Comportamento: O que é a ecoansiedade e como lidar com ela

Foto: Getty Images Estragado Perante o mau estado do planeta, o ecoansioso perde a esperança no futuro e somatiza uma série de sintomas causados pelo stresse a que fica sujeito

Se passa os olhos com indiferença pela fotografia que ilustra este artigo, seguramente não sofre de ecoansiedade. Mas fique sabendo que esse desprendimento vai perturbar aqueles para quem estas imagens apocalípticas são verdadeiros atentados à sanidade mental.

Na generalidade dos casos, esse desconforto emocional “dá-se porque uns quantos, os ecoansiosos, ao contrário de muitos tantos, apresentam uma maior consciência do desaire ambiental e climático em que se encontram. Sozinhos, impotentes, indignam-se, revoltando-se inúmeras vezes. Uma vez aqui, na ausência da mudança comportamental das comunidades e percebendo a falta de soluções imediatas por parte dos países, sentindo-se incapazes de, por si só, atender a tal catástrofe, desencadeiam, eles próprios, sintomatologias de desconforto, em especial do foro da psicologia”. É assim que Paulo Vieira de Castro, autor do livro Isto Não É Uma Invenção. Ecoansiedade e o Futuro do Planeta (a ser lançado no dia 27 de maio, no festival MENTAL), define esta nova doença ambiental.

Catarina, 25 anos, nunca poderia encolher os ombros perante o estado das coisas que a imagem põe a nu. Hoje, já consegue lidar com a desesperança e a raiva provocadas pela forma como o ser humano insiste em continuar a tratar o planeta em que vive. Mas quando teve o seu despertar ecológico, por volta dos 19 anos, e por via dos animais, a sua tolerância era zero, com visíveis consequências na saúde mental. Era frequente sentir-se isolada, frustrada, ansiosa, chorar muito e ter dificuldade em dormir.

“Na altura do luto, apetecia-me partir coisas”, resume a estudante de mestrado, para demonstrar o seu estado de espírito perante as atrocidades que via acontecer por culpa de um estilo de vida desnorteado. E, ainda mais, pela forma despicienda como a maioria das pessoas olhava para isso.

“Valerá a pena ter filhos?”
Aos poucos, Catarina foi adotando um comportamento consciente: é vegan, quase nunca anda de carro e evita os plásticos de uso único. Mas também já se consciencializou de que pode ajudar na mudança, mesmo sendo uma ambientalista imperfeita. “Todos os passos são importantes”, avisa, lembrando que não podem ser dados apenas de forma individual. “As empresas e os governos também têm de ajudar.”

Neste processo, Catarina procurou ajuda de uma psicóloga convencional, que não compreendeu a origem da sua real tristeza nem soube orientá-la para sair do fosso em que se sentia. O assunto acabou por se resolver por si só, à custa de muita autoanálise. Também ajudou ter-se mudado da Escócia – onde a consciência destes problemas é enorme entre a população universitária – para Portugal.

Se tivesse sabido da existência da Ecopsi, um coletivo ativista de psicólogos dedicado às questões da saúde mental relacionadas com as alterações climáticas, Catarina não teria hesitado em contactá-lo. Mas, na verdade, esta equipa técnica só se juntou há oito meses, tendo ido buscar ensinamentos à britânica Climate Psychology Alliance, que existe há uma década e tem muito trabalho feito na área, sobretudo com jovens.
“É a nossa forma de ativismo, fazendo voluntariado além da atividade em consultório próprio, para apoiar a pressão que vem da confrontação com esta realidade ambiental”, expõe Pedro Oliveira, um dos psicólogos clínicos da Ecopsi. A atividade dirige-se especialmente a pessoas que estão na linha da frente, para poderem desempenhar melhor as suas funções.

A ecoansiedade é uma resposta normal a uma ameaça real de risco concreto. Trata-se de um problema com impacto direto nas nossas vidas

Tânia Dinis, psicóloga

“A ecoansiedade é uma resposta normal a uma ameaça real de risco concreto. Trata-se de um problema com impacto direto nas nossas vidas. É neste aspeto que ela mais se distingue da ansiedade patológica, que aparece de forma desproporcional ao risco e, por vezes, nem se sabe qual a sua origem”, especifica Tânia Dinis, também ela membro da Ecopsi.

“Como é que eu giro isto?”, “há esperança?” ou “valerá a pena ter filhos?” são algumas das questões que os ecoansiosos mais se colocam. Mas quando encontram um nome para o que sentem, descobrem finalmente a legitimação que procuravam – para acreditar que o problema não existe apenas dentro das suas cabeças.

“Isto não é uma brincadeira”
No seu livro, Paulo Varela de Castro fala na “pandemia da desesperança” e na “grande depressão verde”, problemas já detetados por uma das mais importantes revistas médicas do mundo, The Lancet, em 2015. A ecoansiedade passou a ser reconhecida, em 2017, pela American Psychiatric Association, como o “medo crónico da destruição ambiental”.

“Apesar de não haver ainda acordo entre especialistas, este será um assunto demasiado grave para não ser atendido ao nível terapêutico”, conclui o autor, um interessado por estes temas. E consciente de que “ninguém é assim tão pequeno que não possa colaborar na solução para um mundo melhor”. Mas a mudança maior tem de ser económica, na forma como consumimos, defende.

Paulo Varela de Castro escreveu esta obra a pedido de Ana Pinto Coelho, conselheira em dependências e organizadora do festival MENTAL (que, a partir do dia 20, terá a sua 5ª edição, em Lisboa, debruçando-se sobre a ecoansiedade).

“Lido muito com a malta mais jovem e vejo como são pessoas informadas, conscienciosas, altruístas. Por exemplo, não querem ter filhos porque acham que não vai haver água nem comida para eles”, nota Ana Pinto Coelho. Também se recusam a usar roupas produzidas à custa de mão de obra escrava ou a alimentar-se de produtos derivados de animais. Em alternativa, suportam o comércio local e compram roupas, poucas, em segunda mão.

“Passam as 24 horas do dia preocupados com tudo”, conta a conselheira. “E quando olham para o lado e veem que os outros se estão nas tintas, entram em desesperança, e é aí que aparece a angústia.” À angústia juntam-se sintomas como dores de estômago ou da coluna, resultantes do stresse a que estão sujeitos. “Já houve casos de suicídio provocados por ecoansiedade. Isto não é uma brincadeira.”

Posso evitar a angústia?

A gestão da ecoansiedade passa, em primeiro lugar, pela aceitação de que o problema existe e de que é natural uma pessoa sentir-se assim, embora deva encontrar estratégias para se manter funcional:

Perceber o que pode fazer para resolver o problema, numa escala que esteja ao seu alcance, ainda que seja incompleta

Estimular o contacto com pessoas que partilham das mesmas preocupações

Juntar-se a um coletivo para desenvolver trabalho colaborativo em prol do ambiente

Procurar o contacto com a Natureza que ainda não está destruída, pelo que ela tem de restaurativo

A meditação pode ser muito útil para ajudar a acalmar nos momentos mais ansiosos

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