Famílias mudam-se para Bragança: Como é possível trabalhar (e viver bem) no interior transmontano

Foto: Lucília Monteiro

A antropóloga Chiara Pussetti, 48 anos, e o produtor audiovisual Hugo Carosa, 44, andam “encantados com a Natureza, as quedas de água, a comida (‘Ai o sabor da posta mirandesa…’) e as pessoas”, com quem têm metido conversa durante a primeira semana que já levam a morar em Rio de Onor, a aldeia raiana com 50 habitantes situada no Parque Natural de Montesinho, onde vão continuar em teletrabalho até ao final de maio. “É uma pérola. Sinto-me em casa. Já lhe chamo a minha aldeia”, confessa Chiara, sentada na cadeira do jardim virado para o rio, que tem sido o seu escritório nos dias de bom tempo, a orientar doutoramentos e trabalhos de investigação para a Universidade de Lisboa.

A viverem num apartamento na capital, o casal foi uma das quatro famílias escolhidas pelo município de Bragança para trabalharem durante um mês em Trás-os-Montes, no âmbito do projeto-piloto Liberdade para Recomeçar, inserido no programa europeu Find Your Greatness, e que é partilhado com outras seis cidades da União Europeia, entre as quais Wroclaw (Polónia), Perugia (Itália) e Budafok (Hungria). O objetivo principal, garante Hernâni Dias, presidente da Câmara de Bragança, passa por “estimular a deslocação de pessoas do Litoral para o Interior”, propondo-lhes “uma experiência social” e de vivência com os seus usos e costumes. E demostrando, claro, que a geografia é cada vez menos uma barreira para os nómadas digitais.

Quebrar rotinas Ivo Neto e Rita Vilaça escolheram trabalhar próximo do Castelo de Bragança, onde já encontraram os tradicionais caretos

Certo é que, em apenas uma semana, o município transmontano recebeu 1 879 candidaturas (1 576 de portugueses, dos quais 43% eram do distrito de Lisboa e 22% do Porto), entre propostas do Brasil, Reino Unido, Alemanha, Polónia e até da Rússia. A localização do alojamento (totalmente equipado e com internet ilimitada) ficou à escolha das quatro famílias, sendo que os custos – cerca de cinco mil euros – são totalmente suportados pela autarquia brigantina. Se o resultado for positivo, quem sabe se, no futuro, possa vir a transformar-se “num projeto a longo prazo que permita às famílias permanecerem mais tempo no território”, admite o autarca.

Regresso à Natureza
Chiara Pussetti soube desta iniciativa precisamente quando estava a meio de um estudo académico “sobre a reformulação dos projetos de vida de acordo com os conceitos de bem-estar no futuro pós-pandémico”, que está a levar a cabo no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Nem ela – de nacionalidade italiana, a viver em Portugal há 22 anos –, nem o companheiro, Hugo, conheciam Bragança ou Trás-os-Montes, mas Rio de Onor foi a escolha óbvia: “Para uma antropóloga, esta aldeia é um dos primeiros estudos importantes da etnografia portuguesa, um lugar especial na construção da identidade local”, justifica.

Ainda que vivam há poucos dias neste povoado, cuja vida é partilhada com a aldeia espanhola Rihonor de Castilla, já falam com a vizinhança como se fossem da família: “A tia Teresa ofereceu-nos ovos, cebolas e alhos. O tio Mariano estava a semear batatas e falou-nos de uns carvalhos centenários que tínhamos de ir ver, ali mais abaixo”, aponta Chiara. “É uma experiência enriquecedora, só temos a ganhar com ela. E a proximidade a esta realidade pode vir a transformar o ideal de alguém na possibilidade de uma mudança de vida”, lembra Hugo Carosa, que tem andado de olho em algumas casas a precisarem de reabilitação. “A pandemia obrigou-nos a repensar o futuro, há uma necessidade de contacto com a Natureza. Conheço muita gente a equacionar uma mudança”, acrescenta a antropóloga, que já nota alguns benefícios da estada: “Ando a dormir muito melhor. Adormeço constantemente. No outro dia, pus-me aqui fora a ler um livro académico e acho que só consegui ler o título [risos]”.

