Sexo: Os efeitos físicos e mentais e as histórias de um ano à míngua

Se, “antes disto tudo”, alguém lhe tivesse dito que ia estar mais de um ano sem ir para a cama com uma mulher, António havia de achar a ideia “completamente ‘fora’” e desataria a rir-se. “Gosto de sexo”, admite o designer gráfico, de 42 anos, com uma gargalhada. “Fui sempre saudável nesse aspeto, não punha a hipótese de que isso pudesse acontecer-me.” E, no entanto, foi o que lhe aconteceu. Ou melhor (“ou pior!”), o que está acontecer-lhe. Desde dezembro de 2019 que António não tem qualquer intimidade com uma mulher. “Nada.”

A entrada em 2020 foi marcada pelo “fim anunciado” de um namoro de quase dois anos. Na altura, aceitou o desfecho sem dramas. Divorciado, pai de uma criança pequena de quem tem a guarda partilhada, não podia antecipar que iria, em breve, ser “apanhado” por uma pandemia sem estar numa relação estável. A expressão é sua, como se a pandemia fosse um comboio em andamento e ele um passageiro involuntário numa viagem sem fim à vista. Se, até ao primeiro confinamento, ainda se envolveu sexualmente com duas pessoas que conheceu em saídas noturnas, em Lisboa, não tem “nada com ninguém” desde março do ano passado. “Como acabaram as noites e o resto da minha vida social e cultural está au ralenti, nada é mesmo nada”, repete. “E só espero que isto tudo acabe depressa antes que eu fique doido.”

Em clínicas por este País fora repetem-se os relatos de ausência de intimidade por causa da pandemia. E eles não são um exclusivo de homens. Também partem de mulheres como Clara, investigadora em Ciências Sociais, de 26 anos, que diz ter descoberto o prazer de ter prazer com vibradores (ou, mais especificamente, com um determinado vibrador), e como Diana, agente imobiliária, de 50, nos últimos meses muito ativa no sexting e nos telefonemas eróticos com um “amigo colorido”, que se mudou para o campo no início do segundo confinamento. “Às vezes, sinto-me aquela personagem do Robert Altman que fala de sexo com homens enquanto engoma a roupa [do filme Short Cuts – Os Americanos], mas sempre é melhor do que nada”, desabafa.

“A verdade é que tem sido um ano terrível para quem não está numa relação.” A frase é de Catarina Lucas, psicóloga clínica e terapeuta de casal, com especialidade em sexologia, que não escolheu o adjetivo de ânimo leve. Afinal, são muitas as queixas que ela e os colegas ouvem nos seus dois centros, em Lisboa e na Linha de Cascais. “As pessoas estão sozinhas e retraem-se a combinar encontros pontuais. Dizem: ‘Não vou sair com um estranho agora, não quero arriscar’.”

Faça-se aqui um parêntesis reto para sublinhar que a pandemia também tem sido difícil para muitos dos que estão numa relação e passaram a partilhar o mesmo espaço 24 horas por dia. “O teletrabalho afetou a sexualidade dos casais, porque mais presença não significa mais sexo ou melhor sexo”, lembra a mesma especialista, autora do livro Vida a Dois. “Isto porque existe o conceito de diferenciação, em psicologia, segundo o qual ‘tu existes sem mim e eu desejo-te quando estás a ser tu sem mim; ou seja, admiro-te quando não estás comigo, na tua individualidade’.”

Esse é um conceito que a psicóloga clínica e terapeuta sexual Rita Torres já explicou igualmente a alguns dos casais que ela segue em consulta. “Lembro-lhes de que, quando há espaço, existe maior desejo. Mesmo ao nível neuroquímico, o nosso cérebro funciona de maneira diferente quando estamos sempre com o nosso parceiro ou parceira.”

Mas voltemos a quem está, de momento, sozinho. Como é viver sem intimidade, nalguns casos há mais de um ano, sabendo-se que o sexo, não sendo uma necessidade fisiológica absoluta, contribui para a nossa saúde física e mental?

