A longa estrada pós-Covid

“Se algum dia eu me cansava assim!”, lamenta-se Paulo Neno, 58 anos. À medida que avança no corredor do serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Garcia de Orta, em Almada, os seus olhos procuram avidamente um ponto de apoio. Na falta de melhor, a parede serve de encosto para recuperar o fôlego. Esta aflição desconcerta quem assiste ao seu tormento. O encarregado de construção civil testou positivo em outubro e tinha esperança de regressar ao trabalho no final de fevereiro. “Em 40 anos de descontos, nunca tinha estado de baixa”, faz questão de sublinhar. Contudo, foi atraiçoado pelos sintomas da doença, que não lhe têm dado tréguas. “Vivo num primeiro andar, são 14 degraus, mas parece que estou a subir o Cristo Rei”, metaforiza.

PAULO NENO, 58 ANOS
DATA DA INFEÇÃO -15 OUTUBRO 2020
O maior desejo do encarregado de construção civil é regressar ao trabalho, mas a persistência dos sintomas da Covid-19 não lhe permite. Depois de registar melhorias ao longo de quatro meses, sem nunca recuperar totalmente, sentiu um revés a meio de fevereiro. Já conseguia fazer caminhadas de dez quilómetros mas, agora, até um corredor o assusta. Iniciou um programa de fisioterapia na esperança de se ver finalmente livre da doença.

Paulo Neno não é caso único. Médicos e cientistas estão a constatar que, muitas vezes, a Covid-19 não termina com o fim da infeção por SARS-CoV-2. Alguns doentes continuam a lidar com sintomas semanas, ou mesmo meses, depois de já não estarem infeciosos. Calcula-se que 10% das pessoas contagiadas com o mais recente coronavírus possam desenvolver queixas a longo prazo, ou seja, sofrer da chamada long Covid ou Covid prolongada. A comunidade médica tem procurado uma terminologia científica para esta condição.

Um estudo conduzido pela Universidade de Washington, divulgado pelo jornal médico JAMA Network Open, mostra que cerca de um terço dos doentes inquiridos mantinha sinais de Covid-19 que podiam prolongar-se por nove meses.

Paulo Neno esteve internado duas semanas no Garcia de Orta, mas não precisou de cuidados intensivos. E, apesar de ter regressado a casa com menos 14 quilos, nos quatro meses seguintes sentiu-se a recuperar. A meio de fevereiro, conseguia fazer caminhadas de dez quilómetros por dia. Até que “houve uma quebra e recomeçou tudo”. O cansaço tornou-se insuportável, e ele deixou de conseguir realizar atividades que já não eram um desafio. “Voltei a não ser capaz de apertar os sapatos sozinho, pareço um bebé. E a minha mulher também tem de me ajudar à saída do duche. Houve um retrocesso”, descreve.

Nem sempre existe um revés. Os sintomas, muitas vezes, simplesmente não chegam a ir-se embora. “Tenho doentes que regridem mas, por vezes, percebo que houve uma mudança que o justifica, como terem regressado ao trabalho. Noutros casos, não mudou nada e voltam a agravar-se os sintomas, sem que eu tenha uma resposta para isso”, descreve Sandra Braz, responsável pela consulta pós-Covid do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Em março, Paulo Neno deu início à fisioterapia respiratória, mas admite que não é apenas a parte física que precisa de reabilitação. “A questão psicológica também mexe muito connosco… Agora, emociono-me muito, estou um pieguinhas de primeira.”

Um puzzle de sintomas

O coordenador de Pneumologia do Hospital CUF Santarém, Gustavo Reis, não tem dúvidas de que “a fadiga é o sintoma mais prevalente da long Covid”.

Os indícios arrastados da doença estão longe de ficar circunscritos aos sintomas respiratórios. Dores nas articulações, problemas gastrointestinais, palpitações, disfunções cognitivas (como dificuldades de concentração ou problemas de memória), perturbações do sono ou mesmo sinais de depressão ou de ansiedade são algumas das suas manifestações. Esta multiplicidade de sintomas torna o puzzle ainda mais difícil de montar e obriga à intervenção de várias especialidades.