Natureza Chiara Pussetti e Hugo Carosa andam encantados com as quedas de água em Rio de Onor

Foi a vontade de “quebrar com a rotina” e o cansaço de estar “entre quatro paredes a trabalhar em casa” há mais de um ano, no Porto, que motivaram o jornalista e editor online do jornal Público, Ivo Neto, 33 anos, a candidatar-se ao projeto-piloto da autarquia de Bragança. Na altura, nem sequer contou à mulher, Rita Vilaça, 31, assessora de comunicação na Efacec, e também em teletrabalho, por achar que nunca seriam escolhidos para fazer as malas e viver durante um mês em Trás-os-Montes, com o gato Sebastião incluído. Mas foram. Antes de darem a resposta final, pediram autorização às respetivas chefias, que não colocaram qualquer entrave. “Só nos perguntaram se tínhamos internet”, lembra Rita.

A vizinhança recebeu de braços abertos a família da pequena Elsa, que, durante este mês, será a única criança a viver na aldeia

À cautela, o casal foi o único a optar por um alojamento na cidade, próximo do castelo, temendo ligações mais fracas de wi-fi nas aldeias do Parque de Montesinho. Certo é que, uma semana volvida a trabalharem à distância, os horários de um e outro têm sido cumpridos à risca, tal e qual como se estivessem no Porto. Com outras vantagens, no entanto: “Acordamos com o som das águas do rio [o Fervença]. Na hora de almoço sobra tempo para irmos ao café e, ao fim do dia, dá para darmos um passeio a pé ou correr no passadiço que fica mesmo junto à casa”, conta Rita, já com um plano bem definido dos sítios que vão querer visitar nos dias de folga – além das aldeias espalhadas pelo parque, o Centro de Ciência Viva, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, a Sé, os restaurantes típicos da região, Vinhais, além de Puebla de Sanabria, ao lado, em Zamora, na vizinha Espanha.

“Adoramos viajar e a pandemia roubou-nos isso. Passamos muito tempo em casa, queríamos aproveitar para fazer uma coisa diferente e realmente não conhecíamos Bragança”, assume Rita. “Sou jornalista e a verdade é que, por vezes, só visitamos estas zonas quando acontece uma tragédia. Estas regiões têm tanto potencial”, admite Ivo Neto, que há de aproveitar a estada no território para escrever um artigo sobre o lobo-ibérico. No fundo, o ritmo de trabalho pouco mudou na vida do casal. À exceção, claro, da paisagem que os colegas do Porto observam quando fazem as habituais reuniões diárias pelo Zoom.

A falta das crianças
Na aldeia de Montesinho, em pleno parque natural, a carrinha da padaria Papa Grão buzina às quartas e aos sábados para avisar os cerca de 30 habitantes que podem abastecer-se de pão, bolas de carne, bolos e até iogurtes. Mas até ao final de maio, contará com mais três fregueses: Mário Cunha, 34 anos, fotógrafo freelancer de Natureza, a mulher, Diana Carneiro, 31, instrutora online de ioga, e a filha, Elsa, de 4 anos, que vieram da Póvoa de Varzim, juntamente com o cão Ivy e o gato Leaf. Ainda nem ali vivem há uma semana e Elsa já aprendeu a semear cenouras e tem adorado ir buscar ovos ao galinheiro da dona Irene, a vizinha de 76 anos.