Desejo e autoestima
É sabido que o sexo nos deixa menos ansiosos, menos deprimidos e mais felizes. Ao nível orgânico, também se sabe que ele reforça o sistema imunitário, melhora o sono e, no caso específico das mulheres, que promove uma maior saúde do pavimento pélvico.

“Tanto do ponto de vista físico como mental, o sexo traz benefícios, mas, se não existir, temos uma saúde pior?” Catarina Lucas pergunta e responde: “Para algumas pessoas, não, mas há um impacto físico e psicológico. Até na questão da autoestima, de nos sentirmos desejados. Associamos o sexo à validação, a sermos amados – ‘Não me procuram, ninguém me procura, não me desejam’.” Quando somos desejados, a nossa autoestima aumenta.

“Na Declaração dos Direitos Sexuais, reconhece-se, inclusive, o direito ao prazer. Aliás, o conceito de saúde sexual e reprodutiva segue o conceito da Organização Mundial da Saúde – não é só a ausência de doença, inclui o direito ao bem-estar. Todos temos direito ao prazer sexual, que é uma componente do nosso bem-estar”, nota Rita Torres.

“Nós, profissionais, aconselhamos, por isso: aproveitem o confinamento para explorar a sexualidade a solo”, diz a mesma especialista. “Mas o ser humano precisa de contacto, e a nossa sexualidade com outra pessoa é uma forma de contacto, de receber e de dar afeto. Por isso, o autoerotismo acaba por, muitas vezes, não chegar.”

É diferente de pessoa para pessoa, sublinha a psicoterapeuta e sexóloga Marta Crawford: “Temos pessoas cuja sexualidade já se encontrava em queda antes da pandemia e que, por isso, estavam de alguma forma acostumadas à ausência de sexo, e outras que estavam fartas de estar sozinhas.”

Devemos, também, distinguir as duas fases da pandemia, sublinha a mesma especialista. “A primeira foi mais esmagadora, porque havia muito medo por causa das notícias devastadoras no mundo. Então, claramente, as pessoas que estavam sozinhas reprimiram qualquer contacto íntimo, mesmo aquelas que costumavam recorrer aos ‘amigos coloridos’ ou a apps como o Tinder”, recorda. “Dos testemunhos que recolhi, havia mais conversas, se calhar até mais envolvimento emocional, mas só recorriam a pessoas com quem já tinham estado antes e que sabiam que teriam cuidados de distanciamento, etc.”

A psicóloga clínica e terapeuta sexual Joana Florindo identificou igualmente duas fases distintas, nas suas consultas. “No início da pandemia, as pessoas fecharam-se de uma forma mais expressiva ao contacto ocasional ou mesmo à procura”, relata. “O sexo ficou um bocadinho suspenso.” E, nalguns casos, até hoje.
Foi o que aconteceu com Bernardo, 31 anos. Há um ano, o gestor abalançou-se a marcar através do Tinder um encontro com uma mulher, e não gostou da experiência. “Passeámos num jardim, em Lisboa, conversámos, mas nem demos um beijo. Tínhamos acordado que não íamos usar máscaras e, quando nos encontrámos, ela não foi capaz”, contou à sua psicoterapeuta, Ana Alexandra Carvalheira, professora no ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida.

Bernardo não é o seu único paciente a queixar-se da ausência de sexo durante a pandemia. “Tenho vários homens jovens, na casa dos 30, a contar-me que se fartaram das apps e de tentar marcar encontros reais. Relatam que a seleção de parceiras é cansativa. Desistiram e… bebem mais vinho.”

Acaba por ser um ciclo vicioso. “O medo gerou ansiedades que passaram para níveis acima do considerado aceitável, o que resultou em comportamentos estranhos – isolaram-se de tal forma que teve impacto negativo”, nota Marta Crawford. “Houve muitas situações de depressão e de ataques de pânico, o que tem grande influência na vida sexual. Uma pessoa deprimida não pensa em sexo.”

