Quem é Lourenço Lucena, o único português membro da Sociedade Francesa de Perfumistas

FOTO: Marcos Borga

Tem o condão de saber conjugar as coisas com harmonia. Nos perfumes que cria, concilia os aromas. Nos projetos que assina, coordena as diferentes artes. Aos 50 anos, Lourenço Lucena já organizou jantares com ementas à medida de um odor, criou perfumes para as noivas de Santo António e, recentemente, desenvolveu outro para o restaurante Belcanto, o duas Estrelas Michelin de José Avillez – além de ter a sua Acqua di Portokáli, inspirada nas laranjas do Algarve.

Quando foi que percebeu que tinha esta aptidão para os cheiros?
Tenho alguma dificuldade de encontrar um momento concreto, mas recordo-me de usar as primeiras mesadas em discos e em perfumes, enquanto os meus amigos gastavam o dinheiro no Subbuteo [um jogo de tabuleiro em que se simula um campo de futebol]. Devia ter aí uns 12, 13 anos e tenho ótimas memórias despertadas por essas experiências olfativas. O olfato tem esse poder, o de nos transportar, numa fração de segundo, para uma situação, uma história, uma pessoa ou uma viagem. Ao longo da vida, sempre tive vários interesses e, felizmente, sempre consegui conjugá-los…

Além dos perfumes, também se interessa pela música e pela cozinha. O que têm estas áreas em comum?
O lado sensorial. Gosto sobretudo de me ver como um sensorialista, alguém que, estando consciente da importância dos sentidos no dia a dia, no seu impacto na relação com os outros e até na própria gestão das empresas, procura encontrar uma forma de potenciar os sentidos. Acredito que, através desta alquimia, podemos condicionar o nosso caminho.

Como os sentidos podem influenciar a gestão de uma empresa?
Na Blug, a empresa de gestão de marcas que tenho há 19 anos, defendo que, se uma marca se organizar recorrendo aos sentidos, o seu território se torna muito mais autêntico e genuíno. E, desta maneira, haverá mais possibilidades de contactar com os vários públicos com os quais ela interage. Já fiz projetos desses para alguns hotéis e para a EDP, por exemplo.

A maioria das pessoas está, assim, tão desperta para os sentidos?
Vivemos tempos de urgência, de aceleração. Nesta rotina, a verdade é que o ser humano se torna apático na sua dimensão sensorial. Ora, esta dependência em relação aos equipamentos eletrónicos conduz-nos, se quiser, a um certo distanciamento.

Mas a pandemia do novo coronavírus não forçou essa parte do mundo que vivia de forma acelerada a mudar o seu modo de vida?
Claro que sim. Pelo menos aqueles que passaram para a realidade do teletrabalho encontraram uma nova dinâmica na gestão do tempo, das suas necessidades e das suas responsabilidades. Estar em casa a trabalhar contribuiu para que se minimizasse o tempo perdido, por exemplo, em deslocações e em refeições. Claro que quem tem filhos a estudar em casa se viu sobrecarregado, mas, por outro lado, muitas pessoas com quem tenho falado foram unânimes ao afirmarem que, em casa, produziram mais em menos tempo. Sobretudo, geriram o seu tempo de outra maneira, restabelecendo prioridades – é o caso do que aconteceu com o exercício físico: nunca se venderam tantas bicicletas e tantos kits para a prática de ginástica em casa. Por isso, penso que este é também o momento-chave para redefinirmos o nosso modo de vida, sobretudo a forma como vamos trabalhar. As empresas devem repensar os seus modelos e dinâmicas de gestão. À força, esta nova realidade veio evidenciar que nada é estanque e que, muitas vezes, as mudanças têm de ser rápidas para serem eficazes. A pandemia é uma oportunidade para repensarmos o nosso futuro individual e coletivo.

Vejo-me como um sensorialista, alguém que está consciente da importância dos sentidos no dia a dia, do seu impacto na relação com os outros

É um otimista. Consegue ver benefícios nesta paragem, para lá dos prejuízos económicos?
Como sempre, nem tudo é mau. A pandemia deu-nos a oportunidade de fazermos uma revolução para o futuro: de voltarmos ao essencial, ao que verdadeiramente importa. Eu, por exemplo, dediquei muito mais tempo à família, reforçámos laços, aproximámo-nos. Outro aspeto positivo foi a consciencialização de que a tecnologia é que nos permitiu permanecer ligados. Confirmámos que a tecnologia pode desempenhar um papel fundamental (e não necessariamente negativo) no futuro da Humanidade, que, afinal, ela nos permite estar mais próximos uns dos outros.

