dialogar com os sindicatos, aos quais trata como um “bando de agressores”. Em 1910, a seguir à implantação da República, as fábricas da CUF encerram durante três dias. Receando-se uma maior radicalização, é decidido um aumento dos salários no final de outubro de 1910. Pouco depois, o industrial abre as portas da CUF à recém-criada Guarda Nacional Republicana (GNR), convidando-a a instalar-se no Barreiro para prevenir as movimentações. A atuação do empresário perante a agitação operária é analisada por Vanessa de Almeida na obra Um Discurso Escondido: Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a Primeira República 1910-1919 (ed. Bizâncio, 2009). “Alfredo da Silva era uma figura mítica, um personagem engraçado, bonacheirão. As condições que ele dava aos trabalhadores eram muito raras à época, mas essa política paternalista assentava numa tentativa de evitar qualquer mobilização operária dentro das fábricas. O discurso dele era claro e limpo como água. Não enganava”, diz a autora à VISÃO, baseada na informação recolhida das atas da administração da CUF.

Contrariado, Alfredo da Silva enfrentará os grevistas em novas ocasiões. Tentará evitar o protesto aumentando salários, recorrendo à violência policial, decretando o lockout e despedindo centenas de operários, muitos dos quais entretanto detidos. As primeiras leis da República, embora autorizassem as greves, não facilitavam a sua realização, impondo regras rígidas para a sua convocatória. A contestação prosseguirá em 1911, no Barreiro e em Alcântara, mas, na Margem Sul do Tejo, as greves só voltarão a fazer-se sentir em 1919, já depois de o industrial, acedendo a reivindicações antigas, ter subido salários e reduzido o horário de trabalho para oito horas diárias. Nesse ano, a atuação violenta da GNR marca também “a rotura do operariado da CUF com o regime político”, escreve Vanessa de Almeida. “O poder político não hesitou em desencadear os mecanismos repressivos mais violentos para suster as reivindicações operárias”, acrescenta a historiadora.

5 Curiosidades

CARRIS
Alfredo da Silva esteve na origem da eletrificação da Carris. A companhia, de que era acionista, pagou-lhe uma viagem pela Europa para estudar a substituição dos carros de tração animal pelos elétricos amarelos, que ainda hoje circulam em Lisboa.

ALFERRAREDE I
O caminho de ferro passava junto à casa que construiu perto da fábrica de Alferrarede. A estação ficava a apenas 100 metros, mas o comboio parava à porta, para que o industrial não tivesse de percorrer a curta distância.

ALFERRAREDE II
Depois de sofrer os primeiros atentados contra a sua vida, começou a passar temporadas maiores em Alferrarede. Aos trabalhadores, dizia que estava a “criar musgo”, por causa do microclima húmido do local.

SALAZAR
A relação com Salazar foi sempre tensa e formal. Alfredo da Silva chamava-lhe “jesuíta”, por causa da sua vida austera. Salazar confidenciou a um dos netos que, por vezes, “até a um carroceiro seria difícil” perceber o industrial.

MORTE
O embaixador britânico em Lisboa Richard Campbell lamentou a morte da “figura mais proeminente” da indústria portuguesa, descrevendo-o como um “rufião pitoresco”, na informação que enviou para Londres.

Na sequência dos protestos, mais de um milhar de trabalhadores perde o emprego na CUF. Nos arquivos do Museu Industrial Baía do Tejo (a empresa pública que gere o antigo complexo da CUF), encontram-se várias fichas de operários e operárias carimbadas com o motivo do despedimento: “Fez greve.” Mas a repressão não travou a luta operária. A primeira célula do PCP no Barreiro data de 1923, dois anos após a fundação do partido. Na década de 30, circulam já várias publicações clandestinas dentro do complexo. É nessa altura que se destaca a ação de Francisco Ferreira, o “Chico da CUF”, militante comunista e morador no bairro operário até passar à clandestinidade.