Dicas de como reinventar a sexualidade

A pandemia impactou as nossas relações de intimidade, o desejo e o prazer. A Ordem dos Psicólogos recomenda, por isso:

Aproveite para conhecer melhor o corpo
Descobrindo ou redescobrindo novas formas de ter prazer sozinho.

Explore a sexualidade de formas alternativas
Encontros virtuais, partilhar músicaou escrever cartas são experiências que podem estimular a intimidade.

Crie novos hábitos
O sexting (enviar mensagens de cariz sexual) e a partilha de fotografias ou de vídeos podem enriquecer a vida sexual e estimular a imaginação.

Aceite possíveis dificuldades
É natural que a pandemia tenha repercussões negativas na vida sexual. A ausência de desejo ou de excitação, por exemplo, são naturais, expectáveis e transitórias.

Mantenha o auto-cuidado
Cuidar do corpo é essencial para a saúde física, psicológica e sexual.

Aprenda mais sobre sexualidade
Ao ampliar o conhecimento, descobrem-se preferências e fantasias.

Procure ajuda
Se sente que precisa de aconselhamento, um psicólogo pode ajudar.

Fonte: Covid-19 e Sexualidade, Ordem dos Psicólogos, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e a Associação para o Planeamento da Família (janeiro 2021)

Neste caso específico da pandemia, o medo de contaminar o outro, seja o potencial parceiro ou algum familiar mais vulnerável, também pode afetar a libido. “Sobretudo na primeira fase da pandemia”, relata a psicóloga, “tive muitos pacientes temerosos na sua intimidade ou que entravam em quarentena com o novo parceiro e só depois voltavam ao contacto com a família. Até tive casais em que o pânico era tão grande que nem tinham sexo um com o outro ou, pelo menos, não se beijavam.” Se não fosse o medo, era a gestão do dia a dia a emperrar o sexo. Um “esquecimento” que foi transversal em termos de idades e de pessoas.

A solo
Nas consultas, por sugestão dos especialistas ou por autocriação, tem-se falado muito da masturbação como um aliado, sobretudo das mulheres. “Elas passaram a explorar a sua sexualidade a solo de uma forma que não faziam antes”, diz Ana Alexandra Carvalheira. “E até mulheres que nunca se tinham masturbado ou que não conheciam a importância do clítoris no prazer sexual.”

Note-se que a sexualidade a solo não compete com a sexualidade com o parceiro, são prazeres diferentes. Não se sobrepõe e também não substitui. “É, de qualquer maneira, uma boa oportunidade para as pessoas se conhecerem do ponto de vista sexual”, sublinha Catarina Lucas.

Nesta fase da pandemia, algumas pessoas já referem que voltaram a instalar o Tinder ou que estão mais ativas nas apps. “O digital veio para ficar e surge como uma solução, embora nem toda a gente dê o passo de se encontrar”, sublinha Catarina Lucas.

“As pessoas ainda vão com medo, mas têm já algum – pouco – contacto físico”, confirma Joana Florindo. “Entretanto, a pornografia tem sido um refúgio. Senti isso e também o emergir de outras formas de sexualidade, como o sexting, as mensagens com fotografias e vídeos… Tenta-se não perder o contacto, nem que seja virtual.”

Diana é um bom exemplo. Hoje, ainda questiona se está a viver “uma pequena perversão”, mas “cada vez menos” se acha “estranha”. Desde que o seu “amigo colorido” foi morar para longe, esta agente imobiliária passa parte das suas noites a falar com ele, ao telemóvel ou por videochamada. As conversas entre os dois nunca são iguais, mas andam muitas vezes à volta de sexo.

E é suficiente? “Eu consigo retirar prazer destes nossos jogos, mas tenho saudades de tocar e de ser tocada”, admite Diana. “Acho que é por isso que durmo pior e sonho muito.”

