No princípio era o centro: O Apolo 70 faz 50 anos

Novidade Foi a terceira drugstore de Lisboa, mas a que tinha mais oferta. O cinema era dirigido por Lauro António

A primavera marcelista ainda não tinha três anos, mas a Guerra Colonial já levava dez. Os palcos do ABC despediam-se de Frangas na Grelha, revista com Ivone Silva e Nicolau Breyner, e a emissão da RTP terminava às 23h40 com Meditação e Fecho. O Diário de Lisboa tanto noticiava a saída de Portugal da Unesco – contra o financiamento de “movimentos terroristas” nas colónias – como o concurso Princesa das Teen-Agers Portuguesas.

Era 1971, e o ano não acabaria sem ver nascer o primeiro Vilar de Mouros, uma nova marca de móveis (“Moviflor, Largo da Graça, 28, em Lisboa” – quem não se recorda?) ou as bicicletas Órbita. Aliás, é também à década da conquista espacial e à ida à Lua que o primeiro grande centro comercial de Lisboa deve o seu nome: Apolo 70. Construído em 14 meses, nos dois pisos de uma antiga garagem no Campo Pequeno, faz na próxima quarta-feira (26 de maio) 50 anos que abriu ao público. Para marcar várias gerações. “Quando abriu, era uma coisa por demais. Havia porteiros fardados, uma coisa fina. O chão era alcatifado e tinha de haver um bocadinho de restrição na entrada, porque as pessoas eram aos montes,” recorda Joaquim Pinto, cabeleireiro e o mais antigo inquilino do centro.

Quarenta e uma lojas, abertas 16 horas por dia para servir o “público ativo” que “nas horas habituais de funcionamento dos estabelecimentos comuns não tem possibilidade de interromper a sua faina diária para satisfazer as necessidades de compras”, lê-se nas notícias da época. Na “maior ‘drugstore’ da Europa” (Lisboa já tinha outras duas, mas sem oferta de lazer semelhante), cabiam florista, perfumaria, farmácia, boutiques, livraria e tabacaria. Mas também lojas de artesanato, charcutaria, fotografia, barbearia e cabeleireiro. Marcas como Valentim de Carvalho, A Pompadour ou Braz & Braz não quiseram ficar de fora do espaço, equipado com pista de bowling automático e jogos elétricos, bar, restaurante e cinema em Scope-Technicolor, com programação de Lauro António (ver caixa Espreitar o mundo por cima dos muros da censura).

O centro foi anunciado como a “maior ‘drugstore’ da Europa”. Aberto 16 horas por dia, cabia lá de tudo, incluindo bowling e cinema

Ulisses Silva, que há dois anos lidera a Copeve, empresa que explora o centro comercial, lembra-se bem de uma loja de gelados e pensa ter frequentado o cinema na adolescência. “Foi uma grande mudança aqui em Lisboa, era o maior da Europa, com uma arquitetura interior que se mantém, um espaço com linhas muito amplas, o que fez com que conseguisse sobreviver por mais tempo.” A arquitetura de Augusto Silva casava com a decoração de Paulo Guilherme, responsável pelo layout de boîtes, stands, hotéis e bares, como o Snob. No chão, alcatifas com motivos geométricos. No teto, grandes semiesferas de luz, a par com o brilho dos corrimãos cromados, refletiam-se nas paredes envidraçadas.

Era um símbolo da “modernização do espírito comercial”, que juntava muita oferta num só sítio com horário alargado. E chegou num ano de crescimento para a economia – quase 10,5%, ritmo que não voltaria a ver-se nas décadas seguintes. Isso não impediu que, até ao final de 1971, mais 50 mil pessoas saíssem do País, a juntar às mais de 600 mil emigradas na década anterior. No Portugal profundo, 2,9 milhões de pessoas diziam não saber ler e muitas não tinham retrete nem água canalizada. Marcelo Caetano, numa Conversa em Família daquele ano, transmitida pela RTP, descrevia um mundo em crise, que atravessava a “transformação de uma sociedade tradicional, patriarcal, agrária, num outro tipo social, dominado pelas relações industriais e pelo predomínio dos serviços”.

