Tudo o que vai mudar no trabalho: As grandes tendências, as competências mais procuradas e os empregos em risco

Antes de o termo Covid-19 ter entrado nas nossas vidas, já todos sabíamos o que aí vinha. Mais automação e robotização, mais flexibilidade e adaptabilidade pedidas aos trabalhadores, mais competências adquiridas e afinadas durante a carreira – ainda mais longa por causa do inverno demográfico que pende sobre as nossas cabeças. No fim de tudo isto, teríamos velhos empregos destruídos e novas ocupações criadas no seu lugar.

Estas eram as balizas que desenhavam o futuro do trabalho, pelo menos nas economias mais avançadas. Da mesma forma, não eram novos os debates em torno da semana de quatro dias, nem o crescimento da gig economy e o trabalho remoto. Mas ninguém esperava pelo abanão que nos obrigou a responder com o digital às necessidades de distanciamento, sobrepondo casa e escritório ao longo dos sucessivos confinamentos.
De repente, profissões na linha da frente (saúde, grande distribuição, agricultura, logística e serviços básicos) saltaram para o topo das mais requeridas; quem tinha trabalho que pudesse ser feito a partir de casa assegurou emprego e rendimento – prova dos efeitos desiguais desta crise; o socorro dos apoios sociais não chegou a todos, muito menos com a dimensão vista noutros países. Mas, depois de a poeira assentar, com vacinação em massa e imunidade de grupo, teremos todo um novo mundo do trabalho? Ou uma versão 2.0 ou 3.0 daquilo que já se anunciava como irreversível?

A pandemia veio quebrar o tabu do trabalho fora do escritório para a maioria das funções que pode ser cumprida com um computador e um acesso decente à internet. Em 2019, Portugal estava a meio da tabela no teletrabalho na União Europeia, com pouco mais de 15% dos trabalhadores habitual ou ocasionalmente em modo remoto. Em dez anos, a percentagem mais do que triplicou, mas o País continuava distante do Luxemburgo, Holanda ou Suécia, onde mais de um terço já trabalhava fora do escritório. Em 2021, mesmo com a doença por debelar, a experiência de um ano de trabalho à distância e a esperança num regresso a alguma da normalidade anterior parecem deitar por terra as profecias que apostavam numa transferência da totalidade das funções que eram inteiramente presenciais para um regime de trabalho remoto.

Ao nível mundial, algumas empresas estão a fazer marcha-atrás, e o trabalho a partir de casa não é mais letra gravada na pedra. A Google, por exemplo, antecipou o regresso dos seus trabalhadores ao escritório para 1 de setembro. A Amazon clarificou que pretende recuperar o escritório como centro da sua cultura, enquanto o Facebook e o Twitter conseguiram sempre manter-se suficientemente vagos para deixar tudo em aberto nos anos que se seguirão. Gigantes históricos, como a Citigroup e a Ford, puseram a maioria ou uma grande parte dos seus trabalhadores debaixo do chapéu do trabalho híbrido, o canário na mina para o fim do trabalho exclusivamente presencial.

Segundo a Randstad, que nesta semana divulgou o seu Workmonitor 2021, 77% dos trabalhadores portugueses querem voltar ao local de trabalho, vontade estimulada pelo avanço no processo de vacinação. “As pessoas estão absolutamente ansiosas por regressar aos locais de trabalho. A pandemia veio mostrar que se pode trabalhar à distância e que há situações em que isso é agradável. Mas também mostrou que muito tempo em casa não é bom para a saúde mental e familiar”, dizia recentemente à Exame Eduardo Baptista Correia, presidente do Taguspark, onde, antes da pandemia, trabalhavam presencialmente 16 mil pessoas.