Paulo Neno está a ser seguido pela equipa da consulta de acompanhamento criada a pensar nos doentes com Covid-19 internados nos cuidados intensivos do Garcia de Orta. Embora só tenha começado em março, este atendimento passou a abranger doentes que não estiveram em estado crítico. O perfil daqueles que por lá têm passado com sintomas prolongados inclui, sobretudo, pessoas entre os 40 e os 60 anos, do sexo feminino e com historial de doença moderada a grave, mas não crítica. “E jovens muito ativos, até atletas, na faixa etária dos 30 aos 40 anos, que sofrem muito com isto”, acrescenta a interna de Medicina Física e de Reabilitação Margarida Mota Freitas. A também responsável pela implementação desta consulta distingue entre as sequelas provocadas pela agressividade do internamento em cuidados intensivos e a Covid prolongada: “A síndrome pós-cuidados intensivos caracteriza-se por alterações como a fraqueza muscular, mas também por disfunções neurológicas e cognitivas, além das expectáveis complicações respiratórias e disfagia [alterações da deglutição]. Esses doentes têm uma recuperação lenta, mas gradual. No caso dos outros [com Covid longa], os sintomas mais frequentes são a fadiga, a dispneia [falta de ar], a tosse, as mialgias [dores musculares] e os problemas de concentração ou de memória”, remata.

O diagnóstico é muitas vezes feito por exclusão, ou seja, é necessário afastar quaisquer outras possíveis causas para os sintomas, antes de os considerar uma herança do vírus. É frequente os exames dos doentes com Covid longa não exibirem alterações, o que fortalece a possibilidade de as queixas resultarem de um efeito tardio da infeção por SARS-CoV-2.

Além disso, é comum os doentes com Covid prolongada não sofrerem de doença grave durante a fase aguda da infeção. Surpreendentemente, um estudo baseado nos registos de 1 400 pacientes residentes na Califórnia revelou que quase um terço dos doentes com queixas prolongadas se manteve completamente assintomático durante a fase contagiosa. A investigação, publicada na plataforma MedRxiv e a aguardar revisão dos pares, conclui ainda que 27% continuavam a manifestar sintomas mais de dois meses depois de terem sido diagnosticados, mesmo não tendo sido hospitalizados.

“É muito frequente as pessoas recuperarem ao fim de seis meses, mas, ao mesmo tempo, temos infetados da primeira vaga que continuam sintomáticos”, nota André Santa Cruz, responsável pela consulta de acompanhamento das pessoas que tiveram Covid-19 do Hospital de Braga. Já o também coordenador do serviço de Pneumologia do Hospital Distrital de Santarém, Gustavo Reis, acompanha “doentes que passaram nove meses com cansaço, mas que recuperaram”.

LUÍS PACHECO, 40 ANOS
DATA DE INFEÇÃO – 3 JANEIRO 2021
O cansaço e a falta de ar continuam a fazer parte dos seus dias. Costumava participar em provas de atletismo e era capaz de correr dez quilómetros três vezes por semana. Agora, não ultrapassa os dois quilómetros na passadeira da fisioterapia. Apesar de ter desenvolvido uma pneumonia, sempre foi acompanhado no domicílio ao longo da infeção. E não tinha quaisquer doenças prévias ou fatores de risco antes de ser contagiado. Luís Pacheco

No caso de Luís Pacheco, já lá vai um trimestre. Aos 40 anos, mantém um cansaço anormal, após ter testado positivo no início do ano. Quando lhe aparece uma subida pela frente, é certo que vai sentir falta de ar. Apesar de ter desenvolvido uma pneumonia, sempre foi acompanhado no domicílio ao longo da infeção. E não tinha quaisquer doenças prévias ou fatores de risco antes de ser contagiado. “Durante o primeiro mês, até uma chamada de cinco minutos era inconcebível devido à falta de ar”, recorda.

Em fevereiro, deu início à fisioterapia respiratória e sentiu algumas melhorias. A tosse, por exemplo, diminuiu bastante, mas ele continua longe de estar totalmente recuperado. “Costumava participar em provas de atletismo e era capaz de correr dez quilómetros, três vezes por semana. Agora, não faço nem dois quilómetros na passadeira, sempre monitorizado pelos fisioterapeutas”, compara. No início de março, Luís Pacheco regressou ao trabalho, mas sabe que tem de “ir com calma”. Na tentativa de limitar o esforço ao máximo, passou a utilizar o elevador e tornou-se muito mais dependente do automóvel. “Às vezes, tenho de parar uns minutos, porque ou falo ou respiro”, admite.

Com o coração nas mãos
A internista Sandra Braz também tem encontrado sintomas prolongados em pessoas que tiveram doença ligeira, apesar de a consulta pós-Covid ser vocacionada para os doentes que passaram pelo internamento do Santa Maria. O mais intrigante é não conseguir descortinar os fatores de risco que aumentam a probabilidade de alguém sofrer de Covid prolongada. “Temos de investigar o que poderá fazer aumentar esta predisposição”, insta a coordenadora da unidade de internamento dos doentes com Covid-19.