“A República coincidiu com uma vaga de movimentos sociais e sindicais na Europa que queriam ir muito além do fim da monarquia. O novo regime estabeleceu, desde cedo, limites à progressão das novas ideias socialistas e anarco-sindicalistas, tentando evitar uma revolução bolchevista. Havia mais afinidades entre Alfredo da Silva e o lado conservador da República do que diferenças”, afirma Miguel Figueira de Faria, em vésperas da publicação do último volume da sua trilogia sobre o empresário, intitulado Alfredo da Silva e a I República.

A seguir ao golpe militar de 1926, a agitação praticamente para na CUF, havendo apenas registo de pequenas reivindicações. O maior protesto de massas no Barreiro viria a ocorrer em 1943, já depois da morte de Alfredo da Silva. “Dizia-se que, se fosse vivo, a greve provavelmente não teria acontecido”, afirma Vanessa de Almeida. À frente da CUF estava Manuel de Mello, o genro de Alfredo da Silva.

Partida para o exílio

Com o início da Primeira Guerra Mundial, o fornecimento das matérias-primas torna-se irregular e a produção no Barreiro é parcialmente suspensa. Uma situação que viria a repetir-se anos depois, ainda em vida de Alfredo da Silva, com o início da Segunda Guerra Mundial. Para evitar o estrangulamento da CUF, o industrial empenha-se num novo projeto: a aquisição de uma frota mercante que garantisse o acesso às matérias-primas das colónias. É criada a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes.

Os britânicos, contudo, começam a suspeitar das ideias germanófilas de Alfredo da Silva, que não perdia uma oportunidade para exaltar as qualidades do povo alemão. Intrometem-se nos negócios, confiscando-lhe as matérias-primas. A fábrica de óleo estava parada, as de sabão tinham falta de matéria-prima, o adubo escasseava. Como sempre, o espírito prático do empresário impõe-se às suas convicções. Aceita a nomeação de um alto quadro inglês para a administração da CUF, com “direitos de fiscalização” sobre a correspondência e os assuntos externos da empresa, e afasta o sócio Martin Weinstein da administração. O alemão parte para Madrid, onde ficará até morrer. A CUF sai finalmente da lista negra dos britânicos e continua a crescer. Em 1917, o complexo emprega dois mil operários e ocupa 200 mil metros quadrados de área no Barreiro. Eram necessárias duas horas para o percorrer a pé.

A figura de um pequeno lavrador, inspirada no Zé Povinho, foi a imagem de marca da campanha publicitária dos adubos da CUF

O ano de 1919 viria a ser repleto de acontecimentos. Amélia, a única filha, casa-se com D. Manuel de Mello, sobrinho do conde de Sabugosa. Preocupado com a sucessão, quando Manuel lhe pede a mão da filha, Alfredo da Silva terá dito: “Casa-se também com a CUF?”. O genro entra de imediato para a administração das empresas.

Com o fim da guerra, os governos republicanos sucedem-se ao ritmo das intrigas palacianas. O industrial passa a ser um alvo da oposição, que o acusa de conspirar com os monárquicos. Sofre dois atentados, dos quais escapa praticamente ileso e, antes de exilar-se durante uns meses no estrangeiro, ainda passa umas temporadas na casa que construíra em Alferrarede. “Ele dizia que vinha para cá ‘criar musgo’, por causa do microclima húmido”, graceja a antropóloga Sónia Pedro, responsável pelo levantamento de informação sobre o antigo polo industrial. 

Em 1921, a CUF entra no negócio bancário, adquirindo parte do capital da Casa José Henriques Totta. Mas os rumores sobre a existência de uma lista de nomes a abater por um movimento revolucionário, em vésperas da “noite sangrenta” de 19 de outubro desse ano, obrigam-no a partir de novo para o exílio. Durante a fuga, sofre o terceiro atentado, no espaço de apenas três anos.

– Quem é Alfredo da Silva?

– Sou eu. Que me querem?

– Matá-lo!

– Pois, vamos a isso e depressa!