Neste parque de Ciência e Tecnologia, a PHC inaugurou, este mês, a sua sede, quatro mil metros quadrados feitos de raiz e que custaram 12 milhões de euros. Um projeto que parece vir contracorrente – ainda vale a pena apostar as fichas em betão e vidro, quando muitos duvidam do futuro do escritório? A empresa garante que sim e que já há três anos previa um conceito híbrido, o qual permite executar em casa tarefas que exigem foco e fazer no escritório as que requerem colaboração e maior criatividade. Depois de visitar as melhores práticas, Silicon Valley incluído, desenharam a nova sede. “Tudo neste edifício foi pensado e adaptado para uma nova era de trabalho”, diz Ricardo Parreira, CEO da tecnológica.

O sobe-e-desce dos empregos procurados

A tecnologia continua a ser o setor que mais contrata, mas áreas como ambiente e saúde vão necessitar de novos talentos. A automatização traz sentença de morte a outras ocupações

SOBE

Profissionais, técnicos e auxiliares de saúde e cuidadores
A necessidade destes profissionais, que vinham a ser requeridos pelo envelhecimento da população, foi mais evidenciada recentemente

Atividades criativas e gestão de artes
A criatividade está entre as 15 competências com mais procura até 2025

Economia verde
A transição energética e a descarbonização da economia vão viabilizar, até 2050, 40 milhões de empregos nas renováveis e na eficiência energética

Profissionais STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática)
Analistas e cientistas de dados, especialistas em machine learning e Inteligência Artificial, big data, estratégias de marketing digital e processos de automação estão no top das funções mais requeridas até 2025

Analista de IoT
Responsável pelos sistemas que fazem a conexão digital entre vários aparelhos eletrónicos. A IoT (internet das coisas) será uma realidade bem presente quando se massificarem as redes de 5G

Analista de big data
A captação e a análise de grandes quantidades de informação será essencial para melhorar o funcionamento da maioria das empresas e localizar novas oportunidades de negócio

Gestor de realidade aumentada
Criar universos paralelos em que o utilizador consegue interagir com elementos virtuais é uma tendência crescente. Já usada em lojas de mobiliário e decoração, que simulam o posicionamento dos objetos numa casa real, a tecnologia tem tendência a estender-se à grande maioria das indústrias

Gestor de tráfego de drones
Muitas empresas de comércio online estão a estudar entregas em casa através de drones, o que poderá criar uma nova realidade de tráfego nas grandes cidades. Mesmo com controlo digital, a gestão dos processos terá de recorrer ao elemento humano

Peritagem digital
Com o aumento exponencial da recolha e do uso de dados online, os crimes cibernéticos tenderão a aumentar. Muitos governos, corporações e agências de segurança começam a reforçar as equipas que se ocupam desta área

Serviços de transporte
A aceleração do comércio eletrónico, trazida pelos efeitos da pandemia, deverá refletir-se no aumento das atividades associadas a transportes e logística

Experiência com o cliente
Mais do que vender produtos ou serviços, no futuro as empresas querem desenvolver interações permanentes com os clientes, dando-lhes assessoria e promovendo a satisfação da experiência

Cuidador geriátrico remoto
O envelhecimento da população mundial, especialmente na Europa, a par da evolução do mundo digital, criará novas oportunidades de emprego. Entre elas estão os chamados walker talkers, que ajudam remotamente os idosos a passar o tempo

Engenharia ambiental
A preocupação com o desenvolvimento sustentável e a preservação do meio ambiente cria pressão sobre os líderes mundiais para investirem na recuperação e na preservação dos habitats naturais

Gestor de Ethical Sourcing
Garantem que os seus produtos utilizam bens, serviços ou matérias-primas oriundas de fontes responsáveis e sustentáveis. Analisam ainda o impacto ambiental e social dos seus fornecedores, bem como as suas práticas laborais

Técnico de telemedicina
A redução da latência da nova geração de telefonia móvel permitirá realizar consultas médicas e até cirurgias à distância. Esta tecnologia criará a necessidade de técnicos especializados para estas competências

