“O mais comovente foi terem-me dito: ‘Prometa-me que eu vou acordar’. Mas eu não posso prometer isso”

Ana Pinto, 37 anos, enfermeira especialista em Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa

“O mais comovente foi terem-me dito: ‘Prometa-me que eu vou acordar’. Mas eu não posso prometer isso”

São três profissionais que lutam diariamente contra a Covid-19 nas unidades de cuidados intensivos, sempre com a morte por perto. Leia os seus testemunhos.

Ana Pinto
Enfermeira especialista em Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Aos 37 anos, tem saudades de ter disponibilidade mental para brincar com os filhos de 7 e 4 anos  

“Trabalho há 15 anos em cuidados intensivos e nunca tinha visto as pessoas chegarem à unidade tão ansiosas. Agora, já sabem ao que vêm. O momento em que dizemos ao doente que terá de ser ventilado tem sido muito mais complicado. Antes, as pessoas não vinham tão informadas e não era tão dramático. O mais comovente foi terem-me dito: “Prometa-me que eu vou acordar”. Mas eu não posso prometer isso. Digo que vou cuidar da pessoa e que farei tudo o que for possível, mas não posso prometer que vai voltar a acordar.  

Claro que estamos habituados a lidar com a morte, mas não com a frequência que começa a acontecer nesta fase. A morte tornou-se muito solitária. A família não está cá e nós, muitas vezes, estamos lá dentro com tantos doentes e com tantos procedimentos de enfermagem para prestar que não conseguimos estar ao pé da pessoa no momento em que, provavelmente, ela vai morrer. Não conseguimos estar lá e sabemos que mais ninguém está. Mas em algumas situações mais programadas tentamos que a família esteja presente.  

Os recursos estão a esgotar-se e os próprios doentes têm medo. Recebemos muitos infetados vindos diretamente da urgência – isso significa que já chegam muito mal de casa. As pessoas tentam aguentar até à última e vêm já em estado crítico. Tem acontecido cada vez mais.  

Estávamos habituados a que as pessoas ficassem a recuperar connosco depois de acordarem do coma, mas agora não há tempo para isso. Claro que o doente já não precisa de todos os dispositivos que temos para oferecer e pode perfeitamente ir para uma enfermaria mas, para nós, era muito mais gratificante, já que cuidámos dele em toda a fase crítica, podermos reabilitá-lo e vê-lo sair bem. Neste momento, a pressão é tanta que não é possível. Temos logo outro doente em estado crítico à espera de uma vaga de cuidados intensivos.   

Não há tempo. E também não há tempo para outras pequenas coisas, como dar a mão à pessoa quando ela está a acordar. É completamente diferente, quando os doentes estão a despertar do coma, terem alguém ao lado a dizer bom dia e a explicar onde está. O que acontece, muitas vezes, é que baixamos a sedação ao doente e temos de ir logo ter com outro a seguir, não podemos ficar ali ao pé dele. Não temos médicos nem enfermeiros que consigam estar sempre junto dos doentes como antes.  

É revoltante ver festas com pessoas sem máscara, ver aqueles que negam a pandemia… Basta virem aqui. Isto é real

Ana Pinto, Enfermeira Especialista em Cuidados Intensivos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa

Chegávamos a pedir aos familiares para nos trazerem uma pen com uma seleção de músicas de que o doente gostasse e púnhamos a tocar quando ele estava a acordar. É muito mais tranquilo despertar neste ambiente com uma música de que se gosta, do que estar a ouvir os alarmes do ventilador do vizinho. Continuamos a pôr música, mas às vezes não acertamos bem no gosto…  

No início, tinha medo de ficar infetada e de transmitir à minha família. Agora, a situação inverteu-se. Já percebemos que cumprindo todas as regras não nos infetamos no trabalho e temos medo de que sejam os nossos familiares a trazer o vírus. Isso pode ser motivo da nossa ausência no hospital e nós queremos estar aqui, apesar de haver comportamentos da população que nos revoltam. 

É revoltante ver festas com pessoas sem máscara, ver aqueles que negam a pandemia… Basta virem aqui. Isto é real. Terem comportamentos completamente irresponsáveis, sabendo que se colocam a si e aos outros em risco, é uma atitude muito egoísta. Eu até posso não sofrer com a doença, mas outra pessoa pode ficar em estado grave. E essas mortes são evitáveis.  

Pessoalmente, não concordo nada com a ideia dos heróis. Eu gostava muito de jogar futebol e penso nisto como um campeonato. Nós somos a última linha, somos os guarda-redes, e quanto menos bolas entrarem na baliza, mais depressa ganhamos o jogo. A sociedade pode ser a nossa defesa e não deixar as bolas chegarem ao guarda-redes, ou seja, impedindo o vírus de entrar na sua casa. Quando nos chamam de heróis, põem o peso só em cima nós e, neste caso, todos podemos ser heróis.”

Ricardo Tomé
Enfermeiro UCI, Garcia de Orta, em Almada, 31 anos, um filho de 18 meses, casado com uma enfermeira 

A morte de pessoas ainda jovens mexe muito connosco”

Ricardo Tomé, enfermeiro no Hospital Garcia de Orta, em Almada
Foto: Diana Tinoco

“A morte está sempre presente numa UCI, mas agora ainda mais porque só entram os doentes mais críticos. Acabam por ser os mais novos, aqueles que têm mais condições de recuperar no futuro. E a morte destas pessoas ainda jovens mexe muito connosco. Tento não pensar nisso porque têm idade para serem meus pais, deviam ter muito tempo pela frente.