FOTO: Marcos Borga

Voltando ao sensorialista. O que faz exatamente um sensorialista?
Um sensorialista não é perfeito [risos]. O sensorialista procura consciencializar as empresas e as pessoas para os pormenores do nosso quotidiano. Não gosto que me vejam como um lírico, mas julgo que nos faz falta sermos um bocadinho turistas na vida, termos os nossos momentos no dia a dia, andar de cabeça no ar, deambular só porque sim. Acho que é fundamental termos essa atitude, e a verdade é que a vida ganha muito mais cor se estivermos atentos. No meu trabalho como perfumista, faço isso muitas vezes: dou a cheirar coisas óbvias em que há muito tempo as pessoas não pegavam, que nem cheiravam, como uma banana, uma maçã, uma borracha. Gosto muito de dar uma manga a cheirar: de olhos vendados, 70% das pessoas dizem que o cheiro lhes é familiar, que é doce, mas não conseguem dizer do que se trata. Somos, de facto, muito preguiçosos nos sentidos. Estamos habituados a viver neste princípio sinestésico de conjugação dos sentidos.

Pode dar exemplos?
Eu olho e sei o que é uma banana. Enquanto tiro a casca, já me consciencializei que vou comer uma banana. E, portanto, já nem a cheiro, nem sequer me dei conta do seu cheiro. Julgo que, se voltarmos a dar atenção aos sentidos, a nossa vida ficará mais completa. O slow living de que muitos falam não é mais do que isto. Algumas pessoas encontram esses momentos na meditação, outras encontram-nos nas caminhadas na Natureza. Se conseguirmos ter essas paragens, criando rotinas sensoriais nas nossas rotinas diárias, julgo que podemos tornar o nosso dia a dia bem mais interessante. Os sentidos obrigam-nos a ser humanos.

Nesse aspeto, a pandemia poderá funcionar como um detonador dessas alterações? Da relação que temos com os sentidos e também da maneira como percecionamos os outros?
Esta pandemia trouxe um misto de sensações e de emoções. Por um lado, privou-nos de estarmos uns com os outros, como sempre estivemos; sentimos a ausência do contacto físico, do toque. Essa ausência é comum em algumas culturas, mas, para os portugueses, é estranha e desconfortável. Gostamos de nos abraçar, de nos beijar, de nos manifestarmos com o corpo. Por outro lado, o distanciamento social que agora se impõe para segurança de todos também nos leva a estarmos mais atentos, a percecionarmos os outros. O olfato pode ajudar-nos a minimizar essa distância, só temos de estar atentos ao que o nariz nos permite sentir.

Depois da pandemia, a perfumaria vai transformar-se num mercado de nicho, como o era nos séculos XVI e XVII, com a generalidade das pessoas preocupada, sobretudo, com a compra de bens essenciais?
Acho que não. Admito, claro, que, pela redução de rendimentos, de agora em diante, as pessoas sejam mais racionais nas suas opções de compra. Mas, ainda assim, julgo que o perfume pode ter um papel fundamental no nosso bem-estar e na forma como somos sentidos pelos outros. E, num tempo em que somos obrigados a manter uma certa distância uns dos outros, um perfume pode ajudar-nos a quebrar essa barreira.

Fez a sua formação em Paris e é membro da Sociedade Francesa de Perfumistas. O que há de inato neste seu talento e o que nele existe de conhecimento adquirido?
Julgo que o que tem de existir é, sobretudo, faísca, isto é interesse, vontade, curiosidade, um gosto especial pelos perfumes e pelos cheiros que nos rodeiam. A formação que fiz em Paris como perfumista tem muito que ver com a educação da memória, com a memorização. Existem milhares de aromas diferentes, mil e uma matérias-primas à nossa disposição, e, todos os dias, aparecem outros tantos. O grande exercício é, por um lado, ter uma paleta de aromas e de matérias-primas com que me identifico, que controlo, que domino e que, portanto, tenho presentes na minha memória. Por outro lado, também é importante ter a capacidade de saber qual é a diferença olfativa entre matérias que, sendo da mesma família ou da mesma proveniência científica, ainda assim, têm proveniências geográficas distintas. Por exemplo: a rosa marroquina não é igual à rosa turca, nem a rosa búlgara é igual à rosa que se encontra no Sul de França. Todas cheiram a rosa, mas todas têm nuances.

Gosto muito de dar uma manga a cheirar: de olhos vendados, 70% das pessoas dizem que o cheiro lhes é familiar, mas não conseguem dizer do que se trata

Acontece o mesmo com os citrinos, por exemplo?
Sim, claro. A laranja do Algarve é muito mais doce do que a bergamota, que é um citrino alaranjado e muito mais sofisticado, mais elegante. O cheiro da laranja do Algarve é bruto, cru, natural, enquanto o da bergamota é muito mais subtil. Acontece o mesmo com a tangerina. Se compararmos um limão com um yuzu, um limão japonês, vamos sentir o mesmo. Para fazermos um perfume, o importante é ter presente estas memórias de maneira que consigamos escolher um cheiro em detrimento de outro.

Quantos aromas tem, então, memorizados?
Tenho uma paleta de 250 aromas, não sei se chegam aos 300. Acabam por ser as minhas matérias-primas mais recorrentes, não por preguiça mas por serem matérias-primas com as quais me identifico; de alguma maneira, são a minha assinatura. Depois, estou sempre a receber novas amostras… Por exemplo, de tabaco, tabaco puro, sem nicotina. Se não lha der a cheirar sem dizer o que é, não vai distingui-la.