Gestor de talentos
Cada vez mais as empresas tentam atrair talentos para as suas organizações. Mas criar políticas para os reter é por vezes mais difícil. Por essa razão algumas grandes multinacionais já criaram esta função que terá tendência a crescer

DESCE

Agricultura
A redução da procura será sentida sobretudo na China e na Índia

Produção e trabalho de armazém
Entre os mercados analisados pelo McKinsey Global Institute, apenas na China se perspetivam aumentos nesta categoria

Reparações e instalações mecânicas
Também os operários de fábrica, envolvidos em operações de montagem, deverão ser menos procurados

Funções de apoio de escritório
Ocupações relacionadas com introdução de dados, secretariado, contabilidade e auditoria estão entre as que verão a procura reduzir-se

Vendas e serviço ao cliente
Gerentes administrativos, serviços comerciais e funcionários de atendimento ao público também estarão na rota descendente

Profissionais de telemarketing
Os chamados chatboots e os assistentes de voz, associados à Inteligência Artificial, são mais eficazes a transmitir informação comercial a potenciais clientes

Motoristas
Apesar de ainda não circularem de forma livre nas estradas, os carros autónomos poderão massificar-se em 15 a 20 anos

Arrumar a casa antes da mudança
Trabalho híbrido não é para todos, mas a forma como a tecnologia foi chamada a abolir à força distâncias abriu a porta a possibilidades até aqui reservadas a uma fatia muito estreita da mão de obra. Potencialmente, com um computador e uma ligação estável à internet, qualquer um poderá trabalhar para qualquer empresa, em qualquer lado do mundo, tornando a condição de nómada digital em apenas mais uma linha no seu currículo.

A mudança para este modelo de trabalho obrigará a reforçar as capacidades de videoconferência dos trabalhadores, para garantir uma comunicação fluida. Além disso, será preciso dar novas competências às lideranças para gerir em plano de igualdade equipas presenciais e deslocadas, e otimizar a ocupação dos espaços nos escritórios.

Construir cultura e agregar equipas são alguns dos maiores desafios trazidos pelo distanciamento no trabalho. Durante este primeiro ano de confinamentos intermitentes, milhares de trabalhadores, recém-chegados ao mercado, fizeram a integração na equipa a partir da sua sala de jantar ou da cozinha, em “escritórios” improvisados. Muitos encontraram o primeiro emprego através do ecrã de um computador e não sabem quando conhecerão os seus colegas pessoalmente pela primeira vez.

É o caso de quase todas as 450 pessoas que entraram na Critical TechWorks (CTW), no último ano, que foram recrutadas e integradas remotamente. Os primeiros dias, normalmente de ambientação ao espaço físico e aos colegas, foram trocados por imagens a duas dimensões, caras em quadradinhos e tarefas e metodologias de trabalho distribuídas por email e explicadas por videoconferência.

Entre os novos colaboradores, “houve muita ansiedade e dúvidas sobre como ia ser a experiência. Punha-se logo a pergunta: ‘Como é que eu vou começar a trabalhar?’”, lembra Sara Pereira, uma das responsáveis de recursos humanos da joint-venture entre a Critical Software e a BMW. Aos mais juniores foi atribuído um tutor e tentou-se colmatar a distância com a tecnologia, embora os ecrãs não substituam o frente a frente, o que penaliza o vínculo com a empresa e dificulta a retenção.

Luís Santos Teixeira foi um dos que viram parte do recrutamento feito de forma remota. Desde novembro na CTW, apesar de não estar entre os newbies da Geração Z – tem 45 anos –, também vinha com dúvidas sobre o trabalho à distância. “Tinha receio de não conseguir mostrar valor ao nível pessoal e profissional, e de não conseguir entregar resultados. Mas, com a agenda e os eventos de comunicação, não sinto que isso se tenha verificado. E não sinto diferenças em termos de produtividade”, explica à VISÃO. O que mudou em muitas das pessoas que, a partir de março, experimentaram pela primeira vez trabalhar à distância foi “a desmistificação do conceito, da ideia de coolness de trabalhar remotamente”, defende. “Há uma grande mudança de opinião, as pessoas perceberam o que é trabalhar e ter os miúdos por perto, ter o vizinho em casa. Sentem que são mais produtivas e focadas no local de trabalho.”