Meio século Joaquim Pinto é o inquilino mais antigo do centro, que terá de se adaptar ao pós-Covid. Administração toma decisões em quatro meses

Sinal dos tempos
“A galeria Apolo 70 criou um modelo que se expandiu muito rapidamente por toda a cidade. (…) Os primeiros centros comerciais surgem, tal como o Apolo 70, ao longo das Avenidas Novas ou nas zonas de expansão do centro da cidade,” refere a arquiteta Alessia Allegri na sua tese de doutoramento “Enquanto o Apolo 70 viaja até ao Alvaláxia XXI, Colombo e Vasco da Gama descobrem-nos outra cidade”. Entre 1975 e meados dos anos 1980, estes centros nascem como cogumelos junto das zonas residenciais (ao lado do Apolo surgem, em 1976, o Arco-Íris e, em 1984, o Columbia), perdendo peso depois para as grandes superfícies.

Foi num dos anos áureos, 1975, que Joaquim Pinto assumiu o salão. Pelas suas mãos passaram barba e cabelo de dezenas de políticos como Mário Soares, Mota Pinto, Carlos César, além de Cavaco Silva e uma mão-cheia de ministros deste. Também ali se sentou a elite capitalista: o patriarca José Manuel de Mello; ou José António e António José, os irmãos gémeos da Valouro. “O cabeleireiro de homens foi sempre muito notável por causa destas figuras. Mas nós não temos política aqui dentro. Entram clientes, não entram políticos”, garante o apelidado “barbeiro do poder”. Ele testemunhou todas as transformações. Desde o fecho do cinema – que ajudou a concretizar enquanto administrador – ao encerramento, uma década antes, do bowling com quatro pistas, espaço hoje ocupado pelo Museu do Barbeiro e Cabeleireiro, iniciativa de Pinto.

Frente ao seu salão, num pequeno restaurante, instalou-se em novembro a inquilina mais recente do centro. Rosária Ernesto, angolana de 27 anos, chegou em plena pandemia. Contabilista de formação, vendia hambúrgueres numa roulotte em Luanda. Agora, gere em sociedade o espaço que oferece pratos africanos à sexta-feira e ao sábado: “Estamos a servir quatro, cinco, seis almoços por dia.” O que vai valendo é a esplanada que tem em frente ao centro comercial, mas mesmo aí a concorrência é aguerrida com outros restaurantes da avenida, assume.

O Apolo 70 terá de ser diferente no futuro, admite a administração: “Um cliente, quando entra num centro comercial destes, não vem passear”

Adaptação “obrigatória”
Se antes da pandemia o centro era visitado por 400 a 500 pessoas por dia, a crise veio reduzir a afluência a apenas 10% a 15% disso. Os clientes, que trabalham nos serviços e escritórios da zona, continuam em teletrabalho. Os turistas, que a partir de 2017 também alimentavam as esplanadas, desapareceram. Durante os dois confinamentos, o centro ficou reduzido aos serviços básicos – farmácia, tabacaria, reparação de telemóveis. A administração teve de reduzir as rendas para ajudar.

“Houve muita colaboração, muita compreensão com os lojistas. Mas há alguns que vão ter muita dificuldade em sobreviver porque os hábitos se alteraram – o online massificou-se, as pessoas só vão ao restaurante se for apelativo – e a pandemia trouxe uma crise económica que se vai refletir noutras áreas”, diz Ulisses Silva. O administrador vai esperar três a quatro meses para “ver como se podem tomar determinadas linhas de ação”, mas rejeita um encerramento. Entretanto, diz que é obrigatório que os lojistas se adaptem às mudanças da pandemia: “O centro tem de ser diferente no futuro. Um cliente, quando entra num centro comercial destes, não vem passear. Vem porque sabe que existe algo que procura. Há áreas de negócio novas, que melhoram as já existentes, e às vezes não é preciso muito.”

“Não está coberto a ouro, mas está arranjadinho”
Maio de 2021. Há um drone a voar em Marte, a Humanidade quer voltar a pisar em breve o seu satélite natural e já sonha com um novo mundo no planeta vermelho. Numa economia muito diferente, estamos à beira de sair da pior queda do PIB de que há registo. A tecnologia tomou conta das nossas vidas e a pandemia pôs um turbo nas tendências. Não vivemos sem apps, queremos tudo para agora, as redes sociais são a nossa vida paralela e até já se fazem compras sem sair do sofá.

Se hoje um cliente dos anos 1970 entrasse no Apolo, daria logo pela mudança operada nos tetos e nos pavimentos em 2008, que deram tons de amarelo, rosa e cinzento ao espaço. Do leque original de lojas, talvez só destoassem a de reparação de telemóveis e o restaurante nepalês que hoje ocupa o espaço do cinema. Faltaria o bowling e também já não se consegue, como se dizia poder fazer-se antes, escutar o som dos filmes no cinema encostando o ouvido à parede nos jardins das traseiras.

