As histórias desconhecidas do estripador de Lisboa

Será que Maria Valentina morreu vitimada por um ataque que sofreu de uma enorme ratazana? Prostituta e viciada em drogas duras, a jovem, 22 anos, podia estar pedrada e vulnerável no barracão de armazenamento de produtos químicos, perto do Pingo Doce da Póvoa de Santo Adrião, em Odivelas, onde foi encontrada morta, a 31 de julho de 1992.

Havia um orifício no abdómen de Maria Valentina e escoriações no corpo que podiam ter sido provocados pelo animal, um “roedor de grande volumetria” e de garras afiadas. À primeira vista, tal ataque explicava que 2,40 metros de intestino estivessem fora do corpo de Tina, como era conhecida, e que todo o cólon, que mede cerca de 1,5 m, tivesse desaparecido. Não existia história anterior de casos idênticos na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária (PJ) de Lisboa, pelo que a hipótese da ratazana assassina “foi colocada muito a sério”, porque “fazia sentido”, embora a autópsia viesse a referir “sinais gerais de asfixia”, o que, ainda assim, não eliminava aquela possibilidade. Esta é a primeira surpresa com que deparamos numa revisitação, 29 anos depois, do caso do estripador de Lisboa, através de testemunhos de investigadores que participaram nas averiguações. O serial killer assassinou e esventrou mais duas prostitutas (a última em março de 1993), e desapareceu sem deixar rasto. Em 2008, passados 15 anos, os crimes prescreveram.

Já as investigações para o apanhar deixaram um longo lastro que ainda hoje é fonte de revelações. A tese da ratazana cairia por terra cerca de seis meses depois, quando o corpo de outra prostituta, Maria Fernanda, 24 anos, foi encontrado, a 27 de janeiro de 1993, num barracão sob a linha férrea de Entrecampos, em Lisboa. Apesar de o local do assassínio de Fernanda se situar longe do sítio onde Tina foi morta, os inspetores da PJ deixaram de ter dúvidas. “Ficámos com a certeza de que havia intervenção humana e homicídio”, recorda um daqueles investigadores. “Era a mesma pessoa e um potencial serial killer”, acrescenta.

O cenário era ainda de maior horror face ao primeiro caso, se tal coisa se pode dizer. Fernanda tinha sido agredida na cabeça, talvez com um barrote, e o assassino esventrou-a com um corte maior, de mais de 20 cm de comprimento, o que demonstrava haver “maior confiança” por parte do homicida, notaram de imediato os inspetores. O corte não tinha precisão, levando os investigadores a pensarem na utilização de uma garrafa partida, com o gargalo a servir de pega, e cujas arestas também podiam explicar as escoriações no corpo da jovem prostituta, que deixou dois filhos órfãos, uma menina de 6 anos e um bebé de poucos meses. Fernanda era viciada em jogo – gastava tudo o que tinha no bingo do Belenenses, localizado perto dos sítios onde atuava, entre a Avenida 5 de Outubro e o Campo Grande, e igualmente próximo do barracão onde seria assassinada e estripada.

A dita “maior confiança” do serial killer, que se movia dissimulado pelo breu da noite, significava bestialidade acrescida. Fernanda apresentava, por exemplo, feridas corto-perfurantes no coração e nos órgãos pélvicos, incluindo uma laceração no útero. E, fora do corpo da vítima, os inspetores tiveram de recolher os pulmões, o fígado, a vesícula biliar, o estômago e parte do intestino delgado. O intestino grosso não foi encontrado, assim como o cólon – outra vez.

CONSULTAS PSIQUIÁTRICAS

As duas primeiras vítimas do estripador de Lisboa eram morenas e franzinas (a terceira também o seria). Esse suposto padrão, porém, foi ignorado pelos psiquiatras que os inspetores da PJ consultaram, para obter um possível retrato psicológico do indivíduo com quem lidavam. As apreciações dos especialistas iam todas no mesmo sentido: “Apontavam para um homem que viveria sozinho, ou com uma mãe idosa, uma pessoa perfeitamente normal no seu dia a dia, com profissão certa, e ninguém, olhando para ele, conversando com ele, trabalhando com ele, diria que seria capaz de cometer crimes tão brutais”, lembra um investigador. Mas acrescentavam, diz a mesma fonte, que “teria uma dificuldade de cariz sexual, e que, perante um comentário mais jocoso por parte da mulher com quem estava, entrava em completo descontrolo, e tornava-se a besta capaz de cometer as maiores atrocidades”.