Assim que se soube que o industrial, na altura com 50 anos, viajava a bordo de um comboio vindo de Lisboa, uma multidão em fúria avançou para a estação ferroviária de Leiria, gritando pelo seu nome. Da massa de gente anónima, saiu um tiro que atingiu o patrão da CUF no abdómen. A caminho do hospital, o carro que o transportava foi travado e o ferido arrastado para a praça pública, espezinhado e sujeito a torturas e dichotes. “Dão-lhe pontapés, pisam-lhe o rosto, vibram-lhe mesmo uma facada.” Um sargento miliciano sai em sua defesa e impede que seja abatido a tiro. A muito custo, consegue chegar ao hospital de Leiria, onde é operado. “Fizeram-me tudo. Meteram-me numa maca, tirando-ma depois, com o pretexto de que era muito pesado e obrigando-me a caminhar. Um horror”, contou Alfredo da Silva, ainda convalescente, ao jornal O Século. O repórter que assinou a extensa reportagem ainda registou o desabafo: “Nunca fiz mal a ninguém. Não sou nenhum ladrão. Trabalho dia e noite para que aos meus oito ou nove mil operários não falte coisa alguma. Porque me perseguem desta maneira?”

Apesar dos ferimentos, deixará Leiria a 30 de outubro, rumo a Paris e depois a Madrid, de onde continuará a dirigir a CUF. Só em 1925 começará a preparar o regresso. A maior parte do ano de 1926 já é passada cá. Vê com simpatia o golpe do 28 de Maio, que instaurará a ditadura militar, mas também com ceticismo e alguma reserva.

Quando Manuel
de Mello lhe pede
a mão de Amélia,
sua filha única,
Alfredo da Silva
terá dito: “Casa-se
também com a CUF?”

As saudades da pátria e as sequelas físicas do atentado de Leiria não o impediram de pensar em novos negócios. Em março de 1926, chega ao fim a concessão do monopólio dos tabacos, na posse da família Burnay desde 1891. As relações entre o industrial e os Burnay tinham arrefecido, ainda em vida do conde belga. Alfredo da Silva candidata-se, sem sucesso, ao arrendamento das fábricas e exploração das marcas do Estado. Derrotado, contenta-se com uma nova licença de fabrico. Nasce assim a Tabaqueira e a marca Português Suave.

A ajuda de Salazar

Será na Casa Totta que se irá desenrolar uma profunda crise que ameaçará a continuidade da CUF. A ajuda de Salazar – a quem Alfredo da Silva chamava “jesuíta” – virá a revelar-se fundamental.

A Casa Totta era o suporte financeiro do grupo da CUF, preenchendo as necessidades de capital das empresas. Com a Grande Depressão, em 1929, são detetados avultados empréstimos à falida casa bancária A. Piano Júnior, que interrompe os pagamentos. Em desespero, o industrial pede um empréstimo ao Banco de Portugal, para o qual procura o aval de Salazar. Sentindo-se impotente para enfrentar a crise, admite deixar cair a Casa Totta para salvar a CUF, mas o próprio Salazar pede-lhe que não o faça, preocupado com o efeito de contágio sobre o sistema bancário. Um novo empréstimo é então desbloqueado pelo ditador junto da Caixa Nacional de Crédito, mediante a hipoteca dos bens pessoais do industrial, da frota marítima, das fábricas e da maquinaria. Alfredo da Silva não compra “nem mais um carro nem um simples fato”, segundo escreve Dias Miguel. Aos 60 anos, a sua vida, que nunca conhecera a pobreza, torna-se austera.

A relação com Oliveira Salazar é agora mais próxima, embora mantendo um tom formal. Trocam correspondência com regularidade, mas a inexistência de um arquivo pessoal de Alfredo da Silva impede-nos de conhecer a resposta do presidente do Conselho às reivindicações e aos apelos constantes do industrial. Um dos netos contou ao biógrafo Miguel Figueira de Faria que Salazar lhe terá dito, sobre o avô: “Admirávamo-nos mutuamente, mas nunca nos entendemos. Por vezes, até a um carroceiro seria difícil percebê-lo.”

