Angola e os 85 dias do princípio do fim do regime de Salazar

Partida do Niassa deu-se a 21 de abril de 1961, de Santa Apolónia, em Lisboa. Com capacidade para 500 pessoas, estariam muitas mais a bordo

Luanda, madrugada de 18 de fevereiro de 1961. É mais um despertar muito quente. O ar está pesado e há uma sensação de cola na pele. Maria Clara de Sousa não sabe que horas são exatamente naquele sábado. Mas, quando o habitual sol das seis horas da manhã parece querer começar a despontar, sente o pai entrar em casa. “Esta noite foi mais um”, ouve-o a sussurrar para a sua mãe. Faz uma semana, não mais do que isso, que fizeram chegar às mãos do pai uma caçadeira. Acha – na altura, tinha 6 anos – que até “foi um polícia amigo da família que entregou a arma”, com a qual o pai já saíra, pelo menos, duas noites e na companhia de outros vizinhos, à caça de “terroristas” junto dos musseques (bairros pobres dos subúrbios). Passados 15 dias sobre os ataques de 4 de fevereiro, quando cerca de duas centenas de angolanos invadiram cadeias da cidade para soltar presos políticos, a sede da Emissora Nacional e a estação dos correios, matando sete agentes da autoridade, apenas a capital vive dias aparentemente calmos. Na verdade, vive-se numa espécie de purga. O camião do Exército que passa, ao início da manhã, a recolher corpos de negros, que jazem à beira da estrada, é um sinal de que o ponto de não retorno está prestes a ser atingido na então colónia portuguesa. Joaquim Coelho, jornalista e paraquedista, que aterrará ali dentro de um mês, ainda verá tais recolhas de cadáveres. “Só em dois dias, vi cinco camiões”, lembra.

Luanda Os colonos rejubilam com a chegada do Niassa, em maio, e com o primeiro contingente militar de grande dimensão, tal como já tinham reagido com os grupos de paraquedistas, que foram enviados logo em março. Apesar de estes últimos já andarem no terreno, proprietários de fazendas e moradores nas cidades mais distantes garantiam a sua própria segurança e dos seus bens

À espera de uma resposta da metrópole, que só chegará com um tardio “andar rapidamente e em força” para Angola, proferido pelo presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, a 13 de abril de 1961, Luanda desespera: passa de um sentimento de serenidade e descontração para um ambiente de insegurança e desconfiança entre brancos e negros, com episódios violentos a sucederem-se aos incidentes da madrugada de 4 de fevereiro. Prova disso são as cerca de duas dezenas de negros assassinados nas horas em que decorreram os funerais dos polícias mortos. Porém, apesar da pouca informação e da garantia do então governador de Angola – de que haveria reforços militares –, desde janeiro que corriam rumores sobre os efeitos mortais da incursão da Força Aérea em algumas aldeias da Baixa do Cassange. A revolta dos trabalhadores explorados das plantações de algodão terá sido o rastilho para o que viria a acontecer.

Quando a Guerra Colonial eclodiu, a seguir aos massacres de 15 de março no Norte de Angola, a inexistência de estradas alcatroadas que permitissem retirar populações refugiadas no meio do mato, em plena época das chuvas, e o anedótico número de militares estacionados, para um território quase 14 vezes maior do que Portugal, eram o espelho de uma certa desorientação do regime. Mais: os 85 dias, entre os primeiros ataques e a chegada do primeiro contingente militar enviado pela metrópole, a bordo do navio , foram uma prova de que o ditador, que tinha então tomado para si a pasta da Defesa de um País que ia “do Minho a Timor”, enfrentava o momento talvez mais difícil da sua longa vida política.