Na última semana, tive um senhor que me contou grande parte da sua vida, mas de um momento para o outro foi entubado, foi rodado para ficar em decúbito ventral e respirar melhor, e acabou por morrer. Tinha 64 anos, chocou-me muito. Conseguimos que os familiares lhe fizessem uma visita de despedida e foi muito triste dizer aos filhos o que ia acontecer, prepará-los para dizerem adeus ao pai.

Nós sempre nos sentimos na linha da frente, porque temos os doentes mais críticos do hospital, mas agora está muito difícil. Não conseguimos chegar a todo o lado e os doentes estão sempre num estado muito crítico. Como somos poucos profissionais de saúde, tanto enfermeiros como médicos, fazemos constantemente horas extra. Tem de ser, não podemos deixar as pessoas sem ninguém.

Em termos emocionais, esta pandemia é qualquer coisa do pior. Se lhes disser que eu era uma pessoa que dormia muito bem… Agora não durmo, tenho insónias e cefaleias constantes. Durmo tão poucas horas que nem há espaço para pesadelos.

Não vejo os meus pais há quase um ano. Vi-os uma vez, um dia em agosto, quando isto estava mais leve, e de máscara. E eles só veem o neto por videochamada.

Ricardo Tomé, enfermeiro de cuidados intensivos no hospital garcia de orta, em almada

Abrirem o Natal e os limites que estabeleceram na passagem do ano foi o maior erro que podiam ter feito. Claro que estamos a falar de irresponsabilidade da parte dos portugueses, mas se as medidas fossem outras se calhar não se tinham juntado tantas pessoas. Não teria havido tantas festas, tantas saídas. Eu passei o Natal só com a minha mulher e o nosso filho. Não vejo os meus pais há quase um ano. Vi-os uma vez, um dia em agosto, quando isto estava mais leve, e de máscara. E eles só veem o neto por videochamada.

Temos todos de ter mais consciência daquilo que fazemos e principalmente pensar naqueles que vão desenvolver doença grave. Não sabemos quem é, e pode ser um de nós. Temos agora na UCI um jovem com 36 anos que está mal, está ventilado e já esteve duas vezes de barriga para baixo. As coisas não estão nada bem para ele. Custa mais por ser perto da minha idade. Não tem filhos, mas é muito novo.”

Ana Afonso
Médica de Medicina Intensiva no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, 35 anos. Sente que só o trabalho em equipa lhe tem permitido preservar a sanidade mental

“No dia anterior à morte de um doente, liguei à filha para a avisar de que situação se tinha agravado. E ela pediu-me para eu dizer ao ouvido do pai que a filha e as netas gostavam muito dele…”

Ana Afonos, intensivista no Hospital de São João, no Porto
Foto: Fernando Veludo / NFACTOS

“Nunca me vou habituar a pegar no telefone para dar más notícias. É das coisas que mais me custa. Lembro-me de todos os telefonemas que já tive de fazer. Tento sempre recordar-me de todos os doentes. É óbvio que há alguns que nos marcam mais, mas todos eles têm uma história.  

Houve um caso que me marcou especialmente. Fiz uma videochamada entre uma filha que estava em casa e um pai que estava internado e que tinha tudo para correr bem. Era um avô jovem, sem grandes patologias, mas a verdade é que a situação não evoluiu bem. No dia anterior à morte desse doente, liguei à filha para a avisar de que situação se tinha agravado, contrariando os últimos dias. E ela pediu-me para eu dizer ao ouvido do pai que a filha e as netas gostavam muito dele. Isso marcou-me muito. Imaginei-me naquela situação. E cumpri o seu pedido. Em princípio, o doente não ouviu, estava ventilado, mas gosto de pensar que sim.

Continuamos a permitir visitas agendadas, mas já aconteceu dizer às famílias que tinha chegado a hora de se virem despedir ao hospital e, do outro lado, ouvir que também estão infetados e que não podem sair.

Por mais preparados e por mais planos de contingência que tenhamos, estes números são assustadores e podem-nos fazer antever algo de semelhante ao que aconteceu em Espanha ou em Itália.

Ana afonso, Médica de Medicina Intensiva no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto 

É óbvio que existe pressão para vagas, temos doentes que somos obrigados a mobilizar para outras unidades, mas sempre sem pôr em causa a qualidade dos cuidados. Dilemas de dar altas mais à pressa, isso não.

Na primeira vaga, quando aquelas imagens de Espanha e de Itália nos entravam pela casa dentro, todos os dias, também assustavam quem trabalha em cuidados intensivos. Eu espero que isso não venha a repetir-se cá, mas não podemos pôr essa hipótese de lado. Por mais preparados e por mais planos de contingência que tenhamos, estes números são assustadores e podem-nos fazer antever algo de semelhante ao que aconteceu em Espanha ou em Itália. Aí, sim, entram as escolhas… E eu não quero passar por isso. Não quero mesmo. Acho que não é possível alguém estar preparado para isso.” 

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