No mês passado, a britânica Sano Genetics, fundada por antigos investigadores da Universidade de Cambridge, anunciou que vai procurar identificar marcadores genéticos nos doentes que mantêm sintomas durante mais de três semanas. Esta descoberta permitiria agir antecipadamente e também seria útil para delinear estratégias de tratamento. “Há quem não tenha estado internado e desenvolva sintomas prolongados e quem tenha precisado de cuidados intensivos e não tenha problemas. A frequência da Covid longa não parece estar relacionada com a gravidade da doença”, corrobora André Santa Cruz. “Os mais velhos têm uma probabilidade um pouco maior, mas não é significativa. E talvez também se registe um pouco mais nas mulheres”, arrisca o especialista em Medicina Interna. Uma análise conduzida pelo King’s College London, no Reino Unido, indica que o sexo feminino, na faixa etária entre os 40 e os 50, terá o dobro do risco de sofrer de Covid longa, comparativamente com os homens.

Ana, 57 anos, passou a segunda quinzena de novembro internada numa enfermaria do Hospital de Santa Maria devido à Covid-19. Professora do ensino secundário, recusa ser identificada por temer recriminações por parte de estudantes, pais e colegas. “Os meus alunos vão fazer exames nacionais. Imagine que acham que eu não estava em condições para os preparar?”, questiona. Na primeira semana após o regresso a casa, até enquanto tomava o pequeno-almoço precisava de parar meia dúzia de vezes. E, durante um mês, viu-se obrigada a tomar banho e a lavar os dentes sentada. Contudo, não foram apenas os sintomas físicos que alteraram o seu quotidiano. “Quando tentei conduzir, ao fim de dois meses, foi muito complicado conciliar tanta informação ao mesmo tempo”, relata. Analisar e retirar conclusões dos artigos científicos que estava habituada a ler também se tornou uma tarefa penosa. “Decidi treinar muito essas tarefas intelectuais complexas e fui melhorando”, conta. Atualmente, já não sente limitações no raciocínio mas, por vezes, ainda tem dificuldade em lembrar-se das palavras que quer dizer.

Ao serviço de Psicologia do Hospital de São João, no Porto, têm chegado doentes que tiveram Covid-19 com dificuldade em resolver problemas, lentificação do pensamento, perda de memória ou distúrbios do sono. Porém, “estas queixas não se refletem nos testes de avaliação cognitiva, apesar de serem muito marcadas”, explica a coordenadora da Unidade de Neuropsicologia, Cláudia Sousa. A psicóloga considera precipitado dizer que o SARS-CoV-2 provoca problemas cognitivos, mas não duvida da necessidade de se investigar o tema. “Independentemente de não se terem detetado défices nos exames, não podemos desvalorizar estas situações, que têm impacto na funcionalidade do dia a dia, e temos de intervir”, acrescenta o diretor do serviço de Psicologia, Eduardo Carqueja. “Esta ‘prisão domiciliária’ que todos estamos a viver tem impacto sobre nós, tal como um doente estar muito focado na sua doença também tem. Este tipo de situações pode despertar perturbações de ansiedade ou estados depressivos”, remata.

Os sintomas que retardaram o regresso de Ana ao trabalho, no início de março, não foram cognitivos, mas cardíacos. “Sentia uma aceleração dos batimentos do coração, que dificultava falar, andar mais depressa ou estar mais tempo de pé”, descreve. A medicação tem ajudado a controlar o problema, assim como a fisioterapia respiratória. “Ainda sinto o coração a acelerar e uma ligeira tosse. Além disso, não tenho a mesma energia.”

Têm sido feitas comparações entre a Covid prolongada e a síndrome da fadiga crónica (SFC), também conhecida como encefalomielite miálgica. Uma das principais manifestações desta doença é a post-exertional malaise, ou seja, mal-estar após fazer um esforço físico. A SFC também pode complicar as tarefas do quotidiano, trazer perturbações do sono e dores crónicas ou dificultar a permanência de pé. Este último sintoma é comum à síndrome de taquicardia postural ortostática, um subtipo da disautonomia, uma doença que afeta o sistema nervoso autónomo, responsável por controlar, por exemplo, a respiração, a pressão arterial, a temperatura do corpo ou a digestão. A disautonomia poderia, assim, explicar algumas das queixas dos doentes de longo curso, que sentem fadiga, palpitações, falta de ar, dores de cabeça, problemas cognitivos e têm dificuldade em manter-se de pé.