Salazar assume a pasta da Defesa, quando já passa um mês sobre o início do conflito armado em Angola, depois de o ministro da tutela, Botelho Moniz, ter sido afastado por liderar uma tentativa de golpe de Estado – que ficou conhecida como “Abrilada”

Com efeito, o “abanão” causado pela candidatura de Humberto Delgado em 1958, as greves nos campos agrícolas do Sul, a “Revolta da Sé”, em 1959, e o desvio do paquete Santa Maria, em janeiro de 1961, desafiavam e punham à prova a solidez da ditadura. Uma solução política para as colónias, se é que esteve realmente em cima da mesa, foi abandonada com a derrota da tentativa de golpe do ministro da Defesa, Botelho Moniz, conhecida por “Abrilada”.

“Nada foi feito, nem preparado, mesmo com os avisos que os Estados Unidos da América tinham dado a Portugal, de que se previam acontecimentos graves. Quando ocorrem os massacres de 15 de março, as forças armadas tinham ali 1 500 militares de origem europeia e cerca de 6 mil militares locais. Não havia uma única base militar, uma rede de comunicações, uma estrada alcatroada em direção ao Norte, nem meios de administração e defesa no Norte de Angola. Os militares portugueses não tinham armas automáticas, não tinham camuflados ou mochilas”, retrata, à VISÃO, Carlos de Matos Gomes, coautor, com Aniceto Afonso, da obra Guerra Colonial (Porto Editora, 2020). Segundo este coronel na reserva e investigador de história contemporânea, “Salazar vai deixar que a situação se agrave permanentemente: primeiro, de 4 de fevereiro até 15 de março, e, depois, até maio” – ainda que, em março, tenham chegado a Luanda umas primeiras tropas paraquedistas, por via aérea.

Carnificina até Luanda
Cerca de duas semanas antes, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), muito ativa na antiga colónia, tinha indícios de que distúrbios violentos desencadeados pela UPA (União dos Povos de Angola), liderada por Holden Roberto, poderiam ocorrer na região norte. Parte da informação vinha da embaixada dos EUA, que enviara ao Ministério da Defesa os alegados planos daquela organização, rival do MPLA, como relatou Alberto Franco Nogueira, então ministro dos Negócios Estrangeiros, no primeiro volume de Diálogos Interditos (Editorial Intervenção). A distribuição de uns panfletos com “o início das festas para 15 de Março” compunha tal desconfiança.

As suspeitas confirmaram-se. Após meses de preparação no vizinho Congo, tornado independente cerca de um ano antes, uma carnificina foi ativada sob a senha insuspeita do “Dia do casamento da filha do Nogueira”, e levada a cabo quase até às portas de Luanda. Armados com catanas e canhangulos (espingardas caseiras carregadas com pregos), e provavelmente sob o efeito de alucinógenos, os atacantes, da etnia baconga, gritando “UPA, UPA! Mata! Mata!”, chacinaram e violaram brancos e negros (estes da etnia bailunda), incendiaram casas comerciais, fazendas e povoações inteiras e destruíram estradas, pontes e pistas de aviação.

A caminho do Norte, as forças militares sofreram diversos contratempos: as pequenas colunas que partem das unidades aquarteladas em Luanda e Carmona levaram muito tempo a chegar, atrasadas pelas chuvas fortes. O investimento na estrada que ligava as duas cidades não tinha contemplado o asfaltamento. Muitos sobreviventes refugiaram-se no mato durante semanas, esperando pelo auxílio das tropas metropolitanas, que tardou a chegar. Nos dias seguintes, o afluxo a Luanda de centenas de refugiados dos ataques da UPA, em vilas como Carmona, Aldeia Viçosa e Bessa Monteiro, acordou os seus habitantes para uma realidade que não imaginavam.