Chegamos até aqui e a pergunta impõe-se: afinal, faz mal viver sem sexo? “Mais uma vez, depende de cada caso”, repete Marta Crawford. “Há pessoas para quem o sexo não é importante. E também há quem olhe para a pandemia e o confinamento como algo de bom na sua vida. Tenho relatos de pessoas que estão a fazer o luto de uma relação e que acham que esta é uma fase boa para se reconciliarem consigo próprias. Referem-me que até lhes sabe bem. Não sentem pressão de lado nenhum, deixam passar o tempo para estarem disponíveis para o que vier depois.”

Além dos que vivem bem sem sexo, também há aqueles para quem a sexualidade só faz sentido dentro do amor e da intimidade, lembra Catarina Lucas. “Não havendo uma relação amorosa, a parte sexual não é necessária.”

Quando alguém verbaliza “não sinto falta”, isso pode ser real porque quanto menos se faz, menos vontade se tem, diz a mesma especialista. “O desejo diminui na ausência, a libido vai diminuindo. Portanto, as pessoas não estão a mentir, apenas não conseguem ver essa relação mais indireta.”

Imaginamos António a ler esta ilação e a rir-se muito. Resta-nos acreditar, como ele, que o fim da pandemia já vem perto.

*Nomes dos testemunhos alterados para preservar a sua privacidade

5 perguntas a Miguel Oliveira da Silva
“Disparou o consumo dos brinquedos sexuais”

FOTO: Marcos Borga

No seu ensaio Sexualidade e Reprodução em Portugal, Os Tempos da Pandemia (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, €3,15), o ginecologista-obstetra e professor de Ética Médica analisa os novos comportamentos que surgiram com o confinamento

Escreve que emergiram novos valores e uma nova ética. A que se refere?
Os novos valores são sobretudo uma consequência de comportamentos cuja prevalência não é a que se verificava no “normal” anterior. O facto de as pessoas estarem confinadas em termos de presença física fez com que aumentasse o acesso às plataformas digitais de encontros íntimos (como o Tinder e afins). E são apps que tanto dão para encontros sexuais fortuitos como, nalguns casos, para relações que se desenvolvem e perduram no tempo.

Entre outras mudanças, estamos mais digitais?
Estamos cada vez mais digitais, sim. E também disparou o consumo dos chamados “brinquedos sexuais”, em que o mais clássico é o vibrador feminino, sendo que, agora, o próprio parceiro pode pô-lo a funcionar à distância. Penso que as pessoas falam muito pouco umas com as outras sobre estes novos comportamentos, mas eles vieram para ficar.

Com que outras surpresas se deparou?
Houve um impulso, presume-se que feminino, de comprar contracetivos orais de curta duração. Em março de 2020, tivemos o maior número de vendas de pílula mensal até hoje. É interessante. Talvez por receio de rutura nas farmácias, numa altura em que ninguém sabia quanto tempo é que o confinamento ia durar, as mulheres quiseram ter um stock em casa? Simultaneamente, houve uma diminuição do consumo de preservativos e de estimulantes eréteis (viagras e companhia). Paradoxalmente ou talvez não.

Contraditório?
Sim, é um movimento aparentemente contraditório, em termos de sexualidade do casal. Mas não podemos esquecer a sexualidade extraconjugal, que quase desapareceu durante o confinamento – as pessoas não saíam de casa, e os hotéis e os motéis fecharam.

Podemos viver tranquilamente sem sexo?
O ser humano consegue ter mecanismos de sublimação. Por exemplo, na guerra ou quando um indivíduo está preso… até pode ficar sem sexo a dois durante meses e anos. A questão é querer fazê-lo. A verdade é que, não apenas por isso, mas talvez também por isso, nunca houve tantas consultas em psicólogos e psiquiatras, de pessoas com grandes ansiedades e depressões. Seguramente esse aumento também tem que ver com perturbações da afetividade e da sexualidade.

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