A empresa, que defende um modelo híbrido e de flexibilidade total, está a preparar o espaço físico para tal e a trabalhar pacotes de incentivos e de benefícios para aplicar no futuro, tendo em conta não só o estímulo ao trabalho remoto mas também o regresso ao escritório. “Não acreditamos no trabalho remoto a 100%, porque as pessoas já tiveram essa experiência, sentem falta das interações. Mas vamos ter de lutar para trazer as pessoas para o escritório, de motivá-las e de cativá-las para este regresso”, admite Sara Pereira, numa altura em que 90% dos trabalhadores estão fora do escritório.

Também Diogo Santos, partner da Deloitte, que no final do ano passado realizou um estudo nacional sobre o futuro do trabalho, admite que, “nos últimos meses, as empresas evoluíram bastante em política de teletrabalho. Há um consenso generalizado em reduzir para 20% a 40% o pessoal em trabalho remoto, no futuro”, diz.

Um claro retrocesso em relação aos números do estudo que foi divulgado em fevereiro último. O que mudou? Diogo Santos explica que este novo confinamento trouxe à tona outros fatores, um dos quais relacionado com a relação humana com o emprego. “Há uma maior necessidade de fomentar a ligação emocional dos trabalhadores aos seus colegas e à própria empresa. Por várias razões. A formação, o acompanhamento das chefias, integração na cultura, entre outros, estão agora mais presentes nesta tomada de decisões. E estes processos ficam bastante dificultados com o trabalho remoto.”

Mas não é apenas a ligação emocional que está a provocar este ajustamento das políticas de trabalho. A produtividade também tem um papel importante nesta nova abordagem. “As organizações chegaram à conclusão de que há determinadas funções que, mesmo sendo possíveis de ser executadas a partir de casa, não têm o mesmo índice de produtividade como no escritório”, garante.

O gestor admite que cada empresa irá adotar políticas de trabalho em função dos cargos e das tarefas que cada um desempenha. Por um lado, “iremos assistir a diferentes níveis de trabalho remoto e a modelos de interação entre equipas que melhor se adaptem à nova realidade” e, por outro, há empresas que estão a permitir “que seja o funcionário a determinar qual o modelo que melhor funciona para o seu caso” e, se a sua decisão for aceite, o empregador terá ainda de “ponderar em que medida as condições de trabalho a partir de casa têm de ser alteradas para que o funcionário seja tão produtivo como no escritório”.

Dar gás a uma revolução em curso
Além do trabalho remoto, que ao nível global cresceu quatro a cinco vezes mais face ao período pré-Covid-19, as consequências da crise de saúde pública aceleraram outros fenómenos, como as interações virtuais (substituindo viagens de negócios e penalizando negócios associados); a automação e a Inteligência Artificial; e a digitalização, que fez disparar o comércio eletrónico e conceitos como banca, medicina e entretenimento online. Por outro lado, a “economia de entrega” (UberEats, Glovo) veio para ficar, aumentando o trabalho temporário e independente mas também as dúvidas sobre a proteção social destas ocupações.

O que se passou nos últimos meses dará ainda mais impulso às mudanças do trabalho no futuro. Num relatório do McKinsey Global Institute, estima-se que em oito países analisados o número de trabalhadores que terá de encontrar uma nova profissão possa agora ser 12% superior ao que se previa antes da pandemia (mais de 100 milhões, ou um em cada 16), afetando sobretudo mulheres, minorias étnicas e jovens.