Lauro António, com 78 anos, e Joaquim Pinto, com 79, seriam talvez as únicas caras reconhecíveis daquela era. Cinco décadas depois da abertura, e ainda com vida ligada ao centro, o cabeleireiro mantém o otimismo e acredita que o Apolo 70 “tem futuro”: “Está bem arranjadinho. Não está coberto a ouro, mas está arranjadinho. Estamos numa zona boa, com muitas empresas, bem servida por transportes e tem boa clientela”, afirma. E, seja qual for o futuro do espaço que agora chega ao meio século, vê-se a fazer parte dele: “O meu orgulho foi tanta gente me ter passado pela mão e eu ainda aqui estar. E vou continuar.”

Espreitar o mundo por cima dos muros da censura

Considera-o um dos pontos altos da sua carreira, a par da crítica e da realização de cinema (Manhã Submersa, diz, esteve à porta da nomeação para um Óscar). Lauro António tinha 28 anos quando foi convidado pelo tenente-coronel Luís Silva, dono da Lusomundo, para diretor de programação do Estúdio Apolo 70. “Fui com condições que ele sempre respeitou: continuar a ser crítico, poder escrever sobre todos os filmes da Lusomundo, e que fosse eu a programar. E não dar prejuízo – se não, a minha missão terminava e a deles também,” lembra à VISÃO.

O cinema era frequentado por “malta nova e intelectual, com preocupações, mas também malta popular. Havia proibição e censura e isso fazia com que estivessem ávidos de ver o que normalmente não podiam”, conta. Ainda assim, garante que não quis fazer um estúdio elitista: “Escolhi para a inauguração O Vale do Fugitivo, um western antirracista que defendia os índios, e feito por um realizador [Abraham Polonsky] perseguido pelo McCarthismo.”

Filmes como Pedro Só ou O Passado e o Presente estrearam-se naquela sala com 300 lugares. O cinema trouxe ainda sessões temáticas: as Retrospectivas, com reposição de filmes; as Meias-Noites, que mudavam de género segundo os dias da semana – clássicos, comédia, fantástico, policial…; as Manhãs Infantis, ao domingo; e as sessões à hora de almoço. Chegavam a ser cinco exibições por dia.

“Os anos mais engraçados foram os anteriores ao 25 de Abril, quando tentávamos levar filmes que estavam mais ou menos proibidos. E no início os programas não eram vistos pela censura! Até que fomos ‘apanhados’ e tivemos de passar a ir.” As pressões do governo de Marcelo Caetano para que fosse despedido por ser “comunista” – “Algo que nunca fui!” – chegavam à Lusomundo, mas isso nunca se concretizou. Três anos depois, quando veio a revolução, o grande ecrã abriu janelas para um novo mundo, com cinematografias desconhecidas no País – húngara, checoslovaca, mexicana – ou filmes proibidos pela censura, como Índia (António Faria, 1972).

“Nos primeiros dez anos, funcionou muito bem. Mas começou a haver pouco público para certos filmes. Nos últimos anos, já não havia programas, que eram caros. Foram-se fazendo cortes cirúrgicos até que se começou a cortar em alguns filmes. E nem com os mais comerciais se aguentou”, conta, sentado à mesa do histórico café Vá-Vá, nas Avenidas Novas, em Lisboa. Deixou o cargo entre 1982 e 1985 e o cinema terá fechado no final dos anos 1990. “É uma sala que deixou boas recordações ao público. No Facebook há sempre muita gente que vem falar dela com ar nostálgico.”

Aos 78 anos, Lauro António é muito ativo na internet, especialmente na blogosfera. Dá masterclasses e deu o nome recentemente à Casa das Imagens, inaugurada em Setúbal, que conta com o seu acervo bibliográfico e videográfico, além de cartazes, prémios e diplomas. E continua atento à evolução do fenómeno cinematográfico.

“Não sei se haverá poucos espectadores de bons filmes, consomem é de forma diferente. Mais filmes de super-heróis, da Marvel, ou infantis, da Disney. A grande maioria da malta que gostaria de ir [ao cinema] fica em casa a ver séries. Mas tudo isto está a criar um maior distanciamento social entre camadas, mais ricos e mais pobres”, diz o programador que, em 1971, apresentava o cinema no Estúdio Apolo 70 como um “espetáculo de fraternal comunicação”.

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