“Depois da Covid-19, sentir o coração bater mais rápido é relativamente usual, está relacionado com a recuperação metabólica provocada pelo vírus. Após uma infeção grave, é natural recuperar lentamente o ritmo da pulsação, porque a inflamação é extensa e não desaparece de um dia para o outro”, tranquiliza o cardiologista de intervenção Rui Teles. Também é possível que, durante a infeção, ocorram miocardites (inflamação do tecido muscular do coração), que, no período de “cicatrização”, podem desencadear arritmias. “Na maior parte das vezes, será reversível, mas nunca conseguimos prever com total certeza”, afirma o coordenador do Centro de Estudos Cardiovasculares do Hospital de Santa Cruz, em Oeiras.

Origem misteriosa
Ao contrário do que Sandra Braz esperava, “as queixas respiratórias não são as mais frequentes”. Sintomas como fadiga, dores musculares, insónias, dificuldades de concentração ou palpitações deixaram de a surpreender, mas as causas destas manifestações permanecem um mistério.

A especialista em Medicina Interna acredita que “a persistência da atividade inflamatória, devido à manutenção da ativação do sistema imunitário [provocada pelo vírus], será responsável pela maioria das queixas” – ou seja, mesmo sem o vírus estar presente, o organismo continua a desencadear uma resposta inflamatória. Por outro lado, “a eventual persistência do vírus em alguns tecidos, nervos por exemplo, pode justificar outros sintomas, como a dor, as picadas ou os formigueiros” relatados por vários pacientes. Alguns investigadores põem igualmente a hipótese de a resposta imunitária ao vírus desencadear doenças autoimunes, passando partes do organismo a serem identificadas como estranhas.

Uma das estratégias para tentar desvendar os mistérios da Covid prolongada é encontrar semelhanças entre esta e outras doenças. Alguns cientistas que estudam os sobreviventes do vírus ébola, por exemplo, estabelecem paralelismos entre ambas. Cerca de três quartos das pessoas infetadas com o ébola mantêm sintomas ao fim de um ano, como dores musculares, cefaleias, problemas visuais e fadiga. No caso do ébola, apesar de o vírus já não estar presente, a reação inflamatória e a ativação imunitária persistem. Esta síndrome pós-viral verifica-se igualmente na dengue, na zica, na gripe H1N1 ou, por exemplo, nos coronavírus MERS e SARS-1. Também noutras doenças infeciosas, como a mononucleoseo (causada pelo vírus Epstein-Barr), apesar de não haver uma reação inflamatória, existe registo de provocar sintomas que podem prolongar-se durante um ano. A Covid-19 poderá, até, reativar este e outros vírus da família do herpes, exacerbando os sintomas.

Montanha-russa
Tal como os cientistas, também João Dinis, 53 anos, não encontra uma explicação definitiva para o que lhe está a acontecer. No último ano, sentiu-se a “envelhecer rapidamente”. Foi um dos primeiros infetados pelo SARS-CoV-2 em Portugal. Soube que estava positivo a 13 de março de 2020. Passou nove dias internado e perdeu dez quilos. “Ao menos, não estive nos intensivos”, relativiza. Trabalhador por conta própria, sentiu-se obrigado a voltar às traduções duas semanas depois de ter regressado do hospital. “Sentia-me lerdo. O meu rendimento era de 10%, demorava horas a fazer uma coisa que devia terminar em 30 minutos e sentia-me esgotado”, recorda. Só no verão deu conta de verdadeiras melhoras na sua capacidade intelectual, que já reconquistou.

JOÃO DINIS, 53 ANOS
DATA DA INFEÇÃO – 13 MARÇO 2020
Há mais de um ano que o tradutor tenta trocar as voltas à Covid-19. Inicialmente, sentiu limitações na capacidade de raciocínio. Agora, são as fortes dores musculares e nas articulações que lhe transtornam os dias. O cansaço vai e volta, assim como a disposição. “Quando sentimos que, fisicamente, não voltamos a ser o que éramos, isso afeta-nos psicologicamente”, afirma. Esta semana, foi reavaliado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, pela médica Sandra Braz.

Os últimos tempos foram uma “montanha-russa”. Tão depressa se sente a recuperar como a piorar. João Dinis está de novo muito cansado, o que também atribui à vida sedentária. “Ainda hoje, ao baixar a cabeça para apanhar alguma coisa, me custa”, diz. Também as fortes dores musculares e nas articulações se prolongam há meses.