Vingança Entre os investigadores que trabalharam no caso, prevalece a tese de que o serial killer se convenceu de que uma prostituta o infetou com o VIH, e que os brutais assassínios de Valentina, Fernanda e Maria João foram a sua vendetta, antes de sucumbir à sida

Com base no retrato feito pelos psiquiatras, os inspetores dos homicídios efetuaram uma pesquisa de suspeitos que não lhes forneceu resultados concretos. Em tempos em que não havia internet e os telemóveis eram peças raras, os investigadores só tinham a opção de irem para a rua em força. Num esforço nunca antes visto, mais de duas dezenas de inspetores de várias secções da PJ passaram a contactar diariamente prostitutas nos locais onde atuavam. “Tínhamos uma excelente relação com elas e elas connosco, havia uma grande proximidade”, diz um investigador. “Estavam muito amedrontadas e à mínima coisa contactavam-nos e nós íamos lá para trabalhar nos casos que nos apresentavam, de alguém que se portara mal com elas, e que se pudesse encaixar no perfil que tínhamos traçado”, acrescenta. E foi assim que, em momentos diferentes, a PJ deteve dois indivíduos, com os inspetores a fazerem figas para que um deles fosse o serial killer. Ambos tinham o mesmo modus operandi: nos seus carros transportavam as prostitutas para locais ermos (num caso em Monsanto, no outro na serra de Sintra), onde as agrediam de forma bárbara (um deles usava uma lâmina com a qual fazia cortes nas coxas das vítimas) e as abandonavam. Depois de apertarem os suspeitos em interrogatórios longos e duros, os investigadores concluíram que nenhum deles era o assassino em série que procuravam. Mas foram presentes a um juiz de instrução, por indícios evidentes de crimes graves, que os colocou em prisão preventiva.

SUSPEITOS-SURPRESA

Os inspetores estavam certos. Pouco depois, a 15 de março de 1993, apareceu morta Maria João, 27 anos, prostituta e consumidora de drogas duras. Como Tina, de quem era amiga, tinha sido assassinada perto do Pingo Doce da Póvoa de Santo Adrião, num local de entrada para um armazém de produtos alimentares, que estava fechado, e que, por estar abrigado da estrada principal, usava para atender clientes. Com hematomas no rosto e o nariz partido, o corpo de Maria João apresentava apenas um corte grande, de 48 cm de comprimento, desde a zona da púbis até à parte de baixo do esterno, feito com precisão. A tal ponto que alguns investigadores puseram a hipótese de o assassino ter usado um bisturi. Havia feridas corto-perfurantes no coração, entre muitas outras, e desapareceram o fígado, o baço, o rim esquerdo, parte do estômago, o intestino delgado e o cólon.

As atenções dos inspetores viraram-se para um discreto professor e escritor de romances policiais que, em 1984, publicou a obra intitulada “O Estripador de Lisboa”

Sob uma pressão tremenda, os inspetores verificaram que a zona industrial da Póvoa de Santo Adrião era um local de pernoita de camionistas de longo curso. Vigiaram e investigaram os condutores dos TIR, “mas também por aí não chegámos lá”, diz um investigador. Seriam conversas de circunstância com funcionários do Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa e com colegas mais antigos dos Homicídios a trazer um suspeito que valia a pena investigar. Já tinha uns anos o caso do jovem técnico forense do IML que fora despedido do instituto por levar para casa amostras de vísceras que estavam guardadas para análises. “Recuperado” para as investigações ao estripador, o suspeito encaixava, de alguma forma, no retrato psicológico feito pelos psiquiatras que os inspetores consultaram. “Vivia com a mãe, era muito solitário e frequentava prostitutas”, recorda um investigador. Mas, após o interrogatório, seria descartado do caso.