Empregos-refúgio, com salários mais baixos e requisitos menos exigentes (como nas áreas da alimentação, serviço ao cliente ou hotelaria), tenderão a reduzir-se, tal como os que exigem maior proximidade física.

No seu lugar, surgirão ocupações mais especializadas e com vencimentos mais elevados, nos cuidados de saúde, nas tecnologias, no ensino e no trabalho social. As mudanças que estão a desenhar-se no horizonte vão exigir mais atualização de competências do que antes da pandemia, bem como maior capacidade socioemocional.

E se há setor que vai continuar a gerar empregos por muitos anos é o das tecnologias de informação. As startups competem pela captação de talento, que é cada vez mais raro e mais caro. “Há muita concorrência. É o mercado a funcionar no seu melhor, porque se está a criar valor nas várias áreas”, salienta Nuno Sebastião, fundador e presidente da Feedzai, empresa que recentemente atingiu uma avaliação superior a mil milhões de euros.

Para colmatar o problema, o gestor do novo “unicórnio” português defende que as empresas têm de apresentar um desafio importante ao colaborador, ter uma boa aposta ao nível técnico e gerar valor. “Nós gastamos 33% do nosso orçamento em investigação e em desenvolvimento. Isto está ao nível das melhores tecnológicas mundiais”, exclama.

Esta criação de valor está também a atrair profissionais das áreas das matemáticas “que, há uns anos, na sua grande maioria, acabariam a dar aulas. Hoje têm a opção de escolha”, porque nós valorizamos essas competências. Temos mais gente a fazer investigação primária na área de machine learning do que a Universidade de Coimbra, do Porto e o Técnico juntos”, afirma.

Outra das razões que Nuno Sebastião aponta para o sucesso da Feedzai em conseguir atrair talentos é a sua política de criação de valor e de distribuição de riqueza. “Cerca de 15% do capital da Feedzai está nas mãos de trabalhadores. Não há outra empresa desta dimensão que tenha o capital tão distribuído pelos colaboradores. À valorização atual, isto representa cerca de 200 milhões de euros. É muito dinheiro. E nós queremos multiplicar a empresa por três a cinco vezes. E se isso for executado, esta partilha de valor com os funcionários pode representar quase mil milhões.”

Desafios em português
Instituições como o Fórum Económico Mundial e consultoras e empresas de recursos humanos anteveem um aumento da procura por profissões ligadas à saúde, incluindo cuidadores; às atividades criativas e gestão de artes; as ocupações relacionadas com ciência, tecnologia, engenharia e matemática (como especialistas em dados, machine learning e Inteligência Artificial, marketing digital e automação); profissões ligadas à economia verde ou aos transportes. Pelo contrário, nos oito mercados que a McKinsey analisou, é esperada uma redução da procura em áreas em que deverão ser introduzidas uma elevada mecanização e automatização, como a agricultura, o trabalho de armazém, operações de montagem e funções administrativas e de apoio ao cliente (ver Sobe-e-desce dos empregos procurados).

Em Portugal, as estimativas da consultora apontam para perdas de 1,1 milhões de empregos ao longo dos próximos dez anos, sobretudo em funções mais manuais e repetitivas na indústria e em serviços com pouca inteligência associada. A exposição ao setor terciário, mais vulnerável a estas mudanças, coloca o País na linha de impacto de deslocalizações, mas isto pode ser uma vantagem para recrutar trabalhadores no estrangeiro. Ponto positivo são também as boas qualificações dos trabalhadores a custo substancialmente menor do que os concorrentes, entende Duarte Braga.

