Marcelo ganha, mas, no Alentejo, há outros “amanhãs que cantam”

No seu discurso de vitória, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que vai diligenciar para que o Parlamento efetue uma revisão constitucional, no sentido de adaptar a lei eleitoral a situações como as que vivemos [de pandemia e de estado de emergência] e influenciar no sentido de prever o futuro voto por correspondência.

O Presidente reeleito iniciou a sua intervenção com uma referência aos atuais números da pandemia, o que reflete a sua prioridade imediata. Sobre a sua vitória, concluiu que os portugueses votaram num Presidente que representa “todo o Portugal” e não “dos bons contra os maus, que não seja de fação e que não desista da justiça social”. Daqui a três anos, lembrou Marcelo, comemoram-se os 50 anos do 25 de abril de 1974 e, nessa altura, “seria inconcebivel que não estivessemos mais livres, mas também mais desenvolvidos” a valorizar “as partilhas, as inclusões, os afetos”.

Marcelo Rebelo de Sousa quer que passe a haver a possibilidade de voto por correspondência

Destas eleições, passado o ritual dos discursos, podem tirar-se quatro ilações importantes.

1 – Seja qual for o ponto de vista, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, num país destroçado pela pandemia, é um triunfo absoluto e esmagador. É verdade que não se aproxima do recorde de Mário Soares em 1991 (mais de 70%), mas consegue, a larga distância, o segundo melhor resultado de sempre numa reeleição. Pode argumentar-se que o alcança no quadro de uma grande abstenção, mas mesmo essa é menor do que a pandemia fazia prever: com mais de 10 mil infetados diários e o confinamento obrigatório extensivo a todos com quem contactaram, com a novidade da entrada nos cadernos eleitorais de mais de um milhão de novos eleitores – da emigração – que tendencialmente não votariam, por falta de condições (consulados a grandes distâncias), a abstenção registada não impede que tivesse havido mais eleitores, em números absolutos, do que em várias das presidenciais precedentes. Mais, uma abstenção elevada favorece os extremos, mais mobilizados, e penalizam os candidatos moderados, sobretudo quando têm reeleição tida como assegurada. Por todos estes motivos, Marcelo consegue um grande “plebiscito” ao seu mandato dos afetos, o que faz com que o seu estilo tenha resultado numa aposta ganha.

2 – A derrota na luta pelo segundo lugar, uma disputa bastante renhida – e claramente mais renhida do que as primeiras projeções anunciavam – terá retirado a André Ventura parte do triunfalismo expectável (que, mesmo assim, foi grande e exagerado…) e aos seus apoiantes a arrogância previsível, mas isso não impede que o seu resultado fosse, como se diz agora, “brutal”. André Ventura, ou o Chega, afirma-se como uma força com implantação nacional, transversal a todas as regiões e a todos os eleitorados, do jovem ao idoso, do rural ao urbano e ao suburbano. Caso André Ventura não tivesse tido de se defrontar com um fenómeno chamado Marcelo, era bem possível que a polarização registada em 1986, entre Mário Soares e Freitas do Amaral, se tivesse repetido agora. Se a tendência se confirmar, daqui a cinco anos teremos uma segunda volta entre André Ventura e um candidato da esquerda – ou da direita moderada, apoiado pela esquerda. Ainda assim, há 88% dos eleitores que recusam o projeto de Ventura, o que fez com que o seu discurso hiperbólico soasse um tanto ou quanto ridículo.

3 – Como disse Rui Rio, o centro ganhou. Mas o PSD perde. Perde, porque André Ventura consegue um suplemento de alma que vai levá-lo a querer liderar a oposição. O ar desdenhoso com que o deputado do Chega é tratado, no Parlamento, por todas as bancadas e, sobretudo, pela bancada do Governo, deixa de corresponder ao que se sabe, agora, da relação de forças em presença. O PS e, em parte, o PSD e o CDS, tiveram falta de comparência nestas eleições – mas André Ventura (e, já agora, a Iniciativa Liberal) foram a jogo e ganharam espaço. O CDS torna-se irrelevante e o PSD fica em maus lençóis. Já a IL – cujo resultado terá retirado o 2.º lugar a Ventura… – marca pontos e parece tender a tomar o lugar do eleitorado urbano ex-centrista.

Ana Gomes talvez deva a Ventura o 2. lugar. Quando o candidato do Chega fez desta disputa particular um cavalo de batalha, terá levado muitos eleitores às urnas, só para votar contra ele…

4 – É verdade que a esquerda levou “um bigode”, mas a sua morte é uma notícia manifestamente exagerada. Há uma esquerda moderada que esteve toda com Marcelo. E, portanto, este resultado é para o lado onde o PS dorme melhor. Ainda por cima, Ana Gomes aguentou-se o suficiente para relegar Ventura para terceiro. Talvez o deva ao próprio Ventura, quando este fez desta disputa particular um cavalo de batalha – o que terá levado muitos eleitores às urnas só para votar conra ele… Mas tanto o Bloco como o PCP têm um grave problema em mãos. O Bloco tem uma derrota clamorosa: a decisão de apresentar uma candidata repetente foi um equívoco. A partir do momento em que se percebeu que Ana Gomes representava o voto anti-Ventura, Marisa Matias devia ter-se retirado. E estes números vêm numa altura em que o Bloco se tinha retirado da geringonça… Já no PCP, embora com o prémio de consolação de ficar à frente do Bloco, a ferida é mais profunda e talvez letal. Tal como acontece em toda a Europa, o eleitorado “descamisado” faz a transferência direta para a extrema-direita. Os “amanhãs que cantam” têm agora outro tenor. Os extremos tocam-se?

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