Memória: Primeiro a partir, primeiro a desertar

Aldeias desertas A estratégia dos guerrilheiros consistia em incursões destrutivas e sangrentas, para incutir medo na população em geral

Mário Moutinho de Pádua, alferes médico, fez parte do primeiro contingente militar a partir para Angola e, provavelmente, foi também o primeiro oficial português a escapar a uma guerra que não era sua. Tinha 25 anos quando embarcou no Niassa, integrado no batalhão de caçadores 88, depois de ter recebido formação no centro de operações especiais de Lamego. Entre os 8 e os 15 anos, vivera, com um ano de intervalo, em Benguela, Sá da Bandeira e Luanda. Quando soube que havia sido incorporado, a sua reação imediata foi “desertar”, mas a filiação comunista falou mais alto. Embora favorável à autodeterminação das colónias, o PCP incentivava os militantes a participar no conflito para politizarem os outros militares contra a guerra.

“Na própria noite da partida, comuniquei ao funcionário do partido, o José Bernardino, a minha intenção. Ele informou-me de que o Partido Comunista considerava importante que os militantes partissem e se esforçassem por fazer compreender aos militares que a independência era justa. Nessa altura, acatei a orientação e regressei a Abrantes, onde se terminavam os preparativos. Eram nove da noite quando saí de casa. O comboio militar arrancava à meia-noite. Já não me lembro dos pormenores, mas cheguei ao quartel um pouco depois da hora limite. Os jipes e os camiões já estavam em marcha lenta, alguns na estrada. Meti-me no meu, sem que ninguém me tivesse repreendido”, recorda Mário de Pádua, num depoimento escrito enviado à VISÃO.

Decidido a cumprir os princípios do seu partido, embarcou no Niassa no dia 21 de abril de 1961. A bordo, ninguém “imaginava o que nos esperava”. A maioria dos soldados aceitava ordens “sem hesitar nem pensar”, escutando os sargentos, que justificavam a guerra com razões tão disparatadas como a importância do mercado colonial para o escoamento dos vinhos e têxteis produzidos em Portugal.

À chegada ao porto de Luanda, rodeado por milhares de pessoas que saudavam efusivamente as tropas, Mário de Pádua afirma ter-se apercebido do “ódio racial” e da “sede de vingança” da população. Entre abraços e palavras de encorajamento, alguns colonos contaram-lhe que todas as noites percorriam os musseques da capital para “matar pretos”. “Perguntei quantos matavam por noite. Responderam-me: uns 30.” Durante a estada na capital, houve soldados que absorveram essa “mensagem de matar”, mas o médico ainda hoje acredita que “a maioria adotou uma atitude neutra, silenciosa: sobreviver e cumprir as ordens”.

Quando o seu batalhão marchou para norte, em direção à região ocupada pela UPA, Mário de Pádua recusou a pistola de defesa pessoal. “Como eu, pelo menos outro médico fez o mesmo.” Nos meses seguintes, confessa que cada um reagiu à sua maneira. “Em geral, adaptámo-nos à guerra.” Mas nem assim conseguiu ignorar a violência que o rodeava: “O primeiro choque foi ver jovens mortos no chão. Pareceu-me algo inaceitável.”

Mas o pior ainda estava para vir. “[Como quando] o cozinheiro foi cortar a cabeça a um morto e a pendurou numa árvore. Ou quando um colono, com a coronha da espingarda, esmagou a cabeça de um ferido diante de mim, sem que eu pudesse travá-lo, ou quando um soldado instigado por um grupo de colonos em Damba procurou furar os olhos de um prisioneiro amarrado. Aí, consegui afugentá-los”, relata, no seu depoimento.

Cada homem tem o seu limite para enfrentar o horror, e o de Mário de Pádua chegou ao fim de seis meses. Em outubro de 1961, desertou para o antigo Congo belga, na companhia do cabo Alberto Coelho Pinto.

“Um capitão, colocado numa fazenda, andava com um colar de orelhas à cinta. Na minha companhia, houve soldados,e pelo menos um oficial, que colecionaram orelhas”

Mário de Pádua, médico

“Sentia-me culpado por participar numa guerra bárbara dos dois lados” – que, para muitos, tinha-se tornado “uma rotina”. Percebeu que a sua ação já não “modificaria ninguém” no momento em que foi confrontado com histórias de grande violência. Como quando lhe contaram que “um capitão, colocado numa fazenda, andava com um colar de orelhas à cinta”. “Na minha companhia, houve soldados, e pelo menos um oficial, que colecionaram orelhas.”

No Congo ex-belga, esteve preso durante cinco meses. A deserção não alterou a relação com o PCP. “Ao fim de um ano e meio de demoradas comunicações, [o partido] enviou-me o bilhete de avião para Praga, e depois para Argel.” Em 1967, o médico ofereceu-se como voluntário para os hospitais de campanha do PAIGC, “sempre sem armas”, como faz questão de salientar. Ficou dois anos e meio na Guiné e, de seguida, rumou a Paris, para fazer um curso de especialidade. Só regressou a Portugal no final de 1974.

Entre outras obras, Mário Moutinho de Pádua é autor de Guerra em Angola – Diário de um médico em campanha, em que conta a sua experiência no conflito. O livro foi publicado no Brasil e em Angola, mas não em Portugal.

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