A década de 30 será fértil em problemas, confrontos e braços de ferro nas empresas do grupo. Com o início da guerra civil em Espanha, Alfredo da Silva toma o partido de Franco. Põe a sua frota marítima ao serviço das tropas do caudilho, prestando-lhe apoio logístico (armas, mantimentos…) e também financeiro. Alegadamente, para satisfazer um pedido privado do próprio Salazar. Um novo projeto seria concretizado em 1937: a concessão do estaleiro naval do cais da Rocha do Conde d’Óbidos e a exploração das oficinas e docas do porto de Lisboa. É aí que são construídos os bacalhoeiros Creoula e Santa Maria Manuela, e o vapor África Ocidental. Alfredo da Silva junta finalmente a construção naval ao transporte marítimo, mas já a pensar em novos planos para a produção de aço no Barreiro, um material “imprescindível na construção naval”. No ar, pairava já a ameaça da Segunda Guerra Mundial, o que o levará a adiar o investimento.

Perto do fim

A falta de matérias-primas no Barreiro, causada pelo embargo dos Aliados, era o que mais atormentava o industrial, mas ainda faz planos para uma nova fábrica de ácido no Barreiro. Quase sem dar por isso, torna-se fundador da Companhia Animatográfica dos Restauradores, com a aquisição do antigo cinema Éden, arrematado em praça pública pelo empresário que, anos antes, gostava de frequentar as melhores casas de espetáculos lisboetas de braço dado com uma elegante senhora francesa.

No início de 1942, é sujeito a uma operação. Aos 70 anos, recupera a saúde com dificuldade. Na primavera desse ano, cria a companhia de seguros Império e liquida a última fatia do empréstimo à Casa Totta. Alfredo da Silva morre a 22 de agosto, no ambiente austero do Palácio Pombal, em Sintra. Com as dívidas saldadas e com uma fortuna avaliada em 14 mil contos.

Desesperado,
o industrial
admite deixar cair
a Casa Totta
para salvar a CUF,
mas Salazar
pede-lhe que não o faça
e oferece-lhe auxílio
financeiro

Depois da sua morte, o embaixador britânico em Lisboa, Richard Campbell, informa Londres sobre o desaparecimento da “figura mais proeminente” da indústria portuguesa. Lamentando a perda, descreve o empresário como um “rufião pitoresco”. “Se, por um lado, estava sempre disposto a partilhar informações, por outro, nunca deixava de vociferar contra a incapacidade dos nossos serviços em lhe concederem os favores de exceção de que se sentia merecedor”, acrescenta.

Sucede-lhe o genro, Manuel de Mello. Da união com a filha de Alfredo da Silva, nasceram Maria Cristina, Jorge, Maria Amélia e José Manuel de Mello. Aos filhos homens, coube a condução do império industrial, comercial e financeiro da família, formado por quase duas centenas de empresas, até às nacionalizações de 1975.

CUF: Da nacionalização à reconstrução familiar

Terceira geração Os netos Maria Cristina, Jorge, Amélia e José Manuel Foto: Fundação Amélia de Melo


As comemorações

A nacionalização da CUF afastou a família Mello dos negócios, mas, na década de 80, os irmãos Jorge e José Manuel refizeram, em separado, parte do império herdado do avô e do pai

Os quatro netos de Alfredo da Silva – Maria Cristina, Jorge Augusto, Maria Amélia e José Manuel de Mello – herdaram um dos maiores grupos económicos do País, com cerca de 187 empresas industriais, comerciais e financeiras à data da nacionalização. De acordo com cálculos do economista Abel Mateus, os ativos do grupo CUF valiam, em 1975, perto de 95 milhões de contos (cerca de 8,6 mil milhões de euros a valores de 2010), representando cerca de 20% do PIB nacional. O número de trabalhadores excedia os 50 200. “O grupo detinha uma grossa fatia do controlo do poder económico de Portugal: cerca de 20% do produto nacional”, escreveu o economista. Era o maior a nível ibérico, um dos dez maiores da Europa e um dos 150 maiores do mundo.