Ao longo deste ano de altos e baixos, o tradutor ficou mais consciente da sua vulnerabilidade e da dos outros. “Quando sentimos que, fisicamente, não voltamos a ser o que éramos, isso afeta-nos muito psicologicamente.” Admite que a sua disposição não é a melhor quando fala sobre a Covid-19. “Não fiquei traumatizado, mas mexe comigo, apesar de ter tido muita sorte.” Haver poucas certezas em relação à doença é uma das questões que mais o preocupam. A imprevisibilidade dos sintomas “assusta muito as pessoas”, reconhece o pneumologista Gustavo Reis. João Dinis tem sentido oscilações de humor e, até, uma certa irritabilidade. “Surgiu uma série de pequenos problemas de saúde potenciados pelo meu estado emocional, não sei se serão psicossomáticos ou não…”, indaga.

A neurologista Andreia Costa também tem estado atenta à PACS (post-acute Covid syndrome), como lhe chamam os norte-americanos. A médica do Hospital de São João avança com a possibilidade de os sintomas neurológicos serem causados, em parte, pela “ligação cruzada” entre vários órgãos. “Se houver lesões pulmonares ou cardíacas e eles não estiverem a funcionar bem, o cérebro também poderá não estar”, relaciona. Andreia Costa acredita que o brain fog, o estado confusional descrito por vários doentes, será mais suscetível de acontecer nos idosos.

Como vem acompanhando, sobretudo, pessoas que tiveram doença grave, tem deparado com muitos quadros depressivos e, até, com casos de stresse pós-traumático, que poderão contribuir para agravar sintomas neurológicos. “É a família que, muitas vezes, se queixa de que o doente nunca mais foi a mesma pessoa”, revela. Andreia Costa teme que os pacientes que tiveram uma infeção ligeira ou moderada não estejam a chegar aos hospitais, o que poderá vir a provocar “uma onda de problemas neurológicos”. A neurologista nega que as manifestações relatadas pelos doentes com Covid prolongada sejam exclusivamente psicossomáticas. “Não as devemos desvalorizar porque merecem tratamento. E devemos avaliar o doente individualmente, despistando outras doenças”, defende.

O tratamento das queixas neurológicas passa, frequentemente, pela diminuição da eventual medicação que se esteja a tomar para controlar os seus efeitos secundários, pelo exercício físico, pela melhoria da higiene do sono ou pelo incentivo de atividades estimulantes, como o convívio social.

Sem energia aos 20
A urgência de Carolina Alves de regressar ao trabalho aumentava na mesma proporção em que subia o número de doentes internados no País. Por isso, a 19 de janeiro, menos de um mês após ter sido infetada com o vírus, a enfermeira decidiu regressar ao hospital onde trabalha, no distrito do Porto. Apesar de saber que não estava totalmente recuperada, não esperava um embate tão violento. “Foi avassalador, o cansaço, a falta de ar… Foram dias muito complicados”, confessa.

CAROLINA ALVES, 23 ANOS
DATA DA INFEÇÃO – 25 DEZEMBRO 2020
Quando sentiu os primeiros sintomas, na noite da Consoada, a enfermeira estava de serviço nos cuidados intensivos dos doentes com Covid-19 no hospital onde trabalha, no distrito do Porto. Sempre pensou que passaria tranquilamente pela doença, mas, três meses depois da infeção, ainda sente um grande cansaço e tem problemas de memória. Além disso, o seu humor não é o mesmo. “Não estava preparada para os sintomas durarem tantos meses”, admite.

Carolina Alves tem 23 anos. A sua energia sempre lhe pareceu inesgotável. Chegava a cumprir turnos de 18 horas duas vezes por semana e, quando saía do hospital, se estivesse sol, ainda ia à praia. “Era capaz de fazer duas diretas seguidas e, às vezes, só ia à cama três ou quatro horas por noite, nunca mais de sete”, conta. Depois da infeção, chegou a dormir 14 horas seguidas. “Tomar banho era o melhor momento do meu dia e, agora, tornou-se o pior. Tenho de estar sentada e, quando acabo, só me apetece deitar”, lamenta-se, em mais um dia de folga em que tenta obrigar-se a desempenhar tarefas. Podem ser coisas tão simples como dar um passeio curto, ver séries ou ler. Nas semanas seguintes à infeção, nem isso conseguia fazer. “Para quê ver uma série, se depois me esqueço do que aconteceu no episódio anterior?”, questionava-se.