No mato Militares levam dias para percorrer poucos quilómetros, em direção ao norte, alvo de ataques, dada a falta de estradas asfaltadas, picadas alagadas e mato denso

“Luanda estava pacífica, mas com muito barulho, com refugiados que vinham do Norte. Os aviões traziam muitas mulheres, que tinham perdido os maridos, mortos nas roças. Umas vinham sozinhas, outras com os filhos de colo. Havia um centro de acolhimento que era uma miséria. Além disso, quase toda a gente tinha caçadeiras.” O relato é do então jovem paraquedista Joaquim Coelho, que, aos 21 anos, é acreditado pelo jornal O Século para integrar o grupo de jornalistas – em que já se encontrava Artur Agostinho –, que tem como objetivo observar o grau de destruição. Na companhia dos caçadores especiais do Exército, que “já contavam com armas automáticas”, levaram três dias para percorrer 30 quilómetros e mais dois para chegar ao Norte de Angola. “A destruição era enorme.”

Apesar dos alegados avisos a Portugal, os Estados Unidos da América já tinham dado sinal de que lado estavam. O Presidente John F. Kennedy, empossado em janeiro, era considerado um apoiante da causa da UPA e de outros povos colonizados em África, até como forma de evitar que os soviéticos dessem a mão a movimentos independentistas, de acordo com os documentos da CIA dessa altura, hoje públicos – designadamente a correspondência de Charles Burke Elbrick, embaixador norte-americano em Lisboa, até 1963. Mais tarde, Henry Kissinger, secretário de Estado norte-americano, haveria de confirmar o apoio financeiro a Holden Roberto, líder da UPA. Daí que, em Luanda, por esses dias, algumas centenas de colonos cercassem o consulado norte-americano e atirassem à baía o carro do cônsul William Gibson.

Enquanto Lisboa não reforça o débil aparato militar em Angola, que não ultrapassa os 6 500 homens, civis pegam em caçadeiras e atuam em grupos contra negros que viviam nos arredores pobres de Luanda. Na Páscoa de 1961, ruas da capital angolana estão a ferro e fogo, patrulhadas por estas milícias

A Páscoa de 1961, festejada a 2 de abril, foi vivida em sobressalto, com as igrejas cheias e as praias quase desertas. A ansiedade e a inquietação tomavam conta das ruas da capital, e os colonos sentiam-se esquecidos e abandonados. Foram criadas milícias para patrulhar as ruas, promovendo tumultos e perseguições irracionais. Os brancos mais exaltados iniciaram uma “caça ao negro”. Se em Luanda imperava o medo, nas províncias do Norte o atraso no envio de reforços era encarado com raiva e desespero pelos sobreviventes, em vigília permanente. “Cada homem era um cidadão armado e cada casa um fortim, onde cada elemento da família tinha uma função de defesa”, escreveu António Pires Nunes, em Angola 1961 – Da Baixa do Cassange a Nambuangongo (Prefácio, 2005). A 20 de março, foi criado por decreto o Comando da Milícia de Angola; de seguida, o Corpo de Voluntários para a recuperação económica da produção cafeeira e, mais tarde, a OPVDCA (Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil do Território de Angola). Às populações, era dada a facilidade de se organizarem e defenderem as suas terras e as suas famílias, através da distribuição de armas de guerra.

Um dos sinais da instabilidade era a retenção de militares na capital angolana, como aconteceu com o paraquedista Jaime de Castro Castanheira, ali chegado muito antes de qualquer conflito, com uma equipa de cães de guerra. “A missão dos cães era fazer serviço de guarda noturna na base aérea de Luanda, durante seis meses, e depois serem substituídos. Mas só voltámos a Lisboa um ano depois, porque não havia ainda controlo do terreno e todos os homens eram poucos”, explica, sublinhando que aqueles mesmos cães “ajudaram a detetar pistas na esquadra da polícia, onde, a 4 de fevereiro, foram mortos os graduados”.

Salazar cortou gastos
Os acontecimentos que precipitaram o início da guerra não constituíram uma surpresa para o regime. Numa reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional em 1959, Salazar, ciente das pressões internacionais para a independência das colónias e da iminência de um conflito armado em África, avisou os chefes das Forças Armadas para se prepararem para uma guerra de “guerrilhas” no antigo Ultramar.

