Em nome da morte assistida, Alain Cocq planeou morrer em direto. Mas o Facebook bloqueou-lhe a transmissão

Foto: PHILIPPE DESMAZES/AFP via Getty Images

 O pedido ocupou meia página do jornal Le Monde neste início de setembro. Aos 57 anos e a sofrer de uma doença incurável, o francês Alain Cocq confessava que queria muito morrer – de uma forma digna. “Não vou obrigar-me a aguentar mais seis semanas, a mais um mês ou dois, só para ver o meu corpo degradar-se.”  

O destinatário da mensagem era conhecido: Emmanuel Macron. Mas como o seu apelo a um suicídio assistido ficou sem resposta, fez saber que este fim de semana deixaria de se alimentar e de tomar medicamentes. A única exceção seria para os de alívio da dor. E depois transmitiria tudo pela sua conta de Facebook. Só que, perante tal anúncio, aquela rede social anunciou que lhe tinha bloqueado os vídeos. Segundo a conta de Alain Cocq, a proibição dura até terça-feira, 8.  

“Estou tranquilo”

“A estrada para a libertação começou e, acreditem, estou muito feliz”, escreveu Cocq no Facebook, pouco depois da meia-noite, na noite de sexta-para sábado. E anunciava que tinha terminado sua última refeição.”Sei que os dias que se seguem serão difíceis, mas tomei a minha decisão e estou tranquilo”. 

Perante tal anuncio, um porta-voz da tecnológica americana sublinhou de imediato que os regulamentos da empresa proíbem qualquer utilizador de retratar o suicídio. “Embora respeitemos sua decisão de querer chamar a atenção para esta questão complexa, tomaremos medidas para impedir a transmissão ao vivo na conta de Alain”, disse. “As nossas regras não nos permitem mostrar tentativas de suicídio”. Cocq não demorou a reagir. A medida é uma “discriminação injusta” e “impede a liberdade de expressão”. 

“Decidi que já chega”

De Dijon, Alain Cocq sofre desde os 23 anos de uma doença degenerativa rara, que faz com que as paredes das suas artérias se colem, causando insuficiência da circulação sanguínea. Há dois anos que está acamado, alimentado por soro. Paralisado com dores, Cocq gostaria de receber uma medicação que o ajudasse a morrer – algo que a lei francesa não permite, exceto quando se está a poucas horas da morte certa.  

“Decidi que já chega”, disse recentemente à AFP. Ao todo, foram nove operações só nos últimos quatro anos. Daí o pedido extraordinário. Mas perante a recusa – e para mostrar a agonia causada pela atual lei francesa – Cocq planeou transmitir o fim da sua vida pelo Facebook. Depois, anunciou que isso não demoraria mais do que uns quatro dias. E perante o bloqueio anunciado, já está a dizer que fica tudo gravado e que ativará um vídeo logo que o a interrupção das suas transmissões termine.  

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