O cansaço obriga-a a guardar a energia que lhe resta para o trabalho. A enfermeira também precisou de desenhar estratégias para se defender da falta de memória: “Noto que estou muito mais lenta. Se me interromperem, não me lembro do que ia dizer e, quando vou ver um doente, aponto tudo para não me esquecer de nada.” Três meses depois da infeção, Carolina Alves sente que o seu humor também não é o mesmo. “No outro dia, uma amiga disse-me que eu agora pareço uma ‘mosca morta’”, diz, angustiada. Foram os colegas de trabalho que insistiram para que procurasse fisioterapia respiratória, que irá iniciar este mês. Será igualmente acompanhada por um nutricionista e por um neuropsicólogo. “Tenho esperança de que tudo melhore, mas sinto que estou a viver numa incógnita.”

“Numa escala de 0 a 10, que falta de ar sente?”, “Fica mais cansado agora do que antes da doença?”, “Numa escala de 0 a 10, como classifica a gravidade da ansiedade que está a sentir?” – estão são algumas das dezenas de perguntas colocadas aos doentes que tiveram Covid-19 acompanhados pelo Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia (CHVNG). Consoante o resultado, são encaminhados para uma ou várias especialidades médicas.

Ao Centro de Reabilitação do Norte (CRN), que pertence ao CHVNG, têm chegado vários doentes com sintomas prolongados de Covid-19. “Desde dezembro, quando começámos a fazer o inquérito, registámos mais de 30 sintomas diferentes associados à doença. Já consultei pessoas que me falaram de queda de cabelo, por exemplo, e outros que fizeram referência a tinnitus [zumbido nos ouvidos]”, contabiliza o coordenador do Núcleo de Reabilitação Cardiorrespiratória do CRN, Rui Santos. No entanto, a fadiga é o mais prevalente, e tanto pode dever-se a fraqueza muscular, lesões nos pulmões ou no coração, como a distúrbios de ansiedade. Em qualquer dos casos, o tratamento passa pela reabilitação. “O treino na passadeira ou na bicicleta e os exercícios com pesos fortalecem os músculos, mas também o coração e os pulmões”, ilustra o fisiatra. “As melhorias têm sido fantásticas”, garante. No entanto, também acompanha um par de pessoas com queixas que duram há um ano. “No MERS e no SARS-1, foram relatados sintomas que se prolongaram dois anos. Por isso, queremos acompanhar estes doentes durante esse tempo. Acredito que vamos assistir a algo semelhante, mas só o tempo o dirá”, afirma, cauteloso, Rui Santos.

Também o internista André Santa Cruz considera a reabilitação “fundamental” para a recuperação dos doentes. “É um tratamento barato, sobretudo tendo em conta o custo de ter doentes crónicos. Se pensarmos que podem ser afetados 10% dos doentes, já são mais de 80 mil pessoas a dependerem de um sistema de saúde que não investiu o suficiente em reabilitação. Será impossível”, alerta.

A internista Sandra Braz expressa frustração por não existir “um medicamento milagroso” para a doença. Alguns sintomas são controlados com medicação, mas a abordagem é sobretudo psicológica e ao nível da reabilitação. Têm surgido relatos de doentes que veem os sintomas regredir depois de serem vacinados contra o SARS-CoV-2, mas não existe evidência científica que o comprove.

Os mistérios das crianças
Nem os mais novos estão imunes à Covid longa. A Organização Mundial da Saúde já reconheceu que a doença pode causar sintomas prolongados “até em jovens adultos e em crianças sem doenças crónicas anteriores”. No início deste ano, uma investigação divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística britânico revelava que 13% dos doentes com menos de 11 anos mantinham, pelo menos, um sintoma da doença cinco semanas após o diagnóstico. A percentagem subia para 15% no caso dos adolescentes entre os 12 e os 16 anos. Também investigadores italianos publicaram um estudo, ainda sem revisão dos pares, no qual se conclui que mais de metade dos doentes até aos 18 anos tinha sintomas persistentes ao fim de quatro meses.

Ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, ainda não chegou nenhuma criança ou adolescente com Covid longa. “O que nos tem aparecido são casos de síndrome inflamatória multissistémica”, destaca a coordenadora da Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos (UCIPed), Marisa Vieira. Também conhecida como MIS-C ou PIMS, nas siglas anglo-saxónicas, esta síndrome é uma manifestação rara que resulta da reação exacerbada do sistema imunitário à infeção pelo vírus SARS-CoV-2. Contudo, a MIS-C não acontece durante a fase aguda da doença, mas cerca de duas a seis semanas depois. “Muitas crianças nem deram conta de terem sido infetadas porque estavam assintomáticas”, nota a infeciologista pediátrica Filipa Prata.