O Exército, embora com poucos meios financeiros, começou a reorganizar-se, acabando com a diferenciação entre Exército metropolitano e Exército colonial, enviando para Angola três companhias de caçadores especiais treinadas no Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego, e reforçando os serviços de informações em Luanda. A independência do vizinho Congo ex-belga, em 1960, incentivou os movimentos nacionalistas em Angola, oprimidos por um regime que os brutalizava e discriminava. Apesar de a rebelião estar prevista, nem por isso os militares portugueses se encontravam preparados para os combates no terreno que se intensificaram a partir de março de 1961.

Carlos de Matos Gomes explica que, por essa altura, já “Portugal deixara de ter Espanha como principal inimigo e o foco passa a ser o risco de uma alteração da soberania em África”.

“Há alguns passos que são dados, com uma nova visão para as Forças Armadas, que inclui uma aposta em Angola e Moçambique. Cria-se o Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego. Oficiais franceses e ingleses vêm explicar a guerra subversiva, e militares portugueses vão para a Argélia, onde havia uma guerra pela independência contra a França [1954-1962].” Mas “Salazar boicotou alterações mais profundas, não disponibilizando os meios para essa nova arquitetura das Forças Armadas. Algumas coisas ficaram mais do que a meio, como eram os casos das legiões de Angola e Moçambique, onde nem sequer havia meios para a organização das forças”, conclui.

Caçadores especiais Foram a resposta mais eficaz, por terem autonomia de atuação, contra táticas de guerrilha usadas por independentistas

Juntar militares à pressa
A 20 de março, partiriam de Lisboa, por avião, quatro companhias de caçadores especiais, juntando-se às cinco que já se encontravam em Angola desde fevereiro. Adriano Moreira, recém-nomeado ministro do Ultramar, chegara a Luanda na mesma altura. No regresso, declarou a situação em Angola como “grave”, avisando que o governo teria de preparar-se para uma “guerrilha clássica”, de resolução “prolongada e corrosiva”. A 21 de abril, seria a vez de um contingente militar seguir por via marítima – um grupo formado “apressadamente” poucos dias antes do embarque.

A bordo do navio Niassa, o sentido de missão impunha-se. Quando embarcaram, os mortos em Angola eram já aos milhares. “Não havia interesse em que se soubesse do que se passava no terreno, para não desmotivar quem entrava na recruta”, diz Joaquim Coelho, que, perante os poucos relatos que existiam, ainda chegou a equacionar desertar para França.

Embarcaram no Niassa os batalhões de caçadores 88 e 92 e as companhias de artilharia 86, 87 e 100. Natural da Figueira da Foz, José Fadigas da Silva fez parte da companhia de artilharia 87, como primeiro-cabo. A meio da travessia, completou os seus 22 anos. Nunca mais se esqueceria dessa viagem. “Obviamente que íamos com medo, mas sabíamos que tínhamos de ir. Não podíamos deixá-los morrer”, sublinha. Dentro do navio, a política não ocupava lugar. “Havia um ou outro mais evoluído politicamente, achando que a guerra era uma asneira, mas a maioria não era politizada nem contestava a resposta do regime.”

Números da História

6 800
Esquartejados
Cerca de 800 portugueses e seis mil bailundos (grupo étnico do Sul, que os colonos traziam para as fazendas no Norte do país) foram mortos pelas catanas da UPA, liderada por Holden Roberto.

33 477
Militares
Esta é a dimensão da moldura militar que, no final de 1961, Portugal tem em Angola. Antes do início do conflito armado, estavam destacados naquele território cerca de 6 500 homens.

156
Vítimas mortais
As Forças Armadas terminam o primeiro ano do conflito armado contra os independentistas com centena e meia de baixas.