O Perfume, um livro que há alguns anos se transformou num best-seller, começava numa banca de peixe muito malcheirosa que, no entanto, foi capaz de despertar o talento do protagonista como nez.
Esse romance tem a capacidade de nos transportar para um cheiro e para uma história. Tudo aquilo é cru. Mas, além da banca de peixe, esse livro também tem outras passagens que revelam a magia e a alquimia da criação de perfumes. A certa altura, o protagonista entra num atelier de um perfumista em Florença, para entregar umas peles, e sente o cheiro do dono do atelier. E este fica muito espantado com o facto de um tipo rude, que entra ali descalço, saber a que é que ele cheira. Há um dado sobre o qual importa falar: é que existe uma grande diferença entre a perfumaria de mercado de massas e a perfumaria de nicho, com a qual eu me identifico. Gosto do lado de tentativa e erro, gosto de percorrer todo o processo, de acertar, de errar, de ajustar, à semelhança de alguém que, à volta do tacho, apura o sabor de uma refeição.

Quanto tempo demora a fazer um perfume?
Dias, semanas e, em alguns casos, meses. No meu caso, demoro muito tempo a pensar na história, pois esta é que me dá o gancho para as matérias e para os aromas que escolherei. Depois de fazer um perfume, experimento-o na pele. Passadas duas horas, ele já estará diferente e, se eu o macerar durante uma ou duas semanas, aqueles aromas ficarão ainda mais fundidos.

Tal como acontece com o vinho?
Sim, mas com a diferença de que o vinho pode vir a melhorar. Um perfume só tende a piorar, entra num processo de oxidação assim que é produzido. Dentro de um frasco fechado, num local seco e fresco, um perfume talvez aguente uns dez anos. Mas, quando o abrimos, temos seis meses, no máximo um ano, para consumi-lo.

Há cheiros fora de moda, perfumes que se usaram ao longo da História e que, hoje, estão completamente obsoletos?
Não, não há cheiros obsoletos, e ainda menos no universo da perfumaria de nicho. Há uns anos, a pedido de uma artista, desenvolvi um projeto interessante. Ela ia retratar numa performance a execução de Luís XVI e de Maria Antonieta [1793, durante a Revolução Francesa]. Através de um curador, pediu-me para eu identificar um perfume da época chamado Le Parfum à la Guillotine. Foram várias semanas a investigar, falei com historiadoras francesas e, no final, fiz um perfume com os aromas que estavam mais em voga na corte.

A distância social que agora se impõe para segurança de todos também nos leva a estar mais atentos, a percecionarmos os outros

Como era esse perfume?
Um floral muito intenso, porque os perfumes que se usavam na época tinham como principal objetivo ocultar os maus cheiros. Não se tratava apenas de uma forma de afirmação, a ideia também era ocultar os maus cheiros e, por isso, era um perfume muito denso, muito pó de talco, poudré.

Alguma vez usou um cheiro considerado desapropriado pelos cânones da perfumaria?
Já usei, por exemplo, borracha queimada, uma matéria–prima sintética que tem uma representação olfativa muito forte. Cheiramo-lo e pensamos logo num acidente de automóvel, nos pneus de um carro a arrastarem-se pelo asfalto. E, no entanto, se eu usar borracha queimada em pequenas quantidades, se depois a tapar com madeiras, por exemplo, obterei um perfume com uma estrutura e uma força extraordinárias. No meu modo de ver a perfumaria, não existem dogmas.

FOTO: Marcos Borga

O futuro dos perfumes

As principais tendências 
da perfumaria mundial, 
segundo Lourenço Lucena

Perfumes polissensoriais
As distinções clássicas (como o floral e o amadeirado) já não fazem sentido. Veja-se, por exemplo, o caso de Pierre Guguen, fundador da L’Orchestre Parfum, que imaginou uma coleção em que cada aroma corresponde a uma música. Criadas especificamente para o efeito, essas composições musicais podem ser ouvidas através de um código inserido na embalagem (Flamenco Néroli, Rose Trombone, Piano Santal…).

Perfumes sem género
A divisão entre perfumes femininos e masculinos é uma invenção do século XX. Os perfumes sempre foram usados por quem, independentemente do sexo, se identificava com eles – e por quem podia pagá-los, claro. Em 1994, a Calvin Klein lançou o CK One e, já depois disso, apareceram outros projetos que confirmam a tendência unissexo: Le Labo (Editions de Frédéric Malle) ou, mais recentemente, o Mémoire d’Une Odeur (Gucci).

Perfumes personalizados
Uma tendência ao alcance apenas de alguns – ter um perfume à medida, na esperança de que este traduza o seu gosto, desejos e aspirações. Por exemplo, o cantor português Dino D’Santiago já mandou fazer um perfume para oferecer a Madonna.

Perfumes veganos
Uma tendência recentemente confirmada com o facto de Jean–Claude Ellena, um dos maiores nomes da perfumaria mundial, ter assumido a direção da Le Couvent, fundada em 1614 por Louis Feuillée, botânico do rei Luís XIV. Tornou-se a primeira marca de alta–perfumaria francesa 100% vegana, com matérias-primas de origem natural, sem sulfatos, parabenos ou silicone.

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