BEATRIZ PIMENTA, 16 ANOS
DATA DA INFEÇÃO – Desconhecida
A estudante do 10º ano só soube que esteve infetada pelo vírus SARS-CoV-2 depois de realizar um teste serológico à chegada ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Esteve dez dias internada, seis deles nos cuidados intensivos pediátricos, devido à MIS-C, uma complicação que surge semanas após a infeção. Também as pessoas que sofrem de Covid-19 prolongada podem estar completamente assintomáticas durante a fase contagiosa da doença.

Foi esse o caso de Beatriz Pimenta. Aos 16 anos, só sentiu o impacto deixado pelo vírus cerca de um mês após ter estado infetada sem saber. A febre, as dores musculares e os vómitos levaram-na ao hospital, mas ninguém na família suspeitou que os sintomas fossem reflexo da reação inflamatória provocada pelo vírus. Uma análise serológica confirmou a existência de anticorpos no seu organismo.

Números que impressionam

12
Número de semanas a partir do qual se convencionou chamar à persistência dos sintomas Síndrome Pós-Covid-19

35%
dos doentes não hospitalizados analisados pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano só recuperaram totalmente entre o 14º e o 21º dia após os primeiros sintomas

5
Número de vezes que o risco de sofrer de long Covid aumenta nas mulheres, com menos de 50 anos, que foram hospitalizadas por causa da doença, comparativamente aos homens, segundo um estudo preliminar realizado pelo ISARIC

1,15
mil milhões de dólares (cerca de 975 milhões de euros) vão financiar a investigação relacionada com a long Covid nos EUA

Habitualmente, o coração é o órgão mais afetado pela MIS-C nos adolescentes e, no limite, pode evoluir para falência cardíaca. Lucília Pimenta, 54 anos, confessa que, depois de Beatriz ser admitida nos cuidados intensivos de Santa Maria, ficou “em pranto”, mas bastou uma hora para ver melhorias significativas no estado de saúde da filha. “Parecia um milagre”, diz, com os olhos postos na Nossa Senhora de Fátima discretamente colocada na cama da estudante do 10º ano.

MARIA JORGE – 7 ANOS
DATA DA INFEÇÃO – Desconhecida
Os mais novos não estão imunes à Covid-19 prolongada mas, atualmente, a complicação pediátrica que mais preocupa os médicos é a síndrome inflamatória multissistémica (MIS-C, na sigla inglesa), uma manifestação rara que resulta da reação exacerbada do sistema imunitário à infeção pelo vírus SARS-CoV-2. A MIS-C não acontece durante a fase aguda da doença, mas cerca de duas a seis semanas depois. Maria Jorge esteve uma semana internada devido a esta doença, após ter tido sintomas como febre, vómitos e diarreia.

Tal como muitas das crianças que sofrem esta complicação rara, Beatriz não tinha quaisquer fatores de risco. “Provavelmente, haverá algum tipo de predisposição genética que ainda não conseguimos identificar”, avança Marisa Vieira. A MIS-C é mais comum entre os 7 e os 15 anos, mas, enquanto nos mais velhos os sintomas se aproximam do síndrome do choque tóxico, nos mais novos o quadro é semelhante à doença de Kawasaki.
Maria Jorge, 7 anos, abre bem os dedos para bater na palma da mão da médica que acaba de a observar. O gesto de celebração significa que, ao fim de três dias, vai ser transferida dos intensivos para a enfermaria – o tempo médio de permanência destes doentes na UCIPed é de cinco dias. O alívio da mãe, Alexandra Esteves, 28 anos, é quase palpável. Não suspeitava que Maria tivesse tido contacto com o vírus até a febre, os vómitos e a diarreia a alertarem para que algo de errado se passava com a filha. Também reparou que a menina tinha os olhos vermelhos e brilhantes, outro dos sintomas habitualmente associados à MIS-C, como o cansaço, a perda de força, as manchas na pele, as dores de garganta ou a dificuldade em mexer o pescoço. “Não é uma situação que passe despercebida. Os pais percebem perfeitamente que os filhos estão doentes e dirigem-se à urgência”, garante Filipa Prata. Apesar de exigir uma intervenção rápida e de implicar, na maioria dos casos, internamento nos cuidados intensivos, o curso da doença é, habitualmente, benigno. Ainda assim, é fundamental que as crianças sejam acompanhadas por um cardiologista pediátrico para precaver sequelas cardíacas e, nos seis meses seguintes, estão impedidas de praticar desporto.

Entre tantas incertezas provocadas pela Covid-19, é preciso agarrarmo-nos às (poucas) certezas que existem.