As atenções dos inspetores também se viraram para um discreto professor do Instituto Superior de Agronomia. Nas horas livres, Luís Campos era um prolífico escritor de romances policiais e, em 1984, publicou a obra intitulada O Estripador de Lisboa. “Li o livro e fiquei impressionado com a trama, porque o primeiro caso que relata na história é muito similar ao primeiro caso que tínhamos para resolver”, diz um investigador. Até o sítio é o mesmo: no livro, o crime também ocorre na Póvoa de Santo Adrião. Quando passaram a vigiar as rotinas de Luís Campos, os inspetores repararam numa “componente interessante” do professor universitário: “Parava muito no Night and Day, um estabelecimento noturno de alterne no centro de Lisboa, sempre sozinho, agarrado ao copo da bebida e a olhar para as mulheres que ali estavam. Ficava naquela perdição tempos infindos”, diz um deles. Mas, depois de inquirido, também Luís Campos (falecido em 2000, aos 58 anos) seria descartado do processo.

À época, o principal técnico de lofoscopia da PJ de Lisboa, Alexandre Simas, conseguiu recolher, apesar do “caos” que reinava no local do último crime, uma impressão digital que estava numa caixa de cartão com pacotes de leite deteriorado, a qual se encontrava “no máximo a dois metros do cadáver” de Maria João, diz o próprio. Mas uma falha de comunicação criou um problema – por ser amiga de Tina, a primeira vítima, Maria João foi na altura identificada e ouvida pela PJ. “Depois da autópsia de Maria João, pedi as impressões digitais e responderam-me: ‘Não tirámos. Ela já estava identificada’”, conta Alexandre Simas. Sem possibilidade de cruzamentos, ficou para sempre a dúvida sobre se aquela impressão digital era do assassino ou da vítima.

Ainda assim, recorda o técnico, “todos os indivíduos que passaram por suspeitos, que foram interrogados, eram transportados para o nosso setor, onde lhes recolhia as impressões digitais”, para comparação com o vestígio descoberto naquela caixa de cartão. Este procedimento também ajudou a descartar do processo, por exemplo, o ex-técnico forense e Luís Campos. “Havendo um vestígio, que na recolha desconheço a quem pertence – vítima, suspeito ou ‘inocente’ –, há que preservá-lo para futuro cotejo”, diz Alexandre Simas. “Como não foi possível compará-lo com a vítima, há que tentar completar o circuito com todas as pessoas ‘inocentes’”, acrescenta. Já agora, para variar, um dado positivo: o caso do estripador apressou a criação, em 1994, do banco de ADN do Laboratório de Polícia Científica.

Os investigadores ainda seguiriam uma outra pista prometedora e que tinha que ver com um marinheiro de um país dos Balcãs. “Ele andava num cargueiro que tinha estado atracado em Lisboa nas datas em que houve os três casos”, diz um inspetor. “Segundo as informações que recolhemos, tinha um comportamento estranho, não se dava com ninguém dentro do navio e, mal o barco atracava, ele ia-se embora sozinho”, acrescenta. “Andava por locais de Lisboa onde havia prostituição e só regressava quando o navio estava próximo de voltar ao mar.” O camarote do indivíduo no navio, conta aquele inspetor, seria alvo de buscas, e ali mesmo foi ouvido. Os investigadores consideraram as suas explicações satisfatórias e limitaram-se a fazer uma “informação de serviço”.

Embora não seja consensual, prevalece hoje entre os investigadores a tese de que o estripador de Lisboa se convenceu de que uma prostituta o infetou com o VIH, e que os brutais assassínios de Tina, Fernanda e Maria João foram a sua vingança, antes de sucumbir à sida. É plausível.

O “azar” do FBI
Depois do terceiro (e último) assassínio perpetrado pelo estripador de Lisboa, em março de 1993, a direção da Polícia Judiciária (PJ) solicitou ao FBI que enviasse agentes especializados em serial killers para darem uma palestra sobre o tema a investigadores portugueses. Vieram dois agentes especiais que, na Escola da PJ, em Loures, expuseram numerosas teorias acerca da forma de se chegar aos assassinos em série. Os investigadores portugueses ouviram-nos durante dois dias, até que, no período de perguntas e respostas, um inspetor quis saber como tinham resolvido o último caso. Um dos agentes admitiu que tinha havido um golpe de sorte – o serial killer fora surpreendido por uma operação stop e os polícias depararam-se com um cadáver na bagageira do seu carro. “Foi uma barrigada de riso para dentro”, diz um inspetor que estava na assistência. “Nós também tínhamos tido casos de homicídio resolvidos assim”, acrescenta. E, da palestra do FBI, foi o que ficou.

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