O sócio-sénior responsável pelo escritório da McKinsey na Ibéria e em Andorra defende que os grandes desafios do País passam pelo problema demográfico – que comprime a mão de obra do lado da oferta e o consumo do lado da procura – e pelo reskilling e upskilling. E antecipa um problema social “difícil de resolver” no panorama europeu, caso não haja uma estratégia para a mudança e atualização de competências dos trabalhadores que ficarão de fora da transformação. “Há a ideia de que podemos saltar de emprego, mas não a de que podemos assumir que o que fazemos passa a ser irrelevante e que temos de nos reinventar. A realidade vai mudar mais depressa no futuro do que no passado, e a maior parte de nós vai ter várias profissões ao longo da vida. Não podemos chegar aos 55 anos, ir para a pré-reforma e não ser útil. Temos de passar a ter uma segunda ou uma terceira vida”, defende à VISÃO.

O que vem aí?

O Livro Verde para o Futuro do Trabalho, já apresentado aos parceiros sociais, vai ser o guia para redesenhar a legislação laboral do futuro. Prevê o teletrabalho, a adoção de modelos híbridos e até o direito a desligar

Mais regulação
Melhorar a regulação do teletrabalho, com salvaguarda dos princípios basilares do acordo entre empregador e trabalhador e de que não existe acréscimo de custos para os empregados. Aposta em modelos híbridos de trabalho, numa ótica de equilíbrio na promoção das oportunidades e de mitigação dos riscos desta modalidade

Atrair talento
Posicionar Portugal para atrair nómadas digitais, reforçando as estratégias de comunicação e promoção do País, criando um enquadramento fiscal e um sistema de acesso à proteção social, específico para a melhor integração

Plataformas digitais
Regular o trabalho em plataformas digitais e criar um sistema contributivo e fiscal adaptado a esta nova realidade

Áreas-chave
Apostar em domínios estratégicos e com potencial de crescimento do emprego, tanto em setores e competências fortemente ligados à digitalização e à tecnologia, à transição climática e energética e à internacionalização da economia portuguesa, entre outros, como nas áreas ligadas à satisfação de necessidades sociais, dos cuidados à saúde

Teletrabalho
Alargar as situações em que o trabalhador tem direito a teletrabalho, independentemente do acordo com o empregador, em modalidade de teletrabalho total ou parcial, nomeadamente no âmbito da promoção da conciliação entre o trabalho e a vida pessoal e familiar, em caso de trabalhador com deficiência ou incapacidade

Direito a desligar
Regular o direito do trabalhador à desconexão do local de trabalho ou ao desligamento profissional

Proteção social
Adequar o sistema de Segurança Social às novas formas de prestar trabalho, alargando a sua cobertura a todos os trabalhadores, independentemente do respetivo vínculo jurídico. Implementar uma reforma digital da Segurança Social e apostar na personalização das respostas e no uso da Inteligência Artificial

Novos modelos
Permitir, em sede de negociação coletiva, modelos de trabalho que integrem também objetivos e prazos mensuráveis e concretos, além do número de horas de trabalho. Alargar a cobertura da negociação coletiva a novas categorias de trabalhadores, incluindo o regime de outsourcing e trabalhadores independentes

O relatório da consultora dá como exemplo a reconversão de um caixa de supermercado, nos EUA, que passaria a trabalhar em setores onde haverá maior procura de mão de obra, como transporte, vendas, tecnologia ou saúde. Graças a esta transição, poderia tornar-se um condutor de camião, um técnico de imagiologia ou um gestor de sistemas de informação, posição em que ganharia em média sete vezes mais por ano do que na função original.

A reboque da lei da oferta e da procura, Rui Teixeira diz que é de esperar que sejam as funções mais requisitadas também a serem as mais bem pagas, em particular as que são essenciais para a transformação digital. “Funções nas tecnologias de informação têm uma tendência para serem mais bem remuneradas e valorizadas, pela escassez de talento e pela necessidade de as empresas investirem e se transformarem,” afirma o chief operations officer da ManpowerGroup Portugal. Já Duarte Braga vê uma correlação direta entre o vencimento e os níveis de responsabilidade perante o desconhecido. As funções mais bem pagas “vão ser sempre aquelas que exigem mais gestão da incerteza e do risco. E isso encontra-se em muitos setores”.

