Catarina de Albuquerque: “A água contribui para o empoderamento das mulheres”

Foto: Gonçalo Rosa da Silva

Catarina de Albuquerque é uma das pessoas que mais têm contribuído para levar a água onde ela é mais escassa. Após ter sido, durante seis anos, relatora especial das Nações Unidas para o direito a água potável e saneamento, em 2014, passou a liderar a Sanitation and Water for All, uma iniciativa global que junta governos e organizações da sociedade civil de todo o mundo.

Morrem milhares de pessoas todos os dias devido à falta de acesso a água de qualidade. Porque é tão difícil resolver isto?

As razões mais imediatas são a falta de vontade política e de financiamento. O tema não é prioritário, e isso vê-se na composição do governo e nas dotações orçamentais que recebem os ministérios responsáveis pela água e saneamento.

O facto de os países mais desenvolvidos darem a água como um bem adquirido faz com que não compreendam o alcance do problema noutras regiões do globo?

Vou mais longe: como é possível termos tido de esperar até 2010 para a água e o saneamento serem reconhecidos como direitos humanos? Em 1948, quando se anunciou a declaração universal, não estava lá o direito à água. Os países onde há maiores problemas de água, na altura, eram colónias e nem sequer se sentaram à volta da mesa. Os que tinham lugar, diplomatas dos países ricos, faziam parte de uma classe social que nem sabia que esses problemas existiam. Hoje, os países do Norte têm de ajudar os do Sul, mas a ajuda pública ao desenvolvimento tem vindo a diminuir e é uma gotinha no oceano.

Muitas vezes, é um problema invisível…

Sim. Conheci pessoas no Bangladesh a beberem água transparente que estava a matá-las a longo prazo: água poluída com arsénico. Não davam por nada. Tive, com um senhor de uma aldeia, uma das conversas que mais me chocaram na vida. “Então mas e o arsénico?” E ele: “Nós estamos preocupados é com a sobrevivência hoje, sei lá eu onde vou estar daqui a 20 anos.” Vi também miúdos em Angola de cócoras a pôr um pano nas poças de água cheias de terra e a torcê-lo para a boca. Têm água para beber, sim. Depois vão estar cheios de diarreia, e alguns morrem, mas se calhar nem associam à água

Qual é o papel da Sanitation and Water for All no combate a esta situação?

A nossa missão é trabalhar com o poder político, chefes de Estado, chefes de Governo, agências da ONU, para aumentar a visibilidade do setor. Tentamos criar uma faísca, de forma a mobilizar a vontade política para o tema de água e saneamento, para aumentar os investimentos e melhorar a governança da água. Isto porque construir uma bomba de água ou uma latrina não é suficiente. Se não houver uma política pública para o setor, daí a um ano já lá não estão. Contamos as bombas de água instaladas, mas não as que se estragam.

Tem de ser uma aposta sustentada?

Tal como na Educação ou na Saúde, não basta construir o edifício da escola ou do hospital, também aqui precisamos de planos nacionais que consigam ver tudo de uma maneira integrada. E há também que perceber os impactos positivos do acesso à água potável noutras áreas. Por exemplo, na Educação: conheci umas miúdas fantásticas no Quénia, na aldeia onde nasceu o pai do Obama, que depois de um dia de escola ainda tinham de estar horas a carregar água, porque é um trabalho de mulheres e de raparigas, e quando chegavam a casa já não havia luz e não podiam fazer os trabalhos de casa. Portanto, a água contribui para o empoderamento das mulheres, para o direito à Educação. E para a Saúde – metade das camas de hospitais em África está ocupada com pessoas que sofrem de doenças transmitidas pela água.

É possível conciliar a iniciativa privada com a necessidade de providenciar água e saneamento a todos?

Não é fácil, mas é possível. Não é obrigatório os serviços serem públicos. Importante é haver um regulador forte e independente, e ter tarifas sociais para quem não pode pagar as contas da água. Se eu não pagar a conta da Netflix, é legítimo que a Netflix me corte a conta. Mas o acesso à água e ao saneamento é um direito humano, por isso, quando eu não puder pagar a conta, o Governo tem de entrar em ação e arranjar forma de eu não ficar privada do acesso a este direito fundamental só porque perdi o emprego.

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