Vida no campo Em Montesinho, os dias de Mário, Diana e da filha, Elsa, dividem-se entre a fotografia, as aulas de ioga e o dia a dia da aldeia

Dá gosto ver Elsa numa roda-viva entre a típica casa transmontana com paredes de pedra, onde os pais escolheram trabalhar durante um mês, e a rua empedrada por ela caminha, afoita, de meias nos pés, a fazer bolinhas de sabão e a andar no baloiço de madeira na árvore. “Ela nem pede para ver televisão. Noto que anda mais calma”, conta a mãe, bióloga de formação, e que tem dado as aulas de ioga Vinyasa e Yin a partir do alpendre ou da sala de estar. Já Mário Cunha prefere sair de casa bem cedo, pelas cinco da manhã, à procura da melhor luz para as suas fotografias da paisagem. Esta oportunidade, conta, permitir-lhe-á juntar o útil ao agradável: “Quero criar intimidade com os locais para contar uma história da região através da fotografia.”

Dificuldades da vida na aldeia? “Talvez só o facto de não haver multibanco. Nos primeiros dias, quando apareceu o carro do padeiro e o da mercearia, percebemos que teríamos de ter sempre dinheiro para as despesas”, conta Mário. Dias antes, tinha furado um pneu e atolado o carro na montanha, mas nada que não tivesse resolvido com a ajuda dos moradores. “De resto, a nossa rotina diária de trabalho não mudou assim tanto. Sinto-me mais relaxada e até me dá mais o sono”, nota Diana. Quem anda de sorriso largo com os novos vizinhos é a dona Irene, principalmente com a vinda da pequena Elsa, que, durante este mês, será a única criança a viver na aldeia. “Para mim e para as outras velhotas, esta menina tem sido uma felicidade. Temos tantas saudades de crianças! E ainda não lhe mostrei os pintainhos que acabaram de nascer. Ai Jesus, quando ela os vir…”

De Bragança para o Reino Unido
Cansados de estarem fechados num apartamento em Lisboa, desde o início de 2020, a produtora criativa Maria João Freitas (Mia), 30 anos, e o fotógrafo e designer alemão Frederick Flade, 51, têm adorado a experiência de trabalhar no alpendre da casa (um pombal renovado), ao som dos pássaros, para os clientes no Reino Unido. “Não conhecíamos a zona, mas sempre ouvi falar tão bem de Bragança que não hesitei em candidatar-me”, conta Mia, freelancer de edição de vídeo e de conteúdos.

A ideia é “estimular a deslocação de pessoas do Litoral para o Interior”, propondo-lhes uma vivência com os seus usos e costumes

Escolheram ficar em Santa Maria de Rossas, apaixonados pelo design do antigo pombal com vista para a Natureza e para a aldeia com 300 habitantes. “Por causa da pandemia, agora é possível escolher onde queremos trabalhar”, sublinha Frederick, que não tem parado de tirar fotografias e anda a convencer os amigos estrangeiros a virem conhecer Montesinho de bicicleta. “Portugal é lindo. Estive em Londres a viver durante 20 anos e isto é um alívio.” Na preparação da mala, só tiveram uma dúvida: “Escolher entre trazer o monitor para o computador ou a Bimby? Trouxemos a Bimby. Parecíamos uns parolos com aqueles utensílios todos no carro [risos]”.

Nos primeiros dias, Maria João plantou uma figueira no terreno do pombal (“Nunca tinha plantado nada”, diz), e anda maravilhada com a qualidade da carne, do azeite e do mel da região. “É tudo maravilhoso. Vamos sair daqui mais gordos”, atira Frederik, ainda a salivar pelo javali com castanhas que provara na noite anterior. Mia conta que anda a escrever um diário pessoal sobre esta experiência, mas as descobertas na Terra Fria Transmontana hão de vir a dar vários artigos na revista digital que ambos fundaram, a Cultourista. E o casal ainda quer deixar uma sugestão à autarquia: “Para nós que vivemos na cidade, tudo o que queremos é vir para a Natureza. Às tantas, as pessoas daqui o que mais quereriam era passar uns dias na cidade. Será que não se poderia pensar nessa troca?”

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