Do lado das empresas, será ainda preciso rever e alinhar as ofertas de compensação e de benefícios com as novas expectativas pós-pandemia dos trabalhadores, como acontece com a CTW. “Há um ano, um trabalhador valorizava um subsídio de refeição, transporte ou viatura de serviço. Hoje será diferente, valorizará outro tipo de compensação. A política de fringe benefits terá de ser repensada”, aponta Rui Teixeira, que ainda assim diz ser cedo para saber quais as mudanças a fazer.

O futuro está agora a ser desenhado, mas há ganhos trazidos por esta pandemia que já não se perdem. Alguns deles no campo da gestão e da interação entre chefias e respetivas equipas. “Houve uma adaptação muito difícil ao nível da liderança no primeiro período do confinamento. Foi necessário tomar várias decisões de uma forma muito rápida e adaptar as organizações a uma nova realidade, no espaço de poucos dias”, explica Nuno Fernandes, sócio da Walking Mentorship, uma empresa de mentoring para gestores.

Na sua experiência de lidar com quem gere, Nuno salienta que o maior problema dos decisores durante a pandemia foi a sensação de perda do controlo sobre as equipas, o que acabou por provocar um grande desgaste emocional. “A tendência foi carregar mais nas tarefas e nos prazos de entrega para garantir que as pessoas estavam de facto a trabalhar, e isso causou imensa perturbação”, esclarece.

Aos poucos, a confiança foi sendo restaurada e quem lidera acabou por atribuir uma maior autonomia e responsabilidade às suas equipas, libertando os responsáveis para outras funções e conseguindo ganhos de produtividade. “Hoje, esta nova forma de liderar e a delegação de competências são vistas como uma das maiores conquistas durante o teletrabalho. Muitos admitem que, mesmo que regressem ao trabalho presencial, não irão mudar os processos. São ganhos evolutivos que já não voltam atrás”, confia Nuno Fernandes. Quem diria que seria preciso um evento imprevisível com a magnitude de uma pandemia para nos empurrar e ajudar a dobrar um cabo avistado há anos?

As competências que vão valer

Já não basta ser bom tecnicamente. As competências comportamentais e interpessoais, as chamadas soft skills, tenderão a ter um peso maior na tomada de decisão, na altura de contratação deste ou daquele profissional

As mais procuradas

Capacidade de adaptação

A possibilidade de se adequar rapidamente aos cenários e às transformações que ocorram será crucial

Aprendizagem ativa

A automotivação e a disponibilidade para a construção do próprio conhecimento podem fazer a diferença para um colaborador dentro de uma organização

Raciocínio analítico

Competências de análise e de compreensão dos cenários, o que permite resolver problemas de forma ordenada e lógica

Pensamento crítico

Aptidão para entender, avaliar e produzir raciocínios e argumentos

Criatividade
Capacidade de criar, inventar e trazer ideias originais para cima da mesa

Influência social
Ajudar empresas e marcas a gerar maior afinidade com os seus clientes

Inteligência emocional
Aptidão para identificar e gerir os sentimentos e as emoções de outras pessoas

Persuasão e negociação

Aptidão para convencer o outro a aceitar ou a executar algo

Perceção social
Interpretação do comportamento das outras pessoas

Em descontinuação

A capacidade de efetuar depressa tarefas rotineiras e repetitivas tenderá a deixar de ser um fator decisivo para a contratação de profissionais

Funções repetitivas
Atividades rotineiras, como criação de relatórios, copiar e colar folhas de Excel, até à cirurgia. Neste último caso, as máquinas, com base em experiência continuada e repetitiva, conseguirão fazer melhor do que um humano, enquanto os médicos ficarão reservados para atender às exceções

Interação física
Em alguns setores mais afetados pelas limitações da pandemia, como a hotelaria, o retalho ou a banca, as competências associadas ao atendimento presencial deverão ser adaptadas a um funcionamento através de negócios online e de canais digitais