19
Travessias
Só no primeiro ano da Guerra Colonial, houve 19 travessias, com nove paquetes, em missões militares. Ainda que o Niassa tenha sido o primeiro paquete que o Estado fretou para o transporte de tropas, e de material de combate, o Vera Cruz fez muito mais viagens, em 1961.

Claro que nem Fadigas da Silva nem os companheiros de armas estavam preparados para o que se seguiu. “Nem sequer íamos bem equipados. À chegada, desfilámos na marginal de Luanda com a farda amarela de caqui” – o que valeu ao contingente a alcunha de canários. Só três ou quatro meses depois é que chegaram camuflados para todos. À cintura, levavam as velhinhas Mauser, que “davam um tiro de cada vez”. Às vezes, nem isso, quando a pólvora ficava húmida e a arma se recusava a disparar.

Com 21 anos, António Pires Nunes era o alferes mais antigo da companhia de artilharia 100, que também fez parte desse primeiro contingente militar. Três dias depois da partida do Niassa, António Pires Nunes, hoje tenente-coronel na reforma, seguiu com o seu pelotão no Benguela, o cargueiro que transportou grande parte do material de guerra destinado a Angola.

“Não sabíamos ao que íamos. Mas os nossos chefes sabiam. Eles avisaram-nos de que não iria ser fácil.” Era essa a convicção dos militares da Escola Prática de Artilharia (EPA) de Vendas Novas, onde tinham decorrido encontros preparatórios da tentativa de golpe liderada por Botelho Moniz. “Mas nenhum de nós tinha a noção do que seria aquela guerra”, diz.

No dia da partida, António lembra-se de que um governante foi ao cais fazer o discurso de circunstância, mas “o ambiente era de desconfiança”. Esse sentimento atemorizou o comandante do Benguela, um civil. “Fui chamado pelo comandante e proibido de andar armado a bordo. Eu, um militar, tive de obedecer às ordens de um civil. A bordo, a autoridade era dele. Desarmou-me”, conta, divertido, hoje, com 81 anos.

Paraquedista Joaquim Coelho chegou a Angola, após 15 de março, acreditado como jornalista. Descreve tragédia de centenas de refugiados

Chegada à guerra
Quando atracou em Luanda, a 2 de maio, o Niassa foi recebido por uma população em delírio. As tropas desfilaram pela avenida marginal, ao som dos aplausos da multidão. Durante dez dias, receberam abraços e beijos dos habitantes locais. “Encontravam-nos na rua e pagavam-nos tudo.” Um ano depois, “criticavam-nos, porque não tínhamos conseguido acabar com a guerra”, recorda Pires Nunes.

Alojados no seminário de Luanda, ainda em construção, os militares faziam os preparativos – nomeadamente treinos de tiro – para avançar para Norte e recuperar a zona sublevada. Quase todos acreditavam que a rebelião seria dominada em poucos meses e que o regresso a casa estava para breve. Pura ilusão.

A companhia de António Pires Nunes partiu para norte, em direção a Sanza Pombo e Quimbele, a 13 de maio, dia das aparições de Fátima, ao som de música religiosa transmitida por rádios portáteis. O objetivo era reocupar as povoações tomadas pelos rebeldes há dois meses. “O nosso trabalho foi socorrer as aldeias atacadas”, afirma. Nessa primeira comissão – fez mais duas –, esteve sob o comando do general Silva Freire, mais tarde vítima de um acidente de avião no Sul de Angola – e sobre quem viria a escrever um livro, já como historiador. “Ele conseguiu normalizar o Norte de Angola, ainda a tempo de fazer a colheita do café nesse ano de 1961.”

Os ataques à coluna militar começaram à saída de Negage, na província do Uíge, e só tiveram fim com a chegada de uma milícia popular comandada pelo “lendário” Carvalho das Barbas. Por todo o Norte de Angola, na região de Dembos, surgiram milícias particularmente violentas, agrupadas no mato ou em povoações que escaparam à destruição. O terror branco seguiu-se ao terror negro.