Na década de 80, Jorge e José Manuel separam as águas e iniciam a reconstrução de parte do império familiar, dando origem a dois grupos: o Grupo Sovena e o Grupo José de Mello, respetivamente. O primeiro tem negócios de produção de azeite (Oliveira da Serra) e de óleos vegetais (Fula); o segundo tem interesses em áreas tão diversas como as autoestradas (Brisa), saúde (Cuf), indústria química (Bondalti) e produção de vinho (Monte da Ravasqueira). Com as privatizações, José Manuel de Mello recuperou o controlo da seguradora Império, da Lisnave e da Soponata, mas acabou por alienar essas empresas. Contudo, não conseguiu recuperar o controlo do Banco Totta & Açores, inicialmente vendido ao Banesto espanhol e posteriormente adquirido pelo ex-cunhado, António Champalimaud. Hoje, a instituição faz parte do Banco Santander Portugal.

Tanto Jorge como José Manuel envolveram a numerosa prole – Jorge teve dez filhos (um dos quais morreu precocemente); José Manuel, doze –, nos negócios familiares. Ambos os grupos são hoje geridos por representantes da quarta ou da quinta geração. À frente da Sovena, está Jorge de Mello, neto de Jorge Augusto. Já o grupo José de Mello é atualmente liderado por Salvador (CEO) e Vasco (chairman) de Mello, filhos de José Manuel.

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O fogo foi apagado, a memória do horror não. 23 imagens para lembrar o incêndio de Pedrógão, quatro anos depois

O violento incêndio que deflagrou precisamente há quatro anos, no concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, provocou a morte a 66 pessoas, no mais mortífero fogo registado em Portugal

OLHO VIVO

"António Costa tem a política de sorrir e acenar, como os pinguins de Madagáscar"

Os principais assuntos da atualidade comentados pelo painel de olheiros residente. Na lista de hoje: a quarta vaga da pandemia e a crise em Lisboa, as dores de cabeça de António Costa, o Russiagate, a TAP, a bazuca

Política

Governo prepara travão no desconfinamento e proíbe circulação de e para Lisboa ao fim-de-semana

Próxima fase do plano, prevista para a próxima semana, “dificilmente se pode verificar", assumiu a ministra da Presidência. Lisboa mantém-se no mesmo patamar, mas com uma nova regra

Sociedade

A estratégia da China para colocar humanos em Marte e com uma "econosfera"

A China está a estudar a melhor estratégia para realizar missões sustentáveis a Marte com o objetivo de potenciar uma permanência mais prolongada dos astronautas

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Os portugueses estão a comer melhor, confiam no sistema de saúde, mas mais de metade esteve esgotado ou à beira do burnout

As conclusões de um estudo europeu sobre saúde revelam ainda que os heróis da pandemia são os profissionais de saúde e que a maior preocupação foi estar longe da família e amigos, mais do que ficar infetado

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Vacinação sem agendamento disponível para pessoas com mais de 55 anos

A vacinação contra a covid-19 sem necessidade de agendamento passa a estar disponível para as pessoas com pelo menos 55 anos, anunciou hoje a 'task force'

Exame Informática
EI TV

Continente Labs, como vai ser o supermercado do futuro

Estivemos na loja futurista do Continente onde é possível entrar, colocar os produtos no bolso e sair, sem ter de enfrentar filas ou caixas de pagamento. Conheça melhor o sistema de câmaras, sensores e toda a tecnologia que possibilita esta ida ao supermercado inovadora.

Sociedade

Covid-19: Centros de vacinação em Lisboa com horário alargado a partir de segunda-feira

Os centros municipais de vacinação de Lisboa vão passar a funcionar mais uma hora por dia, a partir de segunda-feira e, em julho, estarão abertos 14 horas diárias, das 08:00 às 22:00, incluindo fins de semana, foi hoje anunciado