Horror: “Apanhámos crianças cortadas, homens sem cabeça e mulheres esventradas”

A 8 500 quilómetros dos locais atacados pelos independentistas em Angola, a 15 de março de 1961, um grupo de paraquedistas foi mobilizado, em Tancos, para – ainda ao final desse dia – rumar a Luanda. Jorge Seara, na altura à beira dos 23 anos, era um desses militares, que partem já noite escura daquelas instalações do regimento de caçadores paraquedistas, no concelho de Vila Nova da Barquinha, em direção a Figo Maduro. Alfacinha de gema, nascido no coração de Alfama, saíra do sexto curso daquela força, cujos moldes haviam sido importados de Espanha e França, pelo general Kaúlza de Arriaga, pouco tempo antes.

Para chegar a Luanda, “nem um avião de transporte de tropa havia”. Por essa razão, os paraquedistas embarcaram num “Super-Constellation”, da TAP, cuja viagem demorou umas 18 horas. Pouca ou nenhuma informação tinham sobre o que os esperava. “Íamos ao desconhecido. Fomos recebidos como salvadores pela população. Havia muita ansiedade em Luanda”, conta, aos 83 anos. Tal aflição dos colonos não é logo correspondida em ações no terreno por estes paraquedistas, tendo em conta que o grupo ainda permaneceu na Fortaleza de São Miguel, durante uma semana.

Nesses dias, a Fazenda Maria Teresa, na zona de Catete, perto de Luanda, é atacada. “Apanhámos crianças cortadas, homens sem cabeça e mulheres esventradas. As casas ardiam”, recorda. Todavia, a primeira missão tem como destino o olho do furacão. “Houve a necessidade de hastear a bandeira nacional num posto em Sacandica [região norte, na fronteira com a República do Congo]. As picadas [estradas de terra batida] estavam todas obstruídas. Nós pousámos logo. Mas, por estrada, os militares demoraram dois meses a chegar, porque nas picadas havia árvores atravessadas e valas abertas, ora pelas chuvas, ora pelos terroristas, em que cabiam carros inteiros”, salienta, lembrando que, apesar da formação em Tancos, ninguém esperava “um cenário de destruição” como aquele – “pior que o imaginado”.

“Fomos lançados pelo nosso largador e acabámos pendurados em árvores enormes, que nunca tínhamos visto na vida. Se os terroristas estivessem à nossa espera, tinham-nos matado”, admite. Ali, onde permaneceram 15 dias, “os brancos foram mortos em primeiro lugar e os bailundos [grupo étnico do centro de Angola] depois”. Tempo suficiente para começar a ganhar consciência de que “eles [independentistas] estavam a ser bem instruídos e a receber armamento via antigo Congo belga”. Não obstante pequenos incidentes – como aquele em que, num salto em Cacula, no Sul, ao cair da noite, “numa missão de assalto a uma senzala”, bateu com as costas num embondeiro –, Jorge Seara garante que os sustos iam dando “a confiança necessária”. Pior destino teve o cabo Pereira, também de Alfama. “Na Úcua, perante uma bifurcação, o comandante da companhia deu ordem para pararmos. O meu cabo desceu, deu dois passos em frente, num dos sentidos, e, quando vinha de regresso, foi atingido pelas costas, tendo a bala saído pelo peito”, descreve. Morreu nos seus braços. “Gritava ‘meu sargento, não me deixe morrer’, com sangue a sair pela boca. Isto foi de manhã, e só ao final do dia é que o retiraram para Luanda”, lamenta.

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