“Luanda estava pacífica, mas com muito barulho, com refugiados que vinham do Norte. Os aviões traziam muitas mulheres, que tinham perdido os maridos, mortos nas roças. Umas vinham sozinhas, outras com os filhos de colo”

Joaquim Coelho Antigo paraquedista e jornalista

Pires Nunes também fez parte do primeiro grupo a ir ao encontro da companhia de caçadores especiais do alferes Robles, conhecido pela eficácia das suas missões contra os rebeldes da UPA e, mais tarde, condecorado por Salazar como herói de guerra. “Tinha fama de matar e esfolar, mas não passava de um desgraçado. Fez o que toda a gente fazia”, diz o historiador. A Robles, foi atribuída a frase: “Estamos em guerra: primeiro mata, depois pergunta.” Foi o que muitos fizeram.

Também José Fadigas da Silva se lembra de ter visto “coisas muito feias”. A guerra é a guerra. ”Fizeram-se coisas más, mas estávamos a ser atacados”, justifica. Muitos, como ele, não conseguiam perceber os massacres, nem a resposta dos colonos, organizados em milícias. Casas ensanguentadas, corpos esventrados, crianças esmagadas, cabeças espetadas em paus alinhadas à entrada das aldeias – nada nem ninguém os preparara para a crueza das chacinas. “Tornámo-nos pessoas diferentes”, diz Fadigas da Silva, recordando os dois anos que ficou pelo Norte de Angola, até maio de 1963. “Quando regressámos, tínhamos a sensação de que a guerra tinha acabado. Os percursos faziam-se mais à vontade.”

Em outubro, cinco meses após a chegada dos militares ao Norte, a maioria das povoações e das fazendas tinha já sido reocupada pelas tropas da metrópole, permitindo o controlo total da área sublevada. Mas, ao contrário do que transparecia dos discursos vitoriosos das altas patentes em Luanda e em Lisboa, a guerra não estava ganha. Os revoltosos apenas tinham procurado outras paragens.

Um conflito por etapas

1958 Dezembro Fundação da UPA (União dos Povos de Angola)
1960 31 janeiro Fundação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola)
1 julho Independência do Congo ex-belga. Nasce a República Democrática do Congo
Dezembro A ONU deixa de reconhecer as províncias ultramarinas como parte de Portugal e impõe a sua autodeterminação
1961 4 janeiro Rebelião dos trabalhadores do algodão na Baixa do Cassange, no Norte de Angola
22 janeiro Desvio do paquete Santa Maria por um comando chefiado por Henrique Galvão
4 fevereiro Assalto às cadeias causa fortes distúrbios em Luanda
15 março Massacre da UPA no Norte de Angola faz milhares de vítimas. Calcula-se que entre 800 e 1 000 colonos brancos e 6 000 trabalhadores bailundos
18 março Partem de Lisboa, por via aérea, os primeiros contingentes formados por paraquedistas
20 março Partem para Angola, por via aérea, quatro companhias de caçadores especiais
13 abril Na sequência da tentativa de golpe de Botelho Moniz, Salazar assume a pasta da Defesa e profere o discurso que vai acelerar as mobilizações para Angola
21 abril Embarque para Angola, no navio Niassa, do primeiro contingente militar
24 abril Partida do cargueiro Benguela, com material de guerra
2 maio Chegada do Niassa a Luanda
13 maio Partida do contingente militar para o Norte de Angola, com a missão de reocupar a área afetada
9 agosto O Exército entra em Nambuangongo, considerada a “capital” dos guerrilheiros, no âmbito da Operação Viriato
28 agosto O ministro do Ultramar, Adriano Moreira, extingue o Estatuto do Indígena, criado em 1954
3 outubro Com a reocupação do posto de Caiongo, o Norte é considerado “pacificado”. A guerra continuará por mais 13 anos, até à Revolução de Abril de 1974

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