Mais na Visão

Atualidade

Gouveia e Melo, Vito Corleone ou Rambo. Eles conseguiam negociar o Orçamento e aprová-lo até quarta-feira? O Twitter aposta que sim

A poucas horas do fim do prazo, arregimenta-se no Twitter uma série de personalidades, mais ou menos fictícias, capazes de desbloquear o OE para 2022. Há de tudo, até Rambo e Don Corleone

Illia Polosukhin | Near Protocol Exame Informática
Exame Informática

Near Protocol: “Só temos duas alternativas: Ou acabamos num episódio de Black Mirror ou construímos uma Web aberta”

Illia Polosukhin lidera uma empresa de blockchain cujos ativos digitais estão avaliados em mais de seis mil milhões de dólares. Depois de ter chefiado a equipa que criou uma das ferramentas mais populares da Google, está agora determinado em criar as bases para uma nova geração de serviços online – e tem muito dinheiro para fazê-lo

Mundo

Covid-19: China confina cidade de quatro milhões após detetar surto

A China colocou em confinamento a cidade de Lanzhou, no centro do país e com quatro milhões de pessoas, devido ao aumento dos casos de covid-19 registado nos últimos dias, anunciaram hoje as autoridades

Chegámos ao fim do petróleo barato? Exame
Exame

Petróleo mais que duplica em 12 meses. Há o risco de chegar aos 100 dólares?

A cotação do barril de Brent disparou mais de 126% desde outubro do ano passado para mais de 85 dólares e os analistas avisam que a escalada pode ainda não ter terminado

Bolsa de Especialistas

Quanto vale um serviço bom e bem feito?

O especialista em imobiliário Massimo Forte guia-nos pelo seu processo de compra de casa

LUGAR AOS NOVOS

O trabalho digno é também uma política económica

No caso do mercado de trabalho português, os vícios recaem sobretudo sobre a nossa geração. Atualmente o emprego já recuperou para níveis pré-pandemia e a taxa de atividade conhece máximos, mas esta situação que alguns caracterizam como próximo do pleno emprego ainda não se reflete nos jovens, que continuam a ter uma taxa de desemprego 3,5 vezes superior à taxa de desemprego geral. Miguel Costa Matos, da Juventude Socialista, na rubrica Lugar aos Novos

Bolsa de Especialistas

Travertino, o clássico das pedras naturais

Nobre, versátil e altamente resistente, este material é também recorrentemente utilizado em casas de banho, escadas, revestimentos exteriores, piscinas e até em esculturas

Exame Informática
Exame Informática

Orbital Reef: a estação espacial comercial da Blue Origin

Empresa de Jeff Bezos quer construir a sua própria estação espacial e as operações começam já na segunda metade desta década. Objetivo é fornecer porto seguro para investigadores, clientes e visitantes internacionais

Mundo

Mais lava em movimento após novo desabamento no cone do vulcão de La Palma

Um novo desabamento do cone do vulcão de La Palma (Canárias) está a fazer com que grande quantidade de lava se desloque, principalmente em direção ao oeste, sobre o fluxo primário de lava

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Nevoeiro cerebral pode durar meses após a doença, sugere novo estudo

Um quarto dos recuperados da Covid-19 avaliados nesta investigação continuou a sofrer de problemas de memória meses depois da infeção. O problema afeta mesmo os casos que não necessitaram hospitalização

VISÃO DO DIA
Exclusivo

VISÃO DO DIA: Rebenta a bolha, que “o resto é silêncio”

Sociedade

Covid-19: Investigadores descobrem marcador biológico que antecipa prognóstico

Um grupo internacional de investigadores no qual estiveram envolvidos especialistas da Fundação Champalimaud descobriu um marcador biológico com potencial para dar prognóstico da gravidade da covid-19, com a deteção do marcador a resultar de um teste PCR