Monsanto: As histórias e as fotos do início do parque florestal que é o pulmão de Lisboa

Os lisboetas habituaram-se a olhar para Monsanto como um ancião, um bosque primordial. Na realidade, quando se plantou a primeira das milhentas árvores que hoje cobrem aqueles mil hectares, Gonçalo Ribeiro Telles já levava 16 anos de vida. O homem que se tornaria um dos maiores protetores do parque cresceu a ver uma serra de Monsanto árida, pedregosa, ventosa e quase estéril, com moinhos abandonados aqui e acolá, que haviam servido para moer o trigo que crescia a custo nas encostas, e algumas oliveiras a entrecortar a paisagem. Os camponeses que calcorreavam a colina no início do século XX não a reconheceriam no século XXI.

Irreconhecível No início do século XX, Monsanto era uma serra árida, de solos degradados pelo cultivo do trigo. Só em 1938 começou a reflorestação. Em baixo, à direita, uma vista sobre o viaduto batizado com o nome do homem por detrás do projeto

A data oficial do nascimento do Parque Florestal de Monsanto, quando Duarte Pacheco, então ministro das Obras Públicas e Comunicações, assina o decreto-lei nº 24625 a propor a sua criação, é 1 de novembro de 1934 – há menos de 90 anos. São essas nove décadas que a Câmara Municipal de Lisboa quer já assinalar, com uma exposição, inaugurada nesta quinta-feira, 22, no Centro de Interpretação de Monsanto, que mostra as origens do que é um dos maiores parques urbanos da Europa. Uma história de persistência e triunfo, de erros e propaganda, e recheada de curiosidades.

Expropriados à força
A colina de Monsanto é provavelmente habitada há mais de 250 mil anos. Com água disponível e muito sílex para fazer instrumentos e armas, os povos do Paleolítico encontraram na região um bom local para se fixarem. Escavações arqueológicas têm descoberto machados, lâminas e pontas de seta em pedra, além de cerâmica do Neolítico. A floresta que existia nessa época terá sido substituída, aos poucos, pela agricultura e pelo pastoreio durante o Império Romano. No tempo do domínio muçulmano, a serra é dominada por campos de trigo, oliveiras, hortas, pastagens e pouco mais.

A origem do
bosque tem mão
humana, mas
entretanto a
Natureza tomou
as rédeas: hoje,
o que mais cresce
é a floresta
natural, trazida
pelas aves

A primeira proposta formal para arborizar Monsanto surge em 1868, pela mão dos geólogos Carlos Ribeiro e Nery Delgado, no Relatório acerca da arborização geral do País. Debatia-se então a reflorestação de Portugal, ao fim de décadas de delapidação do território, primeiro para a construção de navios, na época dos Descobrimentos, e depois para a construção dos caminhos de ferro, a partir do século XIX.

Nessa altura, vingavam na Europa as teorias higienistas e surgiam os green belts, cinturões de vegetação em redor das metrópoles “para contrabalançar a poluição das cidades”, explica Fernando Louro Alves, engenheiro florestal que trabalha no parque desde que era estagiário, em 1982, e uma enciclopédia viva da história de Monsanto. Além de criar um pulmão verde para a capital, o outro motivo da arborização era a recuperação dos solos degradados.

A ideia ficaria na gaveta durante mais de meio século, até ser recuperada por Duarte Pacheco. O ministro, no entanto, demite-se em 1936, sem que a obra avance. Só quando regressa, em janeiro de 1938, ocupando o cargo de presidente da câmara e, meses depois, acumulando com o de ministro das Obras Públicas, começam as plantações.

Miradouro de Monsanto O Restaurante Panorâmico, primeiro projetado por Keil do Amaral mas depois desenhado por Chaves Costa, foi abandonado e serve hoje de miradouro municipal

Em simultâneo, e num ritmo apenas possível em ditadura, decorrem as expropriações. Sem margem para negociações – o Estado definia o preço e dava um prazo, curto, para o proprietário abandonar o local. “A minha família foi expropriada em 1940 de um prédio de três andares por 40 contos”, diz Fernando Louro Alves. Ironicamente, o local acabaria por ser usado não para plantar árvores mas sim para instalar uma bomba de gasolina, que ainda hoje lá se encontra, na descida para o viaduto Duarte Pacheco.

A bomba Neste local, existia um prédio, expropriado (como centenas de outras propriedades) por 40 contos para fazer a floresta. Acabou por ficar para uma estação de serviço, ainda em funcionamento

Para albergar os desalojados de Monsanto, construiu-se o Bairro da Boavista, no perímetro do parque, inaugurado em 1939: largas dezenas de casas de lusalite, habitações temporárias durante 60 anos (a lusalite é uma mistura de cimento e fibras de amianto, substância que hoje sabemos ser cancerígena).

Para ajudar a definir o plano – se se aproximaria mais de um parque ajardinado ou de um bosque –, Keil do Amaral foi enviado em viagens pela Europa, para conhecer outros parques. O jovem arquiteto, de 28 anos, concluiria que a melhor solução seria uma floresta.

Um parque diferente Nos anos 40 e 50, Monsanto era um polo de todo o tipo de atividades desportivas, incluindo algumas pouco adequadas ao seu propósito inicial, como provas de Fórmula 1

A solução natural era optar por espécies autóctones, mas o regime tinha pressa em mostrar obra feita, e as árvores portuguesas demoram muito tempo a crescer. Contra a vontade de muitos silvicultores e botânicos, que preferiam plantar carvalho-cerquinho, sobreiro e azinheira, as autoridades decidiram apostar sobretudo em espécies de crescimento rápido, como o pinheiro-manso, e em exóticas, como a acácia e o eucalipto.
No arranque das ações de plantação, o governo viu uma oportunidade de promoção do regime, chamando os miúdos da Mocidade Portuguesa para ajudarem nos trabalhos. Os jornais publicaram fotos dos jovens de enxadas ao alto, numa sintonia perfeita que faz levantar suspeitas de ser uma encenação. Além disso, “enxadas no ar com as árvores já plantadas?”, questiona Fernando Louro Alves. Na verdade, o trabalho foi quase todo realizado por jardineiros da câmara, militares e prisioneiros da cadeia de Monsanto.

Apetites imobiliários
Ao longo dos anos, Monsanto atraiu projetos que desvirtuavam o propósito inicial, incluindo escolas, um hospital e até um campo de tiro e instalações do Automóvel Clube Português (chegou a haver três provas de Fórmula 1 no parque, nos anos 50). A pressão foi travada em 1974, com a publicação de um decreto-lei proposto por Gonçalo Ribeiro Telles a confirmar o parque como “espaço biológico” para proporcionar à população “contacto com a Natureza, sol, ar puro, repouso, recreio, desporto, ou seja, uma atividade cultural humanista e física que contrabalance o artificialismo do meio urbano”.

As colónias
de gatos à solta
no parque são
agora um problema:
caçam esquilos
e aves, ameaçando
o equilíbrio
do ecossistema

Este decreto revogava outro, publicado apenas quatro anos antes, descrevendo-o como tendo aberto “a possibilidade de alienações de vastas áreas do Parque para instalações públicas e recintos vedados, explorados por concessionários, que se perdem, efetivamente, como logradouros públicos da população em geral e constituirão causa de diversas formas de poluição provocadas pelo trânsito e bulício inerentes a tais instalações e recintos”.

As especulações imobiliárias ficaram assim relativamente estancadas, com um ou outro soluço pelo caminho (no início dos anos 2000, o vereador Vasco Franco sugeriu que o Casino Lisboa se mudasse para o parque, e o presidente da autarquia, Santana Lopes, tentou instalar no local a Feira Popular e um hipódromo).

Entretanto, o parque continuou a evoluir. A partir dos anos 80, as árvores de crescimento rápido foram diminuindo a sua área e as quercíneas (carvalhos, sobreiros e azinheiras) multiplicaram-se. A certo ponto, a Natureza toma as rédeas do seu próprio destino. “O que está a regenerar-se agora é a floresta trazida pelas aves, que é muito mais diversificada”, conta Fernando Louro Alves. “Os técnicos limitam-se a catalisar um processo natural, criando, por exemplo, abertas que permitam à luz chegar ao solo.”