FOTO: Marcos Borga

“As queixas respiratórias não são as mais frequentes”

A especialista em Medicina Interna, Sandra Braz, é a responsável pela consulta de acompanhamento das pessoas que estiveram internadas com Covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa

O que caracteriza os doentes que sofrem de Covid longa?
São doentes que têm sinais e sintomas que se prolongam para lá da infeção aguda por SARS-CoV-2 e que não são explicáveis por qualquer outra patologia. Ainda que não haja um consenso, devemos admitir que se trata de Covid longa quando as manifestações clínicas persistem a partir das quatro semanas. A manutenção das queixas além das 12 semanas é designada de pós-Covid.

Qual poderá ser a causa do prolongamento dos sintomas?
Existem várias teorias, mas julgo que seja a reação hiperinflamatória causada pelo vírus e a persistência da ativação imune. Esse estado inflamatório não desaparece ao fim de dias ou de semanas, pode demorar mais tempo e justificar a persistência de algumas queixas, como o cansaço e a fadiga muscular. Outros sintomas como, por exemplo, a dor neuropática, as picadas e os formigueiros, referidos por alguns doentes, podem dever-se a uma atividade replicativa viral residual em tecidos para os quais o SARS-CoV-2 tem tropismo.

Mesmo que o vírus continue presente no organismo, a pessoa já não está contagiosa?
Correto. Não é por o doente continuar a ter sintomas que existe o risco de contágio. A Covid longa não tem nada que ver com uma reinfeção. Mas também não gosto de lhe chamar “sequela”, porque isso pode levar o doente a assumir que é uma doença para o resto da vida.

A Covid longa não se manifesta apenas em quem teve doença grave?
Também a tenho diagnosticado em doentes que não estiveram internados e, até, em quem teve doença ligeira. Mas as queixas mais habituais na primeira consulta de acompanhamento são comuns a todos os doentes.

Quais são?
Cansaço, palpitações e manifestações neuropsiquiátricas, como insónias, dificuldades de concentração ou problemas de memória. Curiosamente, as queixas respiratórias não são as mais frequentes.

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O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou no sábado a Carta de Direitos Humanos na Era Digital, aprovada em abril na Assembleia da República, segundo uma nota divulgada no 'site' da Presidência

Mundo

Covid-19: Índia com mais de 400 mil infeções pelo quinto dia consecutivo

A Índia registou hoje mais de 400 mil novas infeções de covid-19, pelo quinto dia consecutivo, e reportou mais de 4.000 óbitos diários, pelo segundo dia consecutivo

Sociedade

A vida na estrada de um camionista australiano dá imagens únicas, por boas causas

Ben Stamatovich viveu a adolescência como sem-abrigo e agora usa um drone para captar fotografias deslumbrantes da Austrália selvagem, que vende e leiloa para pequenos gestos de caridade

VISÃO VERDE
VISÃO Verde

Pesca descontrolada: como o peixe se tornou uma vítima da pandemia

Organizações ambientalistas alertam para a falta de fiscalização do pescado no contexto atual, que deixa ainda mais exposto um setor já de si com problemas de sustentabilidade e suscetível a fraudes

Sociedade
Exclusivo

Justiça entre Portugal e Brasil: Fugitivos que fizeram História

Um juiz português decidiu que Duarte Lima será julgado, em Portugal, pela morte de Rosalina Ribeiro, assassinada no Brasil. O seu caso é apenas o mais recente de uma série de grandes processos que envolvem as autoridades dos dois países e que se enredam em “nebulosas” jurídicas em torno da extradição – ou da falta dela

Se7e
Ver

"O Pai": O desempenho avassalador de Anthony Hopkins

O filme que valeu mais um Oscar a Anthony Hopkins é uma lição de humanidade. "O Pai" está em cartaz nos cinemas

Se7e
Comer e beber

Bons augúrios: Os nossos vinhos estão em alta

O valor das exportações de vinhos portugueses aumenta e reflete melhor o apreço do mercado pela sua qualidade - de que são exemplo estes três vinhos da colheita de 2019. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva

Mundo

UE/Presidência: Do Porto a Estrasburgo para a inauguração da Conferência sobre Futuro da Europa

Depois da cimeira no Porto, vários líderes europeus, incluindo António Costa, estarão hoje em Estrasburgo, no Dia da Europa, para a conferência de reflexão sobre o futuro do projeto europeu

Sociedade

Covid-19: Novo Museu da Moda e do Têxtil em Portugal custou 10MEuro e foi construído em plena pandemia

O novo Museu da Moda e do Têxtil em Portugal é inaugurado no próximo dia 20, em Vila Nova de Gaia, distrito do Porto, custou 10 milhões de euros e foi executado em plena pandemia de covid-19