O resultado é uma explosão de vida. Atualmente, há 40 a 50 espécies de árvores, 100 a 150 de arbustos, 150 a 200 de cogumelos, e muito mais. “Em 1982, conseguia identificar 12 ou 13 espécies de orquídeas silvestres, que ocorrem naturalmente e são um indicador de biodiversidade. Hoje, há pelo menos 23”, diz o engenheiro florestal. E a fauna acompanha a flora. “Há mais de 100 aves diferentes no parque, com destaque para a população de melros.” Mas Fernando tem uma queda especial pelos gaios, “coloridos, bonitos, exuberantes”, e conta uma história com um em particular. “Um casal de gaviões apareceu, fez ninho e teve crias; um gaio aprendeu o canto do gavião e divertia-se a imitá-lo, já depois de os gaviões se terem ido embora, e assustava as outras aves.” Em 2013, aterrou no bosque um emigrante: um caimão-americano apareceu por engano, na sua viagem sazonal sobre o Atlântico, e tornou-se uma vedeta. Vieram fotógrafos de todo o lado, até de vários países do Norte da Europa. Mas encontrava-se debilitado e acabou por morrer.

Entre os mamíferos, o destaque vai para o esquilo, símbolo do parque, mas também há ginetas, doninhas e, ocasionalmente, raposas. O mais comum, no entanto, é o gato doméstico, e isso não é uma boa notícia. “São um problema grave”, alerta Fernando Louro Alves. “As populações de esquilos e de aves estão a decrescer por causa das colónias de gatos, que mantêm o instinto predador e geram um desequilíbrio no ecossistema.”

Bosque feito para gente A Casa de Chá dos Montes Claros, nas fotos de cima, é talvez a obra mais emblemática de Keil do Amaral em Monsanto; em baixo, o Parque Municipal do Alvito

Outro desafio é conciliar a necessidade de manter a floresta natural (Monsanto é, aliás, o único parque urbano europeu com certificação florestal sustentável) com o seu papel de escape ecológico dos cidadãos. É esse o caminho apontado pela estratégia de gestão “Monsanto 2030”, em consulta pública até 3 de maio, continuando a política que tem sido seguida nos últimos anos, diz José Sá Fernandes, vereador do Ambiente da câmara. “Arranjámos os trilhos dentro do parque, reabilitámos vários equipamentos e, acima de tudo, aproximámos os lisboetas do parque com os corredores verdes.” Essa rede de percursos pedestres e cicláveis, que partem da malha urbana em direção à floresta, vai ser reforçada em breve com a pista da Rua Conde de Almoster, que abrange toda a zona de São Domingos de Benfica até Sete Rios.

Outras duas medidas que se seguem, acrescenta Sá Fernandes, são as acalmias de tráfego e a experiência-piloto com um autocarro para servir em exclusivo o parque e a Tapada da Ajuda. “Monsanto entrou dentro da cidade. Foi um processo que durou muito tempo, mas nos últimos anos tornou-se evidente: todos os dias os lisboetas vão para o parque.” À descoberta da velha floresta que, afinal, é nova.

O criador Duarte Pacheco mostra os planos de Monsanto a Carmona, Presidente da República, que plantou a primeira árvore, em 1938

Duarte pacheco, o visionário

O parque nasceu da persistência do ministro das Obras Públicas de Salazar. Um acidente de viação matou-o aos 43 anos – o homem não terminaria a obra

Muita gente contribuiu para a existência da floresta de Monsanto, mas Duarte Pacheco eleva-se acima das outras pessoas. Nascido em 1900, o 11º e último filho de um comissário da polícia foi um aluno brilhante do Instituto Superior Técnico, de que se tornou professor catedrático aos 25 anos e diretor aos 27. Após uma curta experiência como ministro da Instrução Pública, num dos governos da Ditadura Nacional, é convidado por Salazar para o cargo que o definiria. É como ministro das Obras Públicas e Comunicações que assina o decreto-lei nº 24625, a promover a criação de um parque florestal em Monsanto. Abandona o governo em 1936 devido a pressões relacionadas com processos de expropriação. Regressa pela porta grande em 1938, como presidente da Câmara de Lisboa, e meses depois recupera o seu ministério, em acumulação de funções. Manda avançar várias obras (Estádio Nacional, Aeroporto, Marginal…) e organiza a Exposição do Mundo Português, em 1940. Encomenda novo estudo para Monsanto, que ficara parado na sua ausência, mas não termina o trabalho: morre em 1943, num acidente de viação perto de Vendas Novas, um mês antes de o parque estar definido. Tal como Salazar, nunca se casou nem teve filhos. Dizia que não tinha